NICHOLAS SPARKS
LAOS QUE PERDURAM
Traduo de Saul Barata
#Dedicado a Larry Kirshbaum e a Maureen Egen Pessoas maravilhosas, uma maravilha de amigos
FICHA TCNICA
Ttulo original: The Guardian
Autor: Nicholas Sparks
Copyright  2003 by Nicholas Sparks Enterprises, Inc. Traduo  Editorial Presena, Lisboa, 2003 Traduo: Saul Barata
Capa:  Getty ImageslImageone com arranjo grdfico de Ana Espadinha Fotocomposio, impresso e acabamento: Multitipo - Artes Grficas, Lda. 1.' edio, Lisboa, Maio,
2003
Depsito legal n. 194 550/03
Reservados todos os direitos
para Portugal  EDITORIAL PRESENA Estrada das Palmeiras, 59 Queluz de Baixo 2745-578 BARCARENA Email: info@editpresenca.pt Internet: http://www.editpresenca.pt
#AGRADECIMENTOS
Os agradecimentos no fariam sentido se no comeasse por me mostrar grato a Cathy, minha esposa h quase catorze anos.  a pessoa mais amorosa que conheo e amo-a 
mais do que ela alguma vez poderia imaginar.
E nenhum livro ficaria completo sem agradecer  malta nova. Miles, Ryan, Landon, Lexie e Savannah podem ser uma multido, mas no deixam de ser uma fonte de alegria 
sem fim. A minha vida no estaria completa sem eles.
Theresa Park, de Sanford Greenburger Associates, tambm merece os meus agradecimentos. A Theresa no  apenas minha agente e gestora dos meus assuntos,  tambm 
um gnio e um ouvido sempre disponvel.  ainda uma das minhas amigas mais queridas. Custa a crer que tenhamos sete romances  nossa conta, at agora; espero que 
consigamos muitos mais no futuro.
Jamie Raab, o meu editor, , falando em termos simples, o melhor que existe em toda a indstria, e este livro, mais do que qualquer outro, exigiu a sua orientao 
paciente. Sem ele, nunca teria conseguido levar este romance at ao fim e devo dizer que  uma honra trabalhar com uma pessoa to competente e to amvel como o 
Jamie.
Denise DiNovi, produtora de As Palavras Que Nunca Te Direi e de Um Momento Inesquecvel, tornou-se uma das pessoas mais importantes da minha vida. Devo-lhe grande 
parte da transformao da minha vida para melhor. No sei se conseguirei pagar-lhe quanto lhe devo.
Julie Barer, agente na Sanford Greensburger, revelou uma tal simpatia que, estando de frias, se disps a ler o manuscrito e a apresentar sugestes. Nunca poderei 
agradecer-lhe tudo o que fez por mim e espero que a principal personagem feminina seja do seu agrado.
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#Howie Sanders e Richard Green, meus agentes para a indstria cinematogrfica na UTA, tambm merecem a minha gratido pelo seu trabalho, no s neste projecto mas 
tambm em todos os meus romances. No seu mister, so os melhores.
Scott Shwimer, meu advogado, no s  fabuloso no que faz,  tambm um amigo que torna o meu trabalho muito mais fcil. Obrigado por estares sempre do meu lado.
Dave Park, o meu agente de televiso na UTA, tem-me guiado com toda a pacincia atravs do mundo intrincado da televiso, e merece a minha gratido por todo o trabalho 
com o romance Coraes
em Silncio.
Lorenzo de Bonaventura e Courtenay Valenti, da Warner Brothers, Lynn Harris, da New Line Cinema, Mark Johnson, Hunt Lowry e Ed Gaylord II, o trabalho com todos eles 
foi fantstico e merecem a minha gratido.
Jennifer Romanello, Emi Battaglia, Edna Farley, na publicidade, o coordenador John Aherne e Flag, todos ajudaram a que a minha carreira chegasse aonde est. Obrigado 
a todos.
E, finalmente, agradeo a Todd Robinson por ter trabalhado com tanta diligncia na srie televisiva. Tive a sorte de conseguir fazer equipa com ele.
PRLOGO
NOITE DE NATAL, 1998
Exactamente quarenta dias depois de ter pegado na mo do marido pela ltima vez, Julie Barenson encontrava-se sentada defronte da janela, a olhar as ruas calmas 
de Swansboro. Estava frio: havia uma semana que o cu se apresentava carrancudo e a chuva batia docemente de encontro  vidraa da janela. As rvores estavam despidas 
de folhas, com os galhos grossos encurvados como dedos atacados de artrite.
Sabia que o Jim gostaria que ela ouvisse msica numa noite como aquela; como msica de fundo, ouvia-se a voz de Bing Crosby a cantar White Christmas. Tinha montado 
a rvore de Natal para ele, embora, quando se decidiu a faz-lo, a poca das festas estivesse j to adiantada que as nicas rvores disponveis estavam ressequidas 
e com a caruma a cair, abandonadas para quem as quisesse junto da parede do supermercado. No tinha importncia. Nem mesmo depois de terminada a decorao da rvore 
conseguiu reunir energia suficiente para se preocupar. Desde que o tumor do crebro tinha finalmente reclamado a vida de Jim, Julie tinha dificuldade em sentir fosse 
o que fosse.
Estava viva, aos 25 anos, e odiava tudo o que a palavra significava. Resolvera nunca a incluir nas suas conversas. Se lhe perguntavam como  que estava a passar, 
limitava-se a encolher os ombros. Mas, por vezes, apenas em certas situaes, sentia necessidade de responder. Apetecia-lhe perguntar: Quer saber o que senti por 
ter perdido o meu marido? Olhe, vou contar-lhe como .
Jim morreu e, agora que j c no est, sinto que tambm estou morta.
Seria isso, magicava Julie, o que as pessoas gostariam de ouvir? Ou quereriam apenas ouvir banalidades? Estou bem.  difcil, mas vou
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#envergava um impermevel amarelo. Nas grande caixa embrulhada.
- Mrs. Barenson? - perguntou.
- Sou eu mesma.
0 estranho deu um passo hesitante. gar-lhe isto.
ultrapassar isto. Obrigada pelo seu cuidado. Seria capaz, supunha, de fazer a rbula da mulher corajosa sempre que quisesse, mas nunca entrou nisso. Era bem mais 
fcil, alm de mais honesto, limitar-se a encolher os ombros e a ficar calada.
Afinal, parecia-lhe que jamais voltaria a sentir-se bem. Em metade do tempo, no pensava conseguir aguentar at ao fim do dia, parecia-lhe que estava a ir-se abaixo. 
Especialmente numa noite como aquela.
Na claridade reflectida pelas luzes da rvore de Natal, Julie pousou a mo na janela, sentindo a dureza fria do vidro contra a pele.
Mabel tinha-a convidado para jantar e passar a noite de Natal com ela, mas declinara o convite. E Mike e Emma tinham feito a mesma coisa, mas tambm a eles respondera 
com a recusa. Todos tinham compreendido. Ou, talvez, estivessem a fingir que compreendiam, pois era bvio que todos os amigos achavam que ela no devia estar s. 
Talvez tivessem razo. Na casa, tudo o que via, e todos os cheiros, lhe recordavam o Jim. As roupas dele ocupavam metade do guarda-fatos, a mquina de barbear continuava 
junto da saboneteira da casa de banho, o ltimo nmero da Sports Illustrated chegara na vspera pelo correio. Ainda havia duas garrafas de Heineken, a sua cerveja 
preferida, no frigorfico. Ao princpio da tarde, quando reparara nelas, tinha murmurado para si prpria que aquelas nunca seriam bebidas pelo Jim, mas fechara a 
porta de imediato e deixara-se ficar encostada ao frigorfico, a chorar durante uma hora.
Mergulhada nos seus pensamentos, Julie no estava a dar ateno ao que se passava do lado de fora da janela, mas apercebeu-se do que lhe pareceu ser a pancada surda 
de um ramo contra a parede. 0 bater era persistente, sempre igual, e decorreu algum tempo at perceber que se tinha enganado a respeito do ramo.
Algum estava a bater  porta.
Levantou-se, com movimentos lentos.  porta, parou para passar a

mo pelos cabelos, a compor-se. Se fosse um dos seus amigos a querer

saber notcias, no gostaria que pensasse que ela estava a precisar de

algum para lhe fazer companhia durante algum tempo. Contudo, ao

abrir a porta, ficou surpreendida por deparar com um jovem que

uma
U meu pai diz que  importante
- 0 seu pai?
- Ele quis ter a certeza de que receberia a encomenda esta noite. - E eu conheo o seu pai?
- Isso no sei. Mas ele insistiu bastante.  uma prenda de al
gum.
- De quem?
- 0 meu pai disse que compreenderia logo que a abrisse. Mas no a balance e mantenha este lado para cima.
Antes que Julie o pudesse impedir, o jovem colocou-lhe a caixa nas mos e rodou sobre os calcanhares para ir-se embora.
- Espere - exclamou Julie -, no estou a perceber.
0 jovem olhou-a por cima do ombro e despediu-se: - Bom Natal!
Julie ficou especada  porta, a v-lo saltar para a cabina da carrinha. Entrou em casa e colocou a caixa no cho, em frente da rvore, e ajoelhou-se junto dela. 
Uma olhada rpida confirmou a inexistncia de um carto ou de qualquer outra indicao acerca da pessoa que enviara o presente. Desapertou a fita, levantou a tampa 
da caixa e deu consigo a olhar, sem conseguir proferir palavra sobre a prenda que acabava de receber.
Era uma coisa minscula, leve e coberta de plo espesso; estava a um canto da caixa, sentado sobre os quartos traseiros, to feio como o mais feio dos cachorros 
que alguma vez tinha visto. A cabea era grande, desproporcionada em relao ao resto do corpo. Gania baixinho e olhava para ela com olhos ramelosos.
Algum, pensou, tinha resolvido oferecer-lhe um cachorro. Um cachorro bem feio.
Preso com fita no interior da caixa, havia um sobrescrito. Ao estender a mo para o apanhar, reconheceu a caligrafia e imobilizou-se. No, pensou, no pode ser...
Tinha visto aquela caligrafia nas cartas de amor que ele lhe escrevera nos aniversrios, em mensagens garatujadas  pressa enquanto ele atendia o telefone, no trabalho 
que ele acumulava sobre a secretria. Manteve o sobrescrito diante dos olhos, lendo o seu nome, uma e outra vez. Depois, com mos trmulas, tirou a carta do sobrescrito. 
Os olhos desviaram-se para as palavras escritas no canto superior esquerdo.

Querida Jules,
mos, transportava
- Mandaram-me vir entre
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#rxa o mmmutivo que jim sempre usara ao talar com eia e Julie fechou os olhos, parecendo-lhe que, repentinamente, encolhera dentro da prpria pele. Forou-se a respirar 
fundo e recomeou.

Querida Jules,
Sei que, se chegares a ler esta carta, isso significa que deixei este mundo. No sei h quanto tempo ter sido, mas espero que tenhas comeado a ultrapassar o desgosto. 
Sei quanto me seria difcil se fosse eu a estar nessa situao, mas tambm sabes que sempre te considerei a mais forte de ns os dois.
Como vs, comprei-te um co. Harold Kuphaldt j era amigo do meu pai e desde mido que o conheo como criador de ces de raa dinamarquesa. Nos meus tempos de criana 
sempre desejei ter um, mas a mam nunca o consentiu porque a casa era demasiado pequena. So ces grandes, sem dvida mas Harold garante que so os mais meigos do 
mundo. Co ou cadela, espero que te agrade.
Julgo que, l bem no fundo, nunca acreditei que conseguisse safar-me. No queria, porm, pensar no assunto porque sabia que no tinhas ningum para te ajudar numa 
situao como aquela em que ests agora, Refiro-me a pessoas de famlia. Saber que ias ficar sozinha partia-me o corao. Como no sabia o que fazer, arranjei maneira 
de te dar este co.
 claro que, se no te agradar, no s obrigada a ficar com ele. Harold disse que o aceitava de volta, sem problemas de qualquer tipo. (0 nmero do telefone dele 
deve estar algures na caixa.)
Espero que estejas bem. Foi sempre o que mais me preocupou, desde o incio da doena. Amo-te Jules, amo-te de verdade. Depois de te conhecer tornei-me o homem mais 
feliz deste mundo. Desesperava ao pensar que nunca mais voltarias a ser feliz. Por isso, faz-me esse favor, volta a ser feliz, por mim. Procura algum que te faa 
feliz. Talvez seja difcil, podes pensar que no  possvel, mas gostaria que tentasses. 0 mundo torna-se um lugar bem mais alegre sempre que tu sorris.
E no te preocupes. Esteja onde estiver, nunca te perderei de vista. Meu amor, serei o teu anjo da guarda. Podes contar comigo para te proteger.
Amo-te, Jim
Atravs das lgrimas, Julie espreitou para dentro da caixa e pegou no animal. 0 cachorro aninhou-se na mo dela. Levantou-o e manteve-o perto da cara. Era minsculo 
e ela sentia-lhe os ossos das costelas quando ele tremia.
Era realmente uma coisa feia, pensou. E cresceria at ficar do tamanho de um cavalo pequeno. Que diabo  que ela faria com um co daqueles?
Gostaria de saber porque  que o Jim no lhe tinha escolhido um schnauzer em miniatura e com pequenos bigodes cinzentos, ou um cocker spaniel de olhos redondos e 
tristes. Algo de manejvel. Um animal bonito, que de vez em quando se aninhasse no seu colo.
0 cachorro, um macho, comeou a ganir, um lamento esganiado que aumentava e diminua, como se fosse o eco do apito de um comboio longnquo.
- Chiu... est tudo bem - murmurou Julie -, no te fao mal...
Continuou a falar em voz baixa com o cachorro, deixando que ele se habituasse ao som da sua voz, enquanto ela prpria procurava habituar-se  ideia de que Jim fizera 
tudo pelo bem dela. 0 cachorro continuou a ganir, como se acompanhasse o ritmo da alta fidelidade, e Julie fez-lhe festas por debaixo da queixada.
- Ests a cantar para mim? - perguntou, pela primeira vez a sorrir com doura. -  o que parece, sabes?
Por momentos, o co deixou de ganir e levantou a cabea na direco dela, olhando-a fixamente. Depois, recomeou a ganir, embora, desta vez, parecesse menos assustado.
- Singer* - murmurou Julie. - Acho que vou chamar-te Singer.
* Cantor. (NT)
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#UM
QUATRO ANOS DEPOIS


Nos quatro anos passados aps a morte de Jim, Julie Barenson tinha conseguido encontrar maneira de comear uma nova vida. Os dois primeiros anos tinham sido difceis 
e solitrios, mas o tempo acabara por exercer o seu poder mgico sobre ela, tornando a perda menos dura de suportar. Embora amasse Jim e soubesse que esse amor ocuparia 
sempre um espao dentro de si, a dor no era agora to forte como tinha sido no incio. Recordava-se das lgrimas e do vazio que sentira na sua vida depois que Jim 
partira, mas, agora, a dor dilacerante desses dias era apenas uma recordao. Quatro anos depois, quando pensava em Jim, recordava-se dele com um sorriso, agradecida 
por ele ter feito parte da sua vida.
Tambm lhe estava agradecida pelo Singer. Ao oferecer-lhe o co, Jim tomara uma deciso acertada. De certa forma, Singer tornou-lhe possvel continuar a viver.
Mas, de momento, deitada na cama numa manh do princpio da Primavera, em Swansboro, Carolina do Norte, Julie no pensava no apoio fantstico que o Singer representara 
durante os ltimos quatro anos. Em vez disso, e enquanto fazia enormes esforos para conseguir respirar, maldizia a sua vida, pensando no lhe ser possvel acreditar 
que podia morrer daquela maneira to estpida.
Esmagada na cama pelo seu prprio co.
Com o Singer esparramado por cima dela, esmagando-a contra o colcho, imaginou-se inerte, com os lbios a ficarem roxos por falta de oxignio.
- Levanta-te, co preguioso - sibilou. - Ests a sufocar-me.

A ressonar pesadamente, Singer no a ouvia e Julie comeou a

contorcer-se, tentando acord-lo. A sufocar por debaixo do peso do
co, Julie sentia-se como se tivesse sido enrolada numa manta e atirada para um lago, segundo o estilo da Mafia.
- Estou a falar a srio - conseguiu dizer -, no posso respirar.
Singer acabou por levantar a cabeorra e pestanejou na direco dela, ainda meio a dormir. Que algazarra  esta, parecia perguntar. No vs que estou apenas a 
descansar um bocado?
- Salta daqui! - gritou Julie.
Singer bocejou, encostando o nariz frio  cara dela.
- Pois, pois, bom dia - disse Julie com dificuldade. - Agora salta.
Com isto, finalmente, Singer resfolegou e sentiu que tinha pernas, amassando ainda mais algumas partes do corpo de Julie na tentativa de se levantar. Para cima. 
Para cima. Mais para cima, ainda. Momentos depois, l no alto, com um pingo de baba a escorrer-lhe da boca, parecia a imagem de um desses filmes de terror feitos 
em srie. Meu Deus, pensou ela, o co  imenso. J devia estar habituada  ideia. Julie inspirou profundamente e levantou os olhos para ele, de cenho franzido.
- Quem  que te disse que podias dormir na minha cama? - perguntou.
Habitualmente, Singer dormia num dos cantos do quarto. Contudo, nas duas ltimas noites saltara para a cama, para o p dela. Ou, melhor dizendo, para cima dela. 
Co maluco.
Singer baixou a cabea e lambeu-lhe a cara.
- No, no ests perdoado - repreendeu Julie, repelindo-o. - Nem penses que vais safar-te desta. Podias ter-me matado. Tens quase o dobro do meu peso, percebes? 
Agora salta da cama.
Antes de saltar para o cho, Singer ganiu como uma criana amuada. Julie sentou-se na cama, cheia de dores nas costelas, e olhou para o relgio, a pensar que eram 
horas de se levantar. Ela e o co espreguiaram-se ao mesmo tempo e Julie acabou por afastar os cobertores para um lado.
- Anda da - mandou -, vou deixar-te sair antes de ir para o duche. Mas no vais outra vez farejar os caixotes do lixo dos vizinhos. Eles deixaram-me uma mensagem 
muito desagradvel no gravador.
Singer olhou para ela.
-j sei, j sei - concordou -,  apenas lixo. Mas h pessoas muito esquisitas com essas coisas.
0 co saiu do quarto e dirigiu-se para a porta da frente. Julie aconchegou os ombros ao segui-lo, fechando os olhos por um momento. Grande asneira. Ao sair da cama 
bateu com o dedo grande do p
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#(-uuua a comuaa. suaves cia perna, a dor passou do p para todo o corpo. Depois do grito inicial, saiu-lhe uma srie de pragas, em que os palavres se permutavam 
para dar lugar a combinaes maravilhosas. Envolvida pelo pijama cor-de-rosa, s com um p assente no cho, tinha a certeza de se parecer com a coelhinha do anncio 
das pilhas Energizer. Singer limitou-se a lanar-lhe um olhar que parecia querer dizer: Qual  agora o problema? Arrancaste-me da cama, recordas-te? Ento, o melhor 
 sairmos daqui. Tenho que fazer, l fora.
Ela gemeu. - No estas a ver que me magoei aqui?
Singer bocejou de novo e Julie esfregou o dedo, antes de seguir, a coxear, atrs dele.
- Obrigada pela ajuda. Numa emergncia, s completamente intil.
Segundos mais tarde, depois de ter pisado o dedo magoado de Julie - ela ficou convencida de que o co a pisou de propsito -, Singer dirigiu-se para a porta e saiu. 
Em vez de seguir para o lado dos caixotes do lixo, Singer correu para um espao arborizado que bordejava o muro da propriedade de Julie. Ficou a ver o co fazer 
oscilar o corpo macio para um lado e para o outro, como que a assegurar-se de que, desde o dia anterior, ningum tinha plantado mais rvores ou arbustos por ali. 
Todos os ces gostam de delimitar os seus territrios, mas Singer parecia crer que, se conseguisse encontrar bastantes lugares para se aliviar, poderia vir a ser 
coroado Rei dos Cies de todo o mundo. Se no tivesse outra virtude, o passeio deixava-a livre do co durante algum tempo.
Um pequeno favor que tinha de agradecer aos deuses, pensou Julie. Nos ltimos dois dias, o co estava a p-la maluca. Seguia-a para todo o lado, recusando-se a perd-la 
de vista nem que fosse s por um ou dois minutos, excepto quando ela o deixava sair de casa. Nem conseguia tratar da loua sem tropear no co uma dzia de vezes. 
A situao piorava  noite. Na noite anterior passara uma hora a uivar, embora, de vez em quando, resolvesse ladrar, situao que a tinha levado a fantasiar acerca 
do que devia fazer: comprar uma casota de co  prova de som ou uma espingarda de caa aos elefantes.
No que o comportamento de Singer alguma vez tivesse sido... como dizer, comum. Tirando a mania de urinar contra tudo, o co sempre agira como se pensasse que era 
humano. Recusava-se a comer numa malga para ces, nunca precisara de trela e sempre que Julie se sentava a ver televiso, subia para o sof e ficava a olhar para 
o ecr. E quando Julie falava com ele - ou melhor, sempre que algum
ralava com eie - )tnger ficava a ornar a pessoa intensamente, cie cabea inclinada para um dos lados, como se estivesse a perceber a conversa. E, pelo menos em metade 
das ocasies, parecia perceber o que ela lhe dizia. Podia dizer o que lhe apetecesse, dar-lhe a ordem mais absurda, que Singer apressava-se a cumpri-la. Podes ir 
buscar a minha mala ao quarto? Momentos depois, Singer aparecia a trote, com a mala pendurada nos dentes. Podes ir desligar a luz do quarto? 0 co erguia-se sobre 
as patas traseiras e carregava no interruptor com o nariz. Pe esta lata de sopa na despensa, est bem? 0 animal apanhava a lata com os dentes e colocava-a na 
prateleira.  certo que havia ces que tinham sido treinados para fazer esse tipo de coisas, mas no como este. E, alm disso, Singer no recebera qualquer treino. 
Pelo menos no fora sujeito a nada que se pudesse considerar um treino. Tudo o que era preciso era mostrar-lhe uma vez como se
fazia. Era um mistrio para as outras pessoas, mas fazia que Julie se
sentisse uma espcie de Dr. Dolittle, uma situao que lhe agradava.
Mesmo que tivesse de usar frases completas com o Singer, tivesse discusses com ele e lhe pedisse conselho uma vez por outra.
Mas, alto l! Dizia para si mesma que a situao no tinha nada de estranho. Ou teria? Estavam juntos desde a morte do Jim, s os dois e, durante a maior parte do 
tempo, Singer era muito boa companhia.
Todavia, tinha comeado a agir de forma estranha logo que ela recomeara a aceitar convites para sair, alm de no ter gostado de nenhum dos homens que lhe tinham 
aparecido  porta durante os ltimos meses. Julie j esperava algo do gnero. Desde os dias de cachorro pequeno, Singer habituara-se a ladrar a todos os homens que 
via pela primeira vez. Julie costumava pensar que o animal possua um sexto sentido que lhe permitia distinguir os bons tipos dos homens que ela devia evitar, mas 
ultimamente comeara a mudar de ideias. Agora no conseguia deixar de pensar que Singer no passava de uma verso, grande e peluda, do tpico namorado ciumento.
Aquilo estava a tornar-se um problema. Decidiu que ela e o co precisavam de ter uma conversa a srio. Singer no pretendia que ela ficasse sozinha, pois no? No, 
 claro que no. Talvez precisasse de algum tempo para se habituar  presena de outra pessoa em casa, mas acabaria por entender. Com o tempo, acabaria provavelmente 
por se sentir feliz por ela. Mas Julie dava tratos aos miolos a tentar descobrir qual seria a melhor maneira de lhe explicar tudo aquilo.
Parou por momentos, a ponderar a questo, antes de se aperceber da implicao do que estava a pensar.
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#maluca.
Dirigiu-se a coxear para a casa de banho, tinha de se preparar para ir trabalhar e, pelo caminho, comeou a libertar-se do pijama. Ficou encostada ao lavatrio, 
a ver-se reflectida no espelho. Olha para isto, pensou, tenho 29 anos e estou a rebentar pelas costuras. Doam-lhe as costelas sempre que respirava, o dedo grande 
do p latejava, o espelho no estava a ajudar nada. Durante o dia, o cabelo era comprido e liso mas, depois de uma noite deitada na cama, parecia ter sido atacado 
por uma legio de pequenos gnomos das almofadas, armados de escovas. 0 penteado estava uma desgraa, com o cabelo todo eriado, em atitude de defesa como Jim costumava 
dizer. 0 rmel tinha escorrido pelas faces. A ponta do nariz mostrava-se avermelhada e os olhos verdes estavam inchados por causa do plen prprio da poca primaveril, 
mas um duche ajudaria a pr tudo no stio, no era?
Bem, talvez no ajudasse, quanto s alergias. Abriu o armrio dos remdios e tomou um Claritin, antes de nova olhadela para o espelho, na esperana de ver qualquer 
melhoria sbita.
Bolas!
Pensou que, afinal, talvez no tivesse de se esforar muito para
desencorajar o Bob. Havia um ano que cortava o cabelo ao Bob ou,
melhor, aquilo que restava do cabelo. Dois meses antes, Bob tinha
finalmente arranjado coragem para a convidar a sair com ele. No era
exactamente o homem mais bonito do mundo - a ficar calvo, cara
redonda, olhos demasiado juntos, barriga que comeava a notar-se - mas era solteiro e bem-sucedido, e Julie no saa com um homem desde a morte de Jim. Pareceu-lhe 
uma boa maneira de voltar a molhar os ps no mundo dos namoricos. Errado. Havia uma razo para o estado de solteiro de Bob. 0 homem no era apenas uma desgraa quanto 
ao aspecto fisico. foi tao enfadonho durante o jantar que at as pessoas das mesas  volta lanaram olhares de piedade na direco dela. A contabilidade era o seu 
tpico preferido de conversao. No mostrou interesse por mais nada: por ela, pela ementa, pelo tempo, pelo desporto, nem pelo vestido preto curto que ela levava. 
A vida resumia-se  contabilidade. Durante trs horas, ouviu a lengalenga do Bob sobre dedues e distribuies de lucros, depreciaes e planos de poupana. Para 
o final do jantar, quando ele se debruou sobre a mesa e lhe confidenciou que conhecia pessoas muito importantes do IRS, os olhos de Julie estavam to vidrados 
como uma
dzia de donuts.
wu~ uyu ~: , Yuwuu, uicu Leus, estou a rcar
No ser preciso dizer que, na realidade, h oD passou um serao maravilhoso. Depois daquele jantar, telefonava trs vezes por semana para perguntar se podiam juntar-se 
para uma segunda consulta, eh, eh, eh. Era persistente, sem dvida. Fastidioso como o diabo, mas persistente.
Houve tambm Ross, o segundo homem com quem saiu. Ross era mdico. Ross, o rapaz bonito. Ross, o pervertido. Uma sada com ele era suficiente, muito obrigada e at 
 vista.
E no podia esquecer-se do velho Adam. Gabava-se de trabalhar para bem do pas, afirmava gostar do que fazia. No passava de um tipo comum, dizia.
Tinha descoberto que Adam trabalhava nos esgotos.
No cheirava mal, no mostrava substncias esquisitas por debaixo das unhas, o cabelo no brilhava, empastado de uma qualquer gordura, mas Julie sabia que, por muitos 
anos que vivesse, nunca conseguiria habituar-se  ideia de que, um dia, podia aparecer-lhe diante da porta com esse aspecto detestvel. Houve um acidente nas instalaes, 
minha querida. Desculpa por te aparecer neste estado. Sentia arrepios s de pensar na situao. Nem conseguia imaginar-se a mexer nas roupas dele, a p-las na mquina 
de lavar, depois de um incidente do gnero. A relao estava condenada desde o incio.
Porm, precisamente quando comeava a ter dvidas de que ainda existissem homens normais como o Jim, precisamente quando comeava a imaginar se no possuiria uma 
qualidade qualquer que atraa os tipos esquisitos, como um anncio luminoso: Estou disponvel! Normalidade no exigida!, Richard tinha entrado em cena.
E, milagre dos milagres, mesmo depois de uma sada, no ltimo sbado, continuava a parecer normal. Consultor da firma JD Blanchard Engineering, nos arredores de 
Cleveland - a firma que estava a proceder  reparao da ponte sobre o canal - conheceu-a quando entrou no salo para cortar o cabelo. Quando saram, falou de coisas 
novas para ela, sorriu nos momentos adequados, encomendou o jantar ao empregado de mesa e, no momento de a deixar  porta de casa, nem sequer se esforara demasiado 
para a beijar. E, o melhor de tudo: era bem-parecido, tinha um certo ar artstico; mas do rosto bem destacadas, olhos da cor das esmeraldas, cabelo preto e bigode. 
Depois de ele a ter deixado, quase lhe apeteceu gritar: Aleluia! Finalmente vi a luz!
Singer no se deixou impressionar tanto. Depois de ela ter dado as boas-noites a Richard, o co entregou-se a uma das suas cenas de quem manda aqui sou eu. Rosnou 
at Julie lhe ter aberto a porta da frente.
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#ele. i.11, UC-- Uiaau - iuanuou pune -, nao sejas tao mau para

0 co fez o que ela mandou, mas retirou-se para o quarto, de onde no saiu durante o resto do sero.
Julie ficou a pensar que, se o co fosse um pouco mais bizarro, podia fazer equipa com ele para darem espectculo, mesmo ao lado do homem que engole lmpadas. Mas 
a vida dela tambm no fora um modelo de normalidade.
Abriu a torneira do duche e entrou na banheira, tentando deter a torrente de memrias. Que interesse havia em reviver tempos passados? Por vezes, dava consigo a 
pensar que a me fora objecto de duas atraces fatais: bebida e homens nocivos. Na ausncia da outra, qualquer delas seria tolervel, mas Julie sempre pensara que 
a combinao das duas ultrapassava os limites do que ela conseguia suportar. A me usava namorados como as crianas usam as toalhas de papel e, pelo menos alguns 
deles, faziam Julie sentir desconforto logo que entrou na adolescncia. De facto, o ltimo tinha tentado meter-se com ela e, quando contou  me,  sua prpria me, 
esta, presa de uma fria provocada pelo lcool, tinha-a acusado de se querer meter com ele. No foi muito tempo antes de Julie se ter visto na situao dos sem-abrigo.
Viver na rua tinha sido uma experincia terrvel que durou cerca de seis meses, at Jim ter aparecido. A maioria das pessoas que conheceu consumia drogas, pedia 
esmola ou roubava... quando no fazia coisas piores. Com medo de se tornar mais um dos miserveis acossados que encontrava todas as noites nos abrigos e nos vos 
das portas, procurou desesperadamente trabalhos de todo o gnero, que a pudessem manter alimentada e fora de vista. Aceitou todas as tarefas mais servis que lhe 
ofereceram e manteve a cabea baixa. Quando conheceu Jim, num restaurante de Daytona, estava a aquecer as mos numa chvena de caf que lhe custara as ltimas moedas 
que trazia no bolso. Jim pagou-lhe o pequeno-almoo e, no caminho para a porta, disse-lhe que faria o mesmo no dia seguinte, se ela aparecesse. Esfomeada como andava, 
voltou e, quando o interpelou acerca dos motivos do interesse dele (presumindo que os conhecia e preparando-se para o embaraar com uma tirada em voz alta sobre 
abusadores de crianas e penas de priso), Jim negou qualquer interesse menos prprio por ela. No final da semana, quando se preparava para regressar a casa, fez-lhe 
uma proposta: se Julie fosse viver para Swansboro, no estado da Carolina do Norte, ele ajudava-a a encontrar um emprego a tempo inteiro e uma casa onde viver.
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Recorda-se de ter olhado para ele como se Jim tivesse escaravelhos a sarem-lhe das orelhas.
Mas um ms depois, considerando que no havia muitos compromissos na sua velha agenda social, apresentou-se em Swansboro, a pensar, ao saltar do autocarro, que diabo 
teria vindo fazer quela cidade do fim do mundo? Mesmo assim, encarou Jim, que, apesar da desconfiana persistente dela, a levou ao salo para conhecer a sua tia 
Mabel. E no tardou muito que se visse a limpar o cho, a ganhar um salrio e a viver no quarto que havia por cima do salo.
De incio, Julie sentiu-se aliviada com a aparente falta de interesse de Jim. A seguir, sentiu curiosidade. Depois, aborreceu-se com a situao. Finalmente, depois 
de ter chocado com ele inmeras vezes e de lhe ter dado sugestes diversas, desavergonhadas na opinio dela, deu-se por vencida e perguntou a Mabel se pensava que 
Jim no a achava atraente. S ento ele pareceu perceber a mensagem. Saram uma vez, depois outra, e, passado um ms, as hormonas comearam a fazer o seu trabalho. 
0 verdadeiro amor chegou um pouco mais tarde. Ele props-lhe casamento, desfilaram pela coxia da igreja onde Jim fora baptizado e Julie passou os primeiros anos 
de casada a desenhar rostos sorridentes de todas as vezes que se entretinha a garatujar coisas junto do telefone. Tendo em conta a vida que levara antes, que mais 
poderia desejar?
Muito, como no tardou a perceber. Poucas semanas depois de celebrarem o quarto aniversrio do casamento, Jim sentiu-se doente quando regressava a casa, vindo da 
igreja, e foi levado para o hospital. Dois anos depois, o tumor cerebral tirava-lhe a vida e, aos 25 anos de idade, Julie encontrou-se na situao de ter de comear 
de novo. Descontada a apario inesperada de Singer, parecia j no haver mais nada que a pudesse surpreender.
Pensou que, na realidade, o que interessava eram as pequenas coisas da vida. Embora os marcos da vida passada dessem o tom, eram os pequenos eventos da vida quotidiana 
que agora definiam a pessoa que ela era. Mabel, Deus a abenoe, tinha sido um anjo. Tinha ajudado Julie a conseguir a licena que lhe permitia cortar cabelo e ganhar 
o suficiente para ter uma vida decente, sem extravagncias. Henry e Emma, dois bons amigos de Jim, tinham-na ajudado muito, no s quando se mudou para a cidade 
mas tambm depois da morte do marido. E havia ainda Mike, o irmo mais novo de Henry, a crescer para se tornar o melhor amigo de Jim.
No chuveiro, Julie sorriu. Mike.
Ali est um rapaz que, um dia, h-de fazer uma mulher feliz,
mesmo que por vezes d a ideia de que anda um bocado perdido.
23
k_
#uns minutos mais tarde, depois de se secar com a toalha, Julie escovou os dentes, comps o penteado e deslizou para dentro das roupas. Como o carro estava na oficina, 
tinha de ir a p para o trabalho - tinha de percorrer cerca de mil e quinhentos metros - e calou um par de sapatos confortveis. Chamou pelo co quando estava junto 
 porta e preparada para sair, quase no reparando na mensagem que algum deixara para ela.
Pelo canto do olho, espiou um sobrescrito preso na ranhura da caixa do correio, mesmo ao lado da porta principal.
Curiosa, Julie abriu-o e comeou a ler, ao mesmo tempo que Singer saiu do bosque e trotou na sua direco.

Querida Julie,
0 encontro de sbado foi maravilhoso. Jd no consigo deixar de pensar em si.
Richard

Ali estava a razo de Singer se ter portado mal na noite anterior. - Ests a ver - disse ela, a acenar com a carta de forma a que o
co pudesse v-la. - Eu disse-te que este era um homem decente. Singer voltou-lhe o rabo.
- No me trates assim. Podes admitir que estavas enganado, no
podes? Acho que ests com cimes.
Singer encostou-se a ela.
-  isso? Ests com cimes?
Ao contrrio do que sucedia com outros ces, Julie no teve de se
baixar para lhe acariciar o plo. Na altura em que entrou para a escola
secundria era mais baixa do que este co.
- No sejas ciumento, est bem? S feliz por mim.
0 co rodou para o outro lado e levantou a cabea para ela.
- Agora, anda da. Temos de ir a p porque o Mike ainda no
acabou de arranjar o jipe.
Ao ouvir o nome de Mike, Singer agitou a cauda.
DOIS
As letras das canes de Mike deixavam muito a desejar e, alm disso, a sua vocalizao no era de molde a fazer que os executivos das empresas de gravao fizessem 
bicha  sua porta de Swansboro. Mas tocava guitarra e treinava todos os dias, esperando a grande oportunidade que havia de encontrar ao virar uma esquina. No espao 
de dez anos, tinha trabalhado com uma dzia de bandas diferentes, que iam desde os barulhentos roqueiros de cabelos compridos dos anos 80 at s canes meladas 
destinadas s mams, prprias da msica country. No palco, tinha usado tudo, desde as calas de couro s peles de jibia, dos safes de pele aos chapus de cowboy 
e, embora tocasse com evidente entusiasmo e no existisse pessoa alguma nas bandas que conseguisse no gostar dele, habitualmente era posto de lado passadas poucas 
semanas, quando lhe diziam que, por uma razo ou por outra, as coisas no iam bem. Tantas vezes tinha acontecido que o prprio Mike j devia ter-se apercebido de 
que no se tratava de um conflito de personalidades, mas o facto  que continuava a ser incapaz de admitir que talvez no prestasse para aquilo.
Mike tambm andava com um caderno de apontamentos, onde escrevia, sempre que tinha um momento disponvel, os pensamentos que deveriam ser includos num futuro romance, 
mas chegara  concluso de que a escrita era uma actividade bastante mais difcil do que pudera imaginar. No era um problema de falta de ideias, era a existncia 
de ideias em demasia, que tornava difcil a seleco das que deviam e no deviam ser includas na histria. No ano anterior, tentara escrever um romance policial 
cuja aco decorria durante um cruzeiro no mar, uma histria que poderia ter sido escrita por Agatha Christie, e inclua a habitual dezena de suspeitos. Mas pensou 
que a intriga no era suficientemente emocionante, pelo que tratou de in
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#iuu licia iouu o genero cie meias que alguma vez lhe tinham passado
pela cabea, incluindo uma ogiva nuclear que estaria escondida em So Francisco, um polcia srdido que tinha assistido ao assassnio de John Kennedy, um terrorista 
irlands, a Mafia, um rapaz e o seu co, um capitalista sem escrpulos e um cientista que, viajando numa cpsula do tempo, escapara s perseguies que lhe haviam 
sido movidas no Sacro Imprio Romano. Afinal, o prlogo estendia-se por uma centena de pginas, sem que os suspeitos principais conseguissem encontrar o caminho 
para o palco. No vale a pena dizer que o projecto ficou por ali.
No passado, tambm tentara o desenho, a pintura, a gravao
sobre vidro fosco, a cermica, a gravura em madeira e a tapearia,
chegando a elaborar algumas peas de estilo muito pessoal, numa
exploso de gnio e inspirao que o manteve afastado do emprego durante uma semana. Juntou e soldou peas velhas de automveis, construindo trs estruturas altas 
e de equilbrio precrio; quando deu as peas por acabadas, sentou-se nos degraus da porta de frente, a olhar com orgulho o que tinha feito, sabendo, do fundo do 
corao, que tinha encontrado o seu caminho. Este sentimento durou uma semana, at que a Assembleia Municipal, numa reunio convocada  pressa, decidiu proibir a 
exibio de lixo nos jardins das residncias. Como sucede com tanta gente, Mike Harris alimentava o sonho e o desejo de ser artista; s lhe faltava o talento.
No entanto, em termos prticos, Mike era capaz de consertar tudo. Era o verdadeiro homem dos sete ofcios, um autntico cavaleiro de armadura brilhante, capaz de 
desfeitear qualquer avaria no esgoto do lava-loua ou no sistema de recolha de lixo. Porm, se Mike era um bom artfice, era tambm um verdadeiro mgico dos tempos 
modernos em tudo o que tivesse a ver com veculos de quatro rodas e respectivos motores. Ele e o irmo, Henry, eram donos da oficina mais movimentada de toda a cidade 
e, enquanto Henry se encarregava da parte burocrtica, Mike fazia o verdadeiro trabalho de reparaes. Carros estrangeiros ou americanos, tanto fazia ser um Escort 
de quatro cilindros como um Porsche 911 Turbo, reparava tudo. Conseguia detectar os mais pequenos rudos internos de um motor, ouvir silvos e cliques onde outros 
mecnicos no ouviam coisa nenhuma, notar o que estava mal, quase sempre em poucos minutos. Sabia de tubagens e vlvulas de admisso, de amortecedores, braos oscilatrios 
e pistes, de radiadores e de diferenas entre eixos, alm de poder dizer de memria o tempo de reparao de qualquer carro que tivesse passado pela oficina. Conseguia 
reconstruir motores sem ter de con
sultar o respectivo manual. Tinha sempre as pontas dos dedos manchadas de negro e, embora soubesse que a profisso lhe proporcionava uma vida decente, por vezes 
gostaria de pegar numa pequena parte do seu talento para a aplicar em qualquer actividade diferente.
A tradicional reputao de femeeiros que se associa com mecnicos e msicos, no tinha afectado Mike. Tivera dois namoros a srio em toda a sua vida e, como um desses 
namoros tinha sido na escola secundria e o outro, com a Sarah, tinha terminado havia trs anos, poderia dizer-se que Mike no andava  procura de compromissos de 
longo prazo, ou mesmo de um compromisso que pudesse durar todo o Vero. 0 prprio costumava, por vezes, reflectir sobre o assunto; mas estava agora numa fase em 
que, quaisquer que fossem as expectativas, a maioria das suas sadas parecia acabar com um beijo na face, enquanto a mulher se lhe mostrava agradecida por ter um 
amigo como ele. Aos 34 anos, Mike era notavelmente bem versado na amorosa arte de abraar fraternalmente mulheres que lhe choravam no ombro, a lamentarem-se pelo 
facto de o ltimo namorado se ter revelado um malandro. E no era um homem sem atractivos. Com cabelo castanho-claro, olhos azuis e sorriso fcil, a que se juntava 
um corpo elegante, era bem parecido segundo a definio corrente do americano tpico. Tambm no se dava o caso de as mulheres no apreciarem a companhia dele, porque 
apreciavam. A sua falta de sorte tinha mais a ver com o facto de as mulheres com quem Mike saa terem a sensao de que ele no andava  procura de uma relao estvel 
com qualquer delas.
Henry, o irmo, e a mulher deste, Emma, sabiam o que as levava a pensar assim. Mabel tambm conhecia o motivo, como acontecia com quase todas as pessoas das relaes 
de Mike Harris.
Mike, todos sabiam, j estava apaixonado por outra pessoa.

- Viva, Julie, espera um pouco.
Tendo acabado de chegar  antiquada zona industrial, localizada nos limites de Swansboro, Julie voltou-se ao ouvir o chamamento de Mike. Singer levantou os olhos 
para ela, e ela acenou-lhe.
- Podes ir - ordenou ao co.
Singer saiu de ao p dela a galope, encontrando-se com Mike a meio do caminho. Mike fez-lhe festas na cabea e no lombo, e depois coou-lhe a parte de trs das orelhas. 
Quando Mike parou, Singer moveu a cabea para cima e para baixo, a pedir mais.
- Por agora chega, grandalho - ralhou Mike. - Deixa-me falar com a Julie.
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#Momentos depois, chegou junto de Julie e Singer sentou-se ao lado
dele, ainda  espera de mais festas.
- Viva, Mike - saudou Julie, a sorrir. - 0 que  que se passa? - Nada de importante. S quis dizer-te que o jipe est pronto. - Qual era a avaria?
- 0 alternador.
Exactamente o problema que ele tinha detectado na sexta-feira, quando ela levara o carro  oficina, recordou Julie. - Tiveste de o substituir?
- Tive. 0 outro estava arrumado. Nada de difcil, a loja tinha
muitos em stock. A propsito, tambm eliminei a fuga de leo. Tive
de substituir uma borracha junto do filtro.
- Havia uma fuga de leo?
- No viste as manchas na entrada para a garagem?
- Na verdade, no. Mas tambm no me recordo de ter olhado. Mike sorriu. - Bem, como disse, tambm reparei isso. Queres
que pegue nas chaves e te leve o carro?
- No, levo-o quando largar o trabalho. No vou precisar dele
to depressa. Tenho marcaes para o dia todo. Sabes como so as
segundas-feiras.
Julie sorriu. - A propsito, como  que correram as coisas no Clipper? Tive pena de no poder ir.
Mike passara o fim-de-semana a tocar rock da pesada com um grupo de desistentes da escola secundria, cujos sonhos se limitavam  conquista de midas, a beber cerveja 
e a passar os dias a ver a MTV. Mike tinha pelo menos mais doze anos de idade do que qualquer deles e quando mostrou as calas, largas como sacos, e a T-shirt que 
ia usar no espectculo do fim-de-semana, Julie fez um gesto de aprovao e exclamou: - Oh, que giro! - o que, na verdade, queria dizer: Vais parecer absolutamente 
ridculo, l no Clipper.
- Acho que correu bem - respondeu Mike. - S bem?
Ele encolheu os ombros. - De qualquer das formas, aquele no  o meu tipo de msica.
Julie assentiu. Embora gostasse muito dele, nem ela conseguia ser grande apreciadora da sua voz. No entanto, Singer parecia ador-la. Sempre que Mike cantava para 
os amigos, o co acompanhava-o com uivos. Estavam em disputa, dizia-se na cidade, para ver qual dos dois conseguiria chegar ao estrelato.
- Ento, quanto  que te devo pela reparao?
A coar a cabea com ar ausente, Mike pareceu reflectir no assun
to. - Dois cortes de cabelo devem chegar.
- V l. Deixa-me pagar, s por esta vez. Pelo menos o custo das
peas. Sabes que tenho dinheiro.
No ano anterior, o jipe, um modelo CJ7, j antigo, tinha ido trs
vezes  oficina. Contudo, Mike tinha artes de o manter a funcionar
nos perodos entre as visitas.
- Mas tu estas a pagar - protestou Mike. - Mesmo que o meu
cabelo esteja cada vez mais ralo, tenho de o cortar uma vez por outra. - Est bem, mas dois cortes de cabelo no me parece um negcio
justo.
- A reparao no levou muito tempo. E as peas no custaram
assim tanto. 0 homem deve-me favores.
Julie ergueu ligeiramente o queixo.
- E o Henry, sabe que ests a fazer isto?
Mike abriu os braos, com ar inocente. -  claro que sabe. Sou
scio dele. Alm disso, foi ele quem teve a ideia.
Certamente que sim, pensou Julie.
- Bom, ento obrigada - concluiu. - Fico-te muito agra
decida.
- Foi um prazer.
Mike calou-se. Como queria continuar a conversa mas no sabia o
que dizer, voltou-se para o co. Singer estava a observ-lo com toda
a ateno, de cabea descada para um lado, como se quisesse dizer
-lhe: Ento, v se te decides, Romeu. Ambos sabemos os motivos
que te levam a querer falar com ela. Mike engoliu em seco.
- Ento, como  que correram as coisas... com... - perguntou,
tentando falar com um tom desprendido.
- Com o Richard? - Pois, Richard. - Foi agradvel. - Oh!
Mike assentiu, sentindo as gotas de suor que comeavam a
inundar-lhe a testa. Quem poderia imaginar que estaria tanto calor,
logo pela manh?
- Ento... hum... Aonde  que foste? - acabou por perguntar. - Ao Slocum House.
- Muito elegante, para uma primeira sada - reconheceu Mike. - A escolha era entre este o Pizza Hut. Fui eu que decidi.
Mike mudou de p,  espera de que ela acrescentasse mais qual
quer coisa. Mas ela no o fez.
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#rouca sorte, pensou iviixe. xicnard era totalmente diferente de Bob, o romntico devorador de nmeros. Ou de Ross, o tarado sexual. Ou do Adam, das entranhas de 
Swansboro. Tendo tipos desses como concorrentes, pensava ter algumas possibilidades. Mas, com Richard? The Slocum House? Fora agradvel.
- Nesse caso... divertiste-te? - perguntou.
- Sim. Foi giro.
Giro? At que ponto? No estava nada satisfeito com o rumo que as coisas estavam a tomar.
- Fico contente - mentiu, dando o seu melhor para parecer entusiasmado.
Julie apertou-lhe um brao. - Mike, no te preocupes. Sabes que
sempre gostei muito de ti, no sabes?
Mike enfiou as mos nos bolsos. - Isso  por eu te reparar o carro.
- No te vendas por to pouco - objectou Julie. - Tambm
ajudaste a reparar o meu telhado.
- E reparei a tua mquina de lavar.
Ela inclinou-se para diante, beijou-o na face e deu-lhe um breve
aperto no brao.
- Mike, que mais posso dizer? s uma jia de pessoa.

Julie sentia os olhos de Mike cravados nela quando se dirigiu para o salo, mas, ao contrrio do que sentia quando certos homens lhe prestavam ateno, o olhar dele 
no a afectava em nada. Era um bom amigo, pensou, para rapidamente mudar de ideias. No, Mike era um bom amigo na mais pura acepo da palavra, uma pessoa a quem 
no hesitaria recorrer numa emergncia; o tipo de amigo que lhe tornava a vida em Swansboro bastante mais fcil, pois sabia que ele estaria sempre pronto a ajud-la. 
Os amigos como ele no abundavam, uma razo que a fazia sentir-se mal por fazer segredo de alguns aspectos da sua vida privada, como sucedia com os namorados mais 
recentes.
No tinha coragem para entrar em pormenores, porque Mike... bem, Mike no era exactamente o Homem Mistrio quando se tratava de saber como se sentia em relao a 
Julie, e o que ela menos desejava era ferir-lhe os sentimentos. 0 que  que deveria ter dito? Comparado com os meus outros namorados, Richard foi fantstico! Decerto 
vou voltar a sair com ele! Sabia que Mike pretendia namorar com ela; havia anos que o sabia. Mas os seus sentimentos em relao a Mike, para alm de ver nele o 
seu melhor amigo, eram
complicados. Como poderia ser de outro modo! jim e iviixe rinnarn crescido como amigos, Mike tinha sido padrinho do casamento, alm de ter sido o apoio que ela procurou 
depois da morte do marido. Via-o mais como um irmo, no podia limitar-se a rodar um interruptor e mudar subitamente os seus sentimentos em relao ao homem.
Havia mais, no entanto. Como Jim e Mike tinham sido to ntimos, como Mike tinha feito parte das suas vidas, s o facto de imaginar-se a sair com ele era suficiente 
para a deixar com um vago sentimento de traio. Se concordasse em sair com ele, no significaria isso que, l no fundo, sempre desejara faz-lo? 0 que  que Jim 
pensaria disso? E, quanto a ela, alguma vez seria capaz de olhar para Mike sem pensar em Jim e naqueles momentos do passado que tinham vivido juntos? No sabia. 
E o que aconteceria se sassem e, por uma razo qualquer, o sero no corresse bem? A relao entre ambos seria alterada, mas ela recusava-se a encarar a ideia de 
perder um amigo como Mike. Era muito mais fcil deixar tudo como estava.
Suspeitava de que Mike sabia tudo aquilo e que essa seria a razo de ele nunca se ter declarado, embora fosse evidente que desejaria ser capaz de o fazer.
Conquanto, por vezes - como sucedera no Vero precedente, quando foram para o mar fazer esqui na companhia do Henry e da Emma -, Julie sentisse que ele estava a 
tentar arranjar coragem para declarar o que sentia. Mike tornava-se algo cmico quando era afectado por sentimentos desse tipo. Em vez do Senhor Contente - o primeiro 
a rir-se das piadas, mesmo daquelas que o tinham como alvo, o tipo de pessoa a quem se pede que v buscar mais umas cervejas  loja de convenincia, por toda gente 
saber que ele no  capaz dizer no -, Mike ficava subitamente calado, como se suspeitasse de que todo o seu problema com Julie derivava do facto de ela no o considerar 
suficientemente inteligente. Em vez de se rir com o que os outros estavam a dizer, carregava o cenho, rolava os olhos ou punha-se a estudar as unhas e, quando ele 
lhe sorriu naquele dia, no barco, o sorriso parecia dizer-lhe: Olha, meu amor, no seria melhor deixarmo-nos de tretas e divertirmo-nos como deve ser? Henry, o 
irmo mais velho, era implacvel quando Mike estava com aquela disposio de esprito. Ao notar a alterao sbita da atitude do irmo, Henry perguntara se Mike 
tinha comido demasiado feijo ao almoo, porque estava com mau aspecto.
0 ego de Mike perdeu todo o gs.
Julie sorriu, ao recordar o episdio. Pobre Mike.
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#iNu uia seguinte voirara a sua naoituai maneira de ser. u julie apreciava bem mais essa verso do Mike do que a outra. Sentia-se enfastiada com os homens que pensavam 
que a felicidade de qualquer mulher era conseguir apanh-los, com homens que se armavam em espertos e em maus, com os que provocavam rixas em bares s para mostrarem 
que ningum era mais valente do que eles. Por outro lado, qualquer que fosse a sua maneira de o encarar, homens como o Mike eram um trofu bastante apetecido. Tinha 
bom corao e era bem-parecido; Julie gostava da forma como lhe apareciam rugas nos cantos dos olhos quando sorria e adorava as covinhas das bochechas dele. Tinha 
aprendido a apreciar a maneira como parecia deixar que as ms notcias deslizassem por ele, bastando receb-las com um encolher de ombros. Gostava de homens que 
riam. E Mike ria-se muito.
E Julie gostava realmente do som do seu riso.
Porm, como sempre acontecia quando se deixava levar por aquele tipo de pensamentos, ouviu logo uma voz interior. No te metas nisso. Mike  teu amigo, o teu melhor 
amigo, e no pretendes destruir um relacionamento assim, pois no?
Enquanto meditava na questo, sentiu que Singer se encostava a ela e a libertava daqueles pensamentos. 0 co levantou os olhos.
- V, continua, meu grande vadio - mandou.
Singer trotou  frente dela, passou pela padaria, at mudar de direco diante da porta aberta do salo de Mabel. Todas as manhs tinha um biscoito  sua espera, 
oferta da Mabel.


Henry estava encostado  ombreira da porta, junto da cafeteira, a falar por cima da borda de uma chvena de caf. - Ento, como  que correu o jantar da Julie?
- No lhe fiz perguntas acerca disso - respondeu Mike, como se considerasse ridculo falar dessas coisas. Enfiou as pernas no fato-macaco, que vestiu por cima das 
calas de ganga.
- Porque  que no perguntaste?
- Nem sequer pensei nisso.
- Ah!
Com 38 anos de idade, Henry era quatro anos mais velho que Mike e, em muitos aspectos, era o verdadeiro alter ego do irmo, embora mais maduro. Henry era mais alto, 
mais pesado, e estava a aproximar-se da meia-idade, com uma barriguinha que se expandia  mesma velocidade com que a cabeleira se retraa; um casamento de 13 anos 
com Emma, trs filhas e uma casa em vez de um apartamen
to, gozava de uma vida bem mais estvel. Ao contrrio de Mike, nunca alimentara quaisquer sonhos de vir a ser artista. Na universidade tinha-se formado em gesto 
financeira de empresas. E, como acontece  maioria dos irmos mais velhos, no conseguia resistir  ideia de que tinha de trazer o irmo mais novo debaixo de olho, 
de se assegurar de que ele estava bem, de que no andaria a fazer coisas de que mais tarde se viesse a arrepender. Para muitas pessoas era insensibilidade demasiada 
que o apoio fraternal inclusse uma boa dose de chacota, insultos e berros ocasionais, tudo destinado a obrigar o Mike a aterrar; mas quem mais  que poderia encarregar-se 
dessa tarefa? Henry sorriu. Algum tinha de zelar pelo irmo mais novo.
Mike tinha conseguido enfiar-se dentro do fato-macaco.
- S quis dizer-lhe que o carro est pronto.
- J? Pareceu-me ouvir dizer que havia uma fuga de leo.
- Pois havia.
- E j foi reparada?
- Precisei apenas de umas horas.
- Ah! - assentiu Henry, a pensar: Se fosses s um poucochinho mais mole, irmozinho, podiam incluir-te na massa dos gelados.
Em vez de dizer isso, Henry pigarreou. - Ento, foi isso que fizeste durante o teu fim-de-semana? Estiveste a reparar o carro da Julie?
- No precisei do tempo todo. Tambm estive a tocar no Clipper, mas acho que te esqueceste disso, no foi?
Henry levantou as duas mos em atitude de defesa. - Sabes que aprecio mais Garth Brooks e Tim McGraw. No gosto dessas coisas novas. E, alm disso, os pais da Emma 
vieram jantar connosco.
- Tambm podiam ter ido.
Henry soltou uma gargalhada, quase entornando o caf. - Claro, tens razo. Ests a ver-me a levar aqueles dois ao Clipper? So dos que pensam que a msica de fundo 
que se ouve nos elevadores  demasiado barulhenta, e que a msica rock foi a frmula descoberta pelo demnio para controlar o esprito das pessoas. Se fossem ao 
Clipper, ficavam com os ouvidos a sangrar.
- Vou contar  Emma as coisas que tu dizes dos pais dela.
- Emma concordar comigo - respondeu Henry. - As palavras que ouviste no so minhas, so dela. Mas, como  que correram as coisas? No Clipper, quero eu dizer?
- Bem.
Henry fez um gesto de compreenso, percebendo perfeitamente. - Lamento ouvir isso.
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#infixe eucuneu os ompros e correu o recno do rato-macaco.
- Ento, quanto  que vais cobrar  Julie por esta reparao do
carro? Trs lpis e uma sanduche?
No.
Uma cano?
H, h.
A srio. Estou apenas curioso. 0 habitual.
Henry assobiou. - Ainda bem que sou eu a tratar da contabilidade por estas bandas.
Mike lanou-lhe uma olhadela impaciente. - Sabes perfeitamente que tambm lhe fazias um preo especial. - Pois sei.
- Nesse caso, porque  que ests a chatear-me com isso?
- Porque tambm estou interessado em saber como correu o encontro da Julie.
- 0 que  que o custo da reparao do carro tem a ver com o encontro?
Henry sorriu. - No tenho a certeza, maninho. 0 que  que tu pensas?
- Penso que j bebeste demasiado caf esta manh e que tens as ideias todas baralhadas.
0 irmo acabou de despejar a chvena. - Sabes, s capaz de ter razo. Estou certo de que no ests nada ralado com o encontro da Julie.
- Exactamente.
Henry pegou na cafeteira e voltou a encher a chvena. - Ento,
tambm no te interessa saber aquilo que a Mabel pensa sobre o caso. Mike olhou para o irmo. - Mabel?
Com a maior das calmas, Henry deitou um pouco de leite e acar
no caf. - Sim, Mabel. Ela viu-os na noite de sbado.
- Como  que sabes?
- Porque conversei com ela, ontem,  sada da igreja, e ela falou
-me nisso.
- Falou?
Henry voltou as costas ao irmo e dirigiu-se para o escritrio, a exibir um grande sorriso. - Mas, como disseste, no ests interessado; por isso, no falo mais 
do assunto.
Sabia por experincia prpria que Mike continuaria junto da porta, como que petrificado, muito depois de ele se encontrar j sentado  secretria.
TRS
Embora Andrea Radley tivesse obtido a carteira profissional de esteticista h um ano e estivesse a trabalhar para Mabel h nove meses, no era muito boa empregada. 
No s tinha tendncia para tirar dias de folgas pessoais sem avisar, habitualmente sem se dar ao cuidado de telefonar, mas, mesmo nos dias em que resolvia vir 
trabalhar, era raro chegar a horas. Nem era especialmente dotada para as artes do penteado e do corte de cabelo, pouco se preocupando a seguir as indicaes que 
os clientes lhe davam. No fazia diferena nenhuma que os clientes trouxessem fotografias ou explicassem com tempo e com toda a mincia aquilo que pretendiam; Andrea 
aplicava exactamente a toda a gente o mesmo tipo de corte de cabelo. No que interessasse muito. J conseguira quase o mesmo nmero de clientes que a Julie atendia, 
embora, o que talvez nem constitusse surpresa, fossem todos homens.
Andrea tinha 23 anos e era uma loura de pernas longas, ostentava um bronzeado perptuo, como se tivesse vindo directamente de uma das praias da Califrnia e no 
da cidade montanhosa de Boone, na Carolina do Norte, onde tinha sido criada. Um aspecto que fazia realar graas ao vesturio, pois, por mais frio que o tempo estivesse, 
ia para o salo de mini-saia. No Vero, aumentava o efeito com topes de alas, de tamanho reduzido; no Inverno, com botas de pele, de cano alto. Tratava todos os 
clientes por doura, pestanejava com as longas plpebras carregadas de maquilhagem e nunca parava de mascar pastilha elstica. Julie e Mabel riam-se  socapa dos 
ares sonhadores com que os homens apreciavam a imagem de Andrea reflectida no espelho. Ambas pensavam que Andrea bem poderia barbear acidentalmente a cabea de algum 
cliente, sem que ele deixasse de voltar, para ser tratado da mesma maneira.
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#repesai uu asp to exterior, nnarea era oasranre ingenua em relao aos homens. Sabia, sem dvida, aquilo que os homens queriam e, na maioria dos casos, tinha razo 
acerca disso. 0 que no conseguia compreender era a maneira de os manter interessados. Nunca lhe ocorrera que a sua aparncia poderia atrair um certo tipo de homens 
em detrimento de outros. No tinha problemas em arranjar namorados, homens com tatuagens que conduziam motos Harley, ou bbados que faziam vida no Clipper, ou tipos 
em liberdade condicional, mas nunca tinha conseguido sair com homens que tivessem empregos estveis. Pelo menos era o que ela dizia, nas alturas em que decidia ter 
pena de si mesma. Na verdade, Andrea recebia frequentes convites para sair com homens normais, com empregos normais, mas parecia cansar-se depressa deles, esquecendo-se 
rapidamente de quem a tinha convidado.
S nos ltimos trs meses, tinha sado com sete homens diferentes, trinta e uma tatuagens, seis motos Harley-Davidson, duas violaes de liberdade condicional e 
zero empregos, pelo que, de momento, estava a sentir um bocadinho de pena de si mesma. No sbado tinha sido ela a pagar o jantar e o cinema, porque o companheiro 
estava sem cheta; mas tinha ligado esta manh? No, certamente no. Talvez tencionasse telefonar-lhe hoje. Os companheiros dela nunca telefonavam, a menos que precisassem 
de dinheiro ou estivessem a sentir-se um pouco ss, como muitos deles gostavam de dizer.
Mas Richard tinha ligado para o salo logo pela manh, a perguntar pela Julie.
Pior ainda, muito provavelmente a Julie no se tinha visto obrigada a pagar o jantar para ele a tratar assim. Como era possvel, bem gostaria de saber, que a Julie 
aambarcasse todos os homens que valiam a pena? No era por se vestir bem. Metade dos dias, parecia absolutamente vulgar, com aquelas calas de ganga e as camisolas 
que mais pareciam sacos e, vamos l falar com franqueza, usava sapatos feios. No tinha grandes cuidados com o aspecto, no trazia as unhas tratadas nem mostrava 
bronzeado nenhum, excepto no Vero, quando o bronzeado estava ao alcance de qualquer pessoa. Ento, como  que o Richard estava to embeiado pela Julie? Estavam 
l as duas quando, na semana anterior, ele entrara no salo para cortar o cabelo, ambas tinham furos nas respectivas marcaes, ambas tinham levantado a cabea e 
dado os bons-dias ao mesmo tempo. Mas Richard tinha decidido que queria o cabelo cortado pela Julie e no por ela, o que, no sabia como, tinha conduzido ao encontro 
de sbado. S de pensar nisso, Andrea franziu a testa.
Ai!
Trazida ao presente pelo grito de dor, Andrea olhou para a imagem do cliente no espelho. Era um advogado, no incio da casa dos trinta. E estava a esfregar a cabea. 
Andrea retirou as mos.
- 0 que  que aconteceu, doura?
- Deu-me uma espetadela na cabea, com a tesoura.
- Dei?
- Pois deu. E fez doer.
As pestanas de Andrea fizeram dois batimentos apressados.
- Desculpe, doura. No fiz de propsito. No est zangado comigo, pois no?
- No... zangado no - acabou ele por dizer, tirando as mos da cabea. Olhando de novo para o espelho, o cliente examinou o trabalho que ela estava a fazer. - No 
acha que o corte do cabelo est desigual?
- Onde?
- Aqui - disse o cliente, a apontar com o dedo. - Esta patilha ficou demasiado curta.
Andrea bateu as plpebras por duas vezes e, lentamente, inclinou a cabea para um dos lados e depois para o outro. - Acho que o espelho est torto.
- 0 espelho?
Ela ps-lhe uma mo no ombro e sorriu.
- Ora bem, acho que est muito bonito, doura.
- Acha?
Do outro lado da sala, perto da janela, Mabel levantou os olhos da revista que estava a ler. Reparou que o homem estava praticamente a derreter-se na cadeira. Mabel 
abanou a cabea enquanto Andrea recomeava o corte do cabelo. Passados momentos, sentindo-se mais tranquilo, o homem mudou de posio, endireitou-se mais na cadeira.
- Oua, tenho bilhetes para o espectculo de Faith Hill, em Raleigh, dentro de duas semanas - anunciou. - Estava a magicar se no gostaria de ir comigo.
Infelizmente, a mente de Andrea estava de novo ocupada com a histria de Richard e Julie. Mabel dissera-lhe que o par tinha ido ao Slocum House! Sabia, embora nunca 
l tivesse posto os ps, que o Slocum House era um restaurante para gente elegante, um daqueles lugares em que pem velas nas mesas. E, se necessrio, tomam conta 
dos casacos dos clientes, que so instalados em gabinetes especiais. Onde as mesas so cobertas com toalhas de pano, no com aquelas toalhas de plstico barato com 
quadrados vermelhos e bran
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#Lua. k-.FS seus winpanneiros nunca a levaram a um restaurante assim. 0 mais provvel  que nem sequer soubessem onde ficam os lugares desse gnero.
- Tenho muita pena, mas no posso - respondeu automaticamente.
Conhecendo o Richard (embora, como  evidente, no soubesse absolutamente nada acerca de Richard), o mais provvel  que tenha mandado flores. Rosas, talvez. Rosas 
vermelhas! Via a cena com toda a clareza, em esprito. Porque  que a Julie aambarcava todos os bons?
0 homem ficou desalentado. - Oh!
A maneira como o disse obrigou Andrea a regressar ao presente.
- Desculpe, estava a dizer o qu?
- Nada. Limitei-me a dizer oh!
Andrea nem sabia do que  que ele estava falar. Quando na dvida,
pensou, sorri. Foi o que fez. Passados momentos, o homem comeou
novamente a derreter-se.
L do seu canto, Mabel mal conseguia conter o riso.

Mabel viu Julie passar pela porta um minuto depois de o Singer ter entrado. Estava para lhe dar os bons-dias quando Andrea falou.
- 0 Richard ligou - anunciou Andrea, sem fazer qualquer tentativa para disfarar o despeito. Estava a limpar com todo o vigor as unhas j perfeitamente arranjadas, 
como se tentasse arrancar qualquer animal invisvel que se tivesse alojado nas pontas dos dedos.
- Ah, sim? - comeou Julie. - 0 que  que ele queria?
- Nem me dei ao trabalho de perguntar - retorquiu Andrea. - No sou a tua secretria, como sabes.
Mabel abanou a cabea, como a recomendar a Julie que no se preocupasse com a outra.
Aos 63 anos, Mabel era uma das amigas mais ntimas de Julie e o facto de ser tia do Jim era agora um pormenor quase secundrio. Onze anos antes, Mabel dera a Julie 
um emprego e um lugar para viver, favores que Julie nunca poderia esquecer; mas onze anos era tempo suficiente para ela saber que teria sempre apreciado a amizade 
de Mabel, mesmo que no houvesse quaisquer favores de permeio.
Julie no se importava que a amiga fosse um tanto excntrica, para no dizer pior. Durante todos aqueles anos, desde que se mudara para a cidade, foi sabendo que 
ali praticamente toda a gente era senhora de um ou outro pormenor pessoal interessante. Mas Mabel punha o E maisculo no adjectivo excntrica, especialmente na
quela cidade do Sul, pequena e conservadora, e isso no se devia a um ou dois ardis inofensivos de que ela se valia. Mabel era diferente quando comparada com outros 
habitantes da cidade e, como sucedia com as outras pessoas, tinha conscincia disso. Apesar de terem aparecido trs candidatos, nunca se casou, o que a desqualificava 
como membro dos diversos grupos de pessoas do seu grupo etrio. Contudo, mesmo ignorando outras idiossincrasias - o percorrer a cidade de motoreta, a preferncia 
pelos tecidos com pintas, a crena em que a sua coleco de recordaes de Elvis era pura arte -, Mabel continuaria a ser apontada como absolutamente esquisita 
devido a qualquer coisa que fizera h mais de um quarto de sculo. Quando tinha 36 anos de idade, depois de ter vivido em Swansboro toda a sua vida, resolveu mudar-se 
sem dizer a ningum para onde ia ou, ainda pior, sem sequer dar a informao de que pretendia mudar-se. Durante os oito anos seguintes mandou postais  famlia, 
vindos de todas as partes do mundo: Ayers Rock, na Austrlia, Monte Kilimanjaro, em frica, fiordes da Noruega, porto de Hong Kong, Wawel, na Polnia. Quando finalmente 
regressou a Swansboro, aparecendo de forma to inesperada como tinha partido, retomou a mesma vida que tinha deixado, foi habitar a mesma casa e voltou a trabalhar 
no salo. Ningum soube a razo que a levara a portar-se daquela maneira, como tambm no se soube como  que arranjara o dinheiro para ir viajar ou para, um ano 
depois do regresso, comprar o salo; tambm se recusou sempre a dar resposta a qualquer destas questes.  um mistrio, costumava responder, ao mesmo tempo que 
piscava o olho, o que s concorria para estimular as especulaes dos habitantes da terra, onde corriam boatos de que o passado de Mabel no era apenas algo escabroso; 
era pior do que isso, pois ningum sabia exactamente os sarilhos em que teria andado metida.
Mabel no se preocupava com o que as pessoas pensavam dela, o que, para Julie, era uma boa parte do seu encanto. Vestia-se como lhe apetecia, andava com quem lhe 
apetecia, fazia o que lhe apetecia. Mais de uma vez, Julie deu consigo a pensar se as histrias sobre Mabel seriam verdadeiras ou se ela as deixava circular s para 
manter as pessoas a imaginar coisas acerca de si. De qualquer das formas, Julie adorava tudo o que dizia respeito a Mabel. At a tendncia para coscuvilhar.
- Ento, como e que correram as coisas com o Richard? - perguntou Mabel.
- Bom, para dizer a verdade, estive preocupada contigo durante o tempo todo - respondeu Julie. - Pensei que poderias fazer uma
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#dtstensao nos msculos do pescoo, dada a maneira como tentavas espichar a cabea para ouvires melhor.
- Oh, no devias preocupar-te com isso - continuou Mabel -, um pouco de Tylenol e no dia seguinte estava como nova. Mas no te ponhas a mudar de assunto. Correu 
tudo bem?
- Correu bem, tendo em conta que acabara de o conhecer.
- Do ponto onde eu estava, dava a ideia de que ele j te conhecia de qualquer lado.
- Porque  que dizes isso?
- No sei. Talvez a expresso dele, ou talvez a maneira como te olhou durante rodo o sero. Por momentos, pareceu-me que os olhos dele estavam ligados aos teus por 
um fio invisvel.
- No foi assim to bvio, pois no?
- Minha querida, ele parecia um marinheiro de licena, a assistir a um espectculo s com raparigas.
Julie riu-se enquanto vestia a bata. - Presumo que o tenha enfeitiado.
- Suponho que sim.
Havia algo no tom dela que fez Julie levantar a cabea. - 0 que se passa? No gostaste dele?
- No digo isso. Nem sequer lhe fui apresentada, recordas-te? No estava c quando ele veio ao salo, e no se pode dizer que, na noite de sbado, nos tenhas apresentado 
- lamentou Mabel, a sorrir. - E, alm disso, no fundo sou uma velha romntica. Desde que um homem oua e se interesse pelo que estiveres a dizer, a sua aparncia 
no  assim to importante.
- No o achaste bem-parecido?
- Oh, tu conheces-me, sinto-me muito mais atrada pelos tipos que vm  procura da Andrea. Penso que uns braos cheios de tatuagens so irresistveis.
Julie soltou uma gargalhada. - No deixes que a Andrea oua isso. Pode sentir-se ofendida.
- No, no, nada disso. A menos que eu o desenhe, nunca descobrir de quem estamos a falar.
Naquele preciso momento, a porta abriu-se e entrou uma mulher. A primeira marcao de Julie para aquele dia. A marcao de Mabel, outra mulher, entrou uns segundos 
depois.
- Ento... vais voltar a sair com ele? - perguntou Mabel.
- No sei se ele me vai pedir, mas  provvel que sim.
- E tu, queres aquele homem?
- Sim - admitiu Julie. - Acho que sim.
Mabel pestanejou.        Bom... e o teu adorvel Bob, o que e que ele vai dizer? Vai ficar destroado.
- Se ele voltar a ligar, talvez me limite a dizer que ests interessada.
- Pois, se fazes favor, preciso de quem me ajude a pagar menos impostos. Mas, infelizmente, ele  capaz de pensar que sou demasiado aventureira para o seu gosto.
Fez uma pausa. - E quanto ao Mike, como  que vai aceitar a ideia?
Do seu posto de observao, junto da janela, vira-os a conversar.
Julie encolheu os ombros. Sabia que Mabel no deixaria de fazer a pergunta. - Bem, penso eu.
-  um bom homem, como sabes.
- Sim,  um bom homem.
Mabel no pressionou mais, sabendo que no serviria de nada. J fizera outras tentativas, sempre sem resultados. Mas, na ideia dela, era uma pena que as coisas ainda 
no se tivessem composto entre eles. Na sua opinio, Mike e Julie fariam um bom par. E, a despeito do que qualquer deles imaginava, Mabel tinha a certeza de que 
Jim no se importaria mesmo nada.
Ela tinha obrigao de saber. Afinal, fora tia dele.

Naquela manh, com o sol da manh a desencadear uma onda de calor prpria do princpio da estao quente, a chave de porcas de Mike ficou presa numa das partes de 
acesso mais difcil do motor. Com os esforos para se libertar, foi um pouco longe de mais e fez um golpe nas costas da mo. Depois de ter desinfectado a ferida 
e aplicado um penso, tentou um segundo esforo para libertar a chave, mas o resultado foi o mesmo. Praguejando consigo prprio, completamente frustrado, afastou-se 
do carro e ficou a olh-lo, com uma expresso fria, como se o quisesse intimidar para o levar a fazer o que pretendia. Durante toda aquela manh cometera erros estpidos 
uns atrs dos outros, numa reparao que era capaz de fazer de olhos fechados, para agora nem conseguir retirar a estpida da chave do stio para onde resolvera 
cair. Decerto a culpa no seria inteiramente sua. A haver um culpado, reflectia Mike, era Julie. Como  que podia concentrar-se no trabalho, se no conseguia deixar 
de pensar no namoro dela com o Richard?
Com o seu encontro agradvel. 0 seu encontro giro.
0 que  que um jantar tinha assim de to agradvel? E o que  que ela pretendera dizer com giro?
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#ou avia unia maneira ae o saber, embora se sentisse mal, s de pensar nisso. Mas qual era a outra opo? Nada daquilo estaria a suceder se Julie no se tivesse 
mostrado to evasiva, mas tambm no podia entrar no salo e perguntar directamente a Mabel, com a Julie mesmo ali ao lado. Desse modo, Henry passara a ser a nica 
opo.
Henry, o certinho, o simptico irmo mais velho.
Tinha de ser, pensou Mike.
Henry podia ter contado tudo mais cedo, mas no, era obrigatrio que lhe tivesse pregado a partida. 0 irmo sabia exactamente o que estava a fazer quando deixara 
a conversa naquele ponto exacto. Pretendia que Mike viesse mendigar informaes. Viesse at junto dele a rastejar. Para que lhe desse umas dicas.
Pois bem, desta vez no ia suceder nada disso, decidiu Mike. Desta vez, no.
Voltou a debruar-se para o motor do automvel e comeou a avanar com a mo at ao ponto onde a chave se encontrava. Continuava presa. Olhando por cima do ombro, 
imaginou que, se usasse uma chave de fendas, talvez conseguisse chegar mais longe, aonde a mo no alcanava, e libertar a chave. Decidido a experimentar, estendeu 
o brao mas, justamente quando estava a chegar ao ponto certo, voltou a ouvir a voz de Julie e deixou cair a chave de fendas.
Foi agraddvel, dissera Julie. Foi giro.
Quando tentou apanhar a chave de fendas, a ferramenta deslizou mais um pouco, fazendo sons parecidos com os daquelas bolas dos jogos de salo, acabando por desaparecer. 
Esticou-se ainda mais mas, apesar de saber tudo a respeito daquele motor, no fazia ideia do stio para onde a chave teria deslizado.
Mike ficou a olhar para o motor, a piscar os olhos, sem querer acreditar.
Que bonito, pensou, uma maravilha. A chave de porcas est presa, a chave de fendas entrou num buraco negro do motor, no estou aqui a fazer nada. H uma hora que 
estou a trabalhar e, se as coisas continuarem neste ritmo, o melhor  pensar desde j em fazer uma nova encomenda de ferramentas.
Tinha de falar com Henry. Era a nica maneira de pr o assunto para trs das costas.
Chia!
Mike pegou num pedao de desperdcios e foi limpando as mos enquanto atravessava a garagem, tentando encontrar uma forma expedita de fazer a pergunta. A dificuldade, 
sabia-o bem, era no deixar que Henry percebesse a razo por que estava to interessado na res
posta. Seria melhor que o tema surgisse naturalmente; a nao ser assim, Henry acabaria a esfregar o nariz do irmo na porcaria. 0 irmo sentia-se realizado em momentos 
daqueles. Era provvel que tivesse estado toda a manh a preparar as frases que iria pronunciar. Com uma pessoa assim, s havia uma coisa a fazer: utilizar a difcil 
arte do engano. Mais um momento para afinar o plano e Mike sentiu-se preparado para enfiar a cabea pela fresta da porta do escritrio.
Henry estava sentado  secretria cheia de papis, a fazer uma encomenda pelo telefone, tendo, mesmo ao alcance da mo, uma caixa de miniaturas de donuts e uma lata 
de Pepsi. Henry tinha sempre uma grande quantidade de comida bera, para compensar os almoos saudveis que Emma lhe preparava. Fez um aceno a pedir ao irmo que 
entrasse. Mike sentou-se do outro lado da secretria, justamente no momento em que Henry desligou.
- Era o armazenista de Jacksonville - informou Henry. - S dentro de uma semana  que tero o interruptor de que precisas para o Volvo. Lembras-me de ligar  Evelyn, 
est bem?
- Fica descansado - respondeu Mike.
- Ento, maninho, o que  que fazes por aqui?
No havia dvidas de que Henry j sabia que o irmo precisava de conversar. Pela sua expresso, tambm no era difcil adivinhar o tema da conversa e, embora lhe 
pudesse transmitir directamente o dilogo que mantivera com Mabel, no o fez. A viso de Mike a contorcer-se diante dele tinha sempre o condo de o deixar bem-disposto 
para o resto do dia.
- Bom - comeou Mike -, estive a pensar... - mas no conseguiu prosseguir.
- 0 qu? - perguntou Henry.
- Bom, estive a pensar que talvez fosse conveniente eu voltar a ir  igreja juntamente com a famlia.
Henry levou um dedo ao queixo, a pensar que aquela era uma maneira original de comear a conversa. No lhe valeria de nada, mas no podia deixar de ser considerada 
original.
- Ah, sim? - disse, a esconder o sorriso.
- . Como sabes, tenho andado um pouco afastado, mas acho que vai fazer-me bem.
Henry assentiu. - s capaz de ter razo. Encontramo-nos l ou queres que passemos por tua casa, para te levar?
Mike agitou-se na cadeira. - Antes de tomar a deciso, s pretendo saber como  nosso reverendo. Quero dizer, as pessoas apreciam o que ele diz nos sermes? Falam 
sobre o assunto depois do servio religioso?
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- nS vezes.
- Mas as pessoas conversam, depois da cerimnia, quero eu dizer. - Claro. Mas poders ver tudo isso no prximo domingo. Samos s nove.
- Nove. Est bem. Bom - disse Mike, parando por momentos. - Bom, s a ttulo de exemplo, o que  as pessoas disseram no domingo passado?
- Ora bem, deixa-me ver... - hesitou Henry, a fingir uma profunda concentrao. - Por falar nisso, estive a falar com a Mabel.
Bingo!, pensou Mike, a sorrir para dentro. Tal como estava planeado. Sou o rei dos fingidores.
- Mabel? - perguntou.
Henry estendeu a mo para os donuts. Dando uma dentada, acenou com a mo e recostou-se na cadeira, a falar ao mesmo tempo que comia. - Pois. Ela costuma ir mais 
cedo, mas penso que se atrasou por qualquer motivo. Falmos durante muito tempo e nem calculas as coisas interessantes que me contou.
Ficou um momento a olhar para o tecto, contando os pequenos orifcios decorativos das placas que o cobriam, depois voltou a sentar-se na posio inicial, a abanar 
a cabea. - Mas no deves querer saber aquilo de que conversmos. Estivemos apenas a falar do namoro da Julie e j me disseste que o assunto no te interessa. Ento, 
vamos buscar-te no domingo, ou no?
Apercebendo-se de que o seu belo plano se esfumara, Mike precisou de uns segundos para se recompor.
- Ah... bem...
Henry olhou directamente para ele, com os olhos brilhantes de desafio. - A menos que tenhas mudado de ideias.
Mike empalideceu. - Ah...
0 irmo soltou uma gargalhada. Tinha tido a sua diverso e, por muito que lhe agradasse, sabia que chegara a altura de parar. Muito srio, Henry inclinou-se para 
diante, sem deixar de fitar o irmo. - Diz-me uma coisa, Mike. Por que razo continuas a fingir que no queres namorar com a Julie?
Mike baixou os olhos. - Somos apenas amigos - desculpou-se, uma resposta que lhe saiu automaticamente.
Henry fez de conta que no tinha ouvido a resposta. -  por causa do Jim?
Como Mike no respondeu, Henry pousou o donut. - Ele j morreu h muito tempo. No se trata de estares a tentar roubar-lhe a mulher.
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- Nesse caso, como  que podes ter agido como se entendesses que eu no devia ter nada com ela? Como aconteceu no Vero passado, no barco?
- Porque ela precisava de tempo. Mike, tu sabes isso. No ano passado, ela ainda no estava preparada para voltar a dar-se com pessoas, talvez isso ainda acontecesse 
h seis meses. Mas agora est preparada.
Sem poder fugir, Mike no sabia o que dizer. Nem conseguia perceber como  que o irmo sabia tudo aquilo.
- No  nada fcil - acabou por responder.
- Decerto no  fcil. Pensas que foi fcil para mim fazer o primeiro convite  Emma? Havia uma quantidade de tipos a quererem namorar com ela, mas pensei que o 
pior que me podia acontecer era ela dizer que no.
- Deixa-te disso. A Emma disse-me que, muito tempo antes de te declarares, j ela andava de olho em ti. Tu e ela foram feitos um para o outro.
- Mas eu no sabia disso. Pelo menos nessa altura. A nica coisa que sabia  que tinha de fazer a tentativa.
Mike olhou o irmo de frente. - Mas ela no era casada com o teu melhor amigo.
- No - retorquiu Henry -, no era. Porm, nessa ordem de ideias, tambm no ramos amigos como acontece contigo e com a Julie.
- Isso  que torna tudo to difcil. E se eu for provocar uma alterao das relaes entre ns?
- Elas j esto a alterar-se, maninho.
- Na realidade, no esto.
- Podes ter a certeza de que esto - contraps Henry. - Se assim no fosse, nunca terias vindo fazer-me perguntas acerca do namoro dela. A prpria Julie ter-te-ia 
falado disso. Ela falou-te do Bob, no falou?
Mike no tinha resposta para a pergunta mas, ao deixar o escritrio, um minuto mais tarde, sabia que Henry tinha toda a razo.
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#QUATRO
Singer levantou a cabea da manta logo que Richard entrou no salo; embora rosnasse, f-lo num tom abafado, como se achasse que Julie ia repreend-lo outra vez.
- Viva, doura. Vem cortar o cabelo outra vez? - perguntou uma Andrea toda sorridente.
Richard vinha de calas de ganga e trazia o colarinho da camisa de denim desabotoado, deixando espao suficiente para mostrar os cabelos encaracolados do peito. 
E aqueles olhos! - Estarei disponvel dentro de um ou dois minutos.
Ele abanou a cabea. - No, obrigado. A Julie est por a?
0 sorriso de Andrea desvaneceu-se. Mordeu a pastilha elstica e fez um gesto de cabea para o fundo do salo. - Est - disse, fazendo beicinho. - Est nas traseiras.
Mabel ouviu a campainha da porta e saiu de trs do biombo, para ver quem entrara.
- Ah... Richard, no ? Como est? - inquiriu.
Richard juntou as mos  frente do peito. Reconheceu-a por t-la visto no restaurante, na noite de sbado e, embora a expresso da senhora denotasse bastante simpatia, 
reparou que ela continuava a avali-lo. As cidades pequenas so assim, como todas aquelas onde j estivera.
- Oprimo, minha senhora, obrigado. Como est?
- Bem. Julie estar aqui dentro de instantes. Est a pr uma
cliente no secador, mas vou dizer-lhe que o senhor est c. - Obrigado.
Embora no se tivesse voltado para ela, Richard sabia que Andrea continuava a observ-lo. Uma brasa, era o que muitos homens diriam acerca dela, mas Richard no 
ficara muito impressionado. A rapariga
impunha-se pela beleza torada, como se estivesse muito empennacia
em parecer bonita. Gostava de mulheres bem proporcionadas, como a
Julie.
- Richard! - exclamou Julie momentos depois. Sorriu-lhe, no
vamente impressionada com o seu excelente aspecto.
Singer levantou-se da manta e preparou-se para a seguir, mas ela
levantou a mo, mandou-o ficar. 0 co ficou quieto e deixou de
rosnar.
- Ol - respondeu Richard. - Acho que est a habituar-se a
mim, no ?
Julie olhou na direco de Singer.
- Ele? Oh, tivemos uma conversa. Penso que agora est tudo bem. - Uma conversa?
- Ele  ciumento. - Ciumento?
Ela encolheu os ombros. - S vivendo com ele  que conseguiria
compreender.
Richard ergueu uma sobrancelha, mas no fez mais comentrios. - Ento, o que  que o traz por c? - perguntou Julie. - Pensei vir saber como estava.
- Estou bem, mas neste momento tambm estou bastante
ocupada. Tenho estado afundada em trabalho durante toda a manh.
Porque  que no est a trabalhar?
- Estou.  como se estivesse, de qualquer modo. A funo de
consultor d-me uma certa liberdade e decidi dar um salto  cidade. - S para me ver?
- No consegui pensar em mais nada para fazer.
Ela sorriu. - 0 meu sero de sbado foi muito agradvel -
afirmou Julie.
- 0 meu tambm.
Os olhos de Richard passaram de Mabel para Andrea e, embora
ambas parecessem ocupadas com outras coisas, sabia que elas estavam
a ouvir. - Acha que podia fazer um pequeno intervalo, de modo a
podermos andar um pouco l fora? Telefonei antes, mas ainda no
tinha chegado.
- Adoraria. Mas tenho uma pessoa  espera, no fundo do salo. - No demoraramos muito.
Julie hesitou, dando uma olhadela ao relgio.
- Prometo - acrescentou Richard. - Sei que est a trabalhar. Uma estimativa rpida mostrou que talvez pudesse dispor de uns
minutos.
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#- ^cno que esta nem - acedeu -, mas nao me posso demorar. De outra forma, terei de passar o resto do dia a tentar fixar a cor e, quanto a si, vai poder acabar na 
casota dos ces. Mas tem de dar-me um segundo para ir verificar uma coisa, est bem?
-  claro.
Julie foi ver como estava a cliente. A mulher estava a fazer madeixas e tinha a cabea coberta por um capacete de plstico perfurado. Diversas pontas de cabelo, 
que saam pelos furos do capacete, estavam pintadas de cor prpura. Julie conferiu a cor, ps o secador menos forte, ganhando mais uns minutos, e voltou  parte 
da frente.
- Tudo bem - concluiu, ao dirigir-se para a porta. - Estou pronta.
Richard seguiu-a para a rua. A porta fechou-se depois de ele
passar, fazendo soar de novo a campainha.
- Ento, de que  que me quer falar?
Richard encolheu os ombros. - Na verdade, no  nada de impor
tante. S quis t-la toda para mim durante um minuto. - Est a brincar comigo. - De maneira nenhuma. - Mas, porqu?
- Meu Deus! - exclamou, a fazer-se de inocente. - No sei muito bem.
- Encontrei o seu carto - informou Julie. - No tinha de fazer aquilo.
- Sei que no. Mas fi-lo de boa vontade.
- Foi por isso que hoje de manh ligou para o salo? Para saber se eu o tinha recebido?
- No. S queria ouvir a sua voz. Boas recordaes, compreende? - J?
- Fiquei enfeitiado.
Julie olhou para ele, a pensar que ser lisonjeada era uma maneira bem interessante de comear o dia. Passado um momento, Richard comeou a brincar com a correia 
do relgio.
- No entanto, alm de querer v-la, existe outra razo para a minha vinda.
- Oh, j percebo. Agora que j deu a graxa toda, chegou o momento da verdade,  isso?
Ele riu-se. - Mais ou menos. Quis v-la porque me agradaria muito que voltssemos a sair no sbado.
Subitamente aflita, Julie lembrou-se de que no sbado estava combinado um jantar em casa de Emma, com o Henry e o Mike.
hem gostaria, mas nao posso. Uns amigos ja me conviaararn para jantar em casa deles. Podemos ir antes na sexta-feira? Ou num outro dia da semana?
Richard abanou a cabea. - Gostaria de poder, mas vou esta tarde para Cleveland e no estarei de regresso antes de sbado. E acabei de ser informado de que talvez 
tenha de me ausentar outra vez durante o fim-de-semana seguinte. No est definitivamente resolvido, mas o mais certo  ter de ir - continuou. Fez uma ligeira pausa. 
- Tem a certeza de que no consegue?
- Na verdade, no posso - disse Julie, soltando as palavras com esforo, desejando no ter de as dizer. - So bons amigos. No posso decepcion-los  ltima hora.
Uma expresso inescrutvel passou pelo rosto de Richard, mas desapareceu to depressa como tinha aparecido. - Tudo bem - acabou por dizer.
- Tenho muita pena - lamentou-se ela, esperando que ele percebesse que estava a ser sincera.
- No se fala mais nisso.
Pareceu concentrar-se num ponto distante, antes de olhar de novo para Julie. - No se preocupe, so coisas que acontecem. Nada de importante. Mas no se importa 
que lhe ligue dentro de um par de semanas? Ou melhor, quando regressar? Pode ser que possamos combinar qualquer coisa.
Um par de semanas?
- Bem, espere l - disse Julie. - Podia vir jantar comigo. Tenho a certeza de que os meus amigos no se importam.
Richard abanou a cabea. - No. So seus amigos e no sou l muito bom a relacionar-me com pessoas. Nunca fui; penso que  por timidez. E no quero obrig-la a mudar 
os seus planos.
Sorriu antes de apontar com a cabea para o salo. - Oua, obrigou-me a prometer que no a demorava e sou o gnero de homem que gosta de cumprir a sua palavra. Alm 
disso, tambm tenho de regressar ao trabalho - acrescentou, a sorrir. - A propsito, acho que est muito bonita.
Quando Richard se voltou para se ir embora, e antes que pudesse pensar melhor, Julie chamou-o: - Espere!
Richard parou. - 0 que ?
Eles ho-de compreender, no  verdade?, pensou.
- Se no vai estar na cidade durante a semana que vem, talvez eu consiga modificar os planos. Eu falo com a Emma. Estou certa de que no se vai importar.
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#- ivao quero ser responsavei peia quebra cio seu compromisso. - No  assim to importante... Estamos sempre em contacto.
- Tem a certeza? - insistiu ele.
- Sim, tenho a certeza.
Olhou-a nos olhos, como se a visse pela primeira vez. - Fantstico!... - exclamou e, antes de ela se aperceber do que estava a passar-se, inclinou-se e beijou-a.
Sem grande presso, sem insistncia, mas um beijo, sem sombra de dvida.
- Obrigado - murmurou.
Antes que ela pensasse em qualquer coisa para dizer, Richard
rodou sobre os calcanhares e comeou a percorrer a rua. Tudo o que
Julie pde fazer foi deix-lo ir.

- Mas, ele beijou-a? - perguntou Mike, de boca aberta.
Antes, quando estava no parque de estacionamento da garagem, tinha visto Richard a subir a rua. Ficou a v-lo entrar sozinho no salo, tinha observado a sada de 
Richard e Julie; Henry chegava, no preciso momento em que Richard se inclinou para beijar Julie.
- Foi o que pareceu - respondeu Henry.
Mas eles nem se conhecem.
Ficaram a conhecer-se.
Obrigado, Henry. Fazes que me sinta muito melhor.
Preferes que te minta?
Neste momento, penso que preferia - murmurou Mike.
Ora bem - concluiu Henry, pensando no assunto. - Aquele tipo  mesmo feio.
Ao ouvir o comentrio do irmo, Mike escondeu a cara nas mos.

De regresso ao salo, Julie foi at junto da cliente.
- Pensei que se tinha esquecido de mim - queixou-se a mulher,
ao pousar a revista no colo.
Julie verificou a cor de alguns tufos de cabelo. - Desculpe, mas
eu estava a controlar tudo pelo relgio. Parece que ainda lhe restam
alguns minutos. A menos que o queira assim escuro. - Penso que devia ficar mais claro, no acha? -julgo que sim.
A mulher continuou a descrever a cor exacta que desejava. Embora Julie se apercebesse de que a cliente estava a falar, no conseguia concentrar-se no que ela dizia. 
Em vez disso, estava a pensar em Richard e naquilo que acabara de acontecer  porta do salo.
Ele beijara-a.
Nada de extraordinrio,  certo, nada que alterasse a ordem mundial. No entanto, por qualquer razo, no conseguia deixar de pensar naquilo, tal como no sabia exactamente 
o que sentia. A maneira como acontecera fora to... to... to o qu?
Prematura? Surpreendente?
Julie dirigiu-se ao lavatrio para procurar o champ adequado, ainda a tentar chegar a uma concluso, quando Mabel entrou.
- Ser que vi mesmo aquilo que penso que vi? - perguntou. -  verdade que ele te beijou?
- Beijou-me,  verdade.
- No me pareces muito feliz.
- No tenho a certeza de que feliz seja a palavra exacta para descrever o que sinto.
- Porqu?
- No sei - admitiu. - Pareceu-me... - Julie parou, ainda  procura da palavra exacta.
- Inesperado? - ofereceu Mabel.
Julie ficou a pensar. Embora fosse prematuro, no lhe parecia que tivesse ido longe de mais. E achava-o verdadeiramente atraente, e concordara em sair com ele; por 
isso, no tinha a certeza de que surpresa fosse a palavra correcta. Por outro lado, se ele tivesse feito aquilo no final do sero de sbado, o mais provvel era 
ela no ter posto o gesto em dvida. Quanto ao sbado seguinte, bem, certamente sentir-se-ia insultada se ele no tentasse beij-la.
Nesse caso, porque  que tinha a sensao de que ele saltara uma barreira sem pedir autorizao para o fazer?
Julie encolheu os ombros. - Acho que foi isso.
Mabel ficou a estud-la durante uns momentos. - Pois bem, diria que isso significa que ele se divertiu tanto como tu - avanou. - Embora eu no esteja totalmente 
surpreendida. Como  bvio, est a pressionar-te com uma corte segundo mandam todas as regras.
Julie assentiu lentamente. - Acho que sim.
- Achas?
-  que ele tambm deixou um carto no alpendre. Encontrei-o hoje pela manh.
Mabel enrugou a testa.
- Ests a achar que  demasiado? - perguntou Julie. - Tendo em conta que acabmos de nos conhecer?
- No necessariamente.
- Mas pode ser visto assim?
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#- unia, la nem sei. Fode ser aquele gnero de homem que sabe o que quer e, quando o encontra, persegue a presa com o mximo entusiasmo. Conheci montes de homens 
assim. Tm um certo encanto. E tu s a presa, como sabes.
Julie sorriu.
- Ou pode haver outra razo - disse Mabel, com um encolher de ombros muito elaborado: - Talvez ele seja chalado.
- Muito obrigada.
- No tens de qu. Mas, de qualquer das formas, o que posso  dar-te as boas-vindas ao mundo maravilhoso do namoro. Como eu estou sempre a dizer, as pessoas nunca 
se fartam, pois no?

H muito tempo que Richard no soltava uma gargalhada assim e, dentro do carro, o som parecia mais alto do que realmente era.
Ele  ciumento, foi o que Julie disse acerca do co. Como se, honestamente, acreditasse que ele era humano. Bonito.
0 sero que passaram juntos foi maravilhoso. Tinha apreciado a companhia dela, decerto que sim, mas o que acabara por admirar mais era a sua fora de nimo. Tivera 
uma vida difcil, capaz de marcar com a amargura ou a raiva a maioria das pessoas, mas durante o encontro no notara nela traos de nenhum desses sentimentos.
Tambm era adorvel. A maneira como lhe sorrira, com uma excitao quase infantil e os sinais da luta interior que travou para decidir se ia ou no ao jantar com 
os amigos... Pareceu-lhe que podia ficar a observ-la durante horas, sem nunca se sentir cansado.
0 meu sero de sbado foi muito agradvel, tinha dito Julie.
Ele tinha quase a certeza de que fora, mas hoje tivera de a ver para confirmar. A mente consegue engendrar ideias esquisitas no dia seguinte a um encontro, como 
 sabido. As perguntas, as preocupaes, os medos... Deveria ter feito isto, deveria ter dito aquilo? No dia anterior tinha reconstitudo o encontro em pormenor, 
recordando as expresses de Julie e tentando descobrir qualquer segundo sentido nas suas afirmaes, ou o sinal de qualquer erro que ele tivesse cometido. Tinha 
ficado acordado, incapaz de dormir, at que, finalmente, teve de lhe escrever um bilhete e deix-lo junto da porta dela, para que Julie o encontrasse logo pela manh.
Mas no devia ter-se preocupado. Ambos tinham apreciado o encontro, um bom encontro mas nada de excepcional. Ridculo chegar a admitir que poderia ter feito algo 
de errado.
0 telemvel tocou e ele verificou a origem da chamada.
Blansen, da empresa. 0 supervisor, sem dvida para dar mais ms notcias acerca do programa, acerca dos atrasos, acerca de desvios nos custos oramentados. Atrasos. 
De Blansen chegavam sempre novidades desagradveis. 0 mensageiro das ms notcias. Um homem deprimente, aquele Blansen. Diz que se preocupa com os subordinados, 
mas, na realidade, o que quer dizer com isso  que pretende que eles trabalhem muito.
Em vez de responder, voltou a recordar a imagem de Julie. Pensou que encontr-la da forma como a encontrou, fora certamente obra do destino. Havia milhares de lugares 
onde poderia ter ido naquela manh. S precisaria de cortar o cabelo dentro de umas duas semanas, mas tinha empurrado a porta do salo, como que impelido por uma 
fora desconhecida, pelo destino.
0 telemvel voltou a tocar.
Sim, o encontro correra bem, mas ainda havia ali qualquer coisa. Hoje, para o final da conversa...
Talvez no devesse t-la beijado. No fizera planos para a beijar, mas ficara to radiante por ela ter cancelado o seu compromisso, s para voltar a sair com ele... 
que aquilo aconteceu. Uma verdadeira surpresa para ambos. Mas teria sido exagerado, cedo de mais?
Sim, decidiu, provavelmente fora e era lamentvel. No havia pressa nenhuma. Achou que seria prefervel levar as coisas com mais calma na prxima vez que se encontrassem. 
Dar-lhe um pouco de espao, deix-la chegar s suas prprias concluses acerca dele, sem qualquer presso. Naturalmente.
0 telemvel tocou pela terceira vez, mas Richard continuou a ignor-lo. Dentro da cabea, voltou a ver toda a cena.
Que coisa bonita!
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CINCO
Na noite de sbado, durante o jantar, Richard ficou a observar Julie, do outro lado da mesa, com um tnue sorriso a bailar-lhe nos lbios.
- Est a rir-se de qu? - perguntou Julie.
Richard pareceu acordar, mostrou-se embaraado.
- Desculpe.  que sonhei acordado durante um segundo ou dois. - Sou assim to maadora?
- De maneira nenhuma. S tenho a agradecer que tenha con
seguido vir jantar comigo esta noite - justificou-se, levando o
guardanapo aos cantos da boca. - J lhe disse que esta noite est
encantadora?
- Uma dezena de vezes, mais ou menos.
- Quer que no diga mais?
- No. Chame-me vaidosa, mas tenho a impresso de que aprecio
o pedestal.
Richard riu-se. - Vou fazer tudo o que puder para a manter a em cima.
Estavam no Pagini's, um restaurante aconchegado de Morehead City, que cheirava a temperos frescos e manteiga derretida, o gnero de lugar onde os empregados vestem 
de preto e branco e alguns dos pratos so confeccionados junto da mesa. Ao lado da mesa, num balde de gelo, haviam posto uma garrafa de Chardonnay; o empregado tinha 
enchido os dois copos que lanavam chispas amarelas naquele ambiente de luz suave. Vestido com um casaco de linho, Richard aparecera diante da porta de Julie a segurar 
um ramo de rosas e a cheirar vagamente a gua-de-colnia.
- Ora bem, diga-me como  que correu a sua semana - comeou. - Que coisas excitantes  que aconteceram na minha ausncia?
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- No trabalho?
- No trabalho, na vida, em qualquer lado. Pretendo saber tudo.
- Provavelmente essa pergunta faz mais sentido em relao a si.
- Porqu?
- Porque - admitiu Julie - a minha vida no tem nada de excitante. Trabalho num salo de beleza de uma pequena cidade do Sul, ou j se esqueceu?
Disse isto com bom humor, com vivacidade, como que a dizer que no estava a lamentar-se. - E, alm disso, acabo de perceber que no sei grande coisa a seu respeito.
- Ai isso  que sabe.
- Acho que no. No me falou muito de si. Nem sei exactamente o que  que faz.
- Julgo ter-lhe dito que era consultor, ou no disse?
- Sim, mas no entrou em grandes pormenores.
- Porque o meu trabalho  uma maada.
Ela fingiu adoptar um ar de cepticismo e Richard ficou pensativo por um instante. - Est bem... o que fao... Bem, pode imaginar que sou o tipo que, trabalhando 
nos bastidores, assegura as condies para que a ponte se aguente de p.
- No  nada maador.
- Esta  apenas uma maneira bonita de dizer que vivo mergulhado em nmeros durante todo o dia. Nesse sentido, sou aquilo a que muitas pessoas chamam um maluquinho 
dos nmeros.
Ela examinou-o por momentos, a duvidar de que fosse assim. - E a reunio era sobre isso?
- Qual reunio?
- A de Cleveland.
- Ah, no - respondeu Richard, abanando a cabea. - H um outro projecto para uma obra, na Florida, a que a empresa quer concorrer, e h muito trabalho a fazer: 
projeces de custos, estimativas de trfego, clculos de cargas a suportar, coisas desse gnero. Tm o seu prprio pessoal, certamente, mas consultam pessoas como 
eu para se assegurarem de que tudo, at ao mais nfimo pormenor, est de acordo com as normas impostas pelas autoridades. Ficaria espantada com o volume de trabalho 
que tem de ser feito antes de se iniciar um projecto. Sozinho, sou responsvel pelo derrube de enormes reas florestais, s pelo volume de papelada que o governo 
exige e, de momento, luto com alguma falta de pessoal.
Julie continuou a observ-lo  luz difusa do restaurante. 0 rosto anguloso, simultaneamente austero e juvenil, a recordar-lhe os ho
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mens que ganham a vida a Lazer poses para os anncios de cigarros. Tentou, e no conseguiu, imaginar qual seria o aspecto dele em criana.
- 0 que  que faz nas horas vagas? Isto , quais so os seus passatempos?
- Pouca coisa, na verdade. Entre o trabalho e os exerccios para manter a forma, no me fica muito tempo para outras coisas. Costumava fazer um pouco de fotografia. 
Fiz alguns cursos na universidade e, durante algum tempo, cheguei mesmo a encarar a hiptese de enveredar pela carreira. At comprei algum equipamento. Mas  uma 
maneira difcil de arranjar dinheiro para pagar as contas, a menos que se pretenda abrir uma loja, mas no me senti vocacionado para passar os fins-de-semana a fotografar 
casamentos e bar mitzvahs,* ou midos trazidos  fora pelos pais.
- E ento decidiu ser engenheiro?
Ele assentiu. Por momento, a conversa chegou a um beco sem sada e Julie pegou no seu copo de vinho.
- E  natural de Cleveland?
- No, no vivi este tempo todo em Cleveland. S um ano, mais ou menos. Na verdade, cresci em Denver e passei l a maior parte da minha vida.
- 0 que  que os seus pais fazem?
- 0 meu pai trabalhava numa fbrica de produtos qumicos. A mam era apenas a mam. De incio, pelo menos. Sabe como : vida da casa, fazer a comida, manter a casa 
arrumada, o tipo de vida descrito na srie Leave It to Beaver. Porm, depois da morte do pap, teve de arranjar emprego como empregada de mesa. No ganhava muito, 
mas l foi dando para irmos vivendo. Para ser franco, no sei como  que ela conseguia equilibrar-se.
- Parece ser uma mulher notvel.
- Era.
- Era?
-  - corrigiu e baixou os olhos, a rodar o copo entre os dedos. - Fez um derrame cerebral h uns anos e... como hei-de dizer, no est bem. Mal se apercebe do que 
est a acontecer  sua volta e nem se recorda de mim. De facto, recorda-se de muito pouco. Tive de a
* Cerimnia judaica que consagra a entrada na puberdade e o incio da maturidade religiosa: 13 anos para os rapazes (bar) e 12 anos e um dia para as raparigas (bat). 
(NT)
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internar numa instituio especializada no tratamento da doena dela, em Salt Lake City.
Julie estremeceu. Ao observar a reaco dela, Richard abanou a cabea.
- No se incomode. Voc no sabia. Mas, para ser franco, no  um assunto de que eu costume falar, especialmente quando as pessoas sabem que o meu pai tambm morreu. 
Pem-se a imaginar como  que ser viver sem famlia. Contudo, suponho que no precisa de que lhe explique como .
No, pensou Julie, no preciso. Esse  um territrio que conheo bem.
- Ento foi por isso que saiu de Denver? Por causa da sua me?
- Ela foi apenas uma parte do problema - respondeu Richard, a examinar o tampo da mesa, antes de olhar de novo para ela. -julgo que chegou a altura de lhe contar 
que j fui casado. Com uma mulher chamada Jessica. Tambm concorreu para a minha sada da cidade.
Embora um pouco surpreendida por ele no ter mencionado antes o casamento, Julie no disse nada. Pareceu-lhe que ele se debatia com o dilema de continuar ou no 
a falar do assunto, mas, finalmente, ele prosseguiu, numa voz neutra, sem emoo.
- No sei o que  que correu mal. Podia estar aqui o resto da noite, a falar e a procurar encontrar o sentido de tudo o que se passou, mas, para falar com sinceridade, 
ainda no consegui entender. Afinal, s sei que no deu certo.
- Quanto anos  que foi casado?
- Quatro.
Richard encarou-a, do outro lado da mesa. - Quer realmente falar do assunto?
- No, se no est disposto a contar-me.
- Obrigado - respondeu, respirando fundo. - Nem faz ideia de quanto fico satisfeito por me ter dito isso.
Ela sorriu. - E, depois, Cleveland, no foi? Gosta de l viver?
- No  mau, mas no passo l muito tempo. Habitualmente estou onde a empresa tem projectos em execuo, como sucede aqui, de momento. Terminado este projecto, no 
fao ideia de para onde vou.
- Julgo que por vezes deve ser duro.
- E, s vezes , em especial quando sou obrigado a viver em hotis. Este projecto  interessante porque vou passar aqui algum tempo e consegui encontrar uma casa 
para alugar. Alm de,  preciso no esquecer, ter tido a oportunidade de a conhecer.
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A medida que ia ouvindo, Julie ia ficando mais admirada pelo paralelismo da vida de ambos, desde o facto de serem filhos nicos, criados s pelas mes,  deciso 
que ambos tomaram de recomear a vida noutra terra. E embora os seus casamentos tivessem acabado de formas diferentes, algo na maneira de Richard falar parecia dar 
a entender que fora ele a ser abandonado e que se debatera com um verdadeiro sentimento de perda, posteriormente. Ali, em Swansboro, Julie ainda no encontrara ningum 
capaz de perceber quanto ela por vezes se sentia s, especialmente nos perodos de frias, quando Henry e Mike falavam de ir visitar os pais, ou Mabel ia para Charleston, 
passar uns tempos com a irm.
Mas Richard sabia o que custava, o que a fazia sentir uma crescente afinidade com ele, do gnero da que se pode sentir ao visitar um pas estrangeiro e verificar 
que as pessoas sentadas na mesa mais prxima so naturais de uma terra vizinha da nossa.
A tarde ia morrendo e o cu estava cada vez mais escuro, destapando as estrelas. Nem Julie nem Richard queriam apressar o fim do jantar. Mandaram vir caf no fim 
da refeio e partilharam uma fatia de tarte de limo, comendo cada um do seu lado, at ficar um pedao que no podia ser reclamado por nenhum deles.
A ar ainda estava quente quando deixaram o restaurante. A espera de que ele lhe oferecesse a mo ou o brao, Julie ficou surpreendida por ele no fazer nada disso. 
Em parte, julgou-o retrado por sentir que ela fora apanhada desprevenida quando a beijara, no incio da semana; mas tambm podia acontecer que estivesse surpreendido 
consigo mesmo por todas as confidncias que fizera acerca do seu passado. Havia ali, pensou Julie, muita matria de reflexo. A pequena achega acerca do antigo casamento 
tinha cado do cu, pondo-a a tentar descobrir a razo que o levara a no o mencionar durante o primeiro encontro entre eles, na altura em que ela lhe falara acerca 
de Jim.
Bem, no fazia mal. Recordou a si mesma que as pessoas so diferentes quando chega a altura de falarem do seu passado. Alm de se ter apercebido de que, agora que 
se sentiam mais  vontade um com o outro, estava a apreciar tanto este encontro quanto apreciara o primeiro. Era agradvel, nada de extraordinrio, mas, sem dvida, 
agradvel. Quando pararam no cruzamento, Julie olhou para Richard. Gosto dele, pensou. Ainda no estou maluquinha por ele, ainda poderei dizer-lhe adeus, mas 
gosto dele. 0 que, por agora,  suficiente para mim.
- Gosta de danar? - inquiriu.
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Porqu? Quer ir danar?
- Se estiver disposto.
- Oh, no sei. No sou grande danarino.
- Venha da - encorajou Julie -, conheo um stio estupendo.
- Tem a certeza de que no quer andar por a mais um bocado? Certamente arranjaremos um stio para bebermos um copo.
- H horas que estamos sentados. Julgo que estou pronta para me divertir um pouco.
- Acha que at agora a noite no foi divertida? - perguntou Richard, a fingir-se ofendido. - E eu a pensar que estvamos a passar um sero excelente.
- Sabe muito bem o que estou a dizer. Contudo, se isso o faz sentir-se um pouco melhor, confesso que tambm no sou l muito boa a danar, pelo que prometo ficar 
muito calada se me der uma pisadela. At estou disposta a fingir que no me doeu.
- Sofrer e sorrir?
-  o papel reservado  mulher, como sabe.
- Muito bem - concordou Richard -, mas no deixarei de lhe recordar o seu compromisso.
Julie riu-se e apontou para o carro dele. - Vamos embora.
Richard alegrou-se com o som do riso dela, a primeira vez que o ouvia naquela noite.
Ia a pensar que estava a lidar com uma mulher curiosa. Beija-se uma vez e parece pr tudo em questo. Mas deixem que seja ela a dirigir e todas as precaues parecem 
desaparecer. Sabia que ela estava a tentar avali-lo, a tentar perceber como  que a histria que estava a ouvir podia ajustar-se ao homem que estava sentado do 
outro lado da mesa. No entanto, no havia dvidas acerca da compreenso patente na cara dela, quando se apercebera das afinidades entre as vidas de ambos.
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#SEIS
0 Sailing Clipper era um bar tpico das pequenas cidades costeiras. Mal iluminado e a cheirar a bafio, a tabaco e a bebidas retardadas, era popular entre os trabalhadores, 
que se amontoavam  volta do balco a encomendar cerveja Budweiser aos litros. Encostado  parede oposta, o palco estava um pouco acima de uma pista de dana algo 
empenada, mas raramente desocupada quando a banda
estava a tocar. Umas dezenas de mesas, tendo gravadas as iniciais da
maioria das pessoas que alguma vez entraram no bar, estavam dispostas um pouco ao acaso, sem um nmero certo de cadeiras  volta de cada uma.
0 grupo que ocupava o palco, Ocracoke Inlet, podia ser considerado habitual no Clipper. 0 dono, um homem amputado de uma perna que as pessoas tratavam por Leaning 
Joe*, gostava do grupo porque os rapazes tocavam msica que punha os clientes bem-dispostos, o que os levava a quererem ficar e, em consequncia, a consumirem maiores 
quantidades de bebidas. No tocavam nada de original, nada de arriscado, nada que no pudesse ser encontrado nas jukeboxes dos bares espalhados pelo pas, o verdadeiro 
motivo por que, na opinio de Mike, toda a gente gostava tanto deles. Eram realmente apreciados. Ao contrrio do que acontecia nas actuaes dos grupos em que ele 
tocava, as pessoas acorriam aos magotes quando os Inlet actuavam. Porm, nunca convidaram o Mike a tocar com eles, embora ele tratasse por tu a maioria dos msicos 
do grupo. Fossem, ou no, uma banda de segunda ordem, a ideia era deprimente.
* Leaning, em ingls, significa inclinado. 0 nome da personagem faz, portanto, uma aluso  sua deficincia fsica. (NT)
Era preciso, porm, nao esquecer que a noite tora aeprimen te. Raios, bem podia dizer-se que toda a semana fora deprimente. Desde segunda-feira, quando Julie foi 
buscar o carro e mencionou casualmente (casualmente!) que, no sbado, ia sair com o Richard em vez de passar a noite com eles, Mike nunca mais deixara de sentir-se 
assustado. Tinha passado o tempo a resmungar entre dentes acerca da injustia daquela situao, de tal maneira que alguns clientes chegaram a comentar o assunto 
com Henry. Pior ainda, durante o resto da semana Mike no conseguiu reunir coragem para a falar  Julie, sabendo que, se lhe falasse, ela no deixaria de o pressionar 
para que lhe contasse aquilo que o andava a preocupar. No estava preparado para lhe dizer a verdade, porm, v-la passar junto da oficina todos os dias, constitua 
uma lembrana viva de que ele no fazia ideia do que fazer de toda aquela situao.
 claro que Henry e Emma eram fantsticos e gostava de passar o tempo com eles, mas, se queria ser honesto consigo, Mike sabia que era uma terceira roda naquele 
pequeno grupo. Eles tinham-se um ao outro como motivo de irem para casa. Pelo seu lado, Mike no tinha em casa um ser vivo, a menos que contasse com algum rato que 
uma vez por outra se escapulisse atravs da cozinha. Formavam um par para danar; durante a maior parte do tempo, Mike tinha de ficar sentado, sozinho, a ler e a 
descolar os rtulos das garrafas de cerveja. E quando Emma o convidava para danar, o que naquele noite fizera com regularidade, Mike olhava para o cho, sempre 
de cabea baixa, pedindo a Deus que ningum o visse a danar com a irm.
Irm. Cunhada. 0 que se quisesse. As formalidades pouco valiam numa altura daquelas. Quando ela pedia, continuava a sentir o que sentiria se a me se oferecesse 
para ir com ele ao baile dos finalistas, por ele no ter conseguido arranjar companhia.
No era assim que as coisas tinham sido planeadas para aquela noite. Julie tinha assegurado que vinha. Julie seria a quarta roda. Julie deveria formar um par de 
dana com ele, sorrir ao segurar um copo, rir-se e namoriscar. E teria sido assim, se no tivesse aparecido aquele Richard.
Richard.
Odiava aquele tipo.
No o conhecia. No queria conhec-lo. No lhe interessava. Ficava de sobrolho franzido s de pensar nele e estava farto de franzir a testa, pois no fizera outra 
coisa durante todo o sero.
Sem tirar os olhos do irmo, Henry acabou a sua cerveja Coors e ps a garrafa de lado.
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#-julgo que uevias cortar com essa cerveja barata que anotas a beber - comentou Henry. - Parece que te pe nervoso.
Mike olhou-o de soslaio. Henry estava a sorrir e a pegar na garrafa de Emma. A mulher tinha ido  casa de banho e, tendo em conta as bichas inevitveis quando se 
junta uma multido daquelas, Henry sabia que ela poderia demorar-se um bom bocado. J tinha mandado vir uma nova garrafa.
- Estou a beber o mesmo que tu.
- Isso  verdade - replicou Henry -, mas tens de compreender que alguns homens aguentam a bebida com mais facilidade do que outros.
- Pois, pois... continua a falar.
- Que coisa! Esta noite ests impossvel - repreendeu Henry.
- Tens passado a noite a implicar comigo.
-  o que mereces, tendo em conta a maneira como te tens portado ultimamente. Tivemos um esplndido jantar, tenho estado toda a noite a tentar envolver-te na minha 
conversao inteligente e Emma tem feito tudo para que no estejas para a sentado sozinho, como um falhado a quem a parceira deixou pendurado no meio da pista de 
dana.
- Essa no teve piada nenhuma.
- No era para ter. S estou a dizer-te a verdade. Olha para mim como o teu verdadeiro caminho para a salvao. Quando em dvida, quando necessitares de respostas, 
vem junto de mim. Precisas, por exemplo, de aliviar a presso. Ests a estragar a noite a todos.
- Olha, estou a fazer o que posso, est bem?
- Oh! - exclamou Henry, a franzir o sobrolho -, desculpa. Julgo que estou a imaginar esses teus suspiros profundos.
Mike arrancou o resto do rtulo da garrafa e fez uma bola com ele. - Pois, pois. Es um tipo cmico, Henry. Devias ir apresentar o teu nmero em Las Vegas. Podes 
crer, serei o primeiro a ajudar-te a fazer as malas.
Henry recostou-se na cadeira. - V, l. Estava apenas a querer divertir-me um pouco.
- Pois estavas,  minha custa.
Henry levantou as duas mos, com o ar mais inocente. - S tu 
que ests aqui comigo. Quem mais  que posso chatear?
Mike esbugalhou uns olhos zangados para o irmo, mas depois
olhou para o lado.
- Est bem, est... peo desculpa - disse Henry com modos apaziguadores. - Mas, ouve, vou dizer o mesmo outra vez. Por ela
ter sado com Richard no quer dizer que as tuas hipteses tenham
desaparecido para sempre. Em vez de te arrastares por a, encara o
facto como um desafio. Talvez esta derrota te inspire para esclareceres
tudo com ela.
- Estava a planear isso mesmo. - Ai estavas?
- Estava. Depois de termos conversado, na segunda-feira, decidi
fazer exactamente como me disseste. Esta seria a noite em que lhe
diria tudo.
Henry ficou a observ-lo. - Bom - acabou por dizer -, tenho
orgulho em ti.
Mike esperou por mais, mas o irmo manteve-se silencioso. - Ento? Acabaram-se as piadas? - No h razo para brincadeiras. - Porqu? No acreditas?
-  claro que acredito. Acho que tenho de acreditar. - Porqu?
- Porque vou ter oportunidade de te ver fazer o que dizes. - H?
- Os deuses esto do teu lado, irmozinho. - De que raio  que ests a falar?
Henry levantou o queixo, acenando na direco da porta. - Adivinha quem acaba de entrar?

Richard manteve-se ao lado de Julie, que esticava o pescoo em todas as direces, a procurar um lugar para se sentarem.
- Nunca pensei que estivesse to cheio - gritou Richard, por cima da vozearia. - Tem a certeza de que quer ficar?
- Venha da, isto tem a sua graa. Vai ver.
Embora esboasse um sorriso rpido de concordncia, Richard tinha as suas dvidas. 0 lugar parecia-lhe um refgio para quem bebe para fugir dos problemas, pessoas 
desesperadas que procuram a companhia de um estranho. Era, pensou, o tipo de atmosfera que promovia a ideia de que todos os que ali estavam, acompanhados ou no, 
se encontravam disponveis. Julie no pertencia a um lugar daqueles e ele tampouco se sentia ali bem.
No palco, a banda tinha recomeado a tocar e as pessoas entravam e saam da pista de dana, as que iam comear e as que saam para descansar um pouco. Estava to 
perto de Julie que lhe sentia a respirao mesmo junto do ouvido. - Vamos arranjar alguma coisa que se beba - disse -, e depois procuramos um stio para nos sentarmos.
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juiie assentiu. - certo. va a trente. u balcao  l mais para diante.
Quando comeou a deslizar por entre as pessoas, Richard ofereceu-lhe a mo. Julie aceitou-a sem hesitao. Quando chegaram junto do balco, no lhe soltou a mo; 
levantou a outra para chamar a ateno do empregado.

- Ento,  aquele, o Richard? - inquiriu Emma.
Emma, com 38 anos de idade, era uma loura de olhos verdes, sempre bem-disposta, o que fazia qualquer pessoa esquecer que no era uma mulher bonita no sentido comum. 
Baixa e de rosto redondo, andava constantemente a experimentar dietas, sem xito, embora nem Mike nem Henry conseguissem perceber as razes de tantos cuidados com 
a alimentao. As pessoas no gostavam de Emma pelo seu aspecto, adoravam-na pela pessoa que era e pelo que fazia. Prestava trabalho voluntrio regular na escola 
infantil e em cada tarde, s trs horas, abria o porto da frente e segurava-o com um tijolo, de modo a que as crianas da vizinhana tivessem um espao para se 
juntarem. E era o que elas faziam: durante horas, a casa transformava-se numa colmeia cheia de actividade graas s constantes entradas e sadas dos midos, atrados 
pelas pizas caseiras que ela fazia quase todos os dias.
Se as crianas a amavam, Henry adorava-a e considerava-se um homem de sorte por t-la a seu lado. A presena de Emma era benfica para Henry, mas o contrrio tambm 
era verdade; era frequente afirmarem que, por estarem demasiado ocupados a rirem-se um com o outro, no lhes sobrava tempo para discusses. Como Henry, Emma adorava 
a zombaria e, quando comeavam a caoar de algum, pareciam alimentar-se mutuamente. E depois de uma ou duas bebidas? Mike precisava de se precaver. Eram terrveis, 
pareciam dois tubares adultos a alimentarem-se dos mais pequenos.
Mike pensava que, infelizmente, na altura no passava de um tubaro beb, a nadar diante das mandbulas abertas da me. A viso daquele brilho esfomeado nos olhos 
deles fez que tivesse vontade de mergulhar para se proteger.
Henry assentiu. - Ele mesmo.
Emma continuou a olhar. - No  nada de deitar fora, pois no?
- Julgo que a Mabel usou a palavra... sensual - avanou Henry.
Emma apontou-lhe um dedo, como se Henry fosse um advogado que tivesse expressado uma ideia vlida em pleno tribunal. - Isso... sensual. Muito sensual. De uma forma 
atraentemente estranha, quero eu dizer.
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Mike cruzou os braos e atundou-se mais na cadeira, a rerrecur se a noite ainda poderia vir a revelar-se pior.
-  isso exactamente o que penso - disse Henry. Ainda  espera das bebidas, Richard e Julie estavam de p junto do balco, ambos de perfil. - No h dvida de que 
fazem um bonito par - acrescentou.
- No h dvida de que sobressaem no meio da multido - concordou Emma.
- Parecem sados de um desses artigos da People, onde se fala dos mais fascinantes casais de todo o mundo.
- Como se estivessem a preparar-se para fazer um filme juntos.
Finalmente, Mike resolveu interromp-los. - Deixem-se disso, vocs os dois. J entendi. Ele  perfeito,  extraordinrio,  o Senhor Maravilhas.
De olhos brilhantes de gozo, Henry e Emma olharam Mike de frente.
- No  isso que estamos a dizer - contemporizou Henry. - S pretendemos dizer que parece que .
Emma estendeu o brao por cima da mesa e deu uma palmadinha no ombro do cunhado. - E, alm disso, no h motivos para perderes a esperana. 0 aspecto no  a nica 
coisa que interessa.
Mike limitou-se a olhar para eles.
Henry inclinou-se para a mulher. - Julgo que deves saber que o meu maninho tem passado um mau bocado devido a esta situao. E, pela expresso dele, no penso que 
estejamos a ajudar.
- Oh, achas mesmo? - perguntou Emma com ar inocente.
- Seria bom que os dois deixassem de me espicaar. No tm feito outra coisa, durante toda a noite.
- Mas tu s um alvo to fcil quando ests com essa disposio - gracejou Emma. - A dor de cotovelo  isso mesmo, como sabes.
- Eu e o Henry j discutimos este assunto.
- E, alm disso no  nada bonito - continuou Emma, ignorando o comentrio do cunhado. - Aceita a opinio de uma mulher que sabe o que diz. Se no queres ser derrotado 
por um tipo como aquele,  melhor que mudes de msica, antes que seja demasiado tarde. Se continuares a portar-te como te tens portado toda a noite, bem podes dizer-lhe 
adeus a partir deste preciso momento.
Mike ficou espantado com a franqueza. - Nesse caso, devo agir como se no me importasse?
- No, Mike. Age como se te importasses realmente, como se quisesses demonstrar que queres o melhor para ela.
- E como  que fao isso?
65
#- 3clluu amigo uela.
- Eu sou amigo dela.
- No, de momento no ests a ser. Se fosses seu amigo, partilharias a felicidade que ela est a sentir.
- Como  que posso estar feliz a v-la com ele?
- Porque - contraps Emma, como se a resposta fosse bvia - estar com ele significa que a Julie est pronta a procurar o homem que lhe convm; e toda a gente sabe 
quem  esse homem. E, se queres saber, duvido sinceramente de que seja aquele tipo que ali est - continuou. Sorriu e fez uma nova carcia no ombro do cunhado. - 
Acreditas mesmo que estaramos os dois a massacrar-te se no acreditssemos que tu e ela acabaro por se entender?
Por mais que ela zombasse dele, naquele momento descobriu porque  que Henry a amava tanto. E por que razo ele prprio a amava tambm.
Como se ama uma irm, evidentemente.

Finalmente, as bebidas de Julie e Richard chegaram: usque para ele e Diet Coke para ela. Depois de pagar, quando estava a guardar a carteira, Richard olhou para 
o lado, reparando no homem que se encontrava na ponta do balco.
0 homem estava a mexer a bebida e parecia alheado de tudo. Mas Richard resolveu aguardar e, como esperava, momentos depois o olhar do homem desviou-se para Julie. 
0 homem no abandonara aquele ritual durante todo o tempo que tinham estado  espera das bebidas, fizera aquilo constantemente, apesar das tentativas para passar 
despercebido. Porm, desta vez, Richard fixou-o, olhos nos olhos, e no pestanejou at o outro desviar o olhar.
- Para quem  que est a olhar? - inquiriu Julie.
Richard abanou a cabea. - Para ningum - desculpou-se, sorrindo. - Durante um segundo, pensei em qualquer outra coisa.
- J est preparado para enfrentar a pista de dana?
- Ainda no. Julgo que preciso de acabar a minha bebida primeiro.

Andrea, metida dentro de uma mini-saia preta muito apertada,
sapatos de salto agulha e um top reduzido, esticara a pastilha elstica para fora da boca e estava a enrol-la  volta do dedo, enfastiada a ver o Cobra a emborcar 
o sexto copo de tequilla, a que acrescentou um pedao de limo cujo sumo chupou. A limpar a boca com as costas da mo, sorriu para Andrea, com o incisivo de ouro 
a faiscar com a luz fluorescente que se encontrava atrs deles.
Montado na sua Harley, o Cobra tinha aparecido diante do salo na quinta-feira pela manh - embora Andrea no o soubesse, o nome dela era mencionado com frequncia 
nos bares frequentados por motociclistas, desde Swansboro at  Louisiana - e, quando decidiu ir-se embora, ela j lhe fornecera o seu nmero de telefone, para depois 
passar o resto do dia a pavonear-se pelo salo, sentindo-se extremamente satisfeita consigo prpria. No seu deslumbramento, nem reparava nos olhares de piedade que 
Mabel lhe lanava, nem se apercebia de que, como todos os homens que namorava, o Cobra no passava de um falhado.
Tinha-lhe ligado ao princpio da tarde, depois de beber umas cervejas, para a convidar a encontrar-se com ele e os amigos no Clipper. Embora em termos tcnicos no 
fosse um convite, pois no se oferecera para a ir buscar, nem ocorrera a nenhum deles que talvez fosse conveniente comearem por comer alguma coisa, Andrea estava 
nas nuvens ainda antes de pr o auscultador no descanso, pensando que o convite em pouco se distinguia de um pedido formal de namoro. Passou uma hora a pensar no 
que devia levar vestido (pois as
primeiras impresses so as mais importantes), antes de se dirigir ao
Clipper, para o encontro com o Cobra.
0 primeiro gesto do homem fora colocar os braos  volta dela, com as duas mos a agarrarem-lhe as ndegas, ao mesmo tempo que a beijava no pescoo.
No se incomodou nada. Afinal, o Cobra nem tinha mau aspecto, especialmente quando comparado com outros tipos com quem j andara metida. Embora vestisse uma T-shirt 
preta com a gravura de uma caveira no peito e pedaos de couro cosidos numas calas de ganga sebentas, no era gordo nem peludo. E a sereia que trazia tatuada no 
brao era, tinha de o admitir, relativamente decente ao p de outras que j vira. No lhe agradava muito o pormenor do dente de ouro, mas o homem parecia bastante 
limpo e no cheirava mal, coisas que uma rapariga nem sempre consegue obter.
No entanto, acabara por concluir que a noite tinha sido uma completa perda de tempo e que cometera um erro ao dar-lhe o nmero de telefone.  que, depois dos dois 
primeiros copos, quando as coisas comeavam a ficar interessantes, tinham aparecido alguns dos amigos e um deles informou-a de que Cobra no era o verdadeiro nome 
do rapaz, era um nome de guerra s usado pelos amigos. Na verdade, chamava-se Ed DeBoner.
Foi ento que o interesse de Andrea comeou a esmorecer. Embora nem conseguisse imaginar-se a admitir o que sentia. Ao contrrio de
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(-obra (ou Snake, ou Rat, ou at Dean) Ed no era um nome ajustado a algum que conduzia uma Harley, a algum que se considerava acima da lei e era adepto da vida 
livre. Ed no era nome para um homem de verdade. Ed era um nome prprio para um burro falante, valha-nos Deus. E do apelido, nem falar.
DeBoner!
Quase cuspira a bebida no momento em que ele disse como se chamava.
- Queres voltar para casa, boneca? - perguntou o Cobra, com voz pastosa.
Andrea fez a pastilha deslizar novamente para a boca. - No.
- Ento, vamos beber mais um copo.
- Como? No tens cheta.
- Nesse caso, pagas-me uma bebida e eu mais tarde compenso
-te, boneca.
Embora tivesse gostado que a tratasse por boneca anteriormente
(e pensar nisso deixou-a deprimida), quem o dizia ento era o Cobra. E no um fulano chamado Ed DeBoner. Formou um balo com a pastilha e f-lo rebentar.
Cobra no pareceu afectado pelo escrnio com que era tratado. Ps a mo por debaixo da mesa e acariciou-lhe as coxas, mas ela levantou-se, empurrou a cadeira e foi 
 procura de outra bebida.
Foi ao aproximar-se do balco do bar que reconheceu Richard.
0 rosto de Julie iluminou-se logo que descobriu Mike, Henry e Emma, sentados numa mesa prxima da pista de dana, e procurou a mo de Richard.
- Venha da - comandou -, parece que descobri lugares para nos sentarmos.
Abriram caminho por entre a multido, atravessaram o topo da pista de dana e chegaram junto da mesa.
- Ol, malta. No esperava encontrar-vos aqui - saudou Julie. - Como  que esto?
- Vamos bem - respondeu Henry. - Resolvemos vir at c depois de jantar, para vermos o que se passa por estas bandas.
Richard mantinha-se atrs de Julie, sem lhe largar a mo. - Richard, quero apresentar-te umas pessoas. Este  o Richard, esta  a Emma e este  o Henry. E este aqui 
 Mike, o meu melhor amigo.
Henry estendeu a mo. - Ol, viva - avanou.
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Richard hesitou antes de corresponder.        Ol - limitou-se a dizer.
Seguiram-se Mike e Emma. Quando Julie olhou para Mike, este sorriu-lhe com agrado, embora se sentisse morrer ao faz-lo. No ar quente do interior do bar, as faces 
dela estavam ligeiramente coradas. Pensou que a amiga estava muitssimo bonita naquela noite.

mais.
No, no queremos incomodar - desculpou-se Richard.
No  incmodo nenhum. V l, juntem-se a ns - convidou Emma.
- No se importam, de certeza? - inquiriu Julie.
sejas pateta - respondeu Emma. - Estamos todos entre
amigos.
Julie sorriu e rodeou a mesa para se sentar. Richard seguiu-a e fez o mesmo. Uma vez todos instalados, Emma apoiou os cotovelos na mesa e interpelou o estranho.
- Ento, Richard - comeou -, fale-nos de si.

A princpio, a conversa no fluiu, foi at quase desagradvel, pois ele falava pouco e limitava-se a responder a perguntas directas. Uma vez por outra, Julie fornecia 
uma ou outra informao adicional, outras vezes dava-lhe uma cotovelada amigvel, como que a empurr-lo at ele arrancar.
Quando Richard falava, Mike fazia os maiores esforos para parecer interessado.
E estava, de uma forma que podia ser considerada algo interesseira, como se quisesse ao menos fazer uma ideia do adversrio que tinha de defrontar. Porm, com a 
passagem dos minutos, comeou a comparar o seu futuro com o dos salmes que tm de subir o rio a lutar contra a corrente. At ele conseguia ver que Julie estava 
interessada em Richard. Era inteligente (e teve de concordar que era tambm, sem dvida, bem-parecido, mas s para quem apreciasse os homens rudes e atlticos) e, 
ao contrrio de Mike, tivera educao universitria e era viajado. Embora no se risse muito e dissesse poucas piadas, e no apreciasse Emma ou Henry quando eles 
as diziam, parecia que tal desconforto assinalava mais timidez do que arrogncia. E os seus sentimentos em relao a Julie eram bem evidentes. Sempre que Julie falava, 
Richard no tirava os olhos dela, como se fosse um marido a acordar na primeira manh da lua-de-mel.
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No querem sentar-se? - ofereceu Henry. H aqui cadeiras a
- No
iiurante todo o tempo, Mike no deixou de sorrir e acenar a sua concordncia ao mesmo tempo que destilava dio contra Richard.
Um pouco mais tarde, enquanto Julie e Emma se punham ao corrente das ltimas novidades da cidade, Richard acabou a sua bebida. Perguntando a Julie se pretendia mais 
qualquer coisa, pediu desculpa e dirigiu-se de novo ao balco. Quando Henry pediu se ele no se importava de trazer mais duas cervejas, Mike tambm se levantou e 
ofereceu-se para acompanhar Richard.
- Vou ajudar a trazer as bebidas.
Chegaram junto do balco e chamaram a ateno do empregado, que fez sinal de que iria atend-los logo que pudesse. Richard puxou da carteira e, embora Mike estivesse 
mesmo ao seu lado, manteve-se em silncio.
Mike tentou meter conversa. - Ela  uma grande senhora. Richard virou-se para ele, pareceu estud-lo durante uns momen
tos e voltou  posio inicial.
- Pois  - limitou-se a dizer.
Chegados junto da mesa, Richard pediu a Julie que fossem danar
e, depois de se despedirem, foram-se embora.

- Ento, no foi assim to difcil, pois no? - perguntou Emma. Mike encolheu os ombros, sem vontade de responder. - E ele mostrou-se bastante simptico - acrescentou 
Henry.
- Um pouco sorumbtico, mas educado.
Mike pegou na cerveja. - No gostei dele - acabou por dizer. - Oh, eis uma grande surpresa! - exclamou Henry, por entre as
gargalhadas.
- No estou certo de que seja pessoa em quem se possa confiar.
Henry continuava bem-disposto. - Bom, como desperdiaste a tua oportunidade, julgo que temos de ficar por aqui durante mais algum tempo.
- Qual oportunidade?
- Disseste que esta era a noite em que ias convid-la a sair contigo.
- Cala a boca.
Um pouco mais tarde, Mike deu consigo a tamborilar com os dedos no tampo da mesa. Henry e Emma tinham ido cumprimentar outro casal e, agora que estava s, Mike tentou 
perceber exactamente aquilo que lhe desagradava em Richard Franklin.
Para alm do que era bvio.
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Havia mais qualquer coisa. Apesar do que Henry tinha dito e do que Julie parecia pensar, Richard no lhe parecia um tipo particularmente simptico. 0 que acontecera 
no balco no lhe deixou dvidas a esse respeito. Depois de ele lhe ter dito o que pensava acerca de Julie, Richard olhou-o como se j conhecesse os sentimentos 
dele em relao  amiga, adoptando a expresso de quem queria dizer claramente: Perdeste. Por isso, no te aproximes.
Nada que possa levar algum a consider-lo um tipo simptico.
Sendo assim, como  Julie parecia no ver o lado menos bom do Richard, como ele via? E por que razo estava a acontecer o mesmo com o Henry e com a Emma? Ou tudo 
aquilo no seria mais do que uma partida que a imaginao lhe estava a pregar?
Voltou a reviver toda a cena. No, acabou por decidir, no se tratava de imaginao sua. Sabia o que vira. E no gostava dele.
Recostou-se na cadeira, respirou fundo e observou a sala. Conseguiu encontrar Julie e Richard, observou-os por momentos e depois forou-se a olhar para outro lado.
Durante o intervalo para descanso da banda, Julie e Richard saram da pista de dana e encontraram uma mesa vaga no lado oposto do bar. Mike nunca mais deixou de 
olhar para l. No conseguia resistir. Embora tentasse fingir que continuava a proceder a uma avaliao de Richard, sabia que a compulso de olhar tinha mais em 
comum com a que as pessoas sentem quando se lhes depara um acidente grave. Ou, ainda mais exacto, pensou, observ-los juntos era como ver um carro a despenhar-se 
por um desfiladeiro monstruoso, mas com a oportunidade de espreitar pelo pra-brisas e ver o que se passava l dentro.
Era realmente o que parecia. Com o correr da noite, no conseguia evitar a concluso de que a sua possibilidade de conquistar Julie se tornara semelhante  hiptese 
de encontrar a Atlntida. Enquanto Mike estava para ali sozinho, Julie e Richard olhavam-se com aqueles sorrisos parvos, obviamente a apreciarem a companhia um do 
outro.
Um nojo.
Pelo menos, fora isso que lhe parecera da ltima vez que olhara, uns segundos antes.
Mas, o que  que estavam a fazer agora?
Lentamente, com toda a subtileza, Mike comeou outra vez a dirigir o olhar na direco deles. Julie estava de cara voltada e, graas a Deus, no conseguia ver que 
ele a observava. Se o caasse a olhar, no deixaria de lhe fazer um gesto ou de lhe sorrir ou, pior ainda, podia ignor-lo. As duas primeiras reaces fariam que 
parecesse um idiota, a ltima seria suficiente para o lanar no desespero.
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#
#Durante todo o tempo, Mike no deixou de sorrir e acenar a sua concordncia, ao mesmo tempo que destilava dio contra Richard.
Um pouco mais tarde, enquanto Julie e Emma se punham ao corrente das ltimas novidades da cidade, Richard acabou a sua bebida. Perguntando a Julie se pretendia mais 
qualquer coisa, pediu desculpa e dirigiu-se de novo ao balco. Quando Henry pediu se ele no se importava de trazer mais duas cervejas, Mike tambm se levantou e 
ofereceu-se para acompanhar Richard.
- Vou ajudar a trazer as bebidas.
Chegaram junto do balco e chamaram a ateno do empregado, que fez sinal de que iria atend-los logo que pudesse. Richard puxou da carteira e, embora Mike estivesse 
mesmo ao seu lado, manteve-se em silncio.
Mike tentou meter conversa. - Ela  uma grande senhora. Richard virou-se para ele, pareceu estud-lo durante uns momen
tos e voltou  posio inicial.
- Pois  - limitou-se a dizer.
Chegados junto da mesa, Richard pediu a Julie que fossem danar
e, depois de se despedirem, foram-se embora.

- Ento, no foi assim to difcil, pois no? - perguntou Emma. Mike encolheu os ombros, sem vontade de responder. - E ele mostrou-se bastante simptico - acrescentou 
Henry.
- Um pouco sorumbtico, mas educado.
Mike pegou na cerveja. - No gostei dele - acabou por dizer. - Oh, eis uma grande surpresa! - exclamou Henry, por entre as
gargalhadas.
- No estou certo de que seja pessoa em quem se possa confiar.
Henry continuava bem-disposto. - Bom, como desperdiaste a tua oportunidade, julgo que temos de ficar por aqui durante mais algum tempo.
- Qual oportunidade?
- Disseste que esta era a noite em que ias convid-la a sair contigo.
- Cala a boca.

Um pouco mais tarde, Mike deu consigo a tamborilar com os dedos no tampo da mesa. Henry e Emma tinham ido cumprimentar outro casal e, agora que estava s, Mike tentou 
perceber exactamente aquilo que lhe desagradava em Richard Franklin.
Para alm do que era bvio.
Havia mais qualquer coisa. Apesar do que Henry tinha dito e do que Julie parecia pensar, Richard no lhe parecia um tipo particularmente simptico. 0 que acontecera 
no balco no lhe deixou dvidas a esse respeito. Depois de ele lhe ter dito o que pensava acerca de Julie, Richard olhou-o como se j conhecesse os sentimentos 
dele em relao  amiga, adoptando a expresso de quem queria dizer claramente: Perdeste. Por isso, no te aproximes.
Nada que possa levar algum a consider-lo um tipo simptico.
Sendo assim, como  Julie parecia no ver o lado menos bom do Richard, como ele via? E por que razo estava a acontecer o mesmo com o Henry e com a Emma? Ou tudo 
aquilo no seria mais do que uma partida que a imaginao lhe estava a pregar?
Voltou a reviver toda a cena. No, acabou por decidir, no se tratava de imaginao sua. Sabia o que vira. E no gostava dele.
Recostou-se na cadeira, respirou fundo e observou a sala. Conseguiu encontrar Julie e Richard, observou-os por momentos e depois forou-se a olhar para outro lado.
Durante o intervalo para descanso da banda, Julie e Richard saram da pista de dana e encontraram uma mesa vaga no lado oposto do bar. Mike nunca mais deixou de 
olhar para l. No conseguia resistir. Embora tentasse fingir que continuava a proceder a uma avaliao de Richard, sabia que a compulso de olhar tinha mais em 
comum com a que as pessoas sentem quando se lhes depara um acidente grave. Ou, ainda mais exacto, pensou, observ-los juntos era como ver um carro a despenhar-se 
por um desfiladeiro monstruoso, mas com a oportunidade de espreitar pelo pra-brisas e ver o que se passava l dentro.
Era realmente o que parecia. Com o correr da noite, no conseguia evitar a concluso de que a sua possibilidade de conquistar Julie se tornara semelhante  hiptese 
de encontrar a Atlntida. Enquanto Mike estava para ali sozinho, Julie e Richard olhavam-se com aqueles sorrisos parvos, obviamente a apreciarem a companhia um do 
outro.
Um nojo.
Pelo menos, fora isso que lhe parecera da ltima vez que olhara, uns segundos antes.
Mas, o que  que estavam a fazer agora?
Lentamente, com toda a subtileza, Mike comeou outra vez a dirigir o olhar na direco deles. Julie estava de cara voltada e, graas a Deus, no conseguia ver que 
ele a observava. Se o caasse a olhar, no deixaria de lhe fazer um gesto ou de lhe sorrir ou, pior ainda, podia ignor-lo. As duas primeiras reaces fariam que 
parecesse um idiota, a ltima seria suficiente para o lanar no desespero.
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aluando se virou, viu Julie concentrada a olhar para o colo, a procurar qualquer coisa na mala de mo.
Porm, o olhar de Richard encontrou o seu numa expresso dura, concentrado numa avaliao fria, quase confiante da situao. Sim, Mike, sei que ests a olhar.
Mike sentiu-se gelar, como um garoto apanhado a tirar uma nota da carteira da me.
Queria voltar a cabea mas no parecia ter energia suficiente para executar o movimento, at que ouviu uma voz atrs de si. Olhou por cima do ombro e viu que Drew, 
o vocalista da banda, estava junto da mesa.
- Viva, Mike! - exclamou Drew. - Tens um minuto? Tenho uma coisa para te dizer.

Uma hora depois, com Cobra completamente embriagado, Andrea dirigiu-se para a casa de banho. E, como no deixara de fazer desde a primeira vez que notara a presena 
de Richard, enquanto estava na bicha ia perscrutando a sala em busca dele. Julie e ele estavam a sair da pista de dana. Richard inclinou-se para murmurar qualquer 
coisa ao ouvido da companheira e dirigiu-se para a casa de banho dos homens.
Vendo que ele tinha de passar junto dela, Andrea apressou-se a passar a mo pelo cabelo e a ajeitar a saia e o top. Saiu da bicha, cortando-lhe o caminho.
- Ol, Richard - saudou. Embora no imediatamente, viu que
Richard a reconhecera. - Andrea, no ?
Sorriu, convencida de que ele tinha mesmo de se recordar.
- Nunca o tinha visto por aqui - disse ela. - E a primeira vez que aqui venho. - No acha isto fantstico? - Nem por isso.
- Oh, tambm acho que no  grande coisa, mas no h por aqui
muitos stios aonde se possa ir. Sabe como so as cidades pequenas. - Estou a aprender - respondeu Richard. - No entanto, as noites de sexta-feira so as melhores. 
- Ai so?
-  verdade.  quando eu costumo vir. De facto, nesses dias
estou quase sempre aqui.
Ele parou, olhando directamente para ela, sem pestanejar, at que
decidiu fazer um aceno na direco de Julie.
- Oua, gostaria de ficar a conversar consigo, mas no posso. - Por ter vindo com a Julie?
72
Richard encolheu os ombros. - Vim na companhia dela.
- Pois, eu sei - concordou Andrea. - Bem, gostei de a ver - rematou ele. - Obrigada. Tambm gostei de o ver.
Momentos depois, Richard abriu a porta e esperou que ela se
fechasse atrs de si. Enquanto Andrea estava a olhar para a porta,
Cobra apareceu a cambalear por detrs dela, resmungando qualquer
coisa sobre necessidades do corpo.
Logo que ele entrou na casa de banho, Andrea decidiu que estava
na hora de se pr a mexer.
Ver o Cobra uma vez mais, pensou, s serviria para destruir a
sensao de ter estado a olhar para Richard.

Um pouco depois da meia-noite, com o mundo mergulhado em luar, Julie e Richard encontravam-se no alpendre. As rs e os grilos cantavam, uma brisa ligeira agitava 
as folhas e at Singer parecia disposto a aceitar melhor o Richard. Embora o focinho do co aparecesse por entre as cortinas e estivesse a observar o homem com cuidado, 
no soltara um nico latido.
- Obrigada por esta noite - disse Julie.
No tem de qu. Passei uma noite maravilhosa.
Mesmo no Clipper?
Desde que lhe tenha agradado, fico satisfeito por termos ido.
Mas no  o gnero de lugar que prefere?
Ele encolheu os ombros. - Para lhe ser franco,  provvel que tivesse preferido um lugar com maior privacidade. Preferia que estivessemos ss.
- Estivemos ss.
- Mas no durante o tempo todo.
Julie encarou-o com uma expresso estranha.
- Est a falar daquele bocado em que estivemos sentados junto dos meus amigos? - perguntou. - Pensou que quis fazer aquilo por no estar satisfeita?
- No soube bem o que pensar.  um tipo de escape que as mulheres usam com frequncia, quando o encontro no est a correr bem. E como se gritassem: Socorro! Preciso 
de ajuda!
Ela sorriu. - No se passou nada disso. Aquelas so as pessoas com quem tinha decidido ir jantar esta noite; quando as vi, tinha de ir cumpriment-las.
Os olhos de Richard foram da luz do alpendre at ao rosto de Julie. - Bem... como dizer, reconheo que no me mostrei muito expansi
73
vo com os seus amigos. Peo desculpa. Parece que nunca me ocorre nada para dizer.
- Portou-se muito bem. Tenho a certeza de que gostaram de si. - No estou muito certo de que o Mike gostasse. - Mike?
- Esteve a observar-nos.
Embora no tivesse reparado, apercebeu-se de que deveria estar  espera de algo do gnero. - Mike e eu conhecemo-nos h muitos anos - informou. - Ele preocupa-se 
comigo. S isso.
Richard pareceu avaliar a resposta. Finalmente, passou-lhe pelo rosto um sorriso fugaz. - Muito bem.
Durante um longo momento nenhum deles falou e Richard acabou por se acercar dela.
Desta vez, embora esperasse o beijo e desejasse que ele lho desse -
ou, pelo menos, pensou que o desejava - no conseguiu deixar de sentir um certo alvio quando ele se voltou para se ir embora.
Pensou que no havia necessidade de apressar as coisas. Quando fosse conveniente, ela saberia.
74
SETE
- Ele a vai - anunciou Henry -, mesmo  hora.
Era a manh de tera-feira, uns dias depois de terem sido apresentados no Clipper. Henry estava a beber Dr. Pepper e a observar Richard, que ia a passar na rua, 
a caminho do salo. Richard transportava um presente, uma caixa pequena, mas esse no era o motivo da curiosidade de Henry.
Como, no sbado, tinha informado o Richard do local onde trabalhava, esperou que o outro se dignasse ao menos dar uma olhadela quando passasse pela garagem. No dia 
anterior, Henry chegara a acenar-lhe, mas Richard continuou o caminho, no vendo ou fingindo no ver o cumprimento. Em vez disso, manteve os olhos no cho e seguiu. 
Tal como hoje.
Ao ouvir o irmo, Mike emergiu de baixo da tampa do motor de um automvel, pegou num pedao de desperdcios que trazia preso no cinto e comeou a limpar as mos.
- Ser consultor deve ser uma rica profisso - observou ele. - Ser que este tipo nunca tem obrigao de trabalhar?
- Agora no fiques assim. Na semana passada usaste a quota de mau humor que te devia chegar para o ano todo. Alm disso,  prefervel que o vejas a visit-la durante 
as horas de trabalho, em vez de o fazer quando ela est em casa, no achas?
Um olhar bastou a Henry para saber que o irmo nem tinha pensado naquilo. Ento, quase de imediato, o rosto de Mike assumiu uma expresso sobressaltada.
- Ser que ele vai levar-lhe um presente? - inquiriu.
- Pois vai.
- Alguma ocasio especial?
- E provvel que pretenda causar boa impresso.
75
mexe voltou a limpar as maos. Pois bem, a ser assim, talvez eu tambm passe pelo salo, um pouco mais tarde, para lhe levar uma prenda minha.
- Isso  que  falar - aplaudiu Henry, aplicando uma palmada
nas costas do irmo. - Era exactamente isso que eu queria ouvir. Um
pouco menos de amuo, um pouco mais de aco. Ns, os Harris,
nunca fomos homens de virar a cara s dificuldades.
- Obrigado, Henry.
- Mas antes de entrares pelo salo adentro armado de presentes,
deixa que te d um conselho. - Claro, avana.
- Esquece a prenda.
- Mas pareceu-me ouvir-te dizer que...
- Isso  coisa dele. No funciona no teu caso. - Mas...
- Acredita no que te digo. Far-te-ia parecer desesperado.
- Eu estou desesperado.
- Pode ser que sim - concordou Henry. - Mas no podes
dar-lhe a entender isso. Ia julgar-te pattico.

- Richard!... - exclamou Julie, a olhar para a caixa aberta que tinha na mo. L dentro estava um medalho em forma de corao enfiado num fio de ouro. -  uma beleza.
Estavam de p, do lado de fora da porta, sem repararem que Mike e Henry estavam do outro lado da rua a observ-los, alm de Mabel e Singer os espreitarem por entre 
as cortinas do salo. - Mas... porqu? Quero dizer, estamos a celebrar o qu?
- Nada. Vi o medalho e, bom... gostei. Ou melhor, pensei em si e decidi que tinha de lho oferecer.
Os olhos de Julie fixaram-se no medalho. Decerto fora caro e, por conseguinte, trazia consigo novas expectativas.
Como se estivesse a ler-lhe os pensamentos, Richard levantou as duas mos. - Por favor, quero que aceite. Se for preciso, pense que se trata de um presente de aniversrio.
- 0 meu aniversrio  s em Agosto.
- Nesse caso estou um pouco adiantado - admitiu. - Por favor!
No entanto...
- Richard...  muito bonito, mas eu no devia, de verdade... -  apenas um medalho, no  um anel de noivado.
76
Ainda um pouco insegura, ela acabou por aceitar e deu-me um beijo. - Obrigada - murmurou.
Richard apontou para o medalho. - Ponha-o.
Julie abriu o fecho e ps o fio  volta do pescoo.
- Como  que me fica?
Ele ficou a olhar o medalho, mas mostrou um sorriso esquisito, como se estivesse a pensar noutra coisa. Mesmo quando respondeu, no tirou os olhos da jia.
- Perfeito.  exactamente assim que me recordo de o ver.
- Recorda?
- Da ourivesaria - atalhou ele. - Contudo, parece muito mais belo.
- Oh! Bem, no devia ter feito isto.
- Est errada. Fiz exactamente o que devia fazer.
Julie apoiou uma das mos na cintura.
- Est a estragar-me com mimo, sabia? As pessoas no costumam andar por a a comprar-me presentes sem haver um motivo qualquer.
- Ento, fiz uma boa aco. E pensa realmente que tem de existir sempre um motivo? Nunca lhe aconteceu ver uma coisa que considerasse perfeita para dar a algum, 
e compr-la de seguida?
-  claro que j aconteceu. Mas no assim. E no quero que sinta que eu estou  espera deste tipo de coisas, porque no estou.
- Sei que no est. Essa  uma das razes por que senti prazer em fazer o que fiz. Toda a gente precisa de ser surpreendida, uma vez por outra.
Richard fez uma pausa. - Ento, tem alguma coisa para fazer nesta sexta-feira  noite?
- Pensei que ia para fora, assistir a uma reunio.
- Ia. Mas acontece que a reunio foi cancelada. Ou melhor, a minha participao foi dispensada. Tenho todo o fim-de-semana livre.
- 0 que  que tem na ideia? - perguntou Julie.
- Algo de muito especial. Porm, por agora, quero manter o segredo.
Julie no respondeu de imediato e, como notasse nela uma certa incerteza, pegou-lhe na mo. - Julie, vai adorar. Acredite em mim. Mas tem de sair um pouco mais cedo. 
Terei de ir busc-la a casa por volta das quatro da tarde.
- To cedo? Porqu?
- Levaremos algum tempo a chegar ao stio aonde vamos. Acha que consegue?
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--- auIIiu. - ieici (te alterar um pouco a morna agenda, mas acho que consigo. E quanto a roupa, a de sair ou a de todos os dias?
Era uma maneira polida de perguntar se devia levar uma mala. Se ele respondesse ambas, significava que passavam o fim-de-semana e ainda no lhe parecia conveniente 
entrar nisso.
- Eu vou de casaco e gravata, se isso a ajuda a decidir.
Decerto tinha todo o ar de um convite formal. - Acho que tenho de ir s compras - concluiu Julie.
- Tenho a certeza de que ir bonita, vista o que vestir.
Dito isto, voltou a beij-la e, quando ele acabou por se ir embora, o dedo de Julie foi acariciar o medalho. Abrindo-o, confirmou que tivera razo ao pensar que 
podia acomodar uma fotografia pequena.
Ficou surpreendida por ver que j trazia as suas iniciais gravadas, uma
de cada lado.
- As coisas no me parecem nada bem encaminhadas, maninho
- admitiu Henry. - No me interessa o que a Emma disse na noite
de sbado. Isto no me est a cheirar bem.
- Obrigado pela actualizao, Einstein - grunhiu Mike. - Deixa que te d um conselho. - Mais conselhos?
Henry assentiu, como se quisesse dizer que o irmo no tinha nada que lhe agradecer. - Antes de fazer seja o que for, tens de elaborar um plano qualquer.
- Que espcie de plano?
- No sei. Mas, se estivesse no teu lugar, no descansava enquanto no tivesse um bom plano.
-  adorvel! - exclamou Mabel, ao ver o medalho. - Julgo
que ele est definitivamente cado por ti. Isto deve ter custado uma
pequena fortuna. Importas-te?
Mabel estendeu a mo para a jia.
- No, avana - respondeu Julie, inclinando-se para diante. Mabel fez um exame completo. - No foi, certamente, comprado
em qualquer das joalharias da cidade. Parece feito  mo. - Achas que sim?
- Tenho a certeza. E no  a nica certeza acerca de Richard Franklin.
- H mais?
-  um homem de bom gosto.
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Mabel soltou o medalho e Julie sentiu-o bater levemente contra o peito. Olhou-o uma vez mais. - Agora, s falta arranjar um par de fotografias para pr aqui dentro.
As plpebras de Mabel bateram vrias vezes. - Olha, minha querida, se andas  procura no precisas de te preocupar. Ficarei muito feliz se decidires trazer uma fotografia 
minha junto ao peito. De facto, seria uma honra.
Julie soltou uma gargalhada. - Obrigada. Sabes bem que foste a primeira pessoa em quem pensei.
- No duvido. Ento, vais pr a uma fotografia do Singer?
Ao ouvir mencionar o seu nome, o co levantou a cabea. Tinha-se mantido ao lado de Julie desde que ela regressara ao salo e esta passou-lhe uma mo pelo lombo.
- Com um matulo destes, teria de me afastar a uns cem metros para conseguir uma fotografia que coubesse aqui dentro.
- Isso  verdade - concordou Mabel. - Mas o que  que se passa com o co? Ultimamente anda muito pegajoso.
- No fao ideia. Mas tens razo, anda a pr-me maluca. No consigo dar um passo sem tropear nele.
- E como  que ele se d com o Richard? Em casa, quero dizer?
- Da mesma maneira que aqui - respondeu Julie. - Fica a olhar, mas, ao menos, no lhe ladra, como fez no primeiro dia.
Singer baixou a cabea, com um latido arrastado a danar-lhe na garganta, um latido que parecia demasiado pequeno para poder sair dele.
Deixa-te de queixinhas, parecia querer dizer, ambos sabemos que me adoras, qualquer que seja a minha maneira de agir.

Um plano, pensava Mike, o que ele precisava era de um plano.
Ficou a esfregar o queixo, sem reparar que estava a deix-lo preto de leo. Henry tinha razo, pensava Mike. Pela primeira vez, o tipo tinha dito algo de importante, 
algo que fazia sentido. Sem sombra de dvida, precisava de elaborar um plano.
Porm, como Mike no tardou a compreender, era muito mais fcil dizer que precisava de um plano do que conseguir arquitectar um verdadeiro plano. No era muito dado 
a planeamentos; nunca o fora. Costumava esperar que as coisas acontecessem para, ento, se deixar ir na onda, como uma rolha de cortia que se mantm sempre  tona 
de gua e vai para onde as ondas a levam. E a vida no fora assim to m. Durante a maior parte do tempo fora feliz; durante a
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#..~l --c uu iein o sentira-se bem consigo prprio, embora as aptides de pintor e de msico no tivessem at agora sido utilizadas em toda a sua plenitude.
Mas agora a aposta era bem mais alta. Os dados estavam lanados,
chegara a altura de mostrar o jogo. Subir a parada ou calar-se. 0 caminho era difcil mas estava na altura de comear a caminhar. 0 tempo melhor  o tempo presente 
e Deus ajuda quem madruga.
Era tempo de meter mos  obra.
No entanto, mesmo que todos aqueles clichs se ajustassem, Mike continuava a nao ter uma ideia sobre o que tinha de fazer.
Um plano.
Todo o problema comeava por um facto muito simples: no
sabia por onde comear. No passado, tinha sido o bom, o amigo, a
pessoa com quem se pode contar sempre. 0 amigo que lhe reparava
o carro, que jogava  bola com o Singer, o homem que passara os dois primeiros anos depois da morte do Jim a fornecer-lhe um ombro para ela chorar. Nada disto parecia 
ter tido importncia; tudo tinha conduzido quelas duas primeiras sadas com o Richard. Ento, mudando tudo de repente, na ltima semana tinha-a evitado. No tinha 
falado com ela, no ligara para casa dela, no tinha passado por l, nem para dizer ol. E o resultado? Julie tambm no ligou, tambm no o visitou na garagem 
e, por fim, a fazer f no que tinha visto na rua, tudo resultara numa terceira sada na companhia de Richard.
0 que  que ele teria de fazer? No podia pura e simplesmente passar por l e convid-la a sair com ele. Corria o risco de Julie lhe responder que ia sair com o 
Richard e, nesse caso, como  que ele ia reagir? Ah, j ests comprometida para sbado? E quanto a sexta-feira? Ou talvez pudesse ser na semana que vem? E se tomssemos 
um pequeno-almoo juntos? Este era o convite, segundo pensava, que faria dele um verdadeiro desesperado, uma situao que, de acordo com Henry, tinha de evitar a 
todo o custo.
Um plano.
Mike abanou a cabea. 0 pior de tudo era que, com plano ou sem plano, estava sozinho.
Pois era, a situao com Richard fora uma grande decepo, pois, nos ltimos dois anos, Mike tinha-se habituado a falar com Julie, pelo menos uma vez por dia. Por 
vezes mais.
Ficaria destroado se Julie e Richard acabassem por viver juntos. Porm, se acontecesse, acontecia. Com o tempo, poderia conseguir aceitar o facto como normal.
Todavia, no conseguia encarar a possibilidade de continuar a sentir-se como se tinha sentido na semana anterior. No sentia apenas frustrao, ou medo ou, at, 
cime. Tambm no se tratara de depresso. Mais do que tudo, sentia a falta de Julie.
Sentia a falta das conversas com ela, de a ver sorrir, de ouvir o som das gargalhadas da amiga. De observar como os seus olhos, para o final da tarde, quando o Sol 
estava na posio exacta, pareciam mudar de cor: de verde para turquesa. De ouvir a respirao entrecortada, sempre que ela se aproximava do final de uma histria 
engraada. At da maneira como lhe dava pequenos socos no brao.
Talvez devesse apenas tomar alento e ir falar com ela, como sempre tinha feito at agora, como se nada se tivesse alterado entre eles. Talvez at lhe dissesse que 
ficara satisfeito por t-la visto feliz na outra noite, a mesma coisa que Mabel, Henry ou Emma poderiam dizer-lhe.
Todavia, mudando subitamente de ideias, achou que no. No ia fazer nada daquilo. No havia razes para entusiasmos. Daria passo de cada vez.
Mas havia de falar com ela.
Sabia que, como plano, no era grande coisa, mas no conseguiu pensar em mais nada.
um
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OITO
- Eli, Julie - chamou Mike -, espera a!
A caminhar em direco ao carro, Julie voltou-se e viu Mike a correr para ela. Singer arrancou na direco dele, apanhando-o primeiro. Avanando uma pata e depois 
a outra, parecia tentar prender o amigo, uma preparao necessria para uma srie de lambedelas bem molhadas e amigveis. Mike evitou essa parte, pois, por muito 
que gostasse do animal, sentia-se um pouco enojado ante a perspectiva de ficar todo molhado com saliva de co; mas no deixou de lhe fazer festas. Tal como Julie, 
falava com o Singer como se ele fosse uma pessoa.
- Tiveste saudades de mim, grandalho? Pois, pois, tambm senti a tua falta. Temos de fazer qualquer coisa juntos.
0 co arrebitou as orelhas, a mostrar-se interessado, e Mike abanou a cabea.
-No, hoje no h bola, tenho muita pena. Fica para outro dia.
Singer no pareceu decepcionado. Quando Mike caminhou ao encontro de Julie, o co endireitou-se e trotou ao lado dele, a brincar e a dar ao rabo. A brincar  uma 
maneira de dizer. Apanhando-o em desequilbrio, o co quase atirou Mike contra a caixa do correio.
- Julgo que tens de levar o co a passear mais vezes - comentou. - Est demasiado excitado.
- Est apenas excitado por te ver. Como  que ests? Ultimamente, mal te tenho visto.
- Estou bem. Mas tenho tido muito trabalho.
Ao responder, no resistiu  tentao de reparar que os olhos dela naquele dia estavam muito verdes. Pareciam feitos de jade.
- Tambm eu - informou Julie. - E na noutra noite, com o Henry e a Emma, correu tudo bem?
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- Foi giro. Foi pena que nao pudesses estar connosco, lias... Encolheu os ombros, como se no tivesse importncia, embora
Julie soubesse, pelo que Richard lhe tinha contado, que provavelmen
te tivera. Contudo, ele conseguiu surpreend-la ao mudar subita
mente de assunto. - Mas tenho algumas boas notcias - informou.
- Lembras-te da banda que estava a tocar? Os Ocracoke Inlet? Nessa
noite, quando eu ia a sair, Drew perguntou-me se estaria interessado
em substituir o guitarrista deles. 0 guitarrista habitual tem de ir a
um casamento, em Chicago, da prxima vez que tocarem no Clipper. - Boa, isso  fantstico. Quando  que vai ser?
- Dentro de duas semanas. Sei que  apenas por uma vez, mas
deve ser giro.
- Tocar para uma casa cheia, queres tu dizer?
-  claro - corroborou Mike. - Isto , porque no? Sei a
maioria das canes e a banda nem  assim to m.
- No era isso que costumavas dizer deles. - Eles nunca me tinham convidado. - Oh! Tinhas inveja, no tinhas?
Lamentou o que disse, mal a palavra lhe saiu da boca, mas Mike
no pareceu reparar.
- No, no se trata de inveja. Sentia-me vexado, mas no invejo
so. E quem sabe at aonde  que isto nos pode levar? Pode ser
exactamente o empurro de que necessito para conseguir uma situa
o mais regular.
- Bom - avanou Julie, sem querer diminuir-lhe o entusias
mo -, fico satisfeita por saber que conseguiste.
Por momentos, nenhum disse nada e Mike mexeu os ps emba
raado.
- Ento, o que  que tens andado a fazer? Quero dizer, sei que
tens andado a sair com o Richard, mas no tenho tido muitas oportu
nidades de conversar contigo. Quais so as grandes novidades?
- Nada de importante. 0 Singer anda a pr-me maluca, mas isso
 normal.
- 0 Singer? 0 que  que ele anda a fazer?
Julie p-lo ao corrente do comportamento recente do co e Mike
no conseguiu evitar uma gargalhada. - Talvez ande a pre
cisar de Prozac, ou coisa do gnero.
- Sabe-se l. Mas, se no melhorar, vou comprar uma casota de
ces e ponho-o no jardim.
- Ouve, sabes que no me importo de tomar conta do co, sem
pre que queiras ver-te livre dele por um bocado. Levo-o para a praia e,
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-~--.  uaiuiu ll~. 11
yaia _asa, escara exausto. iNao Ine restar energia para rosnar ou para ladrar, nem para andar  volta de ti
durante o resto do dia.
- Sou capaz de aproveitar a tua oferta.
- Espero que sim. Adoro este matulo - confessou, a fazer uma
festa ao co. - No  verdade?
Singer recebeu os sinais de afecto de Mike com um latido amigvel. - Quais so as ltimas cenas da Andrea? - perguntou Mike.
A rapariga era tema frequente das conversas entre eles.
- Contou-me tudo sobre o companheiro de sbado.
Mike torceu o nariz. - Aquele tipo que estava com ela no Clipper? - Tu viste-o?
- Vi. Um tipo asqueroso. Com dente de ouro e tudo. Pensei que ela tinha batido no fundo com aquele tipo da venda no olho, mas acho que me enganei.
Julie riu-se. - Gostaria de t-lo visto. Mabel contou-me exactamente a mesma coisa.
Entrou depois numa descrio do que Andrea lhe tinha contado acerca do Cobra. Mike apreciou especialmente a anedota do nome Ed DeBoner, embora no percebesse muito 
bem como  que essa caracterstica preocupava a Andrea, que no se mostrava sensvel aos outros defeitos do tipo. No final, Julie tambm desatou a rir s gargalhadas.
- Mas o que  que se passa com ela? - perguntou Mike. - Como  consegue no reparar no que est  vista de toda a gente? Chego a sentir pena dela.
- Pelo menos no tens de trabalhar com ela. Apesar de, para falar
com franqueza, ela animar um pouco as coisas l no salo.
- Fao ideia. Oh, a propsito, a Emma pediu-me que te dissesse
para lhe telefonares. Pelo menos foi isso que o Henry me disse.
- Eu ligo. Sabes do que se trata?
- No, no fao ideia. Provavelmente quer dar-te uma nova re
ceita ou uma dessas coisas de que falais uma com a outra.
- Ns no falamos de receitas. Falamos de coisas boas. - Por outras palavras, mexericam.
- No se trata de mexericos - protestou Julie. - Chama-se
estar actualizada.
- Oprimo, se ouvires alguma coisa que valha a pena, no deixes de me ligar, est bem? Passo a noite em casa. E talvez se arranje maneira de te livrar do Singer, 
nem que seja s por algum tempo. Pode ser neste fim-de-semana? - Julie sorriu. - Est combinado.
Mike pensou que tinha feito o que devia, sentia-se bastante satisfeito consigo mesmo.
No fora, longe disso, uma conversa sobre temas elevados ou sobre coisas ntimas, mas foi o suficiente para se convencer de que Julie continuava a gostar de falar 
com ele. Disseram piadas, riram-se juntos e isso conta, ou no?  claro que conta!
Achou que a sua actuao tinha sido perfeita: manteve a conversa em tom ligeiro, evitou temas problemticos e, melhor do que tudo, sentiu que talvez voltassem a 
conversar mais tarde, depois de ela ter falado com a Emma. A cunhada nunca deixava de dizer qualquer coisa que merecesse ser repetida e se, na pior das hipteses, 
no o fizesse, estava convencido de que a oferta de ajuda com o Singer era praticamente uma garantia de que Julie lhe ia ligar.
Recusou-se a pensar em Richard. Sempre que a imagem dele, ou a imagem dele na companhia de Julie, ou at a imagem daquele estpido medalho lhe vinham  cabea, 
forava-se a p-las de parte. Richard poderia levar algum avano, mas Mike no estava disposto a deixar que de momento esse pormenor viesse estragar-lhe os pensamentos 
acerca de Julie.
Pode dizer-se que a estratgia, ou parte dela, funcionou bastante bem. Mike manteve o bom humor durante o resto do dia de trabalho, na viagem para casa e at durante 
o jantar. De facto, a boa disposio durou at ao noticirio da noite, que Mike viu j deitado na cama.
0 telefone, apercebeu-se com tristeza, no tinha tocado.

Mike viveu o resto da semana numa tortura constante.
Julie no telefonou nem se desviou um pouco para ir  oficina cumpriment-lo.
Embora pudesse ser ele a ligar-lhe, mesmo que antes nunca tivesse hesitado em pegar no telefone para conversar com ela, agora no
estava disposto a tomar a iniciativa. Pelo que sabia, ela no lhe
telefonava por estar com Richard e tambm no podia correr o risco de lhe ligar para casa e ouvi-la explicar que, de momento, no podia conversar porque estava 
acompanhada. Ou porque estava a preparar-me para sair. E se, por acaso, ela no estivesse em casa, sabia que iria passar o resto da noite sem conseguir pregar 
olho, a magicar aonde  que ela poderia ter ido.
E o mal no foi apenas a falta da chamada de Julie, nem o facto de Richard aparecer todos os dias (e provavelmente tambm  noite!); o pior foi que, na sexta-feira, 
Mike viu Julie sair do salo a meio da
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tarde. Embora no soubesse para onde ela ia, tinha quase a certeza de que sabia o motivo daquela sada antes da hora. Richard, pensou.
Tentou no dar importncia ao caso, disse a si prprio que no tinha motivos para se preocupar. Por que motivo havia de se preocupar com o que ela fazia? A sua noite 
j estava programada: tinha cerveja no frigorfico, um clube de vdeo mesmo  esquina e uma pizaria a trinta minutos de caminho. Passaria um bom bocado. Nada de 
fantstico. Espojar-se no sof e deixar sair a presso acumulada durante a semana, talvez ouvir uns discos antes de pr o vdeo, ficar ali toda a noite, se lhe apetecesse.
Por momentos, ficou a imaginar como ia correr o sero, mas acabou por ceder e deixou cair os braos. Era pattico, pensou. A vida dele parecia capaz de fazer adoecer 
os mais saudveis.
Mas a cereja do bolo, como costuma dizer-se, foi que, apesar de estar decidido a no se importar, acabou por descobrir aonde Richard e Julie tinham ido. No por 
ela. Em vez disso, soube tudo por intermdio de pessoas que mal conhecia, por palavras e frases soltas que ouviu aqui e ali, por toda a cidade: na mercearia, no 
restaurante, at na garagem, enquanto estava a trabalhar. De sbito, parecia que at mesmo pessoas que Julie quase s conhecia de vista, pessoas com quem ela talvez 
convivesse durante uns minutos depois do servio religioso de domingo, sabiam muito mais do que ele. Na manh de segunda-feira precisou de quase vinte minutos para 
reunir a energia necessria para saltar da cama.
Segundo parecia, Richard tinha ido buscar a Julie numa limusina previamente fornecida de champanhe e tinham ido jantar a Raleigh. Depois, na sede do municpio, em 
lugares da frente, tinham assistido a uma representao de 0 Fantasma da pera.
No entanto, como se tudo aquilo no fosse suficiente para a impressionar, aconteceu que Richard e Julie tambm passaram o sbado juntos, perto de Wilmington.
Antes do piquenique na praia, passearam num balo de ar quente. Como diabo  que Mike poderia competir com um tipo que podia fazer coisas daquelas?
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NOVE
Aquilo  que era um fim-de-semana, pensava Julie com os seus botes. Richard podia, sem dvida, dar algumas instrues ao Bob acerca da maneira de impressionar uma 
senhora. Com os diabos,
Richard at poderia dirigir seminrios sobre o tema.
No domingo de manh, ao olhar a prpria imagem reflectida no espelho, continuava a sentir dificuldade em acreditar. No passava um fim-de-semana como aquele h... 
bom, nunca tinha passado um fim-de-semana como aquele. 0 teatro constitura uma nova experincia e, quando ele, finalmente, lhe dissera, quando seguiam na limusina, 
para onde iam, imaginou ser provvel que viesse a apreciar o tipo de espectculo, mas sem ter a certeza absoluta. 0 seu conceito de espectculo musical baseava-se 
nos que tinham sido adaptados ao cinema havia dezenas de anos, como Music Man e Oklahoma; algures, nas profundezas da mente, albergava a ideia de que ver aquele 
espectculo em Raleigh, em vez de o ver em Nova Iorque, deveria ser quase o mesmo do que assistir a uma pea razovel, levada  cena pelo grupo de teatro de uma 
escola secundria.
Caramba! Como estava enganada!
Ficou fascinada com tudo o que viu: casais vestidos a rigor e a beber vinho nos jardins antes do incio do espectculo, o silncio da multido logo que a iluminao 
comeou a diminuir, as primeiras notas enrgicas da orquestra que a fizeram saltar na cadeira, o romantismo e o drama da histria, o virtuosismo dos intrpretes 
e as canes, algumas to fascinantes que lhe encheram os olhos de lgrimas. E as cores! Os adereos e os trajes com combinaes estonteantes de cores, o jogo entre 
os focos de luz intensa e as zonas de profunda escurido, tudo a concorrer para transformar o palco num mundo simultaneamente irreal e dotado de imensa vitalidade.
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Ao retlectir sobre isso, todo o sero lhe pareceu uma fantasia. Nada
daquilo lhe era familiar e durante algumas horas tivera a sensao de
ser subitamente projectada para um universo diferente, em que no era cabeleireira numa pequena cidade do Sul, a rapariga cujo facto mais marcante da semana costumava 
ser algo to mundano como a remoo de uma mancha de sujidade mais teimosa. No, aquele era outro mundo, um lugar ocupado por habitantes de comunidades fechadas 
e elitistas, que analisavam as cotaes do mercado de ttulos nos jornais da manh, enquanto a empregada domstica preparava as crianas para irem para a escola. 
Mais tarde, quando ela e Richard saram e olharam para o alto, quase ficou admirada por no ver duas luas a iluminarem o cu da baixa da cidade.
Mas, cuidado, no tinha nada a reclamar. No carro, a caminho de casa, a inalar o cheiro almiscarado do couro dos assentos e as bolhas do champanhe e subirem-lhe 
ao nariz, recordou-se de ter pensado: Ento,  assim que vive a outra metade. No me custa nada perceber que as pessoas se habituem a este tipo de coisas.
0 dia seguinte foi tambm uma surpresa. No s pelo entretenimento mas tambm pelo absoluto contraste em relao  noite anterior: luz do dia em vez do escuro da 
noite, um passeio em balo de ar quente em vez do espectculo, um passeio a p atravs de ruas animadas em vez da viagem de automvel, um piquenique na praia em 
lugar do jantar no restaurante. Um repertrio completo de encontros de namorados, em apenas dois dias, como dois recm-casados que tentassem aproveitar as ltimas 
horas da lua-de-mel.
Apesar de o passeio de balo ter sido engraado, um pouco assustador quando o vento aumentou mas interessante, de tudo o que fizeram, desde passear de mos dadas 
s poses que adoptou enquanto ele lhe tirava vrias fotografias, o que mais apreciou foi o piquenique. Aquilo sim, pensara, estava mais de acordo com a vida a que 
estava habituada. Tinha feito piqueniques em toda a sua vida - Jim gostava muito - e, por momentos, voltou a sentir-se ela prpria. Uma sensao que no tardou a 
desvanecer-se. No cesto do piquenique havia uma garrafa de Merlot, alm de fruta e de uma tbua de queijos; depois da refeio, Richard disps-se a fazer-lhe uma 
massagem aos ps. Quando ele falou nisso, parecera-lhe sentimentalismo barato e comeou por se rir da ideia; porm, quando ele lhe agarrou o p com todo o carinho, 
lhe tirou a sandlia e comeou a massaj-lo, no conseguiu resistir, imaginando que Clepatra deveria ter-se sentido assim to bem, to descontrada, ao ser refrescada 
pelo movimento suave das folhas de palmeira.
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Por estranho que parea, naquele momento pensou na me.
Apesar de ter decidido, h muito tempo, que a sua progenitora era intil como me e como modelo de virtudes, recordou-se de uma coisa que ela lhe respondeu, quando 
Julie lhe perguntou o motivo de ter deixado de se encontrar com um namorado recente.
- Ele no fazia balanar o meu barco - informara a me no tom mais normal possvel. - Acontece, por vezes.
Julie, ento com oito anos, aceitara a explicao, tentando imaginar onde  que eles guardariam o barco e qual o motivo de nunca o ter visto.
Anos depois, percebia finalmente o que a me quisera dizer e, ao ver Richard a segurar-lhe os ps, recordou-se da expresso.
E, quanto a Richard, fazia balanar o barco de Julie?
Pensava que a resposta devia ser sim. No era provvel que conseguisse encontrar um homem melhor, pelo menos em Swansboro. Falando de homens aceitveis, ele demonstrava 
possuir todas as caractersticas positivas do rol, mas, naquele momento, depois de quatro encontros romnticos e de terem passado tanto tempo juntos, apercebeu-se 
subitamente de que ele no era homem para isso. Perceber aquilo deixou-a com a sensao de estar presa no fundo de uma piscina, mas no podia deixar de pensar que, 
fosse o que fosse que juntava as pessoas em casais - compatibilidade, magia ou uma combinao das duas coisas - isso no estava presente na relao dela com Richard. 
No sentia os pequenos calafrios no pescoo que sentira quando Jim lhe pegou na mo pela primeira vez. No sentiu vontade de fechar os olhos e sonhar com um futuro 
em conjunto e teve a certeza de que no ia passar o dia seguinte a caminhar  toa, naquele entorpecimento romntico. Ele era perito a preparar encontros; era apenas 
isso e, por mais que quisesse pensar o contrrio, no estava certa de que Richard fosse mais do que parecia: um homem simptico... o tipo de homem perfeito para 
outra mulher qualquer.
Acontece, por vezes, tal como a me lhe disse.
No sabia se uma parte do problema no estaria na sua tentativa de ir demasiado depressa no domnio sentimental. Talvez precisassem de mais tempo para se sentirem 
bem e  vontade um com o outro. Afinal, a sua relao com Jim levara tempo a consolidar-se. Depois de mais alguns encontros, talvez olhasse para trs e se admirasse 
de ter sido to picuinhas. Certo?
Pensava se isso seria possvel, enquanto escovava o cabelo em frente do espelho. Talvez. Depois, pousando a escova, pensou que teria de ser assim mesmo. S precisavam 
de um melhor conhecimento
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mutuo. piem d e que a culpa era dela, em parte. Era ela quem estava a jogar  defesa.
Embora ela e Richard tivessem passado horas a falar um com o outro, raramente foram alm da conversa superficial.  claro que Richard sabia o essencial acerca dela, 
tal como ela ficara a saber os pormenores mais bvios acerca dele. Mas Julie no tinha avanado muito. Sempre que o passado parecia querer emergir, arranjava maneira 
de o evitar. No lhe tinha revelado quanto a relao com a me fora difcil, como era desconsolador ver homens a entrar e sair l de casa, a qualquer hora, como 
se sentira infeliz por ter de sair de casa sem sequer acabar o curso secundrio. No lhe falara do medo que sentiu durante o tempo em que viveu na rua, especialmente 
a altas horas da noite. Ou como se tinha sentido depois da morte do Jim, quando duvidara de que alguma vez voltasse a ter foras para prosseguir. Aquelas eram as 
ms recordaes, as que deixavam um travo amargo sempre que falava delas. Em parte, sentira-se tentada a contar-lhe tudo, para que Richard pudesse avaliar quem na 
realidade ela era.
Mas no o fez. Por qualquer razo, no encontrou nimo para o fazer. E Richard tambm no se revelou prdigo quanto aos pormenores da sua vida. Tambm tinha a sua 
maneira de evitar o passado.
Porm, no era a isso que tudo acabava por se resumir? Na capacidade de comunicar, de se abrir e de confiar? Ela e Jim tinham revelado essa capacidade mas, como 
acontece com o dilema da galinha e do ovo, no conseguia recordar-se do que tinha acontecido primeiro: o formigueiro no pescoo ou as outras coisas todas.
0 retinir da campainha do telefone interrompeu-lhe o desfiar das recordaes. Singer seguiu-a at  sala e ficou a v-la pegar no auscultador.
- Estou!
- Ento, o que  que aconteceu? - disparou a Emma. - Quero saber tudo. Nem penses esconder-me seja o que for.

- Uma massagem nos ps? - perguntou Mike, sem procurar disfarar o espanto. Aquele era um pormenor que no tinha ouvido da boca de estranhos.
- Foi o que ela disse  Emma, ontem.
- Mas... uma massagem?
- No me custa admitir que o homem tem talento. - No estou a falar disso.
Mike fez uma pausa e meteu ambas as mos nos bolsos. Tinha um
ar abstracto. Henry inclinou-se para a frente.
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- Ouve, odeio ter de te dar mais notcias tristes, mas o Benny
telefonou a dizer que vem c hoje.
Mike mostrou desconforto. Benny, pensou. Santo Deus, o Benny. Uma grande semana em perspectiva, no era?
- E Blansen continua a dizer que precisa do camio - continuou
Henry. - Vais t-lo pronto quando ele chegar, no vais? Faz parte do
contrato que eu assinei com aquela gente da ponte, por isso  importante. - Est bem, vai ficar pronto a tempo.

Andrea no conseguia acreditar, no queria acreditar. Toda aquela histria lhe provocava dores de estmago, especialmente o ar de displicncia com que Julie falava 
do que acontecera. Uma limusina? Champanhe? A pea... Fantasmas das peras, ou l como lhe chamavam? Passeio de balo? Piquenique na praia?
Andrea no queria ouvir mais. Por acaso, nem queria ouvir, mas isso no era possvel num local pequeno como era o salo.
0 seu fim-de-semana no tivera qualquer semelhana com o de Julie. No, o seu fim-de-semana tinha sido igual a todos os outros que passara nos tempos mais recentes, 
apenas mais um numa linha de fins-de-semana para esquecer. Passara a noite de sexta-feira no Clipper, a contrariar pela segunda vez os avanos do Cobra. Apesar de 
no ter combinado encontrar-se l com ele, o homem viu-a mal ela acabava de chegar e tinha passado todo o sero  sua volta como um insecto  procura de uma vtima. 
E sbado? 0 que dizer de passar horas a reparar as estpidas das pontas das unhas que tinha estragado na noite anterior? Como  que passaste o fim-de-semana, doura? 
Apetecia-lhe gritar. Aposto que estou a pr o teu sangue a ferver de inveja, no estou?
Porm, ningum se dera ao trabalho de lhe perguntar como passara o fim-de-semana. No, Julie e Mabel s se preocupavam com o que Julie tinha feito. E, ento, o 
que  que aconteceu? Aposto que ficaste embasbacada, no? Parece uma maravilha. Julie, Julie, Julie. S Julie  que contava, sempre. E Julie a encolher os ombros 
e a contar tudo aquilo como se no tivesse a mnima importncia.
No canto, Andrea polia as unhas como se fosse uma rebarbadora humana. Aquela, pensava, no era a maneira como as coisas deviam acontecer.

Richard abriu a porta do salo e segurou-a para deixar sair a cliente que Julie acabava de atender.
- Oh, viva, Richard! - exclamou Julie. - Chegaste na altura exacta. Acabei mesmo agora.
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#r,mt)ora estivesse longe de ter compreendido todas as emoes que ele lhe suscitava ficou satisfeita por ele aparecer, quando mais no fosse porque a presena dele 
poderia torn-las mais inteligveis.
- Ests muito bonita - elogiou Richard, inclinando-se para a beijar.
Embora breve, o beijo foi objecto de uma anlise objectiva por parte de Julie. No foi de embandeirar em arco, pensou, mas tambm no provocou qualquer sensao 
estranha. Apenas... um beijo.
E pensou de imediato que, a continuar assim, iria acabar ainda mais maluca do que a me.
- Dispes de uns minutos para bebermos um caf? - perguntou ele.
Mabel tinha ido ao banco. Andrea estava no canto, a folhear o National Enquirer ou, como dizia, a ler o jornal, mas Julie sabia que ela estava de ouvido  escuta.
- Sim - concordou Julie -, disponho de algum tempo. A minha prxima marcao  para daqui a meia hora.
Ao responder, viu os olhos de Richard focados num tringulo de pele visvel por debaixo do seu queixo.
- Onde est o medalho?
Num gesto automtico, Julie levou a mo ao peito.
- Oh, hoje no o pus. Est sempre a prender-se na roupa enquanto estou a trabalhar e esta tarde tenho de fazer uma poro de permanentes.
- Porque  que no o metes para dentro da blusa?
- J tentei mas est sempre a sair.
Deu um passo para a porta. - Vamos - pediu. - Vamos sair
daqui. Estive toda a manh metida aqui dentro.
- Queres que compre um fio mais curto?
- No sejas ridculo. Tem o comprimento ideal. - Mas no o usas - insistiu ele.
Julie no respondeu e, no longo silncio que se seguiu, observou-o
cuidadosamente. Embora Richard estivesse a sorrir, havia algo de
fingido na sua expresso.
- Importa-te assim tanto que eu no o use? - perguntou.
- E que pensei que tinhas gostado dele.
-  claro que gostei dele. S no quero us-lo enquanto estou a
trabalhar.
Uma vez mais, a expresso de brandura dele pareceu forada; porm, antes que Julie decidisse o que devia pensar, Richard pareceu sair do encantamento em que se encontrava 
e o seu sorriso voltou a ser normal, como se todo o episdio no tivesse passado de uma iluso.
- Vou arranjar um fio mais curto - anunciou. - Desse modo,
passas a ter dois e podes usar o medalho sempre que te apetea.
- No  preciso nada disso.
- Eu sei - disse ele, baixando os olhos por um instante, e
voltando a olh-la de novo. - Mas eu quero.
Julie encarou-o de frente, sentindo subitamente... o qu?


Desgostosa, Andrea ps o Enquirer de lado logo que eles saram do salo. Pensou que Julie era a maior idiota que existia  superfcie do planeta.
Depois de um fim-de-semana como aquele, o que  que Julie estaria a pensar?
Devia saber que Richard no deixaria de aparecer. Ainda no falhara um dia e Andrea percebia perfeitamente que ele se sentisse ofendido com a falta de considerao 
de Julie. Quem no se sentiria ofendido? Tipos como o Richard no aparecem todos os dias, a darem presentes como um poltico a visitar um orfanato na vspera do 
Natal. Seria possvel que Julie no estivesse agradecida pelo que ele fazia? Seria capaz de parar para reflectir que talvez, apenas talvez, devesse encontrar maneiras 
de fazer Richard feliz, em vez de s pensar nela? Alguma vez pararia para reflectir que talvez Richard lhe tivesse dado o medalho porque queria ver a estpida da 
jia pendurada ao pescoo dela? Porque, ao us-la, estaria a mostrar-se agradecida por tudo o que Richard estava a fazer por ela?
0 problema era Julie no saber apreciar o que tinha. Pensava certamente que todos os homens eram como Richard. Provavelmente, pensava que todos os homens gastam 
rios de dinheiro em presentes, em encontros e em passeios de limusina com mulheres. Mas as coisas no so assim. Pelo menos numa cidade pequena como aquela. Com 
mil diabos, pensava Andrea, s o aluguer da limusina tinha talvez custado mais do que tudo o que os homens tinham gasto em encontros com ela durante o ltimo ano. 
Provavelmente custara mais do que a maioria dos homens que a convidavam a sair ganha num ano inteiro.
Andrea abanou a cabea. Julie no merecia um homem como aquele.
Era uma grande sorte para ela que Richard fosse um tipo fantstico. Sem esquecer,  claro, o seu aspecto. Andrea comeava a pensar que Richard era o homem mais fascinante 
que alguma vez tinha visto.
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Manipulada.
Era como Julie se sentia, agora que Richard tinha regressado ao emprego.
Manipulada. Como se quisesse que lhe prometesse comear a usar o medalho enquanto estivesse a trabalhar. Como se devesse sentir-se culpada se no o fizesse.
Como se tivesse de o usar sempre.
No lhe agradava o sentimento, que ela agora estava a tentar conciliar com o homem que a levara a passear durante o fim-de-semana. Como  que poderia ficar to incomodado 
por uma coisa to... insignificante? Seria assim to importante para ele?
A menos que, essa era a dvida, estivesse a ver no facto uma espcie de declarao subconsciente dos sentimentos que ela alimentava em relao a ele.
Julie imobilizou-se de repente: bem gostaria de saber se era assim que ele pensava, especialmente se tivesse em conta a maneira como ela se tinha sentido no domingo. 
Tinha usado o medalho desde que ele lho dera, tinha-o usado durante todo o fim-de-semana. E no era impossvel us-lo quando estava a trabalhar, era apenas inconveniente. 
Porm, naquela manh tinha decidido deix-lo em casa, pelo que talvez...
No, pensava Julie a negar com a cabea, no era nada disso. Sabia bem o que estava a fazer. 0 medalho atrapalhava mesmo. Na semana anterior, por duas vezes, estivera 
quase a partir o fio, que ficara preso no cabelo dos clientes ainda mais vezes. No estava a us-lo naquele dia porque no queria estrag-lo.
E, para mais, isso nem era o mais importante. No tinha nada a ver com ela, nem com os motivos que a levavam a usar, ou no usar, o medalho; o que estava em causa 
era a maneira como ele reagiu. No apenas por ter acontecido, mas por causa da maneira como aconteceu. A maneira como falou, a cara que fez, a sensao que lhe transmitiu... 
tudo a preocupava.
Jim nunca fora assim. Quando Jim se zangava, o que, tinha de admiti-lo, no acontecera com frequncia, nunca tentava manipul-la. Nem tentava esconder a fria por 
detrs de um sorriso. E Jim nunca lhe provocara aquela impresso com que Richard a deixou, uma impresso que no lhe agradava mesmo nada.
Richard parecia querer dizer: Desde que faamos tudo como eu quero, no voltaremos a ter problemas deste gnero.
0 que deveria ela pensar de tudo aquilo?
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DEZ
Mike estava na garagem, muito compenetrado, a fazer esforos inauditos para no apertar o pescoo do cliente.
0 que tambm desejaria fazer ao irmo, por lhe ter impingido aquele cliente muito especial. Logo que Benny Dickens entrou, Henry lembrou-se repentinamente de uma 
chamada importante de que se havia esquecido e ps-se a mexer.
- Mike, no te importas de o atender, pois no?
Benny, de 21 anos, era filho dos donos da mina de fsforo existente  sada da cidade, uma empresa que empregava mais de trezentas pessoas, o que fazia dela a maior 
fornecedora de postos de trabalho de Swansboro. Deixara a escola no dcimo ano mas era dono de uma casa monstruosa junto ao rio, comprada com o dinheiro do pap. 
Benny no trabalhava, nem alguma vez lhe passara pela cabea que devia trabalhar, e havia dois pequenos Bennys, pelo menos, na cidade, filhos de duas mes diferentes. 
Mas a famlia Dickens era de longe o cliente mais importante da oficina, o tipo de cliente que uma pequena empresa no se pode dar ao luxo de perder. E o pap adorava 
o filho. 0 pap acreditava que o seu menino era capaz de andar sobre a gua. H muito tempo que Mike chegara  concluso de que o pap era um idiota.
- Mais ruidoso - dizia Benny, com o rosto a ficar afogueado,
com a voz a transformar-se num guincho. - Disse-te que o queria mais ruidoso!
Estava a falar do motor do Calloway Corvette que tinha comprado recentemente. Tinha-o trazido para a oficina para que Mike pusesse o motor a cantar mais alto. 
Mike sups que ele queria o motor assim para o pr de acordo com uma pintura de chamas que na semana precedente mandara fazer na tampa do motor e com o sistema de
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alia 11uc11uaue que mancara instalar. t,moora nao tivesse andado na faculdade, na semana seguinte, Benny ia levar o carro  Spring Break de Fort Lauderdale, por 
ocasio das frias escolares, esperando seduzir o maior nmero possvel de raparigas. Um rapaz deveras impressionante.
- 0 motor est alto - afirmou Mike. - Mais alto  ilegal. - No  nada ilegal.
- Os polcias vo mand-lo parar - argumentou Mike -, isso
posso eu garantir.
Benny piscou os olhos como se estivesse a fazer um esforo enorme
para perceber o que Mike acabava de dizer.
- No sabes do que ests a falar, meu estpido macaco engordu
rado. No  nada ilegal, ests a ouvir o que te digo?
- Estpido macaco engordurado - assentiu Mike. - Percebi. Duas mos  volta daquele pescoo, os polegares em cima da ma
de Ado. Apertar e agitar.
Benny ps as mos nos quadris. Como sempre, trazia o seu Rolex. -  verdade que o meu pai manda reparar todos os camies aqui?
.
- E  tambm um bom cliente? - .
- No foi aqui que comprei o Porsche e o jaguar? - Foi.
- E no pago sempre tudo a tempo e horas? - Paga.
Benny agitou os braos com desespero, a gritar cada vez mais alto.
- Ento, porque  que no puseste o motor mais alto? Recordo que vim c explicar-te tudo muito claramente, h apenas uns dias. Disse que o queria barulhento. Para 
passar na avenida principal! As midas gramam o barulho! E no vou l para apanhar sol! Ests a ouvir-me?
- Midas, no apanhar sol - resmungou Mike. - Percebi. - Ento pe-no a fazer barulho que se oua! - Barulho que se oua.
- Exactamente! E quero tudo pronto amanh. - Amanh.
- Rudo! Consegues entender isso, no consegues? Rudo! - Consigo.
Postado atrs de Mike, Henry coava o queixo. Logo que Benny tinha arrancado, a fazer patinar os pneus do Jaguar, tinha regressado 
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oficina. Mike estava debruado sobre o motor, a ferver e a resmungar sozinho, sem reparar na presena do irmo.
- Talvez devesses t-lo posto um pouco mais ruidoso - sentenciou Henry. - 0 motor, quero eu dizer.
- Cala-te!
Henry levantou as duas mos a fazer papel de inocente. - S estou a tentar ajudar.
- Pois ests. Como o tipo que faz rodar o interruptor da cadeira elctrica. Porque  que me puseste a atender aquele tipo?
- Sabes que no consigo suport-lo.
- E, ento, eu consigo?
- Talvez no. Mas a encaixar insultos s muito melhor do que eu. Lidaste muito bem com ele e sabes que no podemos perder um cliente como este.
- Estive quase a deitar-lhe as mos ao pescoo.
Mas no deitaste. E pensa bem: poderemos debitar-lhe um extra.
Continua a no valer a pena.
V l, Mike, deixa-te disso. Portaste-te como um verdadeiro profissional. Fiquei impressionado.
- 0 gajo chamou-me estpido macaco engordurado.
- Vindo de quem veio, talvez devesses encarar isso como um elogio.
Henry ps a mo no ombro do irmo. - Mas, se isto voltar a acontecer, talvez seja melhor tentar qualquer coisa diferente. Acalm-lo um bocado.
- Fita adesiva?
- No, estava a pensar em algo um pouco mais subtil.
- Por exemplo?
- No sei.
Henry fez uma pausa e comeou a afagar o queixo. - Alguma vez pensaste em te ofereceres para lhe massajar os ps?
Mike ficou boquiaberto.
Por vezes, sentia um dio mortal em relao ao irmo.

Jake Blansen chegou um pouco depois das quatro da tarde para levar o camio; depois de ter pago a factura no escritrio, acercou-se de Mike.
- As chaves esto na ignio - informou Mike. - Para que saiba, ajustei-lhe os traves que estavam um bocado frouxos. Tenha isso em conta. Para alm disso, est 
a para as curvas.
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axe Diansen assentiu. u prottipo do homem de trabalho, Jake Blansen tinha a barriga proeminente dos bebedores de cerveja e os ombros largos, com um palito preso 
entre os dentes e um logotipo da NASCAR no bon de basebol. Grandes gotas de suor tinham-lhe ensopado a camisa, deixando manchas circulares  volta dos sovacos. 
As botas e as calas estavam cobertas por uma camada de cimento e p.
- Eu digo-lhes - prometeu Jake. - Embora, para te ser franco, no sei porque  que me meto nisto. Segundo as normas, a manuteno devia encarregar-se de todos os 
veculos. Mas acho que sabes como aquilo  por l. Os manda-chuvas lixam aquilo tudo.
Mike acenou com a cabea na direco de Henry. - Sei o que queres dizer. Aquele tipo que ali vs tambm consegue ser um grande chato. Mas ouvi dizer que tem de tomar 
Viagra, o que me leva a
desculp-lo. Saber que se  apenas meio homem deve ser difcil de
engolir.
Jake soltou uma gargalhada. Gostara daquela.
Mike tambm estava a sorrir; ao menos, sentia-se parcialmente
vingado. - E quantos tipos  que esto l a trabalhar?
- Nem eles sabem. Talvez umas duas centenas. Porqu? Andas 
procura de emprego?
- No, sou mecnico. Acontece que conheci um dos engenheiros, um consultor na obra da ponte.
- Qual deles?
- Richard Franklin. Conheces?
Sem tirar os olhos de Mike, Jake tirou o palito da boca. - Sim, conheo-o - respondeu.
- Bom tipo?
- 0 que  que pensas? - perguntou Jake.
0 tom de desconforto levou Mike a hesitar. - Tomo a resposta como um no.
Jake pareceu avaliar a resposta.
- Ouve l, qual  o teu interesse? - acabou por perguntar. -  teu amigo?
- No. Como disse, s estive com ele uma vez.
- Mantm as coisas assim. No precisas de o conhecer melhor. - Porqu?
Passado algum tempo, Jake abanou a cabea e, embora Mike tivesse vontade de saber pormenores, Jake Blansen no disse mais nada sobre o assunto. Em vez disso, voltou 
a falar acerca do camio e saiu minutos depois, deixando Mike a pensar o que seria que Jake
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ISlansen no lhe tinha querido dizer e porque e que isso, de suntto, se tornara mais importante do que tudo o que ele dissera.
Porm, os seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Singer.

- Eh, matulo! - saudou Mike.
Quando estava mais perto, o co saltou, equilibrando-se nas patas traseiras, com as da frente a exercerem presso sobre o peito de Mike, como se ambos estivessem 
a danar. Singer rosnava baixinho, parecendo excitado.
- 0 que  que andas a fazer por aqui? - perguntou Mike.
Singer regressou  posio normal, em cima das quatro patas, mas voltou-se e trotou em direco ao armrio de Mike.
- No tenho nada que tu comas - disse Mike, seguindo atrs do co. - Mas sei que o Henry tem qualquer coisa no escritrio. Vamos fazer-lhe um assalto.
0 co seguiu  frente. Mike abriu a gaveta do fundo da secretria de Henry e tirou os bolos preferidos do irmo: donuts em miniatura, com acar, e bolachas de chocolate, 
e deixou-se cair na cadeira de Henry. Uma por uma, foi atirando as guloseimas ao co, que as apanhava no ar como um sapo a caar moscas. Embora a comida pudesse 
no ser a mais apropriada para ele, Singer no deixou de agitar a cauda, em sinal de aprovao. Mas o melhor viria depois: Henry iria ficar profundamente chateado 
quando descobrisse que o esconderijo tinha sido violado. Como costuma dizer-se, com a mesma cajadada matava dois coelhos.

Com o ltimo cliente do dia a caminho da porta, Julie olhou 
volta do salo. Falando com Mabel, perguntou: - Viste o Singer? - Deixei-o sair h j algum tempo. Estava junto da porta de
patas dianteiras levantadas.
- H quanto tempo?
- Acho que foi h cerca de uma hora.
Julie consultou o relgio. Singer nunca andava tanto tempo por fora. - E no voltou?
- Julgo que o vi a dirigir-se para a oficina do Mike.

Singer estava enroscado em cima de uma manta velha, a dormir, consolado com o tratamento de doces, enquanto Mike se ocupava a ajustar a transmisso de um Pontiac 
Sunbird.
- Eh, Mike - chamou Julie. - Ainda c ests?
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#-" UuvIL u au1i1 ua VOL ueia, lviixe ornou para cima e mudou de
posio. - Estou aqui - bradou. Ainda de olhos sonolentos, Singer levantou a cabea.
- Viste o Singer?
- Vi, est c.
Indicou um canto com um aceno e pegou num pedao de desperdcios. Ainda estava a limpar as mos quando o co se levantou e se aproximou de Julie.
- Ah, ests aqui - disse Julie quando o co chegou junto dela
e se roou pelas suas pernas. Fez-lhe uma festa no lombo. - Estava a
ficar preocupada por tua causa.
Mike sorriu, agradecido ao co por se ter deixado ficar por ali. Julie levantou a cabea. - 0 que  que passa? - Nada de especial. Como ests? - Estou bem.
- Bem, apenas bem?
- Tive um mau dia - respondeu Julie. - Sabes como .
- Sim, acho que sei - assentiu Mike. - Em especial hoje.
Benny veio c, para comear e, depois, Henry quase morreu.
- Espera a. Henry quase morreu?
- Esteve para morrer.., ser morto... qualquer coisa. Contive-me
no ltimo instante. No consegui suportar a ideia do que os meus
pais me diriam quando estivesse a trs das grades. Mas, digo-te,
estive quase a faz-lo.
- Fez-te passar um mau bocado, hoje?
- Quando  que ele no me faz passar um mau bocado?
- Pobrezinho - lamentou Julie. - Lembra-me para, logo  noite, derramar um rio de lgrimas por ti.
- Sabia que podia contar contigo - agradeceu Mike.
Julie riu-se. Por vezes, aquele estupor era to bonito, especialmente com aquelas covinhas. - Ento, o que  que te fez? Voltou a fazer-te um buraco nos fundilhos 
do macaco?
- No. Essa j  velha. Alm disso, da ltima fez que me fez isso cobri uma chave inglesa com cola Krazy Glue e pedi-lhe que a segurasse enquanto eu fazia outra 
coisa. S conseguiu ver-se livre da chave na manh seguinte. Teve de dormir com ela.
Julie riu. - Recordo-me disso. Durante semanas no aceitava nada que lhe quisesses dar.
- Pois - disse Mike, parecendo nostlgico. Na sua opinio, fora uma das suas melhores partidas de sempre. - Devia fazer coisas dessas com mais frequncia, mas no 
 a minha maneira de ser.

100
- Faas o que fizeres, ele nunca deixar de implicar contigo. Mas,
recorda-te, ele faz tudo isso por inveja.
- Achas que sim?
- Sei, de certeza. Henry est a perder cabelo e tem a doena de
Dunlop.
- Doena de Dunlop?
- Sim, a barriga dele est a formar um pneu, logo acima do
cinto.
Mike riu-se. - . Estar a ficar velho deve ser duro.
- No entanto... no respondeste  minha pergunta. 0 que  que
ele te fez hoje?
Mike no lhe disse, no podia dizer-lhe, qual tinha sido o comen
trio do irmo. Em vez disso, procurou moedas na algibeira e dirigiu
-se  mquina dos refrigerantes. Meteu moedas na mquina. - Olha
- respondeu em voz de quem no d muita importncia ao assun
to -, o mesmo de sempre.
Ela levou as mos  boca. - Se no queres contar-me, deve ter
sido das boas.
- Nunca te conto - respondeu Mike. Depois, ao endireitar-se,
falou num tom mais srio. - Mas, muitas vezes, no posso deixar de
pensar que tu provocas as palhaadas dele e que isso me deixa ma
goado.
Mike passou a Julie uma Diet Coke e para ele escolheu uma Dr.
Pepper. No era preciso perguntar o que ela queria, pois j o sabia.
- Magoou-te? - perguntou ela. - Pareceu uma facada.
- Ser que logo  noite terei de chorar dois rios de lgrimas? - Dois seria bom. Mas, se queres que te perdoe, tm de ser pelo
menos trs.
Quando Mike sorriu  que Julie se apercebeu do que tinha perdido
por no falar com ele nos ltimos dias. - Portanto, para alm das
maldades do Henry, sucedeu hoje mais alguma coisa importante. Mike fez uma pausa. Um tipo chamado Jake Blansen veio c e
insinuou umas coisas acerca do teu Richard. Queres ouvi-las?
No, no era a altura. Em vez disso, abanou a cabea. - Realmente, no. E contigo?
- Nada - respondeu, a olhar para o co. - Excluindo a fuga deste
maroto. Cheguei a ter medo de que lhe tivesse sucedido algum mal. - Ao Singer? Nenhum carro tem hipteses de o atropelar. 0 carro
seria esmagado como um insecto.
- Mesmo assim, fiquei preocupada.

101
#- r- por seres muiner. Nos, os homens como eu, no nos preocupamos. Somos educados para no entrarmos em pnico. Julie sorriu. -  bom ouvir isso. Quando o furaco 
estiver para
chegar, sers a primeira pessoa a quem telefono para me entaipar as janelas da casa.
- Farias isso, de qualquer maneira. Ou j te esqueceste? At me compraste aquele martelo especial.
- Bom, no esperes que te chame. Posso entrar em pnico ou algo assim.
Mike riu-se  socapa e por momentos houve silncio entre os dois. E agora, o que poderia fazer?, pensava Mike. 0 mais bvio!
- Ento, como  que esto a correr as coisas entre ti e o Richard? - perguntou, a tentar falar com voz neutra.
Julie hesitou, a pensar que tambm ela gostaria de saber como  que estavam a correr.
- Vo bem - respondeu. - 0 fim-de-semana correu bem, mas...
No conseguiu terminar a frase, ficou a pensar, sem saber exactamente o que desejava contar ao amigo. - Mas?
- Nada de importante.
Ele analisou-a por instantes. - Tens a certeza?
- Claro, tenho a certeza - disse, a forar um sorriso fugidio.
- Como te disse, no  nada que interesse.
Mike sentiu o desconforto, mas no pressionou. Se ela no queria
falar de Richard, ele tambm no. No lhe causava problema de espcie alguma.
- Bem, ouve, se descobrires o que , ou se precisares de falar
de qualquer outra coisa, sabes que estou aqui, no sabes? - Pois sei.
- Estou a falar a srio. Estarei sempre por perto.
- Sei que ests - corroborou Julie, a pr-lhe a mo num ombro,
tentando aliviar a tenso. - Em parte, sou de opinio de que mereces mais. Ver o mundo, fazer viagens a locais exticos.
- 0 qu? E perder o meu recorde de noites consecutivas a ver reposies de episdios da srie Mars Vivas? - Exactamente. Qualquer coisa melhor do que a televiso. 
Mas se
no tens queda para as viagens, deves pensar em qualquer outra coisa. Como aprenderes a tocar um instrumento, ou coisa do gnero.
Ele arrepanhou os lbios. - Esse, minha querida, foi um golpe baixo.
102
Os olhos dela brilharam. - To bom como os do Henry?
Mike meditou um pouco. - No - decidiu. - Nisso, o Henry
 muito melhor do que tu.
- Suas ratazanas!
- Que mais posso dizer? No passas de uma principiante.
Julie sorriu e depois recuou um passo, como se precisasse de um
pouco mais de distncia para o ver bem. - Sabes que  muito fcil
uma pessoa entender-se contigo?
- Por ser fcil zombar de mim?
- No,  pelo desportivismo com que aceitas as brincadeiras. Mike demorou-se um instante a tirar um pouco de leo de uma
das unhas. - Que engraado! - exclamou, por fim.
- 0 qu?
- As palavras que usaste. H uns dias, a Andrea disse-me exacta
mente a mesma coisa.
- A Andrea? - repetiu Julie, como se duvidasse de ter ouvi
do bem.
- Sim, no ltimo fim-de-semana. Quando samos juntos. 0 que
me faz lembrar que tenho de a ir buscar, dentro de uns minutos. Olhou para o relgio e depois para o armrio da roupa.
Julie no conseguiu conter o assombro. - Mas... espera l... a
Andrea?
- Pois, grande mida. Passmos um bom bocado. Mas, desculpa,
tenho de me despachar...
Ela agarrou-o por um brao. - Mas...? - comeou. - Tu e a
Andrea ...?
Mike encarou-a com ar solene durante alguns segundos, at no
conseguir conter-se. - Deixaste-te levar, no deixaste?
Julie cruzou os braos. - No - retorquiu. - V l. Um bocadinho? - No.
- Tens de admitir que sim. - Est bem. Admito.
Mike olhou-a com ar de satisfao. - ptimo, agora estamos
quites.

103
ONZE
Julie deixou a porta bater atrs de si, ainda deleitada com a
conversa entre ela e Mike. Mabel levantou a cabea da secretria. - Esta noite vais encontrar-te com o Richard? - perguntou. - No. Porqu?
- Passou por a e perguntou por ti. No o viste?
- Estava na garagem, a falar com o Mike.
- No encontraste o Richard quando vinhas para c? - No.
-  estranho - disse Mabel. - Devias ter-te cruzado com ele na rua. Quero dizer, ele saiu daqui h apenas uns minutos e pensei que fosse  tua procura.
-julgo que no - avanou Julie, sem tirar os olhos da porta. - Ele disse o que  que queria?
- No. Apenas disse que andava  tua procura. Se andares depressa, ainda consegues apanh-lo.
Mabel ligou o gravador de chamadas e acabou de arrumar a secretria, observando Julie a debater-se com o dilema de ir ou no ir. Quando o tempo propcio passou, 
evitando-lhe a tomada de deciso, Mabel continuou como se no tivesse feito a sugesto.
- No sei o que se passa contigo - sondou -, mas eu estou saturada. Hoje, todas as clientes tinham queixas a fazer. Se no era o cabelo, eram os filhos ou o marido, 
ou o novo pregador, ou os latidos dos ces, ou os malucos dos automobilistas do Norte. s vezes, s me apetece mandar que cresam. Sabes o que quero dizer?
Julie ainda estava a pensar em Richard.
- Deve ser lua cheia - murmurou. - Hoje toda a gente anda um bocado esquisita.
- At o Mike?
No, o Mike no - disse Julie, a agitar a mo com ar de alvio. - 0 Mike  sempre o mesmo.
Mabel abriu a gaveta do fundo da secretria e tirou uma garrafa. - Bem, est na hora de afastar as teias de aranha - anunciou -, fazes-me companhia?
Gostava de afastar as teias de aranha com regularidade e, em resultado disso, de entre todos os conhecidos de Julie, era a pessoa com menos teias de aranha.
- Claro, tambm bebo uma pinga. Vou fechar a porta.
Mabel tirou dois copos da gaveta e instalou-se confortavelmente no sof. Na altura em que Julie se juntou a ela, j tinha atirado com os sapatos, colocara os ps 
em cima da mesa e j estava a beberricar. Com os olhos fechados e bem recostada, parecia acreditar que estava deitada numa cadeira de descanso, numa praia distante, 
a torrar ao sol dos trpicos.
- Ento, o que  que o Mike anda agora a fazer? - perguntou, mantendo os olhos fechados. - Ultimamente tem aparecido pouco por aqui.
- Nada de muito excitante. Trabalha, barafusta com o irmo, o habitual.
Fez uma pausa e o rosto iluminou-se-lhe. - Oh, ouviste dizer que vai tocar no Clipper dentro de umas semanas?
- Oh... hurra!
A falta de entusiasmo era notria.
Julie riu-se. - No sejas m. Na verdade, desta vez a banda  bastante boa.
- No vai servir de nada.
- Ele tambm no  assim to mau.
Mabel sorriu e endireitou-se no sof.
- Minha querida, sei que ele  teu amigo, mas, para mim,  como se fosse da famlia. Lembro-me de o ver a correr pela casa de fraldas e no duvides de mim quando 
digo que ele  mesmo assim
to mau. Tambm sei que a ideia o pe maluco, pois, na verdade,
nunca quis fazer outra coisa na vida. Mas, como diz o livro santo: No atures os maus msicos, pois eles arruinaro os teus ouvidos. 
- O livro santo no diz nada disso.
- Devia dizer. E provavelmente diria, se o Mike j andasse pelo mundo quando o escreveram.
- Est bem, mas ele adora a msica. Se tocar o faz feliz, fico satisfeita por ele.
105
104
#iauci auu. - ecerco, June. ns uma rapariga de bom corao e muito especial. No me interessa o que possam dizer de ti. Eu gosto de ti - declamou a levantar o 
copo numa saudao.
- Digo o mesmo - disse Julie, quando tocaram os copos.
- Portanto, o que  que se passa entre ti e o Richard? Depois de ele ter passado por c hoje, praticamente ainda no o mencionaste.
- Vai bem, acho eu.
0 queixo de Mabel ergueu-se. - Tu achas? Como o outro: Meu capito, acho que no vejo o icebergue?
- Vai bem - repetiu Julie.
Mabel ficou a estudar-lhe o rosto durante uns segundos. - Nesse caso, porque  que no tentaste apanh-lo, h apenas uns minutos, quando te sugeri que fosses atrs 
dele?
- Por nada - respondeu Julie. - Foi apenas porque j o vi hoje.
- Ah! - disse Mabel, numa exclamao forada. - Acho que isso faz sentido.
Julie bebeu um gole, sentindo o calor na garganta. Embora no pudesse falar com Mike acerca de Richard, com Mabel era diferente. Pensava que a amiga a podia ajudar 
a perceber os seus sentimentos em relao ao namorado.
- Recordas-te do medalho que ele me deu? - acabou por perguntar.
- 0 das iniciais J.B. gravadas? Como poderia esquec-lo.
- Bem - continuou Julie -, o problema  que no o usei hoje. - E ento?
- Foi o que eu pensei. Mas julgo que Richard ficou ofendido. - Se isso o ofendeu, lembra-me de que nunca mais o inclua nos meus sonhos.
Como Julie no respondeu, levantou o copo, antes de prosseguir. - Ento, ficou ofendido? E depois? Os homens tm os seus artifcios e esse pode ser um dos dele. 
E, acredita, h coisas piores. Contudo, penso que tens de avaliar o que aconteceu hoje em conjunto com tudo o resto. J saste com ele quantas vezes? Trs?
- Na verdade, foram quatro. Se contarmos o fim-de-semana como dois encontros separados.
- E disseste que foram agradveis, no disseste? - Sim. At agora.
- Nesse caso, pode apenas suceder que ele tenha tido um dia difcil. Disseste-me que tem um horrio de trabalho fora do normal, no ? Talvez no domingo ainda tenha 
ido ao emprego e ficado l at tarde. Quem sabe?

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Julie tamborilou com os dedos na chvena. - Pode ser.
Mabel fez rodar a bebida no copo. - No te preocupes muito com isso - aconselhou, com toda a calma. - Enquanto ele no passar as marcas, no  nada de importante.
- Achas que devo deixar andar?
- No  bem assim. Tambm no deves ignor-lo por completo.
Julie levantou a cabea e encontrou os olhos de Mabel.
- Aceita o conselho de uma senhora que teve muitos convites para sair e conheceu muitos homens ao longo dos anos. Toda a gente, incluindo tu, se porta da melhor 
maneira no incio de uma relao. Por vezes, os pequenos artifcios transformam-se em grandes problemas e a grande vantagem das mulheres, por vezes a nica vantagem, 
 a sua intuio.
- Mas pensei que estavas a aconselhar-me a no me preocupar.
- Pois aconselhei. Mas tambm nunca deves ignorar a tua intuio.
- Portanto, pensas realmente que tenho um problema?
- Minha querida, no sei o que hei-de pensar, como tu tambm no sabes. No h livros de respostas mgicas  venda. Estou apenas a dizer que no te limites a encolher 
os ombros se o assunto te preocupa tanto, mas tambm te digo para no deixares que isso destrua uma coisa boa.  para isso que serve o namoro, para se descobrir 
as qualidades e os defeitos das pessoas. Para descobrir se os dois se ajustam um ao outro. S estou a acrescentar um pouco do velho senso comum a essa mistura. Nada 
mais.
Julie ficou uns instantes em silncio. - Acho que tens razo - concluiu.
0 telefone comeou a tocar e Mabel virou-se para o lado de onde vinha o som. Passado um instante, o gravador de chamadas comeou a funcionar. Depois de ouvir, para 
saber quem era, olhou novamente para Julie.
- Quatro sadas, hein?
Julie assentiu.
- Haver uma quinta?
- Ainda no falou nisso, mas  provvel que sim.
- Essa foi uma maneira muito esquisita de responderes  minha pergunta.
- 0 que  que queres dizer com isso?
- No disseste o que tencionas responder quando ele perguntar.
Julie olhou para o lado.
- No - concordou -, julgo que no disse.
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yuancto cnegou a casa, Kichard estava  espera dela.
Tinha arrumado o carro em frente da casa e estava  espera, encostado  porta do automvel, de braos cruzados e uma perna sobre a outra, a observar a manobra de 
entrada de Julie no caminho de acesso  garagem.
Depois de parar, Julie olhou para o Singer e soltou o cinto de segurana.
- Ficas no jipe at eu dizer, est bem?
0 co alou as orelhas.
- E porta-te bem - acrescentou ao sair. Nessa altura, Richard j
se encontrava no caminho de acesso  garagem. - Boa tarde, Julie.
- Boa tarde, Richard - cumprimentou Julie, com voz neutra. - 0 que  que ests aqui a fazer?
Ele mudou o peso do corpo de um p para o outro. - Dispus de uns minutos e resolvi passar por c. Tentei falar contigo no salo, mas parece que tinhas sado.
- Fui  procura do Singer. Fui encontr-lo na garagem.
Richard assentiu. - Foi o que Mabel me disse, mas no podia esperar; tinha de entregar umas plantas antes de o escritrio fechar e, na verdade, tenho de l voltar 
logo que sair daqui. Mas queria pedir-te desculpa pelo que se passou esta manh. Fiquei a pensar naquilo e acho que passei um bocado das marcas.
Sorriu, com ar arrependido, como um menino apanhado a meter a mo no frasco da compota.
- Bem... - comeou Julie -, agora que falas nisso...
Richard levantou ambas as mos para evitar que ela prosseguisse. - Eu sei, eu sei. Nada de recriminaes. S quis pedir-te desculpa.
Julie afastou uma madeixa de cabelo que lhe tinha cado para a cara.
- Como  que pudeste ficar to aborrecido s por eu no ter posto o medalho?
- No - respondeu. - Acredita, no foi nada disso. - Ento, foi o qu?
Richard desviou o olhar. Falou em voz to baixa que ela mal conseguiu ouvi-lo.
-  que passei um fim-de-semana maravilhoso e, quando vi que no o trazias, fui levado a pensar que no sentias o mesmo que eu em relao ao tempo que passmos juntos. 
Julgo ter pensado que, por qualquer razo, no te tinha agradado plenamente. Quero dizer... no
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fazes ideia de quanto me senti teliz durante o tempo em que estivemos juntos. Consegues perceber o que estou a tentar explicar-te?
Antes de responder, Julie meditou uns segundos.
- Sim, estou a perceber.
- Sabia que ias compreender - disse Richard, a olhar  volta como se, de sbito, a presena dela o pusesse nervoso. - Olha... como te disse... tenho de voltar ao 
trabalho.
- Est bem - limitou-se Julie a dizer. Forou um sorriso.
Momentos depois, desta vez sem tentar beij-la, ele foi-se embora.
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#DOZE
a escurido, tendo co o nica ilu inao u a fatia da lua, Richard aproximou-se da porta da frente da vivenda vitoriana a que temporariamente chamava o seu lar. 
Situava-se nos arrabaldes da cidade, rodeada de terras de cultivo, e fora construda a cem metros da estrada principal.
A casa, de altura sensivelmente igual a metade da dos pinheiros que a rodeavam, mal se distinguia  luz plida do luar. Embora um pouco degradada, ainda retinha 
algum do encanto de antigamente, com decoraes e painis de madeira que pareciam trazer  mente um convite bem decorado para uma festa na manso do governador. 
A propriedade carecia de manuteno; o que antes fora um jardim bem tratado, tinha-se enchido de ervas demasiado altas que, no entanto, no pareciam importun-lo. 
Havia beleza no trabalho desordenado da natureza, pensava Richard, nas rstias de luz e nas sombras da noite, nas cores variegadas e nas formas dos ramos e das folhas 
durante o dia.
L dentro, pelo contrrio, preferia a ordem. A desordem acabava  porta e, logo que entrou, acendeu as luzes. A moblia alugada, nada de especial mas suficiente 
para tornar a casa apresentvel, no era do seu gosto; porm, numa cidade pequena como Swansboro, no havia muito por onde escolher. Num mundo de produtos baratos 
e de vendedores com fatos de fibras sintticas, tinha escolhido os artigos menos ofensivos que tinha encontrado: sofs de veludo escuro, mesas folheadas de carvalho 
e candeeiros de plstico com lato fingido.
Naquela noite, contudo, nem reparou na decorao. Naquela noite, s pensava em Julie. E no medalho. E na maneira como ela o olhara poucos minutos antes.
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'linha, uma vez mais, leito demasiada pressao e ela tizera-o pagar por isso. Julie estava a transformar-se num desafio e ele gostava de ser desafiado. Respeitava 
isso, pois o que mais desprezava era a fraqueza.
Por que diabo estaria ela a viver numa cidade como aquela?
Julie, pensava, pertencia  grande cidade, a lugares com passeios a fervilhar de pessoas e reclames sempre a piscar, com insultos rpidos e respostas certeiras. 
Era demasiado inteligente, tinha demasiada classe para um lugar como aquele. Ali no havia energia suficiente para a fazer funcionar, nada capaz de lhe assegurar 
um futuro. A fora, se no utilizada, desaparece e, se Julie ficasse, sabia que ela se iria tornar fraca, exactamente como a me dele se tinha tornado fraca. E, 
com a passagem do tempo, no ficaria nada digno de respeito.
Julie era como a me dele. Uma vtima. Sempre a vtima.
Cerrou os olhos, retirando-se para o passado. Estava em 1974 e a imagem era sempre a mesma.
Com o olho esquerdo inchado e a face arroxeada, a me estava a pr uma mala de viagem na bagageira do carro, a tentar sair dali o mais depressa possvel. Na mala 
de viagem levava roupas para ambos. Na mala de mo tinha 37 dlares em moedas de diversos valores. Tinha levado quase um ano a poupar aquela importncia; Vernon 
controlava as finanas e dava-lhe s o indispensvel para as compras do dia. No estava autorizada a pr a mo no livro de cheques e nem sabia qual era o banco em 
que ele descontava o cheque do ordenado. 0 pouco dinheiro que ela conseguira juntar provinha das almofadas do sof, eram moedas cadas dos bolsos dele quando dormitava 
em frente da televiso. Tinha escondido as moedas numa caixa de detergente para a roupa, na prateleira mais alta da despensa e, de cada vez que o via aproximar-se 
do local, o corao comeava a martelar-lhe com violncia dentro do peito.
Dizia a si mesma que, dessa vez, se ia embora para sempre. Dessa vez, ele no conseguiria convenc-la a voltar. Disse a si mesma que no acreditaria nele, por mais 
amvel que se mostrasse, por mais sinceras que as suas promessas parecessem. Disse a si mesma que, se voltasse, ele acabaria por mat-la. E, a seguir, mataria o 
filho. Disse tudo isto para si prpria, repetiu as palavras como se recitasse os mandamentos sagrados, como se as palavras pudessem transmitir-lhe a fora para prosseguir.
Em pensamento, Richard estava a ver a me naquele dia. Como o tinha mantido em casa, sem ir  escola, como lhe tinha dito que fosse a casa e trouxesse o po com 
manteiga de amendoim, pois iam fazer um piquenique. Como ela lhe mandara que trouxesse tambm um
i
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#~-aNa u, paia u caso ue a temperatura aescer. i orna seis anos de idade e fez tudo o que a me mandou, embora soubesse que ela estava a mentir.
Na noite anterior, j deitado, tinha ouvido a me a gritar e a chorar na cozinha. Ouvira o rudo seco que a mo do pai fizera ao aterrar na cara dela, ouvira a me 
ser atirada contra a parede fina, que separava o seu quarto do quarto dos pais, ouvira-lhe os queixumes e as splicas para que ele parasse, a pedir-lhe desculpa, 
que pensara lavar a roupa mas que fora obrigada a levar o menino ao mdico. Ouviu Vernon chamar nomes  me e fazer-lhe todas as acusaes que costumava fazer sempre 
que se embebedava. - 0 mido no  parecido comigo! - gritava o pai. - No  meu!
Deitado na cama, a ouvir os gritos, lembrou-se de rezar para que a acusao fosse verdadeira. No queria ser um monstro como o pai. Odiava-o. Quando ele chegava 
a casa, vindo da fbrica de produtos qumicos, odiava aquele cabelo lustroso e gordurento; odiava o cheiro a lcool que emanava dele  noite. Odiava o facto de, 
pelo Natal, ter recebido apenas um taco de basebol, sem a luva, enquanto os midos da vizinhana tinha recebido bicicletas e pranchas de skate. Odiava-o por bater 
na me quando achava que a casa no estava suficientemente limpa, ou quando no conseguia encontrar qualquer coisa que a me tivesse guardado. Odiava aquela mania 
de terem as cortinas sempre corridas e a falta de visitas.
- Despacha-te - mandara a me, fazendo-lhe sinal com a mo -, para encontrarmos uma boa mesa no parque.
E ele entrou em casa a correr.
Dentro de uma hora, o pai estaria em casa para almoar, como fazia todos os dias. Embora se deslocasse a p para o trabalho, levava com ele as chaves do carro, juntamente 
com outras, presas ao cinto por uma corrente. Naquela manh, enquanto o pai fumava, lia o jornal e comia o bacon com ovos que a mulher tinha preparado, a me tinha 
tirado uma das chaves.
Deviam ter sado imediatamente, logo que o pai desapareceu por detrs do monte, a caminho da fbrica. At ele, com seis anos, sabia isso, mas a me deixara-se ficar 
sentada  mesa durante horas, de mos trmulas, a fumar cigarro aps cigarro. No tinha dito nada, no se tinha mexido; s voltara  vida uns momentos antes.
Pelo que, agora, estavam a lutar contra o tempo. A ideia de que no ia conseguir tornava-a histrica. Outra tentativa.
Richard sara disparado de casa, a carregar o po com manteiga de amendoim e o casaco, a correr para o carro. Mesmo a correr, viu que
o branco do olho esquerdo da me estava vermelho de sangue. re chou a porta do Pontiac com estrondo e viu que a me tentou enfiar a chave na ignio, mas falhou. 
Tinha as mos a tremer. Respirou fundo e tentou de novo. Desta vez, o motor pegou e ela tentou sorrir. 0 lbio estava inchado e o sorriso foi um esgar; com a cara 
inchada e o olho sangrento, havia algo de medonho naquele sorriso. Engatou o carro em marcha atrs e recuou para sair da garagem. J na estrada, pararam um pouco 
e a me olhou para o painel de instrumentos.
Suspirou. 0 manmetro de gasolina mostrava que o depsito estava quase vazio.
Por isso, ficaram. Outra vez. Como sempre.
Nessa noite, ouviu o pai e a me no quarto, mas desta vez no havia sinais de zanga. Pelo contrrio, ouviu-os a rir e a beijarem-se; mais tarde notou que a me respirava 
com esforo e gritava o nome do pai. Na manh seguinte, quando se levantou, viu os pais abraados na cozinha. 0 pai piscou-lhe o olho e fez as mos descerem, at 
ficarem pousadas na saia da me.
Viu a me corar.
Richard abriu os olhos. No, pensou, Julie no podia ficar naquela cidade. No podia, se quisesse aproveitar o que a vida tinha para lhe dar, se desejasse a vida 
a que tinha direito. Ele ia afast-la daquilo tudo.
Fora uma estupidez ter-lhe falado daquela maneira acerca do medalho. Estpido. No voltaria a acontecer.
Perdido na meditao, mal ouviu o toque do telefone, mas levantou-se a tempo de atender, antes de o gravador ter entrado em funcionamento.
Detendo-se por um momento, reconheceu o indicativo da rea de Daytona ao verificar a origem da chamada. Depois de respirar fundo, atendeu.
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#TREZE
Na escurido do quarto, a lutar com uma terrvel dor de cabea provocada pela alergia, Julie atirou com a segunda almofada ao co.
- Queres fazer o favor de te calares? - gemeu.
Singer ignorou a almofada. Em vez de se calar, acercou-se da cama e ficou a ofegar e a rosnar, obviamente a pedir que Julie lhe abrisse a porta, para que fosse, 
como s os ces sabem fazer, investigar os arredores. Tinha andado pela casa durante a ltima hora, passando do quarto para a sala e regressando pelo mesmo caminho, 
uma e outra vez, a pressionar o nariz hmido contra ela, a faz-la sobressaltar-se.
Julie ps a almofada por cima da cabea, mas no foi o suficiente para abafar o som e a compresso ainda a fez sentir-se pior.
- L fora no h nada - resmungou. - Estamos a meio da noite e di-me a cabea. No me levanto daqui.
Singer continuou a rosnar. No era um rosnar sinistro, no era um mostrar de dentes, como fazia quando via homens que vinham contar a electricidade ou, pior ainda, 
quando vinham entregar o correio. Era apenas um rosnar incomodativo, demasiado alto para passar despercebido.
Atirou-lhe com a almofada que lhe restava. Singer vingou-se: atravessou o quarto e enfiou-lhe o nariz numa orelha.
Sentou-se na cama, a limpar a orelha com o dedo.
- Pronto! Conseguiste o que querias!
0 co agitou a cauda, mostrando-se satisfeito. Agora j estamos a entender-nos. Anda da. Singer trotou para fora do quarto, a indicar o caminho.
- ptimo! Queres que me certifique de que no h nada l fora, co maluco?
Depois de ter massajado as tmporas, soltando gemidos de dor, Julie saltou da cama e seguiu aos tropees at  sala. Singer j estava junto das janelas da frente; 
tinha afastado as cortinas com o nariz e olhava de um lado para o outro.
Julie tambm espreitou para fora, sem ver nada.
- Ests a ver? Nada. Tal como te disse.
0 co no se dava por vencido. Foi at junto da porta e sentou-se.
- Se queres ir l fora, no contes comigo para ficar  tua espera. Se sais, ficas l. Vou voltar para a cama. A cabea di-me a valer. No que isso te interesse.
Singer no parecia interessar-se.
- Muito bem. Vou fazer-te a vontade.
Abriu a porta. Embora estivesse  espera de ver o co disparar em direco ao bosque, tal no aconteceu. Em vez disso, foi at ao alpendre, ladrou duas vezes e baixou 
o nariz para cheirar o cho. Enquanto ele se entregava ao exerccio, Julie cruzou os braos e olhou  volta.
Nada. No havia sinais de ter estado ali algum. Tirando os sons dos grilos e das rs, o silncio era absoluto. As folhas no mexiam; a rua estava deserta.
Satisfeito, Singer rodou para entrar em casa.
- Ests satisfeito? Fizeste-me sair da cama para nada?
Singer levantou os olhos para ela. No h inimigos a vista,
pareceu dizer. No h motivos para alarme. Podes ir para dentro e voltar a dormir.
Julie repreendeu-o antes de o deixar para ir  casa de banho. 0 co no foi atrs dela. Em vez disso, quando ia para se deitar, olhou por cima do ombro e viu que 
ele estava novamente sentado em frente da janela e tinha voltado a afastar as cortinas com o nariz.
- No fao ideia do que ser - resmungou Julie.
Quando, uma hora mais tarde, o co recomeou a rosnar e a ladrar, desta vez com vontade, Julie, que tinha fechado a porta do quarto e posto a ventoinha da casa de 
banho a funcionar, no o ouviu.


Na manh seguinte, Julie encontrava-se no caminho de acesso  garagem, de culos escuros, tendo por cima de si uma enorme bola de fogo e um cu to azul que parecia 
artificial. Ainda sentia vestgios da dor de cabea, mas nada comparvel  dor excruciante que tinha sentido durante a noite. 0 co estava ao seu lado quando ela 
leu o bilhete que algum tinha prendido no limpa-pra-brisas do jipe.
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Tenho de sair da cidade devido a uma emergncia, pelo que no poderei ver-te durante uns dias. Telefono logo que puder. No deixarei de pensar em ti.
Richard
Julie olhou para o co.
- Ento, foi este o motivo de todo aquele barulho? - perguntou a segurar o bilhete. - Richard?
Singer mostrou-se presumido, como s ele sabia ser. Vs, eu avisei-te de que andava algum por aqui.
0 Tylenol tinha-a deixado atordoada e com uma sensao de fadiga, alm daquele gosto cido na boca, pelo que no estava disposta a pactuar com atitudes de superioridade. 
- No me venhas com isso. Fizeste-me ficar acordada durante horas. E no se tratou de uma pessoa que no conhecias; por isso, esquece.
Singer rosnou e saltou para o jipe.
- Ele nem chegou a aproximar-se da porta.
Julie fechou a porta traseira e deslizou para o banco do condutor. Pelo retrovisor viu o co dar uma volta, para se sentar de rabo virado para ela.
- Ah, sim. Tambm eu estou zangada contigo.
Durante o percurso para o emprego, sempre que olhava pelo retrovisor, via que Singer no tinha mudado de posio, nem inclinado a cabea para um dos lados para deixar 
que o vento lhe passasse pela lngua e pelas orelhas, como costumava fazer. 0 co saltou logo que ela acabou de arrumar o jipe. Embora o tivesse chamado, o animal 
continuou o caminho, atravessou a rua e seguiu em direco
 garagem.
Ces.
Por vezes, pensou Julie, so to infantis como os homens.

Mabel estava ao telefone, a cancelar as marcaes de Andrea. Esta no viria, estava a desfrutar de outro dia pessoal. Desta vez, pelo menos, tinha telefonado, 
pensou Mabel. Andrea apareceria decerto com uma histria complicada. No seu ltimo dia pessoal, jurou que tinha visto Bruce Springsteen a atravessar o parque de 
estacionamento do Food Lion e resolveu segui-lo durante todo o dia, para acabar por perceber que no era ele. A questo de saber porque  que Bruce Springsteen estaria 
no Food Lion de Swansboro no parecia sequer ter-lhe passado pela cabea.
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Ao ouvir a campainha da porta tocar atras de si, iviaoei virou-s c viu Julie. Pegando na caixa de Milk-Bonz, preparava-se para dar um biscoito ao co quando reparou 
que Julie vinha sozinha.
- Onde  que est o Singer?
Julie pousou a mala de mo numa prateleira ao lado do seu posto de trabalho. -Julgo que foi visitar o Mike.
- Outra vez?
- Tivemos uma zanga.
Disse aquilo da mesma forma que usava depois de uma discusso com o Jim, o que levou Mabel a sorrir. S Julie parecia no perceber quanto a afirmao soava ridcula 
s outras pessoas.
- Tiveram ento uma zanga? - comentou Mabel.
- Foi; por isso penso que est amuado. Como se quisesse punir-me pela ousadia de ter-lhe gritado. Mas ele mereceu a descompostura.
- Ah! 0 que  que aconteceu?
Julie contou a Mabel o que se passara durante a noite.
- Ele deixou um bilhete a pedir desculpa? - perguntou Mabel.
- No, fez isso ontem, quando cheguei a casa. 0 bilhete foi s para me informar de que vai estar fora da cidade durante uns dias.
Embora Mabel tivesse gostado de perguntar como  que correra o pedido de desculpa, era evidente que Julie no estava com disposio para falar do assunto. Mabel 
guardou a caixa de Milk-Bonz no armrio e ficou a olhar para o canto, onde se encontrava a manta do Singer.
- Sem ele, isto aqui parece vazio - comentou. -  como se algum tivesse levado um dos sofs ou coisa semelhante.
- Oh, ele volta no tarda nada. Sabes como ele .
Todavia, para surpresa delas, passadas oito horas o Singer ainda no tinha voltado.

- Tentei lev-lo umas poucas de vezes - disse Mike, parecendo to perplexo quanto Julie. - Mas no me seguia para l da porta, por mais que o chamasse. Ainda tentei 
suborn-lo com um pedao de carne, mas no quis deixar a garagem. Pensei lev-lo a reboque mas, para falar francamente, no penso que ele mo permitisse.
Julie olhou para o co. Estava sentado ao lado de Mike, a observar Julie, com a cabea descada para um lado.
- Singer, ainda continuas zangado comigo?  por isso que ests amuado?
- Por que motivo  que havia de estar zangado contigo?
- Tivemos uma zanga.
- Oh!
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# i-i ai xu uu vens comigo' - perguntou Julie. Singer passou a lngua pelos lbios mas no se mexeu. - Singer, vem c - ordenou ela. 0 co deixou-se ficar onde 
estava.
Salta!
.
I 1        Apesar de nunca lhe ter dado aquela ordem, no sabia o que ais
poderia dizer; quando lhe pareceu que Julie estava ficar de asiado impaciente, Mike fez um gesto com a mo.
- Vai-te embora, Singer. Antes de te meteres em sarilhos ainda maiores.
Ao ouvir a ordem de Mike, o co levantou-se e, com alguma relutncia segundo pareceu, foi colocar-se ao lado de Julie. Esta ps as mos nos quadris.
- Ento, agora recebes ordens do Mike?
- No me atribuas a culpa - pediu Mike, a fazer o ar mais
inocente que conseguiu. - Eu no fiz nada.
- No estou a atribuir-te a culpa. S no percebo o que lhe deu
nestes ltimos dias.
Singer sentou-se junto das pernas dela e olhou para cima. - Ento, o que  que ele fez por aqui, durante todo o dia?
- Dormitou, roubou a minha sanduche de peru quando me afastei para ir buscar uma bebida, andou por a a fazer as coisas do costume.
- Pareceu-te estranho?
- No. De maneira nenhuma. Para alm de estar aqui, pareceu-me bem.
- No se mostrou zangado?
Mike coou a cabea, sabendo que ela considerava estar perante um problema grave. - Bem, para te ser franco, no falou de nada, pelo menos comigo. Queres que v 
perguntar ao meu irmo? Talvez tenham conversado enquanto estive fora daqui.
- Ests a gozar comigo?
- No, nunca. Sabes que jamais faria uma coisa dessas.
- Bom. Depois de quase ter perdido o meu co para outra pessoa, neste momento no estou com a melhor das disposies para brincadeiras.
- No estiveste quase a perd-lo. 0 co estava aqui comigo. - Pois. E agora gosta mais de ti que de mim. - Talvez tivesse saudades. Eu provoco dependncia, como 
sabes. Pela primeira vez desde que chegara, Julie sorriu. - Ai provocas?
- 0 que  que posso dizer? E uma maldio.
Julie soltou uma gargalhada. - Suportares-te a ti mesmo deve ser
uma tarefa difcil.
Mike abanou a cabea, a pensar que Julie estava com um belo
aspecto.
- Nem fazes ideia!

Uma hora mais tarde, Julie estava na cozinha, de p, junto do lava-louas, tentando desesperadamente manter no lugar os panos da loua que, a toda a pressa, enrolara 
 volta da torneira avariada, a fazer o que podia para conter o fluxo de gua que tinha explodido em direco ao tecto, como se fosse um giser domstico. Pegou 
noutro pano, juntando-o aos outros, apertou com mais fora, acabando por conseguir reduzir a intensidade do chuveiro. Infelizmente, fez que uma parte da gua esguichasse 
na sua direco.
- Podes passar-me o telefone? - gritou, mantendo o queixo erguido para evitar que a gua lhe atingisse os olhos.
0 co trotou em direco  sala; momentos depois, com a mo livre, Julie tirou o telefone porttil da boca dele. Marcou o primeiro nmero que constava da sua lista 
de emergncias.

Mike estava esparrinhado no sof, a mastigar Doritos, com os dedos cobertos de p cor-de-laranja e uma lata de cerveja apertada entre as pernas. Era o seu jantar, 
juntamente com o Big Mac que comprara (e acabara) a caminho de casa. A guitarra estava em cima do sof, a seu lado, e, como sempre, depois de ter tocado durante 
um bocado, fechou os olhos e recostou-se, imaginando a Katie Couric a descrever a cena para uma audincia da televiso nacional.

Trata-se do concerto mais aguardado deste ano, diz a arrebatada Katie. Com um s lbum, Michael Harris lanou fogo ao mundo da msica. S o seu primeiro lbum 
j vendeu mais discos do que os Beattles e Elvis Presley venderam, em conjunto, durante as suas carreiras e espera-se que o concerto que vai ser transmitido pela 
televiso venha a ter a maior audincia de todos os tempos. Est a ser transmitido simultaneamente em todo o mundo, para uma audincia estimada em trs mil milhes 
de pessoas, e o nmero de espectadores que seguem o concerto ao vivo deve andar perto dos dois milhes. Caros ouvintes, estamos a fazer Histria. 

A sorrir, Mike enfiou mais uma batata frita na boca. Que beleza!, pensou, que beleza!
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119
#v deu nome. C es anoso
o nmero de pessoas que ele conseguiu contagiar. As pessoas tm-nos procurado durante todo o dia, dizendo-nos que a msica de Michael Harris mudou as suas vidas.., 
e eis que ele chega neste preciso momento!
A voz de Katie  abafada quando a multido avana e irrompe em aplausos ensurdecedores. Empunhando a guitarra, Mike entra no palco.
Percorre a multido com o olhar. Os espectadores enlouquecem, o barulho  ensurdecedor. Enquanto caminha na direco do microfone  bombardeado com flores. Mulheres 
e crianas sentem-se rendidas pela sua presena. Os homens, a debaterem-se com a inveja, gostariam de estar no lugar dele. Katie quase desmaia.
Mike bate com as pontas dos dedos no microfone, para assinalar que est quase pronto para comear e, como por encanto, o pblico cala-se. Esto  sua espera, mas 
ele no comea a tocar de imediato. Os segundos passam, mais dez segundos e, chegados a este ponto, os espectadores esto a tremer com a expectativa febril que se 
apoderou deles, mas Mike continua a deixar que a expectativa aumente.
E continua at a situao se tornar quase impossvel de suportar. Os espectadores sentem-no, Katie tambm. A mesma expectativa  sentida por milhares de milhes 
de pessoas sentadas em frente dos televisores.

E at por Mike.
Sentado no sof, deixou que a adorao o submergisse, sem deixar de segurar o pacote de Doritos.
Oh, que beleza!
Quando o telefone, colocado na mesa ao lado do sof, comeou a tocar como um sinal de alarme, Mike foi arrancado do mundo da fantasia e saltou, com as mos lanadas 
para cima e provocando uma erupo vulcnica de Doritos em todas as direces, ao mesmo tempo que entornava a cerveja por cima das calas. Agindo por instinto, tentou 
sacudir a cerveja, mas o mais que conseguiu foi deixar estrias alaranjadas que escorriam a partir da braguilha.
- Bolas - bufou, pondo de lado a lata vazia e o pacote. Ainda a tentar limpar a mancha de cerveja, estendeu a mo para o telefone. Mais estrias. V l, gemeu, 
v se acabas com isso. 0 telefone voltou a tocar antes de ele conseguir levantar o auscultador.
- Estou!
- Ol, Mike - disse Julie, parecendo transtornada. - Ests muito ocupado?
A cerveja continuava a ensopar o tecido das calas e Mike mexeu-se ligeiramente, a tentar sentir-se mais confortvel. No o conse
guiu; em vez disso, a cerveja toi abrindo cammno are aos luuuiiuua das calas. Uma sensao de frescura que, pensou, no fazia falta nenhuma num momento daqueles.
- Nem por isso.
- Pareces distrado.
- Desculpa. Tive um ligeiro acidente que envolveu o meu jantar. - Perdoas o incmodo?
Mike pegou no saco e comeou a recolher as batatas fritas que
cobriam a guitarra.
- No  nada de grave. Vai ficar tudo bem. Ento, o que 
que h?
- Preciso de ti. - Ah, precisas?
Ao fazer a pergunta o seu ego inchou, momentaneamente esque
cido da confuso em que estava sentado.
- A torneira rebentou.
- Oh! - exclamou Mike, com o ego a voltar ao normal to
rapidamente como inchara. - Como  que aconteceu?
- Como  que posso saber?
- Torceste-la, ou coisa do gnero?
- No. Estava apenas a tentar abri-la. - E antes, j estava lassa?
- Na verdade, no sei. Mas vens ou no vens? Ele tomou uma deciso rpida. - Antes de sair, tenho de mudar de calas. - Desculpa, o que  que disseste?
- No interessa. Estou a dentro de minutos. Tenho de passar
pela loja para comprar uma torneira nova.
- No te vais demorar, pois no? Estou aqui presa, sem poder
soltar o trapo, e tenho vontade de ir  casa de banho. Se apertar
mais as pernas, corro o risco de rebentar com os joelhos.
-j estou a caminho.
Mesmo com a pressa de se vestir e de sair pela porta fora o mais
depressa possvel, a que se juntava a expectativa de ver Julie, conse
guiu s cair uma vez ao vestir as calas.
0 que, dadas as circunstncias, lhe pareceu perfeitamente razovel.
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#CATORZE
- Julie? - chamou Mike ao entrar em casa dela.
Julie esticou o pescoo, aliviando ligeiramente o aperto exercido sobre os trapos.
- Estou aqui, Mike. Mas acho que deve ter sucedido qualquer coisa. Parece que j no deita.
- Acabo de fechar a torneira de segurana que existe na frente da casa. Agora deve estar bem.
Mike enfiou a cabea pela fresta da porta da cozinha e uma palavra cruzou-lhe a mente logo de seguida: seios. Julie, encharcada a ponto de mostrar com toda a nitidez 
os contornos dos seios, parecia ter sido escolhida como alvo de brincadeiras de rapazes atrevidos, daqueles que acham que tomar parte em concursos onde se bebe cerveja 
aos litros e se usam T-shirts molhadas so o ponto mxima das suas existncias.
- Nem calculas quanto te agradeo por vires aqui a esta hora - afirmou Julie. Sacudiu a gua das mos e tirou os trapos que tinha posto  volta da torneira.
Mike mal a ouvia. Disse para si mesmo que no devia espreitar os seios da amiga; houvesse o que houvesse, no devia espreitar. No seria prprio de um cavalheiro, 
como tambm no seria prprio de um amigo. Agachando-se, abriu a caixa de ferramentas. Singer sentou-se a seu lado e cheirou a caixa, como se andasse  procura de 
guloseimas.
- No tens de agradecer - murmurou Mike.
Julie comeou a torcer os trapos, um de cada vez.
- Estou a ser sincera. Espero no te ter desviado de alguma coisa importante.
- No te preocupes com isso.
Ela despegou a T-shirt da pele e olhou-o. - Ests bem? - perguntou.
Mike comeou a vasculhar a caixa de ferramentas,  procura da
chave de grifos, uma ferramenta de canalizador usada para rodar
porcas em lugares difceis.
- Estou ptimo. Porqu?
- Ests a mostrar-te, como dizer, desorientado. - No estou nada desorientado. - At evitas olhar para mim. - No estou a olhar para ti. - Foi isso que acabei de 
dizer. - Oh!
- Mike?
- C est! - exclamou Mike, agradecendo a Deus a oportuni
dade de mudar de assunto. - Tinha a certeza de a ter posto aqui. Intrigada, Julie continuava a olhar para ele. - Acho que  altura
de mudar de roupa - acabou por dizer.
- Acho que talvez seja uma boa ideia - resmungou Mike, a falar
sozinho.

0 trabalho que tinha entre mos obrigou Mike a concentrar-se e ele comeou desde logo, quando mais no fosse para tirar a imagem de Julie da cabea.
Espalhou panos da loua que retirou do armrio das roupas e com eles ensopou a maior parte da gua que cobria o cho, depois esvaziou o armrio que havia por debaixo 
de lava-loua, espalhando embalagens de vrios detergentes de ambos os lados da porta. Quando Julie regressou, j ele estava a trabalhar na substituio da torneira; 
s lhe via o torso e a parte inferior do corpo. Ambas as pernas estavam estendidas; apesar dos panos espalhados, tinha crculos molhados em ambos os joelhos, feitos 
quando tivera de se ajoelhar. Singer estava deitado ao lado dele, com a cabea escondida no espao escuro do armrio.
- Importas-te de deixar de ofegar? - protestou Mike.
0 co ignorou o comentrio e Mike expirou o ar dos pulmes, fazendo o possvel para respirar s pela boca.
- Estou a falar a srio. Tens um hlito fedorento.
A cauda de Singer agitou-se, para cima e para baixo.
- E deixa-me espao para trabalhar, est bem? Ests a estorvar-me.
Julie viu-o empurrar, ou melhor, tentar empurrar o co, sem grande resultado. Enregelada, tinha vestido umas calas de ganga e uma camisola leve. 0 cabelo ainda 
estava hmido, mas tinha-o penteado para trs, afastando-o das faces.
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- momo e que estao as coisas ai em baixo? - perguntou.
Ao ouvir o som da voz dela, Mike levantou a cabea e bateu no
sifo do lava-loua. Sentia na cara o bafo quente do co, o odor que o
fazia lacrimejar.
- Bem. Est quase pronto. - J?
- No tem nada de complicado,  s desapertar um par de porcas e a torneira fica solta. No sabia qual o tipo de torneira que querias, por isso trouxe uma que me 
pareceu semelhante  que c tinhas. Espero que sirva.
Ela deu uma olhadela. -  ptima.
-  que posso ir troc-la por outra. No h qualquer problema.
- No, desde que funcione,  perfeita.
Observou que ele recomeara a trabalhar com a chave e, para sua surpresa, deu consigo a apreciar-lhe os msculos fortes dos antebraos. Momentos depois, ouviu o 
som metlico de qualquer coisa que caiu dentro do armrio.
- J est.
Deslizou de baixo da tina do lava-loua e, vendo que ela mudara de roupa, sentiu-se mais descansado. Era melhor assim. Menos ameaas. Menos mamas  vista. Levantou-se 
e soltou a torneira velha, que passou a Julie.
- Conseguiste destruir essa coisa - disse Mike, apontando para a abertura do castelo da torneira. - 0 que  que usaste, um martelo?
- No. Dinamite.
- Da prxima vez utiliza menos quantidade.
Ela sorriu. - Sabes o que  que provocou este acidente?
- A idade, talvez.  provvel que seja a torneira original, colocada quando a casa foi construda. Era uma das coisas que ainda no tinha substitudo aqui em tua 
casa, mas talvez devesse ter-lhe dado uma vista de olhos quando fiz a ltima reparao no cano de esgoto.
- Nesse caso, ests a querer dizer que s o culpado.
- Se tu o dizes - retorquiu Mike. - Quero dizer, se isso faz que
te sintas melhor, ou coisa do gnero. Mas d-me mais um minuto e
ponho isto a funcionar, est bem? - Com certeza.
Colocou a nova torneira no lugar, rastejou para debaixo do lava-loua e fixou-a. Ento, pedindo licena, saiu da cozinha e desapareceu porta fora, com o Singer a 
trotar logo atrs dele. Depois de abrir a
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torneira de segurana, regressou  cozinha e experimentou a cio lava -loua, assegurando-se de que no vertia.
- Parece que j podes servir-te dela.
- Continuo a pensar que ests a subestimar o trabalho que tiveste. Antes de c chegares, estava a pensar qual seria o canalizador que ia chamar, se no conseguisses 
resolver o problema.
Mike fingiu-se ofendido. - No posso crer que, passado tanto tempo, ainda possas pensar numa coisa dessas.
Julie riu-se ao v-lo pr-se de ccoras para arrumar as embalagens de detergente.
- Oh, no, deixa que seja eu a fazer isso - protestou, ajoelhando-se ao lado dele. - H coisas que sou capaz de fazer.
Ao arrumarem as embalagens, Julie sentiu mais do que uma vez o brao de Mike a roar por ela e ficou a pensar por que motivo estava a reparar num gesto to banal. 
Minutos depois, o armrio estava fechado e os panos da loua, ainda ensopados, foram juntos numa trouxa. Julie deixou a cozinha por momentos, levando-os para o compartimento 
da mquina de lavar, enquanto Mike arrumava as ferramentas. Quando regressou, Julie foi direita ao frigorfico.
- Quanto a ti, no sei, mas eu preciso de uma cerveja para afogar toda esta excitao. Tambm queres?
- Adorava.
Julie pegou em duas garrafas de Coors Light e deu uma ao Mike. Depois de tiradas as caricas, levantaram as duas garrafas para um brinde.
- Obrigada por teres vindo. Sei que j disse isto, mas no faz mal que te agradea outra vez.
- Olha l - respondeu Mike -, no  para isso que servem os amigos?
- Anda da - convidou Julie, a apontar a direco com a garrafa -, vamos sentar-nos no alpendre com isto. 0 tempo est demasiado agradvel para se estar fechado 
em casa.
Comeou a dirigir-se para a porta, mas parou subitamente. - Espera l, no disseste que j tinhas jantado? Quando te liguei?
- Por que  que perguntas?
- Porque estou esfomeada. Com toda esta comoo, nem me lembrei de comer. Alinhas numa piza?
Mike sorriu. - Parece uma excelente ideia.
Ela caminhou para o telefone e, ao v-la afastar-se, Mike ficou a pensar se aquele sero no acabaria por lhe destroar o corao.
- Fiambre e anans, est bem? - gritou Julie.
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#+uuv V -i-- uC LUies esta coem para
mim.
Sentaram-se em cadeiras de balouo, no alpendre, com o calor dos
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corpos a escapar-se para o frio da noite, a ouvirem as cigarras e a verem os mosquitos que se agitavam  volta do mosquiteiro. 0 Sol desaparecera finalmente de vista; 
os ltimos raios reflectiam-se no horizonte e brilhavam por entre as rvores.

A casa de Julie, construda num terreno com dois mil e quinhentos metros quadrados, pegava com lotes vagos florestados, nas traseiras e nos lados; e, quando queria 
estar s, instalava-se naquele alpendre. Foi tambm a razo principal para que ela e o Jim decidissem comprar a casa. Ambos alimentavam h muito o desejo de terem 
uma casa com alpendres na frente e nas traseiras. Embora a casa carecesse de obras urgentes, fizeram a oferta de compra no prprio dia em que a visitaram pela primeira 
vez.

Singer estava a dormitar junto dos degraus do alpendre, abrindo um olho de vez em quando, como para ter a certeza de que no lhe escapava nada. Na luz que ia desaparecendo, 
as feies de Julie emanavam um brilho suave.

- Isto faz-me lembrar o dia em que fomos apresentados.

Recordas-te? Quando a Mabel nos convidou a todos para sua casa, para podermos conhecer-te.

- Como  que poderia esquecer-me? Foi um dos momentos mais medonhos da minha vida.

11        - Mas ns somos pessoas simpticas.

- Eu no sabia disso. Na altura, eram todos desconhecidos para mim. No fazia ideia daquilo que me esperava.

- Mesmo com o Jim?
- Especialmente com o Jim. Levei muito tempo a perceber a razo de ele ter feito o que fez por mim. Isto , nunca tinha conhecido ningum como ele, foi-me muito 
difcil acreditar na existncia de pessoas que eram pura e simplesmente... boas. Penso que no lhe disse uma nica palavra em toda a noite.

- Pois no. No dia seguinte, o Jim falou-me disso.

- De verdade?
-No o fez de forma acintosa. De qualquer forma, ele tinha comeado por nos avisar de que no esperssemos muita conversa. Disse que eras um pouco tmida.

- No!
- Chamou-te bicho do mato.
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Ela riu-se. - J me chamaram muitas coisas, mas no sabia dessa do bicho do mato.
- Bem, acho que ele o disse para que tivssemos mais uma razo para te querer conhecer. No que precisssemos de razes. 0 facto de tanto ele como a Mabel gostarem 
de ti era suficiente para ns.
Julie fez uma longa pausa, como se estivesse longe dali. - Ainda me custa a crer que estou aqui, neste momento - acabou por dizer.
- Porqu?
- Pela maneira como tudo aconteceu. Nunca tinha ouvido falar de Swansboro at ao dia em que Jim me falou da cidade e, no entanto, estou aqui, doze anos depois, ainda 
sem rumo.
Mike olhou-a por cima da garrafa. - Parece que tens vontade de te ires embora.
Julie sentou-se em cima de uma das pernas. - No. Nada disso. Gosto de estar aqui. Quero dizer, houve um tempo, depois da morte do Jim, em que pensei ir recomear 
a vida noutro lugar qualquer, mas nunca me decidi a fazer fosse o que fosse. Alm disso, para onde  que iria? Tenho a impresso de que no me agradaria nada voltar 
a viver perto da minha me.
- Tens falado com ela ultimamente?
- H meses que no falamos. Telefonou pelo Natal, para anunciar que queria fazer-me uma visita, mas depois no voltou a contactar-me. Acho que disse aquilo para 
eu me oferecer para lhe mandar dinheiro para o bilhete de avio, ou coisa do gnero, mas no me apetece fazer-lhe a vontade. S serviria para abrir feridas antigas.
- Deve ser difcil de suportar.
- E, por vezes. Ou, pelo menos, costumava ser. Mas j no me dou ao luxo de pensar muito no assunto. Quando comecei a namorar com o Jim, quis restabelecer contacto 
com ela, ao menos para lhe dizer que a vida me estava a correr bem.  provvel que me agradasse a aprovao dela, sabes?  estranho que me preocupasse com esse tipo 
de coisas, como se, apesar de a considerar um fracasso enquanto me, a sua aprovao ainda fosse importante para mim.
- E agora, j no ?
- Muito pouco. No veio ao casamento, no apareceu no funeral. Depois disso, dir-se-ia que desisti. Explicando melhor: no a trato mal quando me telefona, mas tambm 
h muito pouca emoo. E quase o mesmo que falar com qualquer pessoa estranha.
Ouvindo-a falar, Mike dirigiu o olhar para as sombras das rvores, que iam escurecendo cada vez mais. L longe, pequenos morcegos
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#-r        u par il l t1~ (-um um simples movimento das asas, como
se nunca tivessem passado por ali.
- 0 meu irmo passa metade do tempo a dar-me cabo da cabea e os meus pais so to brincalhes como ele, mas  agradvel saber que os tenho por perto, prontos a 
ajudar. No sei o que seria ia de mim sem eles. No sei se conseguiria safar-me sozinho, como tu conseguiste.
Julie olhou para ele. - Tu safavas-te. E, alm disso, eu no estou totalmente s. Tenho o Singer e tenho os meus amigos. 0 suficiente, por agora.
Mike gostaria de perguntar qual era o lugar de Richard naquele cenrio, mas decidiu no o fazer. No queria estragar
o momento.
Nem queria estragar
a sensao d
e leveza que parecia envolv-lo,
agora que a cerveja estava quase no fim.
- Posso fazer-te uma pergunta? - inquiriu Julie. - Com certeza.
- 0 que  que aconteceu com a Sarah? Pareceu-me que havia um entendimento muito especial entre vs e de repente separaram-se para sempre.
Mike ajustou-se melhor na cadeira. - Oh, tu sabes...
- No, na verdade no sei. Nunca me contaste porque  que acabou.
- No havia muito que contar.
-  o que me disseste sempre. Mas qual  a verdadeira histria?
Mike permaneceu calado durante bastante tempo e acabou por
abanar a cabea. - So coisas que no interessam.
- 0 que  que ela fez? Enganou-te?
Como Mike no respondeu, Julie ficou a saber que o seu palpite
estava certo.
- Oh, Mike. Lamento muito.
- Pois, eu tambm. Ou lamentava, pelo menos. Foi com um dos colegas do emprego. 0 carro estava  porta da casa dela quando passei por l, numa manh.
- 0 que  que fizeste?
- Queres saber se fiquei furioso? Decerto. Mas, para te ser franco, a culpa no foi s dela. Afinal, eu no estava a ser o mais atencioso dos namorados. Julgo que 
se sentiu rejeitada - explicou, a esfregar a face com uma das mos. - No sei, mas, em parte, eu percebi que a relao no ia durar; talvez, por isso, deixasse de 
tentar melhorar as coisas. A partir da, tudo podia acontecer.
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limbos se caiaram por instantes e, notando que cie estava quase a seco, apontou para a garrafa e perguntou:
- Vais precisar de outra?
- Provavelmente.
- Vou busc-la.
Julie levantou-se e Mike teve de desviar um pouco a cadeira de balano para ela poder passar, ficando a ver a porta a balanar nas molas depois de ela entrar. No 
pde evitar notar que as calas de ganga lhe assentavam mesmo bem.
Mike abanou a cabea, forando-se a no pensar na figura dela. No, no era aquele o momento propcio. Se estivessem a beber vinho e a comer lagosta, talvez, mas 
piza e cerveja? No, esta era apenas uma noite normal. Como costumavam ser as noites, antes de ele ter tido aquela ideia insensata de se permitir apaixonar-se por 
ela.
Nem sabia exactamente quando  que tinha acontecido. Bastante depois de Jim ter morrido, disso tinha a certeza. Mas no conseguia ser mais preciso quanto  data. 
No foi um claro de luz sbita que o cegou; foi mais uma espcie de alvorada, em que o cu se foi tornando mais e mais claro, de forma quase imperceptvel, at 
se aperceber de que a manh tinha chegado.
Julie regressou, passou-lhe a cerveja e voltou a sentar-se.
- Sabes que o Jim tambm costumava dizer isso?
- 0 qu?
- Provavelmente. Sempre que lhe perguntava se queria outra cerveja. Ter aprendido contigo?
- Provavelmente.
Ela soltou uma gargalhada. - Ainda pensas nele?
Mike assentiu. - Nunca deixei de pensar.
- Eu tambm no.
- No tenho dvidas. Era um bom tipo, um homem fora de srie. No podias ter arranjado melhor. E costumava dizer-me que, tambm ele, no teria conseguido arranjar 
melhor do que tu.
Julie recostou-se na cadeira, a pensar quanto lhe agradava ouvi-lo falar assim. - Tambm s um bom tipo.
- Pois sou. Eu e cerca de um milho de outros homens. No sou como o Jim.
-  claro que s. Nasceste na mesma cidade pequena, tiveste os mesmos amigos que ele, gostavas de fazer as mesmas coisas. Na maioria dos casos, pareciam mais dois 
irmos do que tu e o Henry. Excepto,  preciso diz-lo, que o Jim nunca seria capaz de reparar aquela torneira. No era capaz de reparar fosse o que fosse.

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- De verdade?
- No. 0 Henry sabe o que h a fazer. Mas nisso. Odeia sujar as mos.
- 0 que  estranho, considerando que os dois so proprietrios de uma oficina.
- A quem o dizes. Mas no me importo. Para te ser franco, gosto mais do que fao do que a parte do trabalho que lhe cabe. No sou
muito dado a mexer em papis.
- Nesse caso, ser um analista de crditos est fora de questo, no  assim?
- Como o Jim? Nem pensar. Mesmo que conseguisse convencer algum a dar-me o lugar, no aguentaria mais de uma semana. Apro
varia todos os pedidos de crdito que me aparecessem pela frente.
Quando algum precisa de qualquer coisa, no sou muito bom a dizer no.
Julie estendeu a mo, para lhe afagar o brao. - Meu Deus, nunca recusas nada?
Ele sorriu, parecendo que, subitamente, no conseguia encontrar as palavras, desejando de todo o corao que o afago durasse para sempre.
A piza chegou minutos depois. Um jovem com acne, que usava culos com uma espessa armao preta, examinou o talo durante imenso tempo, antes de achar o total a 
pagar.
Mike ia puxar da carteira, mas Julie, j com o porta-moedas na mo, afastou-o.
- Nem penses. Esta  por minha conta. - Mas eu como sempre mais.
- Se quiseres at podes com-la toda. Mas continuo a ser eu a pagar.
Antes que ele voltasse a pr objeces, Julie entregou o dinheiro ao estafeta, dizendo-lhe que guardasse o troco, e levou a caixa para a
cozinha.
- Pratos de papel, servem?
- Como sempre em pratos de papel.
- Eu sei - retorquiu Julie piscando o olho. - Nem consigo dizer-te quanto isso me entristece.
Durante a hora seguinte, entretiveram-se a comer e a conversar no tom familiar que sempre existira entre eles. Falaram de Jim e de recordaes, para acabarem no 
que ia acontecendo na cidade e s pessoas que conheciam. De tempos a tempos, Singer gania, parecendo sentir-se ignorado, e Mike lanava um pedao de piza na direco 
dele, sem interromper a conversa.
 medida que a noite avanava, Julie deu consigo a retribuir o olhar de Mike mais tempo do que era habitual. Ficou surpreendida. No que ele, desde que chegara, 
tivesse feito qualquer coisa fora do comum; nem era pelo facto de estarem sentados juntos no alpendre e a partilharem o jantar, como se aquele sero tivesse sido 
preparado com antecedncia.
No, no havia qualquer razo para ela se sentir diferente naquela noite, mas no parecia capaz de controlar as suas emoes. Apercebeu-se tambm de que no pretendia 
pr aquela sensao de lado, embora aquele sentimento no fizesse muito sentido para ela. Com o seu ar desportivo, de sapatos de tnis e calas de ganga, com as 
pernas levantadas e apoiada no corrimo, o cabelo em desalinho, seria bonito aos olhos de qualquer mulher. No entanto, sempre soubera disso, mesmo antes de comear 
a namorar com o Jim.
Passar um bocado na companhia de Mike, reflectia, no tinha nada a ver com as suas sadas recentes, incluindo o fim-de-semana passado com Richard. Aqui no havia 
fingimento, nem significados ocultos nas afirmaes que faziam, nem planos complexos e destinados a impressionar o outro. Embora sempre lhe parecesse que era fcil 
passar o tempo na companhia de Mike, agora, de repente, apercebia-se de que no turbilho em que tinha vivido nas ltimas duas semanas quase se esquecera de quanto 
apreciava momentos como aquele.
Foi o que mais apreciou durante o tempo em que esteve casada com Jim. No se tinha deixado cativar s pela torrente de emoes que a submergia quando faziam amor; 
ainda mais importantes tinham sido os momentos de descontraco passados na cama a ler o jornal e a beber caf, ou as frias manhs de Dezembro em que decidiam ir 
plantar bolbos no jardim, ou as horas que, com os ps j cansados, tinham passado a percorrer lojas, a escolher a moblia para o quarto ou a debater os mritos relativos 
das diversas madeiras. Tinham sido esses os momentos em que se sentira mais contente, quando finalmente se permitira acreditar no impossvel. Aqueles foram os momentos 
em que tudo parecia perfeito neste mundo.
A recordar estas coisas, com as comissuras dos lbios ligeiramente erguidas, Julie ficou a ver Mike comer. Estava a lutar com longos fios
131
no se teria metido
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+~. yuu~V uU1CUl1U ljuc me escornam cia Doca para cima da Latia de
piza, fazendo o gesto parecer mais difcil do que era na realidade. Por
vezes, depois de uma dentada, tinha de se soerguer na cadeira e debater
-se desajeitadamente com a fatia, usando os dedos para evitar que o
recheio casse ou que o sumo de tomate se derramasse. Ento, a rir-se de
si prprio, limpava a cara com um guardanapo, murmurando coisas do gnero: Desta vez, quase dei cabo da camisa. Que ele no se levasse muito a srio, ou no se 
importasse quando ela fazia o mesmo, fazia que o olhasse com uma ternura parecida com a que pensava ser sentida pelos velhos casais que encontrava sentados de mos 
dadas nos bancos dos parques. Era o que ainda tinha na cabea quando, minutos depois, o seguiu a caminho da cozinha, ambos a transportarem os restos da refeio, 
e ficou a v-lo ir buscar o saco de celofane  gaveta do armrio que estava ao lado do fogo, sem necessidade de perguntar onde estava. Quando o viu chamar a si 
a tarefa de embrulhar a piza e a meter no frigorfico, para depois meter os restos no lixo, antes de se aperceber de que o caixote estava cheio, houve um momento, 
apenas um momento, em que a cena lhe pareceu no estar a acontecer ali, naquela conjuntura, mas algures, no futuro, um sero vulgar numa longa sequncia de seres 
passados em comum.

- Penso que est tudo arrumado - concluiu Mike, a percorrer a cozinha com os olhos.
0 som da voz dele obrigou a regressar ao presente uma Julie que sentia um ligeiro ardor nas faces.
- Parece que sim - concordou. - Obrigada pela ajuda.
Durante um longo momento, nenhum deles falou e, de sbito, veio  mente de Julie o refro com que ela tinha vivido os dois ltimos anos, como se um disco tivesse 
sido posto a tocar. Uma relao com Mike? De maneira nenhuma. Nem pensar.
Mike juntou as mos, interrompendo-lhe o pensamento antes que fosse mais alm.
- Acho que  melhor ir andando. Amanh tenho de comear cedo.
Ela assentiu. -j calculava. 0 mais provvel  ir tambm para a cama daqui a pouco. Na noite passada, Singer manteve-me acordada durante horas.
- 0 que  que ele andou a fazer?
- A latir, a rosnar, a ladrar, a trote de um lado para o outro...
quase todo o rol de maneiras de me irritar. - Singer? 0 que  que se passa?
- Oh, o Richard passou por c na noite passada. Sabes como o Singer fica com pessoas que no conhece.
Era a primeira vez que o nome de Richard era pronunciado naquela noite; de sbito, Mike sentiu um aperto na garganta, como se algum lhe estivesse a carregar com 
um polegar.
- 0 Richard esteve aqui na noite passada? - inquiriu.
- No, no foi assim. No tivemos nenhum encontro ou coisa do gnero. S c veio para deixar um bilhete no pra-brisas do carro, a informar que ia estar fora durante 
uns dias.
- Oh!
- No foi nada - acrescentou Julie, sentindo uma vontade sbita de esclarecer tudo.
- Ento, que horas eram? - perguntou Mike.
Julie voltou-se para o relgio de parede, como se necessitasse de verificar a posio dos ponteiros para se lembrar.
- Julgo que foi por volta das duas. Pelo menos foi a essa hora que o Singer comeou, mas, como te disse, a cena prolongou-se durante bastante tempo. - Porqu?
Mike contraiu os lbios, a pensar. E o Singer ladrou durante o tempo todo?
- Estou a tentar adivinhar a razo que o levou a no vir c deixar o bilhete quando saiu, pela manh - acrescentou.
Julie encolheu os ombros. - No fao ideia. Talvez no dispusesse de tempo.
Mike acenou, a tentar saber se devia dizer mais qualquer coisa, at decidir que no devia. Baixou-se para apanhar a caixa de ferramentas e na torneira velha, no 
desejando que o sero acabasse com uma conversa que poderia dar para o torto. Deu um pequeno passo para trs.
- Ouve...
Julie passou a mo pelo cabelo, notando, pela primeira vez, que ele tinha uma pequena verruga na cara, quase ornamental, como se tivesse sido posta ali por um especialista 
de maquilhagem, para causar um determinado efeito. Bem gostaria de saber o motivo de s agora reparar nela.
- Sei que tens de te ir embora - disse, cortando o fio de pensamento.
Mike mudou o peso do corpo de um p para o outro. Sem saber o que dizer, pegou na torneira.
- Bem, obrigado por me teres chamado por causa disto. Acredites ou no, fiquei satisfeito por o teres feito. Passei um excelente sero.
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V1II L uc aniuus encontraram-se por momentos, at Mike desviar o seu. Julie sentiu-se a expirar o ar; tinha estado a conter a respirao sem sequer se dar conta 
disso e, mesmo sem querer, no conseguiu tirar os olhos de Mike, que j ia a caminho da porta. As calas ajustavam-se-lhe perfeitamente ao traseiro e Julie sentiu 
que estava novamente a corar, o sangue aflorar-lhe  superfcie da pele como lama agitada no fundo de um lago.
Os olhos desviaram-se para cima quando Mike agarrou no puxador da porta. Por momentos, Julie sentiu-se como se tivesse estado a observar algum numa festa, numa 
sala cheia de gente, algum que nunca tivesse visto. Em qualquer outra situao, em qualquer outra altura, o absurdo de tudo aquilo t-la-ia feito soltar uma gargalhada.
Mas, coisa estranha, no sentia a mnima vontade de rir.
Depois de se despedir, ficou  porta a observar Mike a meter-se na carrinha. No momento em que ia fechar a porta da carrinha, iluminado pela luz vinda de cima, que 
formava uma espcie de halo, fez-lhe um ltimo aceno de despedida.
Julie retribuiu o aceno e ficou a observar a carrinha, cujas luzes traseiras iam desaparecendo ao longe. Ficou junto da porta durante quase um minuto, a tentar pr 
alguma ordem nos seus sentimentos.
Mike, voltou a pensar, Mike.
Por que  se preocupava a pensar no assunto? No ia acontecer.
Cruzou os braos e riu-se para dentro. Mike? Sem dvida era simp
tico, sem dvida era fcil conversar com ele e, bom, tambm era
bonito. Mas, Mike?
Tudo aquilo, decidiu, era ridculo. Uma cabazada de asneiras. Voltou-se para entrar em casa. Seria?
QUINZE
No dia seguinte, no escritrio, Henry ocupava-se a pr a chvena de plstico, com caf, em cima da secretria. - Ento, foi tudo? - inquiriu.
Mike coou o pescoo.
- Foi tudo.
- Saste? Assim, sem mais nem menos?
- Sa.
Henry apoiou o queixo num tringulo que formou com os polegares e os indicadores. Embora, em condies normais, tivesse ali motivos de sobra para escarnecer do irmo, 
que nem tinha aproveitado a oportunidade para convidar Julie para jantar fora, aquela no era a altura para estar com zombarias.
- Deixa-me ter a certeza de que percebi bem. Ouviste esse Jake Blansen fazer aluses veladas acerca de Richard, que podem querer dizer qualquer coisa ou no querer 
dizer nada, mas so com certeza um pouco estranhas, especialmente por Jake se recusar a falar mais do assunto. Depois, descobres que Richard vai a casa dela pela 
calada da noite e anda por l Deus sabe quanto tempo, mas no encontras motivo para lhe dizeres que tudo isso te parece algo esquisito? Ou at para mencionares o 
facto de poder haver algum motivo de preocupao?
- Foi ela quem me disse que Richard esteve l. No  o mesmo que ela no saber que ele tinha estado l.
- Esse no  o pormenor que importa, e sabes isso muito bem.
Mike abanou a cabea. - Henry, no aconteceu nada.
- Mesmo assim, devias ter dito qualquer coisa.
- Como?
Henry recostou-se na cadeira. - Exactamente como acabei de fazer. Dizendo-lhe o que pensavas.
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-- r--- vu aa k-uisas nesses termos, mas eu nao posso
redarguiu, a aguentar o olhar do irmo. - Julie poderia pensar que eu estava a falar assim por causa dos meus sentimentos em relao a ela.
- Ouve, Mike - retorquiu Henry, mais parecendo um pai do que um irmo. - s amigo de Julie e sers sempre seu amigo, venha ou no a acontecer alguma coisa entre 
vs. 0 mesmo acontece comigo, ests de acordo? E no me agrada a ideia de saber que esse tipo anda a rondar-lhe a casa a meio da noite.  arrepiante, qualquer que 
seja a explicao que o tipo possa inventar. Podia ter deixado o bilhete pela manh, podia ter-lhe telefonado, podia ter-lhe deixado uma mensagem no emprego... que 
espcie de homem  que, s duas horas da manh, se veste, salta para o carro e atravessa a cidade para deixar um bilhete? E no dizes que o co a manteve desperta 
durante horas? E se isso quisesse dizer que ele andou por l durante o tempo todo em que o Singer esteve em aco? E se Blansen estivesse de certa maneira a tentar 
avisar-te? Nenhum destes pormenores te d cuidado?
-  claro que estou preocupado. Tambm no me agrada a ideia. - Nesse caso, devias ter feito qualquer coisa.
Mike cerrou os olhos. Tinha sido um excelente sero, at surgir
aquilo.
- Henry, tu no estavas l - avanou. - E, alm do mais, ela no pareceu ver nada de estranho no episdio; por isso, no tornes as coisas piores do que podem ser. 
0 homem limitou-se a deixar um bilhete.
- Como  que sabes se ele fez s isso?
Mike comeou a responder mas a expresso que viu na cara do irmo obrigou-o a calar-se.
- Ouve - afirmou Henry -, habitualmente deixo que faas as coisas  tua maneira, mesmo quando estragas tudo, mas h um lugar e um tempo para tudo. Esta no  a altura 
indicada para comeares a ter segredos com ela, especialmente factos como estes. Parece-te que isto faz sentido?
Passado um momento, Mike baixou o queixo na direco do peito. - Sim - concluiu -, faz todo o sentido.

- Pois bem, parece que ambos passastes um bom bocado - disse Mabel.
- Pois passmos - respondeu Julie. - Sabes como ele . Est sempre alegre.
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Mabel acomodou-se na cadeira vazia; nao navio uicnLes para os minutos seguintes e tinham o salo todo por sua conta.
- E a torneira ficou boa?
Julie estava ocupada a preparar o seu posto de trabalho e assentiu.
- Colocou uma nova.
- Fez que o trabalho parecesse fcil? Fez-te perguntar a ti mesma por que razo tiveste de o chamar?
-sim.
- E no detestas isso?
- Sempre.
Mabel soltou uma gargalhada. - Sem dvida h qualquer coisa naquele rapaz, no ?
Julie hesitou. Pelo canto do olho, viu que Singer estava sentado perto da porta da frente, a olhar para fora da janela, como se quisesse que o deixassem sair.
Apesar de a pergunta de Mabel no exigir resposta, havia um elemento de seriedade na possvel resposta, um elemento que nunca mais lhe sara da cabea desde a noite 
anterior. No conseguia descobrir o motivo por que os acontecimentos da noite anterior continuavam a bailar-lhe na cabea. No eram excitantes; nem tinham nada de 
memorvel. Contudo, na noite anterior, com o luar a infiltrar-se pela janela e as borboletas a baterem contra a vidraa, Mike no foi apenas a nica pessoa em quem 
pensou antes de ter cado no sono, foi tambm a primeira que lhe veio  mente quando, pela manh, voltou a abrir os olhos.
A resposta de Julie saiu-lhe sem esforo, quando se dirigia para a porta para deixar sair o co.
- H - retorquiu - certamente que h.

- Mike - chamou Henry em voz alta -, tens companhia. Mike deitou a cabea de fora do depsito de materiais. - Adivinha quem ?
Antes de conseguir responder, Singer estava a seu lado.

A tarde estava quase no fim quando Julie entrou na oficina. De mos na cintura, ficou a olhar para o co.
- Se no soubesse aquilo que a casa gasta, pensaria estar a ser vtima de um plano para me obrigarem a entrar aqui - comentou Julie.
Logo que ela o disse, Mike fez o melhor que pde para expressar os seus agradecimentos ao Singer - telepaticamente, bem entendido.
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- ialvcz cie esteja a tentar transmitir-te qualquer coisa. - Tal como?
- No sei.
- Talvez ache que ultimamente no lhe tm dado a devida ateno.
- Oh, -lhe dada a ateno suficiente. No deixes que te engane.  um animal estragado com mimos.
Sentado nos quartos traseiros, o co comeou a coar-se com uma das patas posteriores, como a querer demonstrar a sua indiferena em relao ao que estavam a dizer 
dele. Enquanto falava, Mike estava a soltar as alas do fato-macaco.
- Espero que no leves a mal, mas isto est a pr-me maluco. Deixei cair massa de transmisses no macaco e tenho estado todo o dia a respirar as emanaes.
- Nesse caso, ests um bocado excitado, no?
- No,  apenas uma dor de cabea. No tenho essa sorte.
Julie ficou a v-lo despir o fato-macaco, tirando uma perna de cada vez enquanto se equilibrava em cima da outra; depois de despido, atirou o fato-macaco para um 
canto. Ao v-lo de calas de ganga e T-shirt vermelha, Julie pensou que ele parecia mais novo do que era.
- Ento, qual  o teu programa para esta noite? - perguntou Julie.
- Apenas o trivial: salvar o mundo, alimentar os esfomeados, defender a paz mundial.
-  espantoso o nmero de coisas que uma pessoa pode fazer apenas numa noite, desde que se disponha a isso.
- Uma grande verdade!
Mike presenteou-a com um sorriso gaiato. Porm, ao ver Julie passar a mo pelo cabelo, foi subitamente atingido pelo nervosismo que sentira na noite anterior, quando 
chegou  cozinha.
- E tu? Tens algum plano excitante?
- No. Tenho umas limpezas a fazer em casa e algumas contas para pagar. Ao contrrio de ti, tenho de me ocupar de pequenas coisas, antes de meter mos  obra de 
aperfeioar o universo.
Mike avistou Henry encostado  ombreira da porta, a consultar uma pilha de papis e a fingir que ainda no tinha reparado em Julie e no irmo, mas fazendo o possvel 
para que a sua presena fosse notada, para que Mike no se esquecesse daquilo que ele lhe dissera antes. Mike enfiou as mos nas algibeiras. No queria fazer aquilo. 
Sabia que era preciso, mas no queria faz-lo e comeou por respirar
fundo.
- Olha l, dispes de uns minutos?        perguntou. - na um assunto de que gostaria de te falar.
- Claro. 0 que ?
- Importas-te de ir para outro stio qualquer? Julgo que, antes, preciso de uma cerveja.
Apesar de intrigada pelo sbito ar srio dele, Julie no pde deixar de pensar que lhe agradava o convite.
- Uma cerveja  uma ptima ideia - anuiu.


Um curto passeio ao longo da rua e chegaram perto da baixa. Entalado entre uma loja de animais e uma lavandaria, ficava o Tizzy's; tal como o Clipper, no primava 
pela limpeza nem pelo conforto. Um televisor berrava num dos cantos do bar, os vidros das janelas estavam esbranquiados de p, o ar estava saturado de fumo que 
revoluteava por cima das mesas como o contedo de uma lmpada de lava. Para os frequentadores habituais do Tizzy, nenhuma dessas coisas tinha importncia e havia 
umas quantas pessoas que, em termos prticos, viviam ali. De acordo com Tizzy Welborn, o proprietrio, o seu bar era popular por ter carcter. Mike partia do princpio 
de que, quando falava de carcter, o homem queria dizer bebidas baratas.
Do lado positivo, tinha de reconhecer-se que Tizzy no tinha a mania dos regulamentos. Para serem servidos, os clientes no precisavam de sapatos, nem de camisas, 
pois Tizzy no se preocupava com aquilo que os fregueses transportavam consigo. Com o passar dos anos, aquelas portas tinham sido atravessadas por tudo, desde espadas 
de samurai a bonecas insuflveis; a despeito dos protestos acalorados de Julie, o Singer era includo nesta categoria. Ao ver que Mike e Julie se sentavam em bancos 
altos, na ponta do balco, o co deu uma volta s instalaes, antes de se acomodar.
Depois de lhes perguntar o que queria, Tizzy ps duas canecas de cerveja  frente deles. Embora no to frescas como poderiam estar, tambm no estavam quentes, 
o que Mike agradeceu. Quanto a servio, o cliente no devia alimentar grandes esperanas num lugar daqueles.
Julie olhou  volta. - Este lugar  uma pocilga. Receio sempre apanhar uma doena contagiosa se permanecer num stio destes mais de uma hora.
- Mas tem carcter - afianou Mike.
-  claro que sim, meu grande perdulrio. Ento, o que  que se passa de to importante, para teres necessidade de me arrastar para aqui?
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uua~ uiaw a vuira ua garrara. - n uma coisa que o
Henry me disse e que eu devia ter-te contado. - Henry?
- Sim.
Fez uma pausa, antes de continuar. - Pensa que, ontem, devia ter-te contado uma coisa que sei.
- Acerca de qu?
- Do Richard.
- 0 que  que se passa com o Richard?
Mike endireitou-se no assento. - Acerca do pormenor de ele ter deixado aquele bilhete.
- Qual  o problema com o bilhete?
- 0 Henry achou o gesto um pouco estranho. Por exemplo, o facto de o ter feito a meio da noite.
Julie olhou para ele com ar de dvida. - 0 Henry preocupou-se com isso?
- Sim. 0 Henry.
- Hum... mas tu no te preocupaste. - No.
Julie bebeu um gole de cerveja. - E o Henry ficou muito preocupado. Porqu? No me parece que o Richard tivesse andado a espreitar pelas janelas. 0 Singer teria 
investido contra a vidraa se o visse fazer uma coisa dessas. E o bilhete explica que se tratou de uma emergncia; talvez tenha sido obrigado a sair de imediato.
- Bem... aconteceu uma outra coisa. H dias, uma pessoa das que trabalham na ponte esteve na oficina e disse coisas um pouco estranhas.
- Tais como?
A seguir os ornatos do balco com a ponta de um dedo, Mike contou-lhe o que Blansen dissera e forneceu-lhe mais detalhes acerca dos comentrios de Henry. Quando 
terminou, Julie ps a mo no ombro de Mike e disse-lhe, arrepanhando os lbios num ligeiro sorriso:
- Oh, que simptico da parte do Henry, preocupar-se tanto comigo.
Mike levou uns segundos a digerir a resposta.
- Espera l, no ficaste zangada, pois no?
-  claro que no estou zangada. Fico feliz por saber que tenho
amigos como ele a guardarem-me. - Mas...
- Mas o qu?
- fiem... ele...
Julie riu-se e fez uma ligeira presso no ombro dele. - Anda l, admite que tambm te preocupaste. No foi s o Henry, pois no?
Mike engoliu em seco. - No.
- Nesse caso, qual o motivo de no me dizeres logo de incio? Que necessidade tinhas de atribuir tudo ao teu irmo?
- No quis que te zangasses comigo.
- 0 que  que te leva a pensar que me zangaria contigo?
- Porque... bem, tu sabes... andas a sair com o tipo.
- E?
- No querias que pensasses... bem, no tinha a certeza de...
Mike retraiu-se, no quis explicar a razo.
- No quiseste que eu pensasse que me estavas a falar disso s para eu deixar de andar com ele? - perguntou Julie.
- Foi isso mesmo.
Julie pareceu estud-lo. - Tinhas assim to pouca confiana na nossa amizade? Pensaste que podia esquecer tudo o que se passou nos ltimos doze anos?
Mike no respondeu.
- Conheces-me melhor do que ningum e s o meu melhor amigo. No h certamente nada que possas dizer que me leve a pensar que apenas pretendes magoar-me.  que h 
pelo menos uma coisa que sei acerca de ti: nem sequer eras capaz de pensar num esquema desses. Que razo  que vs para eu gostar de passar tanto tempo na tua companhia? 
Porque s um homem decente. Um homem justo.
Mike olhou para o outro lado, a pensar que s faltava que lhe chamasse eunuco.
- Os tipos decentes ficam em ltimo lugar. No  isso que as pessoas costumam dizer?
Julie serviu-se de um dedo para o obrigar a olhar para ela e olhou-o nos olhos. - Algumas pessoas. Mas eu no.
- E quanto ao Richard?
- 0 que h com ele?
- Nos ltimos tempos, tens passado muito tempo com ele.
Ela inclinou-se para trs, parecendo procurar maneira de o focar melhor.
- Vejam s! Se no te conhecesse to bem, diria que pareces estar com cimes. Porqu? No  nada importante. No tenho planos para casar com o homem.
- No tens?
Julie pareceu resfolegar. - Ests a brincar, no ests?
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---        ias a cevi-au uc rvruxc uurigou-a a responder a
sua prpria pergunta: - No ests a brincar, pois no? Como, pensaste que eu estava apaixonada por ele? - No fazia ideia.
- Ah! Pois bem, no estou. Nem sequer tenho a certeza de voltar a sair com ele. E isso no tem nada a ver com aquilo que acabas de dizer-me. A semana passada foi 
fantstica, foi divertida, mas faltou qualquer coisa, percebes? E depois, na segunda-feira, pareceu-me mais distante, por qualquer razo, e decidi que no valia 
a pena.
- De verdade?
Ela sorriu. - De verdade? - Hurra!
Foi tudo o que Mike conseguiu dizer. - Decerto. Hurra!
Tizzy passou junto deles e mudou o canal de televiso, para depois lhes perguntar se queriam mais uma bebida. Ambos acenaram que no.
- Ento, e agora segue-se o qu? - inquiriu Mike. - Voltas a
namorar com o velho Bob?
- Espero no vir a precisar disso.
Mike assentiu. Naquele ambiente esqulido, Julie parecia emitir
luz e ele sentiu a garganta seca. Bebeu mais um gole de cerveja.
- Bom, talvez aparea outro tipo que te convide - sondou
Mike.
- E possvel.
Julie descansou o queixo na mo e sustentou-lhe o olhar.
- No ters de esperar muito. Tenho a certeza de que haver por a uma dzia de tipos que s esperam uma oportunidade para te convidarem.
Ela sorriu abertamente. - S preciso de um.
- Hs-de encontr-lo - afirmou Mike. - Eu no me preocuparia com isso.
- No estou preocupada. Julgo que j consegui ter uma ideia bastante precisa daquilo que procuro num homem. Agora que sa umas quantas vezes com homens, tudo est 
a ficar um pouco mais claro. Quero encontrar um homem decente, um homem justo.
- Bom, merece-lo, disso tenho a certeza.
Julie no pde deixar de pensar que, por vezes, Mike era to obtuso como uma esttua de mrmore. Experimentou outra tactica.
- Pois bem, e tu? Tambm vais encontrar algum muito especial?
- Quem sabe?
- Vais, de certeza. Se procurares, est bem de ver. Por vezes,
temos essas pessoas mesmo  frente do nariz.
Mike deu um puxo  parte da frente da camisa. No se tinha
apercebido do calor que estava dentro do bar, mas sentia que estava
prestes a ficar inundado em suor, que no podia aguentar ali muito
mais tempo. - Espero que tenhas razo - foi a nica coisa que lhe
ocorreu dizer.
Voltaram a ficar silenciosos.
- Ento? - recomeou Julie, a ver se ele dizia qualquer coisa. - Ento... - respondeu ele, olhando  volta da sala. Finalmente, Julie respirou fundo. Pensou que 
tinha de ser ela a
iniciar a conversa que interessava. Se esperasse por aquele Casanova,
ficaria to velha que ele s serviria para a ajudar nos passeios pelo
parque.
- 0 que  que fazes amanh  noite? - perguntou. - Ainda no pensei nisso. - Estava a pensar se no podamos sair juntos. - Sair juntos?
- Sim. Na ilha, h um stio verdadeiramente interessante.
E mesmo na praia e ouvi dizer que a comida  realmente boa.
- Queres que pergunte se o Henry e a Emma tambm que
rem ir?
Julie levou um dedo ao queixo. - Hum... e se fssemos s ns os
dois?
Ele sentia o corao aos saltos por debaixo das costelas. - Tu e eu? -  claro. Por que no? A menos que no queiras, como  bvio. - No, quero - respondeu, talvez 
demasiado depressa, mas logo
se arrependeu. Respirando fundo, esforou-se por se acalmar. Era
preciso descontraco. Olhou-a com a sua expresso  James Dean.
- Quero dizer, acho que me vai ser possvel.
Julie engoliu uma gargalhada, mas conseguiu dizer: - Graas a Deus! Fico-te muito agradecida.

- Portanto, convidaste-a para sair,  isso? - inquiriu Henry.
Mike estava encostado como um cowboy num velho filme do Oeste, um joelho dobrado, o p apoiado na parede, cabea descada para o lado. Observava as unhas, como se 
no atribusse grande importncia ao assunto.
Falou com calma, encolhendo os ombros num gesto estudado. - Achei que estava na altura.
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-        LLC-c u ui. r, tens a certeza cie que se trata de uma sada de namorados?
Mike levantou os olhos, como se a pergunta do irmo o enfadasse. - E claro. No pode ser outra coisa. - Conta l como foi? Como  que surgiu a ideia?
- Fiz que surgisse. Nas calmas. Limitei-me a levar a conversa por
esse caminho e, na altura prpria, aconteceu.
- Assim, sem mais nem menos? - Sem mais nem menos.
- Hum - fez Henry. Sabia que Mike estava a mentir numa parte
qualquer do relato, s no era capaz de apontar o ponto exacto. Signifi
cava, porm, que eles iam sair juntos e isso era o mais importante.
- E o que  que ela disse acerca do Richard?
0 irmo poliu as unhas de encontro  camisa e observou o re
sultado. - Julgo que esse  um caso praticamente arrumado. - Ela disse isso?
- Pois disse.
- Ah!
Estava a ganhar tempo, a pensar no que devia dizer a seguir. Podia provocar o irmo, podia dar-lhe conselhos, mas no podia fazer nada sem descobrir o motivo que 
o levava a considerar pouco credvel a sequncia dos factos.
- Bom, acho que s me resta dizer que tenho orgulho em ti. Chegou a altura de a bola comear a rolar entre vs.
- Obrigado, Henry.
- No tens de qu - disse, fazendo um gesto com a cabea na direco do escritrio. - Ouve, ainda tenho ali umas coisas para fazer e quero ir para casa a horas decentes; 
vou voltar ao trabalho, se no te
importas?
- Avana.
Sentindo-se mais feliz do que alguma vez se sentira na vida, Mike baixou o p e, segundos depois, ia a caminho da oficina. Henry ficou a observ-lo e dirigiu-se 
para o escritrio, fechando a porta logo de seguida. Pegou no telefone, marcou um nmero e no tardou a ouvir a voz de Emma.
- Nem vais acreditar naquilo que acabo de ouvir - comeou. - 0 que foi?
Henry p-la ao corrente da conversa com Mike.
- Bem, j era tempo - exultou Emma.
- Eu sei. Disse-lhe isso mesmo. Mas, olha l, achas que podes
conseguir que a Julie te conte a sua verso da histria?
- Julgo ter ouvido que o Mike te contou a histria toda.
- Pois contou. Mas acho que est a esconder um pormenor qual
quer.
Emma fez uma pausa. - No ests a preparar nenhuma das tuas
partidas, pois no? No vais fazer sabotagem?
- No, nada disso. Na realidade, apenas gostaria de saber como
tudo se passou.
- Porqu? Para poderes zombar dele  vontade? -  claro que no.
- Henry...
- V l, meu amor. Tu conheces-me. Nunca seria capaz de fazer
uma coisa dessas. Apenas gostaria de saber quais so os planos da
Julie. 0 Mike est a levar o caso muito a srio e no gostaria que ele
acabasse por se magoar.
Emma ficou calada e Henry sabia que ela estava a ponderar se
havia ou no de acreditar no marido.
- Est bem, h bastante tempo que no almoo com ela. Henry acenou, pensando que a mulher era uma querida.

A segurar o saco das mercearias e o correio, Julie abriu a porta e caminhou com dificuldade em direco  cozinha. 0 motivo principal de ter passado pela loja foi 
o desejo de comprar qualquer coisa saudvel, mas, em vez disso, acabou por comprar uma nica refeio de lasanha para aquecer no microondas.
Singer no a acompanhou: logo que o jipe parou, saltou e correu para o bosque existente entre a estrada e a costa e s estaria de volta passados alguns minutos.
Julie guardou a lasanha no frigorfico, trocou a roupa que trazia por uns cales e uma T-shirt, e regressou  cozinha. Passou em revista o correio: facturas, publicidade 
diversa, um par de catlogos de vendas pelo correio; ps a pilha de lado. De momento, no estava com disposio para aquele tipo de coisas.
Ia sair com o Mike, pensou. Mike.
Murmurou o nome, a verificar se soava to inacreditvel como lhe parecia.
Soava.
Imersa nestes pensamentos, olhou para o telefone e viu a luz do gravador de chamadas a piscar. Foi at junto da mquina, carregou no boto  play e ouviu a voz 
de Emma, a perguntar se Julie queria almoar com ela na sexta-feira. - Se no puderes, liga-me. Se te agradar, encontramo-nos no restaurante. De acordo?
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n iaeia agraaou-ine. iviomentos depois, a mquina emitiu um som e Julie ouviu a voz de Richard. Parecia cansado, como se tivesse estado a manejar um martelo durante 
todo um dia soalheiro de Vero.
- Boa tarde, Julie. S estou a ligar para ter a certeza, pois calculo que no deves estar em casa. Vou estar fora a maior parte da tarde, mas amanh estarei de regresso.
Fez-se uma pausa e Julie ouviu-o inspirar profundamente. - Nem calculas como neste momento estou a sentir a tua falta.
Ouviu o clique quando ele desligou. Observou um tentilho que aterrou no peitoril da janela, deu dois saltos e voou para longe.
Meu Deus, pensou subitamente, no sei por qu, tenho o pressentimento de que ele no vai aceitar isto muito bem.
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DEZASSEIS
Mike apareceu em casa de Julie no final da tarde do dia seguinte, um pouco antes das sete, vestido com umas Dockers e camisa branca. Desligou o motor, meteu as chaves 
no bolso, pegou na caixa de chocolates e comeou a andar, ensaiando o que devia dizer. Embora Julie preferisse que ele se mostrasse tal como era, Mike no conseguia 
livrar-se do desejo de a impressionar, ou, melhor, de a deslumbrar, a comear pelo incio do discurso. Depois de vrias horas de meditao, decidira-se por: Que 
grande ideia, essa da ida  praia. Vai estar uma noite linda, no s por parecer uma observao natural mas tambm por querer afirmar que ia cheio de determinao. 
Esta era a sua oportunidade, talvez a nica hiptese, e no estava disposto a desperdi-la.
Julie saiu de casa no momento em que Mike estava a chegar  porta e disse qualquer coisa amvel, provavelmente uma espcie de cumprimento, mas a voz dela, a que 
se juntava a certeza esmagadora de que ia mesmo sair com ela!, cortaram-lhe o fio do pensamento e fizeram que esquecesse o que pretendia dizer. De facto, bem poderia 
dizer-se que se esqueceu de tudo.
Havia mulheres bonitas por todo o lado, pensava Mike ao olhar para ela. Havia mulheres que faziam os homens virar a cabea, mesmo que estivessem acompanhados da 
namorada, havia mulheres que, com um simples bater das pestanas, conseguiam safar-se quando o polcia as mandava parar por excesso de velocidade.
Contudo, para alm delas, havia Julie.
A maioria das pessoas consider-la-ia atraente. Havia, com certeza, pormenores menos felizes: um nariz ligeiramente arrebitado, talvez sardas em demasia, um cabelo 
que, na maior parte dos dias, parecia fazer o que lhe apetecia. Porm, quando Mike a viu comear a descer
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-        b,        - -11 a uusu uaquere Anal de Prmavera, decidiu que nunca tinha visto mulher mais bonita
1 - Mike? - disse Julie.
Ele percebeu que aquela era a sua oportunidade. Que no podia desperdi-la. Que sabia exactamente o que tinha de dizer. Que tinha de permanecer calmo e deixar que 
as palavras flussem com naturalidade.
- Mike? - repetiu Julie.
A voz dela obrigou-o a aterrar. S faltava a frase inicial do dis
curso.
- Sentes-te bem? - inquiriu ela. - Ests um pouco plido.
Mike ainda comeou a abrir a boca, mas fechou-a de imediato, logo que se apercebeu de que se esquecera de tudo o que pretendia dizer. Pensou que devia evitar o pnico, 
acontecesse o que acontecesse no podia entrar em pnico. Acabou por decidir apresentar-se como era e respirou fundo.
- Trouxe-te chocolates - disse finalmente, entregando-lhe a caixa.
Julie olhou para ele. - Estou a ver. Obrigada.
Trouxe-te chocolates? Foi tudo o que conseguiste tirar dessa cabea?
- Ol! - brincou Julie. - Est algum em casa?
A primeira frase... a primeira frase... Mike concentrou-se e sentiu a frase comear a formar-se a partir de palavras soltas. Todavia, Julie estava diante dele,  
espera de que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa.
- Est muito bonita a praia, esta noite - balbuciou finalmente. Julie ficou a observ-lo por momentos, a sorrir. - Obrigada. Mas
ainda no estamos na praia.
Mike enfiou as mos nos bolsos. Idiota!
- Desculpa - murmurou, sem saber o que mais devia fazer. - Desculpo, o qu?
- Por eu no saber o que hei-de dizer. - De que  que ests a falar?
A expresso dela revelava uma mistura curiosa de confuso e pa
cincia e foi isso que, acima de tudo, acabou por fornecer a Mike a
chave para encontrar o que devia dizer.
- De nada - respondeu. - Acho que  apenas a alegria de estar
aqui.
Ela comoveu-se com a sinceridade daquelas palavras. - Eu sinto o mesmo.
Isto permitiu que Mike recuperasse um pouco da contusao. sorriu, mas de olhos perdidos na distncia, como se estivesse a iniciar um prolongado estudo cientfico 
sobre as zonas vizinhas. No falou de imediato, ainda sem certezas sobre como proceder a partir daquele ponto.
- Bom, ests pronta? - acabou por perguntar.
- Logo que tu estiveres.
Ao virar-se para se dirigir para a carrinha, Mike ouviu o ladrar do co, vindo de dentro de casa, e olhou por cima do ombro.
- 0 Singer no vem?
- No tinha a certeza de que o quisesses atrs de ti.
Mike parou. Pensou que o co, reduzindo as expectativas de ambas as partes, poderia ser a soluo para os nervos que sentia. Uma espcie de pau-de-cabeleira. - Se 
quiseres lev-lo, no me importo: vamos  praia, ele vai adorar.
Quando ela olhou de novo para a casa, o Singer voltou a ladrar. Tinha o focinho encostado ao vidro da janela. Julie gostaria que ele fosse porque o co seguia-a 
para todo o lado; por outro lado, aquele era suposto ser um encontro de namorados. No caso de Richard, ou de qualquer dos outros homens com quem tinha sado, nem 
colocara essa hiptese.
- Tens a certeza de que no te importas?
- No me importo nada.
Ela sorriu. - Espera s um segundo para eu lhe abrir a porta, est bem?
Uns minutos depois, quando iam a passar por cima da ponte que levava a Bogue Banks, Singer voltou a ladrar. Seguia na caixa da carrinha, a receber o vento na boca 
aberta e na lngua, com o ar mais feliz que se pode esperar de um co.

Singer acomodou-se na areia morna, em frente do restaurante, enquanto Mike e Julie se sentaram a uma mesa pequena, na esplanada do segundo andar. Nuvens baixas estavam 
a esfarrapar-se no cu que ia escurecendo lentamente. A brisa do oceano, que na ilha era sempre mais forte, agitava as abas do chapu-de-sol que abrigava a mesa, 
fazendo-as oscilar num ritmo constante. Isso obrigou Julie a prender o cabelo por detrs das orelhas, para evitar que as pontas lhe cassem sobre a cara. A praia 
propriamente dita estava quase vazia, pois a maior parte das pessoas s comea a frequentar as praias depois do Memorial Day, no final de Maio, e as ondas rolavam 
suavemente sobre os montculos de areia que iam at  beira da gua.
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r        c, ucviuu a excelente
localizao, em plena praia, praticamente no havia mesas vagas.
Quando o empregado apareceu, Julie mandou vir um copo de vinho;
Mike optou por uma cerveja em garrafa.
Durante a curta viagem desde casa tinham falado um pouco sobre
o que tinham feito durante o dia; como era costume, tiveram de se
referir a Mabel, a Andrea, a Henry e Emma. Enquanto conversavam,
Mike tentava recompor-se. No conseguia perdoar-se o facto de ter
estragado o plano que lhe custara um dia de trabalho, s por no
ter conseguido dizer a frase inicial, apesar de tudo se ter arranjado, fosse l como fosse. Gostaria de atribuir isso ao seu encanto natural mas, l no fundo, sabia 
que Julie no tinha notado porque, afinal, no viu no comportamento dele nada que no fosse habitual. Uma concluso que o deixava algo descorooado mas, pelo lado 
positivo, ela no se aproveitara da situao para zombar dele.
Sentiu alguma dificuldade de concentrao durante os primeiros minutos passados no restaurante. Afinal, aquele era o momento com que sonhara, todos os dias, durante 
os ltimos dois anos. E continuava a regressar sempre  ideia de que, se agisse como devia ser, talvez a noite acabasse com ele e Julie a trocarem um beijo. Quando 
ela levantou o copo e bebeu um gole, estendendo os lbios para a borda do copo, Mike pensou estar perante um dos gestos mais sensuais que alguma vez tinha presenciado.
Enquanto duraram os aperitivos, Mike conseguiu manter a conversa sem interrupes e chegou a faz-la rir uma vez ou duas; porm, quando o jantar acabou por ser servido, 
tinha os nervos to esfrangalhados que nem conseguia recordar-se da maior parte daquilo que fora dito.
Pensou que tinha de se portar como um homem.

Aquele no era o Mike normal.
Julie no estava surpreendida. Sabia que ele precisava de algum tempo para se adaptar. No entanto, esperava que o conseguisse o mais depressa possvel. Ela prpria 
no se sentia muito  vontade e a insegurana dele no facilitavam em nada a situao. A maneira como Mike esbugalhava os olhos de cada vez que ela pegava no copo 
fazia que tivesse vontade de perguntar se ele nunca vira ningum a beber vinho. Da primeira vez que aconteceu, pensou que ele estava a tentar avis-la de que lhe 
cara um mosquito na bebida.
Esta noite era diferente daquela em que ele fora reparar a torneira l de casa; porm, quando no dia anterior, no Tizzy's, o convidou,
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nunca poderia imaginar quanto ele se sentiria aesaic1uauu. 11111 0. , Mike no era apenas uma parte possvel do seu futuro, era de igual modo uma pessoa indelevelmente 
ligada ao seu passado. Como Jim.
Enquanto comiam, pensou em Jim mais do que uma vez e deu consigo a estabelecer comparaes entre os dois homens. 0 que a surpreendeu foi o facto de que, embora estivesse 
a tornar a situao mais difcil do que o necessrio, Mike estava a aguentar-se bastante bem. Nunca seria igual a Jim mas, quando estava junto dele, havia certos 
pormenores que lhe recordavam os bons tempos do seu casamento. E tinha uma certeza, como sempre acontecera com Jim: a de que Mike a amava agora e que nunca deixaria 
de a amar. Durante o jantar, houve apenas um breve momento em que na sua mente se insinuou um leve sentimento de traio, em que teve a impresso de que, de algum 
modo, Jim estaria a observ-los, mas o pensamento desapareceu com a mesma rapidez com que tinha surgido. E, pela primeira vez, Julie teve aquela sensao agradvel, 
a que lhe assegurava que Jim no ficaria nada perturbado com a situao.
Na altura em que acabaram de jantar, a Lua j estava alta no cu, derramando um manto de luz sobre a gua escura do oceano.
- No te apetece caminhar um bocado? - inquiriu Mike.
- Parece-me uma excelente ideia - respondeu, ao pousar o copo sobre a mesa.
Mike levantou-se, Julie alisou o vestido e ajeitou a ala que lhe tinha cado do ombro. Ao dirigir-se ao corrimo, Mike teve de a apertar um pouco para passar e, 
juntamente com o cheiro a sal e a mar, tambm notou o odor da gua-de-colnia que ele usava, tornando-a ciente de quanto as coisas tinham mudado subitamente. Mike 
dobrou-se sobre o corrimo,  procura do Singer, o rosto foi momentaneamente engolido por uma sombra mas, quando virou a cabea, o luar pareceu apoderar-se da textura 
rude da sua pele, dando-lhe a aparncia de algum que ela mal conhecia. Os dedos, dobrados  volta do corrimo de ferro forjado, estavam manchados de leo, o que 
a fez aperceber-se, uma vez mais, de quanto Mike era diferente do homem que a levara a percorrer a'coxia central da igreja.
No, pensou, no estou apaixonada pelo Mike.
Julie sentiu que comeara a sorrir. Pelo menos, ainda no estava.

- Para o final do jantar, ficaste algo taciturna - notou Mike.
Caminhavam junto da linha de gua; tinham tirado os sapatos e Mike tinha enrolado as calas at meio das pernas. 0 co vagueava  frente deles, de nariz junto  
areia,  procura de caranguejos.
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- nsuve a pensar - murmurou julie.
Mike assentiu. - Em Jim?
Ela olhou-o de relance. - Como  que sabes?
- J vi essa expresso muitas vezes. Como jogadora de pquer
serias um verdadeiro desastre - respondeu Mike. Deu uma palmada
num dos lados da cabea. - No me escapa nada, bem sabes.
- Pois. Nesse caso, eu estive a pensar exactamente o qu?
- Estavas a pensar... que te sentias feliz por teres casado
com ele.
- Oh, isso toda a gente sabe. - Mas acertei?
- No.
- Ento, estavas a pensar em qu?
- No  nada de importante. Alm disso, no te interessa saber. - Porqu?  mau?
- No.
- Ento, conta-me.
- Est bem. Estava a pensar nos dedos dele. - Estavas a pensar nos dedos do Jim?
- Era. Tens os dedos manchados de leo. Estive a pensar que,
durante todo o tempo que passei casada com o Jim, nunca vi os dedos
dele parecerem-se com os teus.
Embaraado, Mike colocou as mos atrs das costas.
- Oh, no disse isso com m inteno. Sei que s mecnico. s
obrigado a sujar as mos.
- No esto sujas. Estou sempre a lav-las. Esto apenas man
chadas.
- No sejas to picuinhas. Sabes o quero dizer. Alm do mais, pode dizer-se que at gosto.
- Tu gostas?
- Acho que no tenho outro remdio. As mos fazem parte do conjunto.
Mike encheu o peito de ar e percorreram alguma distncia sem dizer nada. - Olha l, aonde  que gostarias de ir amanh  noite? Podemos, talvez, ir at Beaufort?
- Parece interessante.
- Dessa vez temos de deixar o Singer em casa        acrescentou Mike.
- No faz mal. Ele j  crescido. Pode suportar a nossa falta. - H algum lugar aonde prefiras ir? -  a tua vez de escolheres. J cumpri o meu dever.
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- E foi muito bem cumprido - corroborou Mike, a olh-la de esguelha, para lhe pegar na mo. - Que excelente ideia, esta de vir  praia. Est uma noite maravilhosa.
Julie sorriu quando os dedos de ambos se entrelaaram. - Pois est - concordou.

Como Julie comeava a sentir frio, saram da praia alguns minu
tos depois. Mike estava relutante, no queria largar-lhe a mo mesmo
depois de chegarem junto da carrinha, mas no teve outro remdio.
Pensou apoderar-se novamente dela quanto estivessem dentro do car
ro, mas ela pousou as duas mos no regao e ficou a olhar para fora,
pela janela lateral.
Nenhum deles falou muito durante o caminho para casa; quando
ia a acompanh-la  porta  que Mike percebeu que no fazia ideia
daquilo em que ela estaria a pensar. Quanto a si, porm, sabia bem o
que pensava: alimentava a esperana de que, ao chegar ao alpendre,
Julie tivesse uma ligeira hesitao antes de se despedirem, dando-lhe
a oportunidade de demonstrar que era capaz de ultrapassar o embara
o. Tambm aqui no podia haver erros.
- Passei uma excelente noite - disse.
- Eu tambm. Amanh, a que horas  que devo estar pronta? - As sete.
- Acho ptimo.
Mike aquiesceu, sentindo-se um adolescente. Pensou que estava
tudo bem, que era chegado o grande momento. Afinal, era aquele o
momento que resumia tudo.
- Ento - comeou, a fingir uma grande calma.
Julie sorriu, a ler-lhe os pensamentos. Pegou-lhe na mo, apertou
-a e voltou a larg-la.
- Boa noite, Mike. At amanh.
Levou um segundo a perceber a recusa, transferiu o peso do corpo
de um p para o outro, voltou  posio inicial. - Amanh? -
perguntou, inseguro.
Ela abriu a bolsa e comeou a procurar as chaves. - Claro. Como
est combinado. No te lembras?
Julie encontrou o molho de chaves, meteu uma na fechadura e
voltou a olh-lo. Singer j se tinha juntado a eles e Julie abriu-lhe
a porta, deixando o co entrar  frente.
- E obrigada por esta noite to agradvel.
Fez um aceno e seguiu o co para dentro de casa. Vendo a porta
fechar-se atrs dela, Mike ficou parado, s a olhar, at se aperceber de
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,i-- w a- vvuaua a Sair. )egunaos depois, deixava o alpendre, a
pontapear a gravilha ao dirigir-se para a carrinha.
Sabendo que no conseguiria dormir, Julie sentou-se no sof e ps-se a folhear um catlogo, enquanto revia as peripcias do sero. Estava satisfeita por no ter 
beijado Mike no alpendre, embora no
pudesse dizer porqu. Talvez fosse por precisar de mais tempo para se adaptar aos seus novos sentimentos em relao a ele.
Ou talvez quisesse apenas v-lo estrebuchar um bocadinho. Quando estrebuchava, ficava bonito, como s ele podia ser. E Henry tinha
razo: o irmo era engraado quando se deixava levar.
Procurou o controlo remoto e ligou a televiso. Era cedo, ainda no eram dez horas, e escolheu um drama da CBC, acerca do xerife de uma pequena cidade que se v 
obrigado a arriscar a vida para salvar pessoas.
Vinte minutos depois, no preciso momento em que o xerife se preparava para salvar um jovem impossibilitado de saltar de um carro a arder, ouviu bater  porta.
0 co levantou-se de imediato e percorreu a sala em dois saltos. Afastou as cortinas com a cabea e ela pensou que Mike tinha voltado.
Foi ento que o Singer comeou a rosnar.
DEZASSETE
- Richard! - exclamou a surpreendida Julie.
- Ol, Julie.
Empunhava um ramo de rosas. - Arranjei-as no aeroporto, no caminho para c. Desculpa, no esto to frescas quanto deviam, mas no havia muito por onde escolher.
Julie deixou-se ficar  porta, com o co a seu lado. 0 Singer tinha deixado de rosnar quando ela abriu a porta e Richard lhe mostrou a palma da mo. 0 co cheirou 
antes de levantar a cabea, para se assegurar de que o rosto condizia com aquele cheiro j conhecido, e voltar-lhe o rabo. Oh, este, pareceu querer dizer. No 
me agrada muito, mas est bem.
Uma situao ingrata para Julie. Hesitou antes de aceitar as flores, preferindo que ele no as tivesse trazido.
- Obrigada.
- Peo desculpa por vir to tarde, mas queria cumprimentar-te antes de ir para casa.
- No faz mal.
- Telefonei mais cedo para te pr ao corrente, mas julgo que no estiveste em casa.
- Deixaste alguma mensagem?
- No. No tive tempo. Estavam a fazer a ltima chamada para o embarque e o meu lugar no estava confirmado. Sabes como so estas coisas. Ontem, sim, deixei-te uma.
- Sim - aquiesceu Julie -, ouvi essa.
Richard ergueu as duas mos  frente do peito. - Portanto, no estavas em casa? - inquiriu. - Antes, pergunto eu.
Ela sentiu que os ombros lhe descaam um pouco. No queria fazer aquilo, quela hora.
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-        ~u u~ ~~ll uui aiuigo - mrormou. - Um amigo?
- Lembras-te do Mike? Quando jantmos juntos.
- Ah, sim. Aquele do bar, naquela noite? 0 tipo que trabalha
numa oficina de automveis. -  esse.
- Oh! - deixou escapar, a acenar com a cabea. - Divertiram-se?
- Mal nos temos visto, ultimamente. Por isso foi agradvel pormos a conversa em dia.
- Bom. - Olhou para o fundo do alpendre, depois para os
prprios ps, para voltar a olhar para ela. - Posso entrar? Tinha a
esperana de podermos falar durante alguns minutos.
- No sei - comeou Julie. - Acho que  bastante tarde.
Estava justamente a preparar-me para ir para a cama.
- Oh! No faz mal, eu compreendo. Podemos encontrar-nos amanh, ento? Talvez possamos jantar juntos?
Na sombra, parecia ter um ar mais grave, mas estava a sorrir, como se soubesse qual ia ser a resposta dela.
Julie pestanejou e manteve os olhos cerrados por mais um instante. Odeio ter de fazer isto, pensou, odeio, odeio, odeio. Bob tinha, pelo menos, a suspeita do 
que estava para acontecer. Richard, no.
- Tenho muita pena - disse -, mas no posso. Planeei outra coisa.
- Com Mike? Outra vez? Ela assentiu.
Com ar absorto, Richard coou uma das faces, sem desviar os olhos dos dela. - Quer dizer que o caso est arrumado? Para ns, quero dizer?
A expresso de Julie foi resposta suficiente.
- Cometi algum erro? - perguntou ele.
- No - protestou Julie -, no  nada disso.
- Nesse caso...  o qu? No te divertiste quando samos juntos? - Sim, diverti-me.
- Porqu, ento, este desfecho?
Julie hesitou. - Na verdade, no tem nada a ver contigo.  uma
questo s entre mim e o Mike. Parecemos apenas... Bom, no sei
como explicar isto. 0 que mais posso dizer?
Richard ficou a v-a lutar para encontrar as palavras e foi cerrando
os dentes, ao ponto de fazer sobressair os msculos das faces. Perma
neceu calado durante muito tempo.
- Estes dias em que estive ausente devem ter sido muito excitantes, ou no? - inquiriu.
- Ouve, lamento muito...
- 0 qu? Teres-me atraioado mal voltei as costas? Por me teres usado para fazeres cimes ao Mike?
As palavras levaram algum tempo a fazer efeito. - 0 que  que ests para a a dizer?
- Tu ouviste.
- Eu no te usei...
Richard ignorou-a, cada vez mais furioso. - No? Ento por que  que ests a pr fim  nossa relao? Numa fase em que estvamos ainda a tentar compreender-nos um 
ao outro? E qual a razo de esse Mike se ter, de repente, revelado to interessante? Isto , deixo a cidade por uns dias e, logo que regresso, a primeira coisa que 
ouo  que est tudo acabado e que o meu lugar foi ocupado pelo Mike.
Olhou para ela, com as comissuras dos lbios a ficarem brancas. - Com os diabos, no posso deixar de pensar que planeaste cada pormenor desta situao.
Aquela sua exploso fora to espantosa, to inesperada, que as palavras lhe saram da boca antes que ela pudesse pensar em conter-se. - Es um parvalho.
Richard continuou a olhar para ela durante muito tempo, mas acabou por desviar os olhos. De sbito, o ar de fria deu lugar a uma expresso de dor.
- Isto no  justo - disse em voz baixa, e suplicou: - Por favor, s pretendo falar uns minutos contigo, est bem?
Quando Julie olhou, ficou espantada por ver os olhos dele a encherem-se de lgrimas. Aquele homem era uma verdadeira montanha russa de emoes, decidiu. Para cima, 
para baixo,  roda. - Richard, lamento muito, no devia ter dito o que disse. E no tive inteno de te magoar. Acredita que no.
Fez uma pausa para se assegurar de que ele estava a ouvi-la. - Mas  tarde e estamos ambos cansados. Acho que  melhor ficarmos por aqui, antes que algum de ns 
diga mais alguma coisa. De acordo?
Como Richard no desse resposta, deu um passo atrs e comeou a fechar a porta. De sbito, ele levantou o brao e agarrou a porta, para evitar que ela a fechasse.
- Julie! Espera! - exclamou. - Desculpa. Por favor... tenho absoluta necessidade de falar contigo.
No futuro, sempre que aquele momento lhe viesse  memria, recordaria com espanto a velocidade com que Singer actuou. Antes
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r ar,u-ci yue rucnara tinha agarrado a porta, j o co se lanara contra aquela mo, como se tentasse abocanhar uma bola em pleno voo. As mandbulas de Singer no 
falharam o alvo e Richard gritou de dor, ao mesmo tempo que se encostava  ombreira da porta.
Julie gritou: - Singer!
Richard caiu de joelhos, com um brao estendido, abocanhado pelo co que agitava a cabea de um lado para o outro, sempre a rosnar.
- F-lo parar! - gritou Richard. - Afasta-o de mim!
Julie debruou-se sobre o co, agarrou-o com fora pela coleira e puxou. - Larga-o! - ordenou. - Larga-o, j!
Apesar da fria momentnea, o co recuou imediatamente e Richard, por instinto, levou a mo ferida ao peito e cobriu-a com a outra. Singer ficou ao lado de Julie, 
com os dentes  mostra e os plos do lombo eriados.
- Singer, no! - gritou Julie, ainda espantada com a ferocidade do animal. - Como  que est mo?
Ainda a tremer, Richard mexeu os dedos. - Julgo que no h nada partido.
Julie estendeu a mo para o co. Tinha os msculos rgidos, os olhos fixos em Richard.
- Nem reparei que vinha direito a mim - disse ele em voz baixa. - Lembra-me para no segurar a tua porta quando o co estiver por perto.
Embora falasse como se o incidente tivesse algo de cmico, Julie no respondeu. Singer tinha agido instintivamente para a proteger e no estava disposta a castig-lo 
por causa disso.
Richard ficou ali, a abrir e a fechar a mo. Julie viu as marcas dos dentes do co, embora no parecesse que a pele tivesse sido rasgada.
- Peo desculpa - disse ele. - No devia ter tentado impedir-te de fechar a porta. Foi uma asneira da minha parte.
Julie concordou interiormente com aquela anlise da situao.
- E, antes disso, no devia ter-me zangado contigo - continuou, com um suspiro. - 0 problema  que isto aconteceu no final de uma semana realmente complicada. Foi 
esse o motivo que me trouxe at aqui. Sei que no tenho desculpa, mas...
Parecia to sincero quanto contrito, mas Julie levantou as mos para que parasse.
- Richard...
0 seu tom de voz mostrava que no queria voltar  discusso do assunto. Richard desviou os olhos. Ficou de olhos fixos em nada,
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segunuo aleua, v111 a iur ia1a
e Julie verificou que no se enganara quando, antes, lhe parecera que ele tinha lgrimas nos olhos. Agora estavam, de novo, hmidos.
Quando voltou a falar, f-lo numa voz abafada, hesitante.
- A minha me morreu esta semana - murmurou. - Venho de
assistir ao funeral dela.
- Foi por causa disso que, naquela noite, tive de deixar o bilhete no teu jipe - explicou Richard. - 0 mdico dissera-me que seria melhor apanhar o primeiro avio, 
pois no tinha a certeza de que ela pudesse viver mais um dia. Apanhei o primeiro avio para Raleigh, na manh de tera-feira, e, por causa das novas medidas de 
segurana, tive de sair de casa a meio da noite, para ter a certeza de chegar a tempo.
Tinham decorrido alguns minutos; Richard encontrava-se sentado no sof de Julie, a olhar para o cho, ainda a tentar conter as lgrimas. Ela no precisara de mais 
explicaes, percebeu tudo o que acontecera e no conseguiu evitar um aceno de compaixo por ele. Depois de ela ter balbuciado a frmula habitual: - Sinto muito 
- e - Por que  que no disseste logo? - Richard tinha ficado completamente destroado e as suas lgrimas comoveram Julie. Depois de ter posto o co no quarto, autorizou-o 
a entrar. Estava agora sentada numa cadeira, em frente, dele, a pensar enquanto ele ia falando. A pensar que ele era um verdadeiro especialista a partir coraes, 
a escolher o momento exacto para agir.
- Sei que isto no vai alterar o que me disseste antes, no alpendre, mas no queria que a nossa relao terminasse numa zanga. Apreciei demasiado o tempo que passmos 
juntos para permitir que tudo acabasse assim.
Aclarou a voz e pressionou os dedos contra as plpebras. -  que me pareceu tudo to repentino, percebes? No estava preparado para aquilo que me disseste - continuou, 
com um suspiro. - Bolas, no estava preparado para quase nada do que me sucedeu. No queiras saber como estavam as coisas por l. Tudo... o aspecto dela no final, 
o que as enfermeiras disseram, o cheiro que deitava...
Levou as duas mos  cara e Julie ouviu a respirao opressa dele, uma srie de inspiraes rpidas a que se seguia uma longa expirao.
- S precisava de falar com algum. Algum que sabia ser capaz de ouvir.
Caramba!, pensou Julie. Era difcil as coisas terem sido piores!
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- Podemos falar. Continuamos amigos, ou no?
Richard prosseguiu a conversa solta durante umas duas horas, saltando de um tema para outro: as recordaes da me, a primeira coisa que pensara ao entrar no quarto 
do hospital, como se sentira na manh seguinte, ao saber que segurava a mo da me pela ltima vez. Depois de ele ter falado bastante tempo, Julie ofereceu-lhe uma 
cerveja; com o avanar da noite, e sem parecer dar por isso, bebeu ainda mais duas. De tempos a tempos, ficava a olhar para a parede da sala, com uma expresso de 
alheamento, como se no se recordasse do que pretendia dizer; noutras ocasies, falava como se acabasse de beber dois cafs fortes, ligando as palavras umas s outras. 
Contudo, Julie nunca deixou de ouvir. Fez uma ou outra pergunta quando lhe pareceu apropriado, mas no passou disso. Viu-lhe lgrimas em mais de uma ocasio mas, 
sempre que elas ameaavam escorrer-lhe pela cara, Richard punha as mos na ponte do nariz para as conter.
Passou a meia-noite. 0 ponteiro do relgio que estava sobre a cornija da lareira passou a uma hora, e avanou lentamente para as duas. Por essa altura, a cerveja 
e a exausto emocional tinham feito estragos. Richard comeou a repetir-se, as palavras comearam a sair arrastadas. Quando Julie regressou da cozinha, onde fora 
buscar um copo de gua para si, viu que ele tinha fechado os olhos. Estava dobrado a um canto, a cabea tombada por cima dos braos do sof, de boca aberta. A respirao 
adquirira um ritmo regular.
De copo de gua na mo, ficou de p, a pensar. Que esplndida
situao! No sabia o que fazer.
Quis acord-lo, mas no o julgou suficientemente sbrio para
conduzir. No lhe agradava deix-lo ficar, mas que havia de fazer, se
j estava a dormir; se o acordasse, ele poderia querer continuar a
conversa. Por mais vontade que tivesse de lhe ser til, sentia-se
exausta.
- Richard - murmurou. - Ests acordado? Nada.
Tentou novamente, momentos depois, mas o resultado foi o mesmo. Achou que podia gritar ou aban-lo mas, considerando as opes, pareceu-lhe que no valia a pena.
Acabou por decidir que no havia outra soluo, que tinha de o deixar ficar.
Apagou as luzes e, deixando-o onde estava, dirigiu-se para o quarto, cuja porta fechou  chave. Singer estava em cima da cama. Levantou a cabea e ficou a v-la 
enfiar-se dentro do pijama.
-r- SU por eSLa 11U1Le - exp11LUU, LU111U SC LCL1LCUJC CVLLVCIICCL-JC
a si prpria de que tomara a deciso mais acertada. - No se trata de ter mudado de ideias.  que, sabes, estou muito cansada.


Julie acordou de madrugada e, depois de dar uma olhadela ao relgio, gemeu e virou-se para o outro lado, como que tentando retardar o novo dia. Sentia-se preguiosa 
e parecia estar a sofrer uma ressaca.
Depois de saltar da cama, abriu a porta do quarto com cuidado e espreitou para a sala; segundo parecia, Richard continuava a dormir. Tomou um duche e vestiu-se para 
ir trabalhar; no desejava que ele a visse em pijama. Na altura em que entrou na sala, com o co a caminhar sempre a seu lado, Richard j se encontrava sentado no 
sof, a esfregar a cara. A sua carteira, com as chaves em cima, estava na mesinha,  sua frente.
- Oh, bom dia - saudou, parecendo embaraado. - Acho que me deixei adormecer, no foi? Peo desculpa.
- Tinhas tido um dia complicado - comentou Julie.
- Pois tinha - limitou-se a responder. Levou algum tempo a pr-se de p e a pegar na carteira. Um breve sorriso passou-lhe pela cara. - Obrigado por me teres deixado 
ficar aqui a noite passada. Foi um grande favor.
- No h nada que agradecer. Sentes-te bem?
Tinha a camisa amarrotada e penteou o cabelo com os dedos. - Tenho de voltar a pedir desculpa pelo meu comportamento de ontem  noite - acrescentou Richard. - No 
sei o que me deu.
0 cabelo de Julie ainda no secara completamente e ela sentiu um pingo a escorrer para a blusa.
- No faz mal - respondeu. - Sei que tudo isto te pode parecer um pouco estranho, mas...
Ele abanou a cabea - No, est tudo bem. No tens de me explicar nada, eu compreendo. Mike parece-me ser um tipo decente.
Julie hesitou. -  mesmo - acabou por dizer -, mas obrigada.
- Desejo que sejas feliz. Nunca desejei outra coisa. s uma pessoa fantstica e mereces ser feliz. Especialmente depois de teres suportado a minha verborreia da 
noite passada. Sem rancores?
- Sem rancores - confirmou Julie. - Continuamos amigos?
-  claro - corroborou Richard.
- Obrigada.
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a dirigir-se para a sada. Ao abrir ' porta, olhou por cima do ombro e disse:
- 0 Mike  um homem de sorte. No te esqueas disso.
Sorriu, mas foi um sorriso algo melanclico. - Adeus, Julie.
Quando ele finalmente entrou no carro, Julie deu um grande suspiro de alvio, satisfeita por as coisas terem corrido melhor do que esperava que corressem. Bom, pelo 
menos tinham corrido melhor do que na noite anterior. Tudo era melhor do que aquilo.
Mas, pelo menos, era um caso encerrado.
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DEZOITO
Depois de entrar na sua casa alugada, Richard subiu a escada e foi para o quarto do gaveto. Pintara as paredes de preto e cobrira as janelas de forma a evitar a 
entrada de luz; por cima de uma mesa improvisada, que tinha encostado  parede do fundo, danava uma lmpada forrada de vermelho. 0 equipamento de fotografia estava 
ao canto: quatro mquinas diferentes, uma dezena de objectivas, vrias caixas com rolos de pelcula.
Dirigiu-se para junto da tina de bordos baixos que utilizava para revelar os negativos e pegou num monte de fotografias que tinha tirado durante os passeios com 
Julie.
Foi passando as fotografias uma a uma, parando de vez em quando para apreciar alguma delas. Como ela parecia feliz naquele fim-de-semana, pensava Richard, como se 
sentisse que a sua vida mudara definitivamente para melhor. E tambm adorvel. Ao analisar a expresso de Julie, no conseguiu encontrar nada que pudesse explicar 
o que tinha acontecido na noite anterior.
Abanou a cabea. No, no pretendia utilizar os prprios erros de Julie contra ela. Uma pessoa que conseguia passar da fria ao perdo com a facilidade com que ela 
o fazia era um tesouro. E sentia-se muito feliz por t-la encontrado.
Agora sabia muitos pormenores acerca de Julie Barenson. A me era alcolica, com acentuada preferncia pela vodca, que vivia numa caravana degradada, nos arredores 
de Daytona. 0 pai, actualmente a residir no estado de Minnesota, junto de outra mulher, sobrevivia graas a uma penso de invalidez devida a um desastre ocorrido 
quando trabalhava na construo civil. Os pais casaram-se dois anos antes de ele ter deixado a cidade; Julie tinha na altura trs anos. Seis homens diferentes tinham 
passado diversos perodos a viver com ela e
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r        1U1~ L it uc uni mes, o mais longo chegara aos
dois anos. Tinham-se mudado meia dzia de vezes, de pocilga em
pocilga.
Uma escola diferente em cada ano, at chegar ao ensino secundrio. Primeiro namorado aos 14 anos; ele jogava futebol e basquetebol, pelo que o par teve direito a 
uma fotografia no livro do ano. Apareceu no teatro escolar, em papis secundrios. Desistiu antes do fim do curso e desapareceu durante alguns meses, at reaparecer 
em Swansboro.
No fazia ideia daquilo que Jim fizera para a atrair a um lugar como Swansboro.
Casamento feliz, marido inspido. Decente, mas inspido.
Depois ter conhecido o Mike, no Clipper, soubera alguns porme
nores acerca dele, fornecidos por um habitante da terra. E espantoso
como se pode conseguir tanta informao apenas como pagamento de
umas bebidas, num bar qualquer.
Disseram-lhe que Mike estava apaixonado pela Julie, mas Richard
j sabia isso. Tambm sabia pormenores sobre a sua relao anterior, com Sarah, cuja infidelidade, alis, o intrigava. Recordou-se de que vira, logo de incio, as 
vantagens que poderia tirar desse conhecimento.
Tambm soube que Mike tinha sido padrinho de casamento de Julie, pelo que o relacionamento entre ambos comeou a fazer sentido. Mike representava o conforto, o elo 
com o passado, a ligao a Jim. Compreendia que Julie se agarrasse a isso, que tivesse medo de tudo o que pudesse afast-la dessa segurana. Era, porm, um desejo 
nascido do medo, do medo de poder acabar como a me, medo de perder tudo o que obtivera  custa de tanto trabalho, medo do desconhecido. No se surpreendia por o 
co dormir no quarto com ela e tambm suspeitava de que ela tinha fechado o quarto  chave.
Muito cautelosa, pensou. Provavelmente, desenvolvera aquele instinto de defesa quando era criana, por causa dos homens que a me metia em casa. Mas j no tinha 
motivos para viver assim. Agora, j no. Julie podia evoluir, como ele fizera.
Afinal, talvez as suas infncias no fossem assim to diferentes. A bebida. A violncia. A cozinha infestada de baratas. 0 cheiro a bafio e  madeira apodrecida 
dos tabiques. A gua grossa que saa da torneira, vinda de um poo, que o punha doente do estmago. A nica fuga tinham sido os livros de fotografias da autoria 
de Ansel Adams, fotos que pareciam apontar-lhe certos lugares, melhores lugares. Tinha descoberto os livros na biblioteca da escola e passara muitas horas a estudar 
as fotografias, a perder-se naquelas paisagens
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de beleza irreal. A me notara o interesse dele e, emuula u IN~I ivoo' habitualmente um poca para esquecer, quando Richard tinha dez anos, conseguiu persuadir o 
pai a dar dinheiro para uma pequena cmara e dois rolos de pelcula. Foi a nica ocasio, em toda a sua vida, em que se recordava de ter derramado lgrimas de alegria.
Passava horas a fotografar objectos de casa ou, no quintal, a fotografar pssaros. Tirou fotografias de madrugada e ao anoitecer, porque gostava da luz dessas horas; 
tornou-se especialista em movimentos furtivos, que lhe permitiam instantneos considerados impossveis. Logo que acabava um rolo, corria para casa, a pedir ao pai 
que o revelasse. Depois, com as fotografias prontas, sentava-se na cama e ficava a analis-las, a avaliar o que tinha feito bem ou mal.
De incio, o pai parecera divertir-se com aquela mania do filho e at deu uma vista de olhos pelos primeiros rolos. Porm, os comentrios no tardaram:  0 qu? 
Outro pssaro?, perguntava com sarcasmo, ou: Meu Deus, temos aqui mais um. Acabou por lamentar o dinheiro que gastava com o novo divertimento do filho. Ests 
a gozar comigo, no ests?, rosnava; porm, em vez de sugerir que Richard fizesse alguns trabalhos nas redondezas para pagar as despesas dos rolos e das revelaes, 
o pai decidiu dar-lhe uma lio.
Tinha estado de novo a beber naquela noite e tanto Richard como a me tentavam no o importunar, fazendo o que podiam para no serem notados. Richard estava sentado 
na cozinha, a ouvir o pai soltar improprios enquanto via um jogo de futebol na televiso. Tinha apostado na sua equipa preferida, os Patriots, mas perdera e Richard 
sentiu toda a fria do pai quando ele atravessou a casa de entrada. Momentos depois, o pai entrou na cozinha com a mquina fotogrfica na mo e colocou-a em cima 
da mesa. Na outra mo empunhava um martelo. Quando teve a certeza de que tinha despertado a ateno do filho, esmagou a mquina com uma nica martelada.
- Trabalho a semana inteira para ganhar a vida e tu so te preocupas com estas merdas! A partir de agora, temos uma preocupao a menos!
0 pai morreu nesse mesmo ano. As recordaes do acontecimento estavam ainda bem vivas: a rstia de sol matinal sobre a mesa da cozinha, o pingar contnuo da torneira, 
a passagem lenta das horas para alm do meio-dia. Os agentes iam e vinham, sempre a falarem em voz baixa; o mdico-legista examinou o corpo e mandou que o levassem 
dali.
E, depois, a choradeira da me, quando finalmente ficaram ss.
- Como  que vamos viver sem ele? - lamentava, a abanar os ombros do filho. - Como  que uma coisas destas pde suceder?
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r' ~illl~a eslavo a nener no O'Brien"s, um bar esqulido de Boston, no muito longe de casa. Segundo algumas das pessoas presentes no bar, ele tinha jogado, e perdido, 
uma partida de bilhar; depois, sentara-se no bar durante o resto da noite, sempre a beberricar. Dois meses antes, fora dispensado pela fbrica e passava a maior 
parte das noites ali, um homem zangado, a procurar simpatia e compreenso na companhia dos outros alcolicos.
Por essa altura, Vernon espancava a famlia com regularidade e, na noite anterior, tinha sido particularmente brutal.
Saiu do bar um pouco depois das 22 horas, parou na loja da esquina para comprar um mao de cigarros e conduziu o carro at ao bairro habitado por operrios, onde 
vivia. Um vizinho que andava a passear o co viu-o aproximar-se de casa. A garagem tinha ficado aberta e Vernon arrumou o carro naquele espao acanhado. Havia caixas 
empilhadas a todo o comprimento das paredes.
Todavia, a partir daquele momento, era tudo pura especulao. Devido aos elevados nveis de monxido de carbono, no restavam dvidas de que tinha fechado a porta 
da garagem. Nesse caso, reflectia o mdico-legista, por que razo no tinha desligado o motor? E qual o motivo que o levara a voltar ao carro depois de ter fechado 
a porta da garagem? Para todos os efeitos, parecia um suicdio, embora os seus amigos do bar insistissem na impossibilidade de ele fazer uma coisa daquelas. Consideravam-no 
um lutador, um homem que no virava a cara. No poria termo  prpria vida.
Os agentes tinham voltado dois dias depois, fazendo perguntas sem fim e exigindo respostas. A me continuou as suas lamrias incoerentes; o mido de dez anos limitava-se 
a olh-los com ar de espanto. Por essa altura, os hematomas das faces da me e do filho tinham comeado a ficar esverdeados nos bordos, dando a ambos uma aparncia 
fantasmagrica. Os agentes no conseguiram apurar nada.
No final, a morte foi considerada um acidente provocado pelo estado de embriagus.
0 funeral foi seguido por uma dzia de pessoas. A me ia vestida de preto e chorava, sem largar um leno branco, com o filho sempre a seu lado. Trs pessoas falaram 
antes de o descerem  sepultura, dedicando palavras amveis a um homem momentaneamente na m de baixo, sem deixar de ser um bom homem, um trabalhador assduo, marido 
e pai carinhoso.
0 filho desempenhou bem o seu papel. Manteve os olhos fixos no cho; de vez em quando levava um dedo  cara, como quem limpa
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urna lagluiiae
gravidade e aceitou as condolncias das outras pessoas.
Contudo, no dia seguinte, livre de toda aquela gente, voltou at
junto da sepultura e deixou-se ficar em frente da terra recentemente remexida.
E cuspiu-lhe em cima.
Na sala escura, Richard pregou uma das fotografias na parede, sem
nunca se esquecer de que o passado projecta longas sombras. Qual

quer pessoa se podia confundir facilmente, pensou. Sabia que ela no

o pudera evitar e compreendeu-a. Perdoou o que ela lhe tinha feito.

Ficou a olhar a fotografia. Como era possvel no lhe perdoar?
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DEZANOVE
Como j estava vestida no momento em que Richard saiu, Julie disps de tempo suficiente e, antes de chegar ao emprego, parou e comprou o jornal da manh. Sentou-se 
a uma pequena mesa, na esplanada de uma pastelaria, a beber caf e a ler, com o Singer estirado a seus ps.
Pondo o jornal de lado, ficou a observar as ruas da baixa, que voltavam  vida. Um a um, os letreiros das montras das lojas iluminavam-se e as portas eram abertas 
para deixarem entrar a brisa fresca da manh. No havia uma nuvem e notava-se uma ligeira pelcula de orvalho nos pra-brisas dos carros que tinham passado a noite 
ao relento.
Julie levantou-se, ofereceu o jornal ao casal da mesa ao lado, atirou com o copo usado para o recipiente do lixo e comeou a percorrer a distncia que a separava 
do salo. A garagem j estava aberta havia uma hora e, pensando que dispunha de uns minutos antes de entrar ao servio, decidiu-se a entrar. Pensou que tinha boas 
razes para isso e que ele ainda no estaria muito ocupado. Alm disso, queria passar por l para confirmar que o que sentira na noite anterior no fora produto 
da sua imaginao.
No tinha inteno de contar ao Mike que Richard tinha passado a noite em sua casa. Por mais que tentasse, no encontrara uma maneira de lhe dizer que no parecesse 
suspeita, especialmente tendo em conta o que tinha acontecido com a Sarah. Sentiu que ele jamais deixaria de pensar no assunto, criando entre eles uma sombra de 
dvida e de mgoa. De qualquer maneira, no tinha significado. E o mais importante era estar tudo acabado.
Atravessou a rua, com o co a trotar  sua frente. Quando ia a passar pelos carros que aguardavam reparao, Mike j vinha ao seu
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encontro, com ar de quem tinha compracio o onuei-e pi-c,111 a lotaria.
- Bom dia, Julie - saudou. - Que surpresa mais agradvel!
Embora ele tivesse uma mancha de leo na cara e a testa j brilhante de suor, Julie no pde deixar de pensar que ele era bonito como tudo. E que, decididamente, 
no tinha imaginado coisa nenhuma.
- Ol, tambm estou feliz por te ver, matulo - acrescentou Mike, estendendo a mo para o co. Foi quando Mike estava a acariciar o Singer que Julie notou o penso 
na mo dele.
- 0 que  aconteceu aos teus dedos?
Mike olhou para as mos. - Oh, no  nada. So apenas uns arranhes.
- Como  que fizeste isso?
- Acho que ontem, quando cheguei a casa, os esfreguei com demasiada fora.
Ela mostrou desagrado. - Por causa do que te disse ontem, na praia?
- No - respondeu. Depois, encolhendo os ombros, acrescentou: - Talvez essa fosse uma das razes.
- Estava a brincar contigo.
- Eu sei. Mas deu-me para fazer a experincia com um novo sabonete.
- Nesse caso, usaste o qu? Ajax?
- Ajax, 409, Lysol. Pode dizer-se que tentei tudo.
Julie ps as mos nas ancas e ficou a estud-lo. - Sabes, por vezes dou comigo a procurar saber como  que tu sers quando cresceres.
- Para te falar com franqueza, no vejo muitas possibilidades de que tal venha a acontecer.
Ela soltou uma gargalhada, a pensar: Gosto deste tipo. Quem e que consegue no gostar dele?
- Pois bem, s parei aqui para te dizer que ontem passei um sero maravilhoso.
- Eu tambm. E espero ansiosamente pelo desta noite.
- Deve ser giro.
Os olhos de ambos encontraram-se, antes de Julie consultar o relgio. - Mas, olha, acho que tenho de ir indo. Tenho marcaes para esta manh e est combinado almoar 
com a Emma. Por isso, no me posso atrasar.
- D um beijo  Emma, por mim.
- Dou. Diverte-te.
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- u iaruiuem.
Julie sorriu. - E olha-me para esses dedos, se fazes favor. Odiaria saber que andas a sujar de sangue todos os motores em que pes as mos.
- Ah, ah, ah.
No que se aborrecesse por ser objecto de chacota. Sabia que aquela era a forma de ela namorar. Namorar a srio; j no eram simples conversas de amigos.
E, por Deus, estava a gostar daquilo! Estava a gostar mesmo muito!
Despediram-se e, momentos depois, Julie atravessou a rua, a andar com renovada energia.
- Ento, parece que o sero te correu muito bem, no foi? Henry tinha na mo um donut meio comido.
Mike enfiou os dedos nas alas do fato-macaco e fungou. - Pois
correu - respondeu com ar de gozo. - Correu realmente bem.
0 irmo agitou o donut e abanou a cabea. - Ests a treinar o teu
ar de James Dean, irmozinho? - Deixa que te diga, no s nada
parecido. Tambm no consegues esconder o aspecto de tonto.
- Eu no pareo um tonto.
- Tonto. Maluco de amor. 0 que quiseres.
- Olha l, eu no posso evitar que ela goste de mim.
- Sei que no podes. s simplesmente irresistvel, no s? - Julguei que te sentisses feliz por mim.
- Sinto-me feliz - respondeu Henry. - E tambm tenho mui
to orgulho em ti.
- Porqu?
- Porque, de qualquer forma, qualquer que tenha sido o teu plano, resultou.
- Ento, o que  que se passou com o Richard? - perguntou Emma. - No bar, umas noites atrs, pareceu-me que os dois estavam a entender-se muito bem.
- Oh, tu sabes como so estas coisas... Ele era simptico, mas aconteceu que eu no sentia nada em relao a ele.
- Acho que deve ser por causa do aspecto dele, no?
- Essa parte, tenho de admiti-lo, no era m de todo - respondeu Julie, provocando uma gargalhada de Emma.
Estavam sentadas no restaurante, uma antiga casa cia parte vciiia da cidade, a comer uma salada. A luz solar derramava-se sobre a mesa, instalada a um canto, emprestando 
aos copos um brilho cor de mel.
- Disse o mesmo ao Henry quando chegmos a casa. Fartei-me de perguntar a mim mesma a razo de ele no ter voltado a olhar na nossa direco.
- 0 que  que respondeu?
- Disse... -Emma endireitou-se na cadeira e baixou a voz, a imitar Henry. - No sei do que  que ests a falar mas, se no tivesse a certeza de que me amas muito, 
pensaria que ests a querer insultar-me.
Julie soltou uma gargalhada. - Consegues imit-lo na perfeio.
- Minha querida, se estivesses casada h tantos anos como eu, saberias que nem  muito difcil. A nica coisa que me falta  o donut na mo que faz o gesto final.
Julie engasgou-se com o ch, espirrando um pouco de lquido para cima da mesa. - Mas continua a fazer-te feliz, no ? Mesmo passado todo este tempo?
- Na maior parte do tempo  um tipo bastante bom. Por vezes, d-me vontade de lhe pregar com a frigideira na cabea, mas acho isso normal, no ?
Os olhos de Julie adquiriram um brilho estranho quando ela se inclinou para diante. - Nunca te contei que uma vez atirei com um tacho ao Jim?
- Atiraste o qu? Quando  que isso aconteceu?
-j no me lembro. J nem me recordo do motivo por que estvamos a brigar, mas atirei-lhe com o tacho. No acertei, mas deu-me ateno depois disso.
As sobrancelhas de Emma subiram e desceram. - A vida que se desenrola por detrs das portas fechadas  sempre um mistrio, no ?
- Eu diria que sim.
Emma bebeu um golinho de ch e recomeou a comer a salada.
- Ento, o que  isso que ouvi acerca de Mike?
Julie sabia que a pergunta tinha de aparecer. Em lugar de discuti
rem poltica, desporto ou as ltimas grandes notcias, as pessoas
daquela pequena cidade falavam do que ia acontecendo aos seus con
cidados.
- Depende daquilo que ouviste.
- Ouvi dizer que te convidou para sair e que foram jantar juntos. - Mais ou menos. Na verdade, fui eu quem o convidou. - Ele no podia encarregar-se disso? Julie 
olhou-a por cima do copo. - 0 que  que pensas?
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 r`        y--        uwu gelauo como uma poa de gua no Inverno.
Julie riu-se. - Mais ou menos.
- Ento, como  que foi? 0 que  que fizeste?
Depois de ouvir o relato da sada, Emma recostou-se na cadeira. - Parece que correu bem.
- Pois correu.
Emma estudou a cara de Julie durante um segundo. - E tu... tu
sabes... no pensaste em...
No conseguiu terminar a frase e Julie completou-a por ela. - Jim?
Emma assentiu, deixando Julie reflectir no assunto. - No tanto
quanto esperava - respondeu esta. - E, no final, no me preocupei
nada com isso. 0 Mike e eu... damo-nos to bem um com o outro. Ele faz-me rir. Faz-me sentir em paz comigo mesma. H muito tempo que no me sentia assim.
- Falas como se tivesse sido uma surpresa.
- Foi. Para ser honesta, no fazia ideia de como iria correr.
0 rosto de Emma distendeu-se. - No  surpreendente. Tu e o Jim formavam um par excelente. Quando saamos juntos, costumvamos fazer chacota sobre a maneira como 
olhavam um para outro.
- Sim, ramos especiais - comentou, com um certo anseio na voz.
Emma fez uma pausa. - E o Mike, como  que te pareceu?
- ptimo, penso. Para te dizer a verdade, comeou por estar bastante nervoso, mas no julgo que isso tivesse muito a ver com o Jim. Penso que o problema estava na 
prpria sada para jantar.
- Oh, meu Deus, de verdade?
Julie sorriu. - De verdade. Mas correu tudo bem.
- Portanto... gostas dele?
-  claro que gosto dele.
- No. Estou a perguntar-te se gostas mesmo?
No fundo, tudo se resumia a isso, no era?, pensou Julie. No final, nem teve necessidade de responder, a sua expresso dizia tudo, e Emma estendeu o brao por cima 
da mesa e apertou a mo da amiga.
- Sinto-me feliz. Sempre calculei que acabaria por acontecer. - Calculaste?
- Penso que toda a gente o esperava, com excepo de ti e do Mike. Era s uma questo de tempo. - Nunca me disseste nada.
- Nem roi preciso. Laicutei que acaoartas por reconhecer nele u
que eu reconheo; bastava que te sentisses bem e pronta a recomear. - Reconhecer o qu, por exemplo?
- Que ele  incapaz de te deixar mal. Aquele rapaz tem um
corao do tamanho do estado de Kentucky, e ama-te. E isso  impor
tante. Aceita a opinio de quem sabe. A minha me costumava
dizer-me: faas o que fizeres, casa com algum que te ame mais do que tu o amas a ele.
- No, no te disse semelhante coisa.
- Certamente que disse. E eu fiz o que ela mandou. Por que  qu^ensas que eu e o Henry nos damos to bem? No estou a dizer que no o amo, porque no estaria a falar 
verdade. Porm, se alguma vez deixasse o Henry, ou, que Deus no o permita, me acontecesse alguma coisa, no penso que ele fosse capaz de continuar.  homem para 
arriscar a vida por mim, sem pensar, no momento necessrio.
- E pensas que Mike tambm  assim?
- Minha querida, podes apostar o teu ltimo cntimo nele.


No final do dia, ao sair do salo, Julie ainda continuava a reflectir sobre o que se passara no almoo com Emma.
Na realidade, reflectia sobre uma quantidade de coisas. Especialmente sobre Jim. Se bem que a inteno de Emma no fosse lev-la a pensar no defunto marido - no 
tinha dvidas sobre isso - e sem que a prpria Julie soubesse exactamente o que ela pretendera dizer, a reflexo tinha a ver com o comentrio que Emma fizera acerca 
da me. E tambm uma observao de que Henry no seria capaz de viver sem a mulher.
Naquela tarde sentira a falta de Jim com uma intensidade no sentida desde h muito. Sups que seria consequncia do que tinha acontecido com Mike. Ela continuara 
a sua vida, mas comeou a ponderar se Jim o teria conseguido, caso a situao tivesse sido a inversa. Pensou que provavelmente ele conseguiria mas, se no o conseguisse, 
isso significaria que ele a tinha amado mais do que ela o amara? E o que  que iria acontecer, quando se apaixonasse por Mike? 0 que aconteceria aos seus sentimentos 
em relao a Jim? Eram estas as perguntas que se repetiam vezes sem conta na cabea de Julie desde o almoo, perguntas que exigiam respostas que ela no desejava 
enfren
tar. Gostaria de ter resposta para a grande dvida: iriam as suas
recordaes diminuir pouco a pouco, perder a nitidez de contornos, como acontece com as fotografias antigas?
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- -.-.. u r... y iuuuvu a lucia uc vct Mike  noite a deixava mais nervosa do que se tinha sentido na vspera. Na verdade, sentia-se mais nervosa do que em relao 
a qualquer dos encontros anteriores. Porqu agora?
Talvez, pensou, respondendo  sua prpria pergunta, fosse por saber que aquele seria diferente.
Chegou junto do jipe e entrou; Singer saltou para o banco de trs e Julie ps o motor em funcionamento. No foi logo para casa. Em vez disso, seguiu pela avenida 
principal durante umas centenas de metros, virou  esquerda e dirigiu-se para os arrabaldes da cidade. Minutos depois, ao sair de uma curva, encontrou-se diante 
do cemitttio de Brookview.
A lpide de Jim ficava perto da entrada, logo depois do pequeno morro e afastada do carreiro principal,  sombra de uma nogueira. Julie seguiu pelo carreiro. Quando 
estava j perto da sepultura, o co parou, recusando-se a ir mais alm. Nunca passara dali. De incio, no atinava com a razo que levava o animal a ficar para trs 
mas, com o tempo, acabou por pensar que, fosse como fosse, Singer sabia que ela preferia estar s naquele local.
Chegou junto da campa e ficou a olh-la de cima para baixo, sem saber o que ia sentir. Respirou fundo, ficando  espera das lgrimas, que no apareceram. Nem sentiu 
aquela sensao de peso que sempre sentira at ento. Recriou o Jim mentalmente, recordou as alturas felizes e, embora com as recordaes viesse aquela sensao 
de tristeza e de perda, era como ouvir o toque musical de um relgio distante, que ecoa suavemente at que acaba por deixar de se ouvir. No seu lugar ficou a sensao 
de torpor; no sabia o que significava at pr os olhos no anjo de asas abertas colocado em cima do nome dele, aquele que a fazia sempre recordar a carta que viera 
a acompanhar o Singer.

Desesperava ao pensar que no voltarias a ser feliz... Procura algum que te faa feliz... 0 mundo torna-se um lugar bem mais alegre, sempre que tu sorris.
De p, junto da sepultura do marido, apercebeu-se subitamente do que ele quereria dizer com aquelas palavras. E, como j sucedera na noite anterior, tambm naquele 
preciso momento soube que Jim se sentiria feliz com a deciso dela.
No, pensou, nunca iria esquec-lo. Jamais. E Mike tambm no o esqueceria.
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Essa era uma das caractersticas que o tornavam uucicilLc.
Ficou por ali at os mosquitos comearem a fazer crculos  sua volta. Enxotou com uma palmada um que lhe picara um brao, feliz por ter decidido vir mas pensando 
que talvez tivesse chegado a altura de partir. Mike iria busc-la dali a menos de uma hora e queria estar preparada.
Um sopro de vento agitou as folhas por cima da sua cabea, com um som parecido com o da areia agitada dentro de uma garrafa. Parou momentos depois, como se algum 
tivesse suspendido o movimento. Mas j no havia silncio; da estrada chegou-lhe o rudo de um carro a passar, com o som do motor a aumentar e a diminuir, antes 
de desaparecer. Vinda de casas distantes, chegou-lhe a voz de uma criana. Havia tambm o som abafado de esfregar, algo que parecia arranhar a casca de qualquer 
rvore prxima. Um pssaro cardeal voou, vindo das moitas, e, olhando por cima do ombro, Julie viu o co virar a cabea, de orelhas arrebitadas. Mas o animal no 
saiu de onde estava. Julie ergueu ligeiramente o sobrolho e cruzou os braos. Voltando as costas  pedra tumular, ps os olhos no cho e comeou a caminhar em direco 
ao carro, sentindo os plos dos braos eriarem-se devido a um sbito arrepio.
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VINTE
Mike apareceu mesmo  hora marcada e Julie saiu, fechando a porta antes que Singer tivesse uma oportunidade de vir atrs dela. Sorriu, ao notar que ele vinha de 
casaco e calas de fazenda.
- Uau! - exclamou Julie. - Duas noites seguidas em que me apareces todo janota. Vou precisar de algum tempo para me habituar.
Julie poderia estar a falar de si mesma. Como na noite anterior, usava um vestido de Vero que lhe acentuava a figura. Das orelhas pendiam pequenas argolas de ouro 
e Mike notou um ligeiro odor de perfume.
- Achas demasiado? - perguntou ele.
Julie tranquilizou-o. - De maneira nenhuma. - E passou a mo pela banda do casaco dele. - Gosto disto.  novo?
- No, j o tenho h algum tempo. Acontece que no o visto muitas vezes.
- Mas devias vestir. Fica-te bem.
Mike encolheu os ombros e apontou a carrinha com a cabea, antes
que ela fizesse mais comentrios.
- Ento, ests pronta? - Logo que tu quiseres.
Quando ele estava para se voltar, Julie agarrou-o por um brao.
- Onde  que esto os pensos?
- Tirei-os. Os dedos j esto melhores. - To depressa?
- 0 que queres que te diga? As minhas feridas saram depressa. De p, no alpendre, Julie estendeu a mo como uma professora a
mandar que o aluno tire a pastilha elstica da boca. Mike no teve
outro remdio e mostrou-lhe as mos. - Acho que continuam inflamadas.
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Fez uma pausa, antes de olhar para ele com uma expresso curiosa.
- No esfregaste com demasiada fora? Parece que alguns dedos
sangraram.
- S um pouco - assegurou Mike.
- Meu Deus, se soubesse o que ias fazer no teria dito nada. Mas
julgo que tenho um remdio para isso.
- Que remdio?
Julie olhou-os nos olhos enquanto levou a mo dele  boca e lhe
beijou os dedos.
- Ento? Sentes-te melhor? - perguntou, a sorrir.
Mike pigarreou. Pensou que estava ligado  corrente elctrica. Ou
que se encontrava no interior de um tnel de vento. Ou de esquis,
voando pela montanha abaixo.
- Melhor - conseguiu responder.


Jantaram no Landing, um restaurante  beira-mar, na parte antiga de Beaufort. Como na noite anterior, optaram por uma mesa na esplanada, de onde podiam observar 
os barcos que chegavam e partiam. Pelo passeio feito de pranchas de madeira passavam famlias a lamber cones de gelados e a transportar sacos cheios de lembranas.
Julie colocou o guardanapo no colo e debruou-se por cima da mesa.
- Mike, foi uma excelente escolha. Adoro este stio.
- Ainda bem - respondeu um Mike extremamente aliviado. - Eu tambm gosto, mas habitualmente venho c  hora do almoo. H muito que no jantava aqui. No me sentiria 
bem se viesse aqui jantar sozinho.
- Podias convidar o teu irmo.
- Podia - aquiesceu Mike. - Ou talvez no.
- No gostas de sair com ele?
- Passo o dia com ele. Deves sentir o mesmo, se sares para jantar com a Mabel.
- Eu gosto de jantar com a Mabel.
- Mas ela no te insulta.
Julie riu-se e Mike ps o guardanapo em cima das pernas. Para ele, Julie estava descontrada e radiante, completamente  vontade naquele ambiente.
- Como  que correu o teu almoo com a Emma? - inquiriu.
- Foi giro.  uma pessoa de conversa fcil.
- Como eu?
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- ivao, nao e como tu. Contigo tambm  fcil falar, mas num sentido diferente. Com ela posso falar de coisas que no posso discutir contigo.
- De mim, por exemplo?
Ela presenteou-o com um sorriso tmido. -  claro. Que inte
resse tem sair com algum se no pudermos falar disso s outras
pessoas?
- 0 que  que lhe disseste sobre mim? Coisas boas, espero.
- No te preocupes. S disse coisas agradveis.
Mike sorriu ao pegar na ementa. - Ora bem, gostarias de comear por uma garrafa de vinho? Um Chardonnay, talvez? Estava a pensar que o Kendall Jackson seria o ideal. 
No  muito pesado e acho que o sabor a carvalho vem mesmo a calhar.
- Uau! - exclamou Julie. - Estou impressionada. No me tinha apercebido de que sabias tanto acerca de vinhos.
- Sou um homem de muitos talentos - admitiu Mike e Julie ficou a rir-se, enquanto consultava a ementa.
Demoraram-se a comer e a beber, sempre a falar e a rir, mal reparando no empregado de mesa a andar  volta deles, a recolher os pratos. Quando chegou o momento da 
partida, o cu j estava pontuado de estrelas.
0 cais continuava com muito movimento, mas agora a multido era mais jovem; pessoas na casa dos vinte e trinta anos, encostadas s balaustradas colocadas  beira 
da gua e  volta dos bares. A poucos passos do cais, havia dois restaurantes com esplanadas e, em cada um deles, estava um artista a fazer as ltimas afinaes 
da guitarra. Havia mais barcos do que espao no cais e, no esprito de uma noite de sexta-feira, os ltimos a chegar amarravam aos barcos que j l estavam, at 
formarem verdadeiras pinhas de embarcaes de vrios tamanhos e feitios, todas amarradas umas s outras, constituindo uma espcie de bairro aqutico. As cervejas 
e os cigarros circulavam livremente, os barcos agitavam-se quando as pessoas os utilizavam como passeios e os estranhos viam-se forados a acamaradar com pessoas 
que provavelmente no voltariam a ver, tudo em nome da boa disposio.
Quando saram do restaurante, Mike ofereceu-lhe a mo. Julie aceitou-a e caminharam pelo cais, com os saltos dos sapatos a martelarem o piso de madeira, fazendo 
um som semelhante aos das carruagens puxadas por cavalos. Mike sentia o calor da mo dela irradiar-lhe pelo brao acima, abrindo caminho at ao centro do seu peito.
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Passaram mais uma hora em Beaufort, sempre a observar o que se passava  sua volta e a conversar, at que Julie sentiu esfumarem-se todos os vestgios de nervosismo. 
Compraram doces e caminharam pela relva, de ps nus, at encontrarem um lugar para se sentarem e se deliciarem. A Lua tinha subido e as estrelas haviam mudado de 
posio na altura em que voltaram ao cais, que continuava movimentado. Ondas pachorrentas batiam de encontro ao paredo do porto e a luz branca do luar reflectia-se 
na gua do oceano. Pararam uma vez mais e sentaram-se por debaixo das ps rotativas de uma ventoinha de tecto. 0 cantor do restaurante cumprimentou Mike com um aceno 
- era evidente que se conheciam - e Mike mandou vir outra cerveja e Julie bebeu uma Diet Coke.
Enquanto ouviam o cantor, Julie, sentindo os olhos de Mike cravados nela, reflectia sobre a forma como a situao se tinha alterado nos ltimos dois dias. Quanto 
tinha mudado, pensava, e quanto iria mudar a partir daquele ponto.
Era interessante descobrir como se podia ter visto a mesma pessoa durante anos e s agora descobrir certos pormenores em que nunca se tinha reparado. Apesar da luz 
difusa, conseguiu distinguir uns cabelos brancos junto das orelhas de Mike; conseguiu ver uma pequena cicatriz por baixo de uma sobrancelha. Dois dias antes, ele 
parecia-lhe no final da casa dos vinte anos; agora, conseguia reparar nas rugas de expresso nas faces e nos ps-de-galinha dos cantos dos olhos.
0 msico passou para uma nova cano e Mike inclinou-se para ela.
- 0 Jim e eu costumvamos vir aqui com frequncia - informou. - Antes de vires morar para c. Sabias disso?
- Ele contou-me. Disse que costumavam vir aqui para conhecerem mulheres.
- Sabias que foi aqui que ele me falou em ti pela primeira vez?
- Aqui?
- Foi. Viemos c no primeiro fim-de-semana, depois de ele regressar de Daytona. Falou-me de uma rapariga que tinha conhecido.
- 0 que  que te contou?
- Que te oferecera o pequeno-almoo em diversas ocasies. Tambm disse que eras bonita.
- Andava com um aspecto horrvel.
- Ele no pensava assim. Tambm me disse que prometera arranjar-te emprego e um lugar para viveres, se quisesses vir para c.
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- Sem dvida. Especialmente por me parecer que nunca conse
guia deixar de falar em ti.
- Nesse caso, o que  que pensaste quando eu aceitei a oferta?
- Pensei que tambm eras maluca. Mas, mais tarde, passei a
considerar-te uma mulher de coragem. - No  verdade.
-  verdade.  preciso ter estofo para mudar de vida, como tu fizeste.
- No tinha alternativa.
- H sempre alternativas. 0 problema  que muitas pessoas escolhem a que no convm.
- Valha-me Deus, esta noite estamos com queda para a filosofia.
A msica parou e a conversa entre eles foi interrompida quando o msico se acercou da mesa para murmurar qualquer coisa ao ouvido do Mike.
0 cantor olhou para ela. - Oh, boa noite. Desculpe a interrupo.
Vou fazer um intervalo e gostaria de saber se o Mike me queria
substituir durante um bocado.
Mike olhou para o palco e, por momentos, ficou a pensar. Acabou
por negar com movimentos de cabea.
- Bem gostaria, mas estou acompanhado - acabou por dizer. - Olha l, avana - disse Julie. - Eu fico bem. - De certeza que no te importas?
- No me importo nada. Alm disso,  bvio que gostarias de
aceitar.
Mike sorriu e pousou a garrafa em cima da mesa; um minuto depois, tinha a guitarra suspensa do ombro e dedilhava algumas cordas, a procurar a melhor afinao. Olhou 
para Julie e concentrou-se antes de atacar as primeiras notas. Momentos depois, toda os presentes tinham identificado a cano. Primeiro, bateram palmas e apuparam, 
alm de se terem feito ouvir alguns assobios; e depois, para surpresa de Julie, as pessoas comearam a acompanhar a msica com movimentos das garrafas.
Mike tinha escolhido um dos temas capazes de agradar a uma multido em noite de copos, a eterna favorita das mquinas de discos dos bares: American Pie, 
A voz, como Julie notou, estava fora do compasso; porm, numa noite daquelas, com aquela multido, era um pormenor sem importncia. A multido cantava e agitava 
os braos, Julie includa.
Quando terminou, Mike pousou a guitarra, parou um pouco para receber os aplausos e caminhou de regresso  mesa, retribuindo
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todas as auiiaua5 uai ~w~aa        -        -
Julie ficou a olhar para ele com uma mistura recente de admirao e
prazer.
Mike, pensou ela, tinha tornado uma noite boa numa noite ainda
melhor.
Um pouco mais tarde, quando estavam para sair, o empregado do
bar informou-os de que a sua conta j estava paga.
- Aposto que foi um dos teus admiradores - concluiu Mike.


Durante a viagem de regresso, Julie sentia-se agradavelmente surpreendida pela alegria com que tinha decorrido o sero. Mike levou-a at  porta e ao voltar-se, 
Julie viu que ele tinha cara de quem estava a pensar beij-la, embora, tendo em ateno o sucedido na noite anterior, no soubesse muito bem como proceder. Julie 
levantou os olhos para ele, dando-lhe a autorizao oficial, mas, ao aproximar-se dela, Mike no percebeu o sinal.
- Ouve, passei um sero fantstico...
- Apetece-te entrar por uns minutos? - inquiriu Julie, cortando-lhe a frase. - Talvez estejam a dar um filme antigo, que poderemos ver durante um bocado.
- De certeza que no achas demasiado tarde?
- Para mim, no. Mas se preferes ir j para casa...
- No, adorava entrar.
Ela abriu a porta e entrou primeiro. Singer tinha estado  espera e saudou-os, antes de disparar porta fora. Farejou o ar e ladrou uma vez, para depois baixar a 
cabea e farejar o cho do quintal, parecendo satisfeito por no encontrar vestgios de cachorros estranhos a precisarem de uma perseguio em forma. Um minuto depois 
tinha desaparecido por entre as sombras das rvores.
Dentro de casa, Mike tirou o casaco e pendurou-o na cadeira de balouo e Julie foi  cozinha buscar dois copos de gua. Mike ainda
estava de p quando ela regressou e se dirigiu para o sof. Sentaram-se
perto um do outro, mas sem se tocarem; Julie pegou no controlo
remoto e iniciou uma pesquisa pelos canais em servio. Apesar de no
encontrarem um filme que merecesse a pena, deram com um velho episdio da srie I Love Lucy, que os fez rir bastante. Aquele seguiu-se The Dick Van Dyke Show.
Quando o espectculo acabou, Singer j tinha regressado e voltara a ladrar junto da porta da frente. Quase ao mesmo tempo, Julie
bocejou.
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~+i,uv fui. +,ela lla lula UC 111c pui a aliciar - Q1SSe 1V111(e ao
levantar-se do sof. - Parece que ests a ficar cansada.
Ela assentiu. - Eu acompanho-te.
Junto da porta, Mike levou a mo ao puxador; o co passou por eles, trotando em direco  sala como se, tambm ele, soubesse que eram horas de ir para a cama.
Ao ver Mike no vo da porta, numa tremenda luta com o casaco, Julie tornou-se, de sbito, consciente do facto de ele ter sido durante muitos anos seu amigo e que, 
ao alterar a relao, perdia essa amizade. Valeria a pena correr esse risco?, perguntava a si mesma. No tinha a certeza.
E beijar o Mike, seria mais ou menos a mesma coisa que beijar o irmo? Isto , partindo do princpio de que tinha um.
Era outra coisa que desconhecia.
Porm, como o jogador perante a mquina do casino,  espera de que a jogada seguinte mude a sua vida para melhor, aproximou-se dele antes que perdesse a coragem. 
Agarrando-lhe na mo puxou-o para si, o suficiente para sentir o corpo dele de encontro ao seu. Olhou para ele, inclinando um pouco a cabea ao encostar-se. Mike, 
reconhecendo o que estava a acontecer, mas ainda sem querer acreditar, baixou a cabea e fechou os olhos, com as faces de ambos a aproximarem-se.
No alpendre, as borboletas adejavam  volta da luz, chocando com a lmpada como se quisessem penetrar atravs do vidro. Um mocho piou de uma das rvores mais prximas.
Todavia, Mike no ouviu nada disso. Perdido naquele contacto de cortar a respirao, s teve a certeza de uma coisa: no instante em que os lbios de ambos se tocaram, 
sentiu dentro de si um choque quase elctrico, que o fez crer que aquela sensao ia durar para sempre.


Julie achou agradvel. Na verdade, ainda melhor do que pensara. E no era, de forma alguma, o mesmo que beijar um irmo.
Quando o ouviu ligar o motor da carrinha e desaparecer no fundo da rua, ainda continuava a reflectir sobre a maneira como se desenrolara o final do encontro. Sorria 
e preparava-se para apagar a luz quando reparou na postura do co.
Estava a olhar para ela, de cabea inclinada para um lado e orelhas arrebitadas, como se perguntasse se ela tambm tinha visto o que ele pensava ter visto.
- 0 que foi? - perguntou. - Beijmo-nos.
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Levantou os copos que tinham ficado em cima da mesa, continuando a sentir os olhos do Singer fixos nela. Por qualquer razo, sentiu-se quase como uma adolescente 
que tivesse sido caada por um dos pais.
- Como se, antes, no me tivesses visto beijar outras pessoas - continuou.
Singer no desviou o olhar.
- No foi nada do outro mundo - concluiu, dirigindo-se para a cozinha. Ps os copos no lava-loua e acendeu a lmpada existente por cima da torneira. Quando se voltou, 
viu a projeco de uma sombra e deu um salto para trs, antes de reconhecer a que se devia aquela sombra.
0 co tinha entrado na cozinha. Estava sentado junto da bancada, a olhar para ela com a mesma expresso. Julie ps as mos na ancas.
- Queres deixar de olhar para mim dessa maneira? E deixa de andar sempre atrs de mim. Assustaste-me.
Com a repreenso, o Singer acabou por desviar os olhos.
Assim  melhor, pensou Julie. Pegou num esfrego, molhou-o e comeou a limpar a bancada, antes de decidir deixar as limpezas para o dia seguinte. Atirou o esfrego 
para dentro do lava-loua e dirigiu-se para o quarto, j a recordar mentalmente os eventos do sero. Sentiu-se corar um pouco.
Afinal, admitiu, Mike era muito bom a beijar.
Perdida no meio destas reflexes, mal notou o jorro de luz dos faris de um carro que cruzou aquela rua normalmente sossegada, abrandando ao passar defronte da casa 
dela.


- Ests acordado? - perguntou Julie na manh seguinte, depois de ter marcado o nmero de telefone do Mike.
Mike lutou com o lenol e sentou-se na cama logo que reconheceu a voz de Julie. - Agora estou.
- Ento, levanta-te. 0 dia no  para desperdiar na cama comandou. - De p e vamos a eles, soldado!
Mike esfregou os olhos, pensando que ela parecia estar a p h vrias horas. - 0 que  que ests para a a dizer?
- 0 fim-de-semana. Que planos fizeste?
- Nenhum, porqu?
- Pois bem, levanta-te e veste-te. Estive a pensar que podamos ir juntos  praia. Segundo o boletim meteorolgico, vai estar um dia esplndido. Pensei que podamos 
levar o Singer e deix-lo correr um bom bocado. Parece-te bem?
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Passaram o dia a caminhar, descalos, pela areia. A lanarem o frisbee para o Singer apanhar, ou sentados nas toalhas a observarem a espuma que coroava as ondas. 
Para almoo, levaram uma piza e ficaram at o cu se tornar prpura, a anunciar a noite; tambm jantaram juntos. Depois foram ao cinema; Mike deixou que fosse ela 
a escolher o filme e no protestou quando se apercebeu de que era uma histria de amor. E depois, quando o filme ainda ia a meio, Julie sentiu os olhos cheios de 
lgrimas e se aconchegou mais a ele e ficando assim durante a hora seguinte, Mike esqueceu-se da crtica devastadora que tinha estado a preparar mentalmente.
Era tarde quando chegaram a casa dela e voltaram a beijar-se, no alpendre, mas desta vez o beijo foi mais longo do que o primeiro. Para Julie, foi ainda melhor; 
para Mike, no era possvel nem necessrio que fosse melhor.
Passaram o domingo em casa de Julie. Mike aparou a relva, podou as sebes e ajudou a plantar bolbos no canteiro das flores. Depois, foi para dentro de casa e tratou 
de reparar todas aquelas coisas que tm tendncia a degradar-se numa casa velha: substituiu pregos soltos em algumas tbuas do soalho, lubrificou fechos, colocou 
o novo candeeiro da casa de banho que ela comprara meses antes.
Julie observava-o a trabalhar, notando, uma vez mais, como as calas de ganga lhe ficavam bem e a confiana redobrada de que ele dava provas quando estava a fazer 
coisas daquele gnero. Quando lhe deu um beijo, entre duas marteladas, a expresso do seu rosto disse tudo sobre os sentimentos que nutria em relao a ela e Julie 
percebeu que, aquilo que antes lhe causava desconforto, era agora a resposta que mais lhe agradava.
Quando ele se foi embora, Julie entrou e deixou-se ficar encostada  porta, de olhos fechados. Soltou uma exclamao de alegria, a sentir-se como Mike se tinha sentido 
duas noites antes.
184
VINTE E UM
No final do dia de trabalho de tera-feira, um dia extraordinariamente movimentado no salo, pois Andrea no aparecera e alguns clientes dela tinham pedido que os 
atendesse, Julie ia a empurrar lentamente o carrinho do supermercado local, a escolher aquilo de que precisava para o jantar. Mike tinha prometido ser ele a cozinhar 
e, embora no se sentisse muito entusiasmada com a lista que ele fornecera, estava interessada em saber o que ia sair dali. Apesar das promessas dele, no conseguia 
imaginar que um prato onde se juntavam batatas fritas e picles doces pudesse ser includo num bom jantar. Mas parecia to excitado com a ideia que ela decidira no 
ferir susceptibilidades.
Estava quase pronta a sair quando verificou que se esquecera de uma coisa. Estava a esquadrinhar o sector das especiarias, a tentar recordar se ele precisava de 
cebola picada ou de cebola condimentada, quando sentiu o carro parar abruptamente por ter chocado com qualquer pessoa.
- Oh, peo desculpa - disse automaticamente. - No vi...
- No tem de qu... estou bem - foi a resposta. 0 homem virou-se e Julie esbugalhou os olhos.
- Richard!
- Boa tarde, Julie - respondeu em voz baixa. - Como ests?
- Optima. Como tens passado?
Julie no o vira desde a manh em que ele sara de casa dela. No lhe parecia muito bem.
- Vou andando. Tem sido difcil. Tenho tido muitos afazeres. Mas sabes como so estas coisas.
- Sei, infelizmente sei. A propsito, como  que est a mo?
- Est melhor. Ainda magoada, mas nada de cuidado.
Depois, como o apertar dos dedos lhe trouxesse memrias daquela noite, baixou os olhos. - Ouve, quero pedir-te desculpa, uma vez
185
mais, pelo meu comportamento da semana passada. No tinha o direito de me zangar daquela maneira. - No faz mal.
- E tambm quero agradecer-te de novo por me teres ouvido. No existem muitas pessoas capazes de fazerem o que tu fizeste.
- No fiz nada de importante.
- Sim - insistiu Richard -, fizeste. No sei como teria reagido sem a tua ajuda. Naquela noite encontrava-me numa situao bastante desesperada.
Julie encolheu os ombros.
- Bem - disse ele, como a tentar descobrir as palavras que lhe permitissem continuar a conversa. Ajeitou as compras no cesto que levava no brao. - Por favor, no 
me leves a mal, mas ests com um aspecto fantstico.
Disse aquilo como se fosse um amigo, sem aparentes segundas intenes, e Julie sorriu. - Obrigada.
Pelo corredor vinha uma mulher com o carrinho cheio. Julie e Richard tiveram de se desviar para a deixar passar.
- Olha, s mais uma coisa acerca da outra noite - acrescentou Richard. - De certa maneira, sinto-me em dvida contigo, por te mostrares to compreensiva em relao 
 maneira como agi.
- No me deves coisa alguma.
- No entanto, gostaria de mostrar a minha gratido. Apenas uma maneira de dizer obrigado. Poderei, por exemplo, levar-te a jantar?
Ela no respondeu de imediato e, sentindo a hesitao, Richard continuou.
- Apenas um jantar, nada mais do que isso. Nem se trata de um
convite formal. Prometo.
Julie desviou o olhar por instantes e voltou a encar-lo. - No
julgo que possa fazer isso - acabou por dizer. - Peo desculpa.
- No tens de qu. Apenas pensei que tinha a obrigao de fazer
a oferta - disse, sem deixar de sorrir. - Portanto, no existe azedu
me por causa daquela noite? - Nenhum azedume. - Muito bem.
Richard afastou-se ligeiramente dela. - Bem, ainda preciso de levar mais umas coisas. - Vemo-nos por a? - Certamente.
- Adeus.
- Adeus, Richard.
186
* * *
- Olha l, como  que disseste que isto se chamava? - inquiriu
Julie.
Mike estava junto do fogo do seu apartamento, a observar os
hambrgueres que chiavam na frigideira. - Hambrgueres crioulos.
-  cajun?*
- Pois  - concordou Mike. - Por que pensas que pedi estas
duas latas de sopa? So elas que lhe vo acrescentar o autntico sabor. S o Mike poderia considerar a sopa de galinha Campbell como
autntica cozinha cajun.
Quando achou que a carne estava pronta, acrescentou-lhe a sopa,
mais um pouco de sumo de tomate e de mostarda, e comeou a
mexer. Julie encostou-se a ele, a observar a preparao da mistura,
sem esconder uma careta de nojo.
- Recorda-me que nunca me torne uma solteirona.
- Pois, pois. Goza, mas logo que provares vais pensar que ests a
comer uma refeio preparada na cozinha do cu.
- No duvido.
Mike deu-lhe um piparote, como forma de protesto e sentiu que os
dois corpos se moviam em simultneo.
- Nunca te disseram que s dotada de uma estranha tendncia
para o sarcasmo? - perguntou.
- Uma ou duas vezes. Mas penso que foste tu quem disse isso. - Sempre me considerei um tipo esperto.
- Eu tambm - respondeu Julie -, mas o que est a preocupar
-me de momento  o cozinhado, no so os teus miolos.


Quinze minutos depois, estavam sentados  mesa e Julie no
conseguia tirar os olhos do prato.
- Isto  um sloppy joe*- anunciou Julie.
- No - respondeu Mike, pegando na sanduche -, isto  um
hambrguer crioulo. 0 sloppy joe tem sabor a tomate. - Mas tu preferes este sabor tpico da Louisiana?
* Tipo de cozinha de alguns estados do Sul dos EUA, nomeadamente da Louisiana. (NT)
* Hambrguer com cerca de 150 gr. de carne, coberto de molho apimentado. (NT)
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- Exactamente. E no te esqueas de ir comendo os picles. So quase imprescindveis para o resultado final.
A tentar ganhar tempo, Julie percorreu o pequeno apartamento com o olhar. Embora, na sua maioria, as peas de mobilirio mostrassem algum gosto, existiam aqueles 
pormenores que tornavam claro que ele vivia como os homens solteiros de qualquer parte. Como as sapatilhas de ginstica atiradas para o canto da sala, para junto 
da guitarra. E o monte de roupa desarrumada que estava em cima da cama. E o televisor de ecr gigante, cujo topo estava decorado com uma fila de garrafas de cerveja 
importada. E o alvo do jogo de dardos pregado na porta da frente.
Inclinou-se sobre a mesa, despertando a ateno dele. - Adoro o ambiente que conseguiste criar esta noite. Bastava termos uma vela acesa para me sentir em Paris.
- De verdade? Acho que tenho uma por a.
Levantou-se da mesa e abriu uma gaveta; momentos depois, havia uma pequena luz a flamejar entre eles. Mike voltou a sentar-se.
- Est melhor assim?
- Exactamente como o dormitrio de um colgio.
- Em Paris?
- Hum... talvez estivesse enganada. Parece-se mais com... Omaha.
Ele soltou uma gargalhada. - Boa. Nesse caso podes ir procurando uma maneira simptica de pedires desculpa ao mestre cozinheiro.
Julie pegou na sanduche e deu-lhe uma dentada. Mike ficou a
olhar, pois ela parecia estar a tomar-lhe o gosto.
- No  mau - ajuizou Julie, depois de engolir. - No  mau?
Ela ficou a olhar a sanduche com um certo ar de surpresa. - Na
realidade,  bastante saborosa.
- Eu disse-te.  o tempero da sopa de galinha que lhe d esse
gosto.
Julie pegou na sanduche e acenou com gravidade. - Vou tentar no me esquecer disso.


Na quarta-feira, era a vez de Julie fazer o jantar. Preparou linguado estufado com gambas e legumes salteados, acompanhado por uma garrafa de Sauvignon Blanc. - 
No  o mesmo que hambrgueres crioulos, mas talvez sirva - zombara Mike, antes de comear. Na
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quinta-feira saram para jantar em Emerald Isle. Depois do jantar, enquanto passeavam pela areia fina, Singer bateu numa perna de Julie com um pedao de madeira 
que apanhara. Deixou o pau na frente deles e, como ambos o ignorassem, voltou a abocanh-lo e bloqueou-lhes a marcha com o prprio corpo. Olhou para cima, para Mike. 
V l, parecia dizer, tu sabes como .
- Julgo que ele pretende que lances isso para longe - observou Julie. - No acha que eu o atire suficientemente longe.
-  por seres rapariga.
Ela deu-lhe uma cotovelada. - V l o que dizes, fanfarro. Anda por a uma feminista  procura de comentrios desse gnero.
- As feministas sentem-se ofendidas com tudo o que os homens fazem melhor do que as mulheres.
Antes de levar outra cotovelada, deu um salto para o lado e agarrou no pedao de pau. Tirou os sapatos, depois as meias, e enrolou as pernas das calas. Correu para 
a gua e andou um bocado, at que as ondas lhe atingissem quase os joelhos. Estendeu o pau  sua frente. 0 co olhou para o pau como se fosse um pedao de carne 
fresca.
- Pronto? - perguntou Mike.
Recuou o brao e atirou o pau o mais longe que pde. Singer correu a saltar sobre as ondas.
Julie sentou-se no areal, levantando os joelhos a descansando os braos  volta deles. Estava frio; o cu mostrava grandes manchas de branco e o sol espreitava esporadicamente 
por entre as nuvens. As gaivotas mergulhavam junto da rebentao,  procura de comida, com as cabeas a picar como agulhas de uma mquina de coser.
0 co voltou a trote e sacudiu a gua do plo, ensopando Mike com o gesto. Mike pegou no pau, voltou a lan-lo para longe e, com a camisa colada ao corpo, voltou-se 
para Julie. De onde estava sentada, podia apreciar-lhe a musculatura dos braos e a maneira como o peito se estreitava por altura da cintura. Interessante, pensou, 
mesmo muito interessante.
- Vamos fazer qualquer coisa esta noite, ests de acordo? - gritou Mike.
Julie assentiu. Quando o co regressou, apertou um pouco mais os braos  volta das pernas e ficou a v-los repetir tudo. L longe, uma traineira da pesca do camaro 
abria caminho por entre as ondas, a rebocar as extensas redes.  distncia, a luz do farol de Cape Lookout era um simples faiscar. Julie sentia a brisa no rosto 
e estava a observ-los, a perguntar a si prpria quais os motivos das suas anteriores preocupaes.
189
- Vamos a umas tacadas - perguntou Julie quando, na tarde
seguinte, entraram no parque. Vestia calas de ganga, tal como ele;
horas antes, Mike aconselhara-a a no se preocupar com o traje e agora
percebia o motivo. -  isto que vamos fazer esta noite?
- No s. H aqui muito por onde escolher. Tambm tm jogos
de vdeo. E redes que permitem jogar minigolfe.
- Oh! Estou entusiasmada.
- Ah! Isso  por pensares que no me podes bater - respondeu
um Mike zombeteiro.
- Posso vencer-te. Nesse jogo sou quase to boa como o Tiger Woods.
- Tens de provar o que dizes.
Ela assentiu, com um brilho de desafio nos olhos. - Desafio aceite.
Saltaram da carrinha, e dirigiram-se ao quiosque para alugarem os tacos. - Rosa e azul - disse Mike, a apontar as cores das bolas de golfe. Tu e eu, em combate singular.
- Qual  que preferes? - perguntou Julie, a fingir-se inocente.
- Ah! - fanfarronou Mike. - Pois, no te ponhas a pau; no vou ser nada simptico no campo.
- Se tu o dizes.
Uns minutos mais tarde, alcanaram o primeiro buraco.
- A idade antes da beleza - ofereceu Julie, a apontar para ele. Mike exibiu um ar ofendido antes de enfiar a bola. 0 primeiro
buraco exigia que a bola passasse atravs de um moinho de vento
a rodar, antes de descer para um nvel inferior, onde se situava o
buraco. Mike procurou a posio de equilbrio para a tacada.
- V e aprende - gabou-se. - V se te despachas com isso.
Atingiu bem a bola, que passou pela abertura do moinho de vento;
depois de deixar o tubo, foi parar a menos de trinta centmetros
do buraco. - Ests a ver?  fcil.
- Sai da frente. Deixa-me mostrar-te como se faz.
Colocou a bola no stio e deu a pancada. A bola bateu nas ps do
moinho e voltou para trs.
- Hum... que pena - lamentou Mike, a abanar a cabea. -
Tenta outra vez.
- Isto  apenas o aquecimento.
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Levou um pouco mais cie tempo a concentrar-se e a ualcr a cuia.
Desta vez a bola passou e, ao tentar ver onde ela ia cair, viu-a rolar a
caminho do buraco e desaparecer da vista.
- Bela pancada - admitiu Mike. - Uma bola de sorte. Ela deu-lhe um toque com o taco. - Tudo faz parte do plano.


No quarto da sua casa vitoriana, s escuras, Richard estava sentado na cama, de costas para a cabeceira. Fechou as cortinas. 0 quarto ficou iluminado por uma s 
vela colocada sobre a mesa de cabeceira e ele, enquanto ia rolando um pedao de cera entre os dedos, pensava em Julie.
Tinha-se mostrado simptica no supermercado, mas bem viu que ficara contrariada por ter ido de encontro a ele. Abanou a cabea, a tentar imaginar a razo que a levara 
a esconder o desagrado. Pensava que no valera a pena. Sabia exactamente quem ela era, conhecia-a melhor do que ela se conhecia a si mesma. Sabia, por exemplo, que 
naquela noite ela estava com o Mike e que encontrava nele o conforto de que j tinha desfrutado e esperava poder vir a desfrutar de novo.
Percebeu que ela receava toda e qualquer novidade; desejaria que Julie fosse capaz de distinguir o que o mundo tinha para lhe dar, para dar a ambos. No via que, 
se ficasse naquela cidade, Mike a arrastaria para baixo? Que os amigos acabariam por mago-la? E isso que acontece sempre que permitimos que o medo determine as 
nossas decises.
Ele havia aprendido com a experincia. Desprezara o pai, como Julie tinha desprezado os homens que entraram e saram da sua vida. Ele odiava a me pela sua fraqueza, 
tal como Julie odiava a fraqueza da sua prpria me. Julie, porm, ao reviver o passado estava a tentar fazer as pazes com ele. 0 medo estava a conduzi-la a uma 
iluso de conforto mas, no final, nada lhe restaria seno a iluso. Julie no tinha que acabar como a me; no tinha de levar a vida que a me levou. A sua vida 
podia ser o que ela quisesse que fosse. Como acontecia com a dele.


- Pancada de sorte! - exclamou Mike novamente. A meio do percurso, registava-se um empate, at  ltima pancada de Julie, em que a bola fizera ricochete na parede 
e depois entrara no buraco. Toda inchada, Julie, foi recuperar a bola.
- Como  que todas as minhas boas pancadas so fruto da sorte, enquanto as tuas se devem  habilidade? - perguntou.
191
- -        =. vumi ruiu a uaJLu.U11a .JUC a UU1a 111111a pCLIUI
rido. - Porque  verdade! Nunca serias capaz de calcular aquela trajectria!
- Parece-me que ests a ficar nervoso.
- No estou nada nervoso.
Imitando o gesto dele de h pouco, Julie passou as unhas pelo
peito e fungou: - Pois devias estar. Odeias ser vencido por uma
rapariga.
- Tu no vais vencer-me.
- Ai no? Qual  o resultado?
Ele enfiou os apontamentos e o lpis na algibeira. - No interes
sa. 0 resultado final  o nico que importa.
Mike caminhou para o buraco seguinte, com Julie a rir-se sorratei
ramente nas suas costas.


Richard conteve a respirao, concentrando-se na imagem de Julie. Mesmo que estivesse confusa de momento, sabia que ela era diferente das outras pessoas. Era especial, 
era melhor, era como ele.
Aquele conhecimento secreto de ser superior  que o tinha sustentado entre um lar de acolhimento e outro. Para alm de algumas peas de vesturio, as nicas coisas 
que sempre estiveram com ele foram a mquina fotogrfica, roubada a um dos antigos vizinhos, e a caixa das fotografias que foi tirando.
As primeiras pessoas que o acolheram pareciam bastante simpticas mas, na maior parte do tempo, ignorou-as. Entrava e saa como lhe dava na gana, no desejando mais 
nada do que uma cama para dormir e comida. Como acontecia em muitas casas de acolhimento, no era a nica criana, partilhava o quarto com dois rapazes mais velhos. 
Foram esses dois rapazes que lhe roubaram a cmara, dois meses depois de ele ter chegado, vendendo-a numa casa de penhores para conseguirem dinheiro para cigarros.
Encontravam-se a brincar no lote vago ao lado da casa. Estava um taco de basebol no cho e pegou nele. Os outros comearam por se rir, pois eram ambos mais altos 
e mais pesados. Porm, no final, foram levados para o hospital em duas ambulncias, com os rostos desfeitos e irreconhecveis. A assistente social gestora do seu 
processo quis envi-lo para um centro de deteno de delinquentes juvenis. Voltou mais tarde, com os polcias, depois de os pais adoptivos o terem denunciado. Richard 
foi algemado e conduzido  esquadra. Ali, obrigaram-no a sentar-se num banco duro, de ma
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defira, em trente de um policia gordo chamado liugan, num pequeno gabinete com espelhos.
Dugan, com borbulhas na cara e nariz bulboso, tinha uma maneira irritante de falar. Inclinado para diante, informou Richard das feridas profundas que provocara nos 
dois rapazes, que iriam faz-lo passar vrios anos atrs das grades. Mas Richard no se mostrou receoso, tal como no tinha mostrado medo quando os polcias o interrogaram, 
e  me, acerca do pai. Sabia o que o esperava. Ps os olhos no cho e comeou a chorar.
- Eu no queria fazer aquilo - disse, em voz baixa. - Mas eles roubaram-me a mquina fotogrfica e eu disse que ia fazer queixa  assistente social. Eles iam matar-me. 
Tive medo. Um deles atacou-me... com uma faca.
Dito isto, abriu o casaco e Dugan pde comprovar a existncia de sangue.
Richard foi levado ao hospital; tinha sido esfaqueado na barriga. 0 ferimento no fora mais grave porque, segundo afirmou Richard, ele tinha conseguido libertar-se 
deles no ltimo instante. Dugan encontrou a navalha no telhado do celeiro, no local exacto para onde Richard disse que vira um dos rapazes atir-la.
Em vez de Richard, os dois rapazes foram enviados para o centro de deteno juvenil, apesar de ambos afirmarem que nunca tinham visto aquela faca, pelo que no poderiam 
ter ferido Richard com ela. Mas o dono da casa de penhores afirmou que lhes tinha comprado a mquina fotogrfica, o que fez que ningum acreditasse nos protestos 
dos midos. Afinal, ambos tinham cadastro.
Anos mais tarde, Richard viu um dos rapazes na vizinhana, a caminhar pelo lado oposto da rua. J era um homem mas, ao deparar com Richard, ficou estarrecido; Richard 
limitou-se a sorrir e continuou o seu caminho, a recordar-se perfeitamente do golpe que infligira a si prprio com a maior das facilidades.
Richard abriu os olhos. Sim, ele sabia por experincia que todos os obstculos podem ser ultrapassados. Julie s precisava da pessoa certa para a ajudar. Juntos, 
estariam em condies de conseguir tudo, mas a mulher tinha de desejar que ele fizesse tudo por ela. Necessitava de que Julie aceitasse aquilo que tinha para lhe 
oferecer.
Seria pedir muito?

- Qual  o resultado actual? - perguntou Julie.
Estavam no ltimo buraco e Mike estava agora srio. Sabia que tinha uma pancada a mais; na sua primeira pancada tinha errado a
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puulana c a uura ncara presa numa pedra saliente, tornando impossvel a pancada seguinte. Limpou a testa, tentando ignorar o sorriso de Julie.
- Julgo que deves estar  frente - respondeu. - Mas no fales antes do ltimo buraco.
- Est bem.
- E que ainda podes perder. - Muito bem.
- Quero dizer, ficarias fula se perdesses na ltima jogada. - Muito bem.
- Por isso, faz o que tens a fazer, mas com a certeza de no cometeres o mnimo erro.
- Hum... tens razo, treinador. Obrigada pelo estmulo.
Colocou a bola no stio e concentrou-se, a medir a distncia entre a bola e o percurso a percorrer. Executou a pancada, a bola rolou com movimento seguro, acabando 
por ficar a uns dois centmetros do buraco. Bem gostaria de ter uma mquina de filmar, pensou, ao olhar para Mike. Aquela expresso batia todo o ouro do mundo.
- Julgo que ests sob presso - comentou, pondo sal na ferida. - Penso que tens de enfiar esta bola, s para empatares a partida, e, do ponto em que ests, no vais 
conseguir.
Mike estava a olhar para a bola dela; finalmente, mediu a distncia e encolheu os ombros. - Tens razo - admitiu. - 0 jogo acabou.
- Ah!
Mike abanou a cabea. - Odeio ter de admitir isto, mas esta noite no tentei a srio. Deixei-te ganhar.
Julie hesitou apenas um segundo, antes de correr para ele com o taco erguido; Mike apenas ensaiou a fuga, mas foi caado; Julie obrigou-o a voltar-se e puxou-o para 
si.
- Perdeste! - exclamou. - Admite!
- No - recusou Mike, a olh-la nos olhos. - Percebeste tudo mal. Posso ter perdido um jogo, mas penso que ganhei a partida.
- Como  isso?
Ele sorriu e inclinou-se para a beijar.


Richard levantou-se da cama e foi at  janela. Espreitando para fora, viu as sombras alongarem-se pelo terreno  volta da casa, escondendo o solo sob um tapete 
de escurido.
Com o tempo, revelaria a Julie todos os pormenores sobre ele prprio. Havia de falar-lhe da me e do pai, dos rapazes do lar de
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acolhimento, e sabia que ela no deixaria de perceber que ele nao tivera outra alternativa seno fazer o que fez. Havia de falar-lhe de Mrs. Higgins, a delegada 
escolar que, logo que soube que era rfo, mostrou um interesse especial por ele na escola secundria.
Recordava-se de falar com Mrs. Higgins, estando ela sentada no sof do seu escritrio. Recordava-se de pensar que a senhora talvez tivesse sido bonita no seu tempo, 
mas toda a beleza se tinha desvanecido com o passar dos anos. 0 seu cabelo era uma mistura de louro sujo e cinzento e, quando sorria, as rugas faziam que a cara 
parecesse seca e fendida. Mas Richard precisava de um aliado. Precisava de algum que abonasse o seu carcter, que afirmasse que ele no era um desordeiro mas uma 
vtima; e Mrs. Higgins era perfeita. No escritrio, toda a sua maneira de estar sugeria o desejo de ser simptica e compreensiva - a maneira como se inclinava para 
diante, de olhos tristes, com gestos constantes de compreenso ante as terrveis histrias da sua infncia que ele lhe contava, uma a seguir  outra.
Mais do que uma vez, viu Mrs. Higgins com os olhos marejados de lgrimas.
Com o passar dos meses, a senhora passou a trat-lo como o filho que no tinha e ele desempenhava bem esse papel. Deu-lhe um carto de parabns no aniversrio; ela 
comprou-lhe outra mquina fotogrfica, uma cmara de 35 milmetros com objectivas de qualidade, uma das mquinas que ainda conservava.
Richard sempre fora bom em Matemtica e em Cincias, mas ela intercedeu por ele junto dos professores de Ingls e Histria, que passaram a ser mais complacentes. 
A mdia subiu de um perodo para o outro. Mrs. Higgins informou o director de que o QI de Richard o colocava ao nvel dos gnios e fez presso para ele ser admitido 
nos programas destinados aos alunos mais dotados. Sugeriu que ele organizasse um dossi em que mostrasse os seus talentos e suportou todas as despesas. Escreveu 
uma carta de recomendao para a Universidade de Massachusetts, a universidade em que se tinha formado, na qual confessava nunca ter encontrado jovem mais capaz. 
Fez uma visita  universidade e avistou-se com os membros do comit de admisso, pedindo-lhes que dessem uma oportunidade ao rapaz e mostrando-lhes o dossi. Fez 
tudo o que pde; no entanto, embora sentisse uma profunda satisfao quando soube que todos os seus esforos tinham resultado, a informao no lhe chegou atravs 
de Richard.
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nwii~eceu que, logo ciepois cia sua admisso na universidade, Richard no voltou a falar-lhe. A senhora servira para ele atingir o objectivo; a partir da, no tinha 
qualquer utilidade.
Da mesma maneira que Mike tinha servido o seu objectivo em relao a Julie, mas agora deixara de ter interesse. Mike tinha sido um bom amigo, mas era tempo de o 
afastar do caminho. Mike estava a escraviz-la, a pux-la para trs, a no lhe permitir que escolhesse o seu prprio futuro. 0 futuro de ambos.
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VINTE E DOIS
Para Julie, os dias comearam a adquirir um novo ritmo. Desde a manh, quando Mike saa da garagem para lhe dar os bons-dias na rua, aos almoos conjuntos em restaurantes 
afastados, aos seres preguiosos gastos em conversas sem fim, ele estava a tornar-se uma parte importante e excitante da vida dela.
Ambos estavam ainda  procura da sua parte no futuro da relao, como se ambos temessem que um simples gesto de mo pudesse faz-la desaparecer como fumo. Mike no 
passara a noite em casa de Julie, Julie no passara a noite em casa de Mike e, embora qualquer dessas noites representassem uma oportunidade, nenhum deles pareceu 
estar pronto para a aproveitar.
Um dia, ao passear o co depois de sair do emprego, Julie percebeu que era apenas uma questo de tempo. Era quinta-feira, duas semanas depois da primeira sada e, 
mais importante, uma semana e meia depois do terceiro encontro, que era, segundo as revistas da especialidade, o nmero mgico quando se tratava de decises sobre 
a maneira de passar a noite. Tinham transposto esse marco sem se aperceberem de nada, o que no a surpreendia. Nos anos que se seguiram  morte de Jim, tivera os 
seus momentos em que sentira algo... sensual, como ela dizia; porm, tinha passado tantos anos sem ter um homem na cama que praticamente acabara por aceitar o celibato 
como uma maneira permanente de viver. At acabara por se esquecer de como era desejar um certo tipo de coisas mas, l no fundo, as velhas hormonas tinham vindo a 
manifestar-se vivamente nos ltimos dias, havendo alturas em que dava consigo a fantasiar situaes com Mike.
No que estivesse preparada para se atirar a ele sem aviso prvio. No, essa era uma situao que provavelmente provocaria espasmos em Mike. De qualquer maneira, 
no duvidava de que teria tanto
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medo como cie. ~>e o primeiro beijo tora uma provao para o sistema nervoso, o que pensar do passo seguinte? Imaginava-se no quarto, de p, em frente dele, a dizer: 
Oh! Estes pneus? Desculpa, mas bem sabes que ultimamente temos andado a comer fora. Apaga as luzes, meu amor.
Era possvel que todo o episdio terminasse num fiasco, completado com encontros de ombros, choques de cabeas e, no final, desapontamento. E, nesse caso, acontecer 
o qu? 0 sexo no era o mais importante numa relao. Mas tambm no estava, certamente, em terceiro lugar, nem em quarto. Calculava que, quando acabasse por acontecer, 
o stresse associado  primeira vez tornaria o acto sexual praticamente impossvel de apreciar. Devo fazer isto? Devo murmurar aquilo?  como ir a um concurso de 
perguntas impossveis, pensava, s que os concorrentes tm de estar nus.
Pois bem, repreendia-se a si mesma, era possvel que estivesse a preocupar-se demasiado. Mas isso  o que acontece nos casos em que, durante toda a vida, se esteve 
na cama com uma nica pessoa, com o pormenor de isso ter acontecido com o homem com quem se foi casada. Esta era a recompensa, supunha, de ter levado uma vida bastante 
recatada e, para ser honesta, no desejava pensar mais no assunto. Um passeio com o Singer devia servir para descontrair e no para ficar com as mos hmidas.
Mais adiante, o co deu uma volta pelo bosque que se estendia at ao canal interior, e Julie notou o caminho que estava a ser usado pelos
agentes imobilirios. Um ms antes, os letreiros tinham surgido por
toda a parte, at ao mar, e vira as fitas de plstico cor-de-laranja a marcar os limites da estrada que projectavam construir. Teria vizinhos, dentro de uns dois 
anos, o que, embora fosse interessante quanto ao valor da casa, no deixava de ser um contratempo. Gostava da sensao de privacidade proporcionada pelos lotes vagos 
 sua volta, que tambm davam muito jeito ao Singer. No lhe agradava nada a ideia de ter de andar atrs dele feita parva para evitar que o co conspurcasse os relvados 
recentemente semeados. Sentia-se mal s de pensar nisso e parecia j estar a ver os olhares que o Singer lhe deitaria. No tinha dvidas de que o animal ia perceber 
o que estava a passar-se. Depois das primeiras vezes, ficaria a olhar para ela de nariz torcido, a remoer algo parecido com: J fiz o que devia junto da rvore. 
Se queres ser uma menina bonita, por que no vais limpar a porcaria que fiz?
De maneira nenhuma, pensava Julie. Nunca suportaria uma coisa dessas.
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Andou mais quinze minutos, at chegar junto da gua; sentou-se no toco de uma rvore e ficou a ver os barcos que iam passando. No via o co mas sabia que devia 
andar por perto; tinha voltado atrs com frequncia, para se certificar de que ela vinha a segui-lo.
Era um dos seus protectores. 0 outro era Mike,  sua maneira.
Mike.
Mike e ela juntos. Verdadeiramente juntos. Momentos depois, Julie notou que as suas reflexes estavam a voltar ao ponto de partida, incluindo as mos hmidas.


Quando estava a aproximar-se da porta de casa, uma hora mais tarde, ouviu o telefone tocar. Correndo para casa, deixou que o mosquiteiro batesse com estrondo. Devia 
ser a Emma, pensou. Ultimamente a Emma ligava-lhe com frequncia; adorava o que estava a acontecer entre ela e Mike e ardia de desejos de falar do namoro. E, para 
ser honesta, Julie concordava que tambm sentia um certo prazer em falar do assunto. Certamente por uma questo de perspectiva.
Levou o auscultador ao ouvido. - Estou!
No obteve resposta, embora lhe parecesse que a ligao continuava.
- Estou! - repetiu.
Nada. Julie colocou o auscultador no descanso e foi abrir a porta ao co. Com a pressa, tinha-lhe dado com a porta no focinho. Porm, mal tinha chegado  porta, 
o telefone tocou de novo e ela voltou a atender.
Uma vez mais, silncio do outro lado. S que desta vez, antes de pousar o auscultador, julgou ouvir um estalido fraco quando o outro telefone foi desligado.


- Ento, como  que vo as coisas com a Julie? - perguntou Henry.
- Vo bem - respondeu o irmo, de cabea escondida por baixo da tampa de um motor. Durante a semana anterior mal falara do assunto com o irmo, mas apenas por falta 
de tempo. Com o Vero a chegar, os aparelhos de ar condicionado avariavam-se com a mesma frequncia com que eram postos a funcionar e os automobilistas estavam constantemente 
a aparecer na oficina, mostrando um anel de sujidade  volta dos colarinhos das camisas. Alm disso, era divertido ter novidades e no dizer nada ao mano. Como para 
o fazer ciente de que desta vez era Mike quem estava por cima.
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nenry ricou a onserva-lo. lendo em conta o nmero de vezes que tens sado com ela, esperava que tivesses mais qualquer coisa a dizer-me.
- Sabes como  - comentou Mike, sem interromper o trabalho.
Pegou numa chave de porcas e comeou a desapertar os fixadores que
mantinham o compressor no seu lugar.
- Na verdade, no sei. Pois, eu sei que no sabes!
- Como te disse, est a correr bem. Podes passar-me um desper
dcio? Tenho as mos um bocado escorregadias.
Henry passou-lhe um pedao de desperdcio. - Segundo ouvi
dizer, h dias convidaste-a para jantar em tua casa. Resposta seca de Mike - Pois. - E?
- E o qu?
- 0 que  que aconteceu? - Ela gostou.
- S isso?
- 0 que queres que te diga, Henry?
- 0 que  achas que ela pensa de ti? - Acho que gosta de mim.
Henry juntou as mos. J era qualquer coisa. - Com que ento,
pensas que ela gosta de ti?
Mike levou uns segundos mais para responder, sabendo que Henry
pretendia saber pormenores. - Pois penso.
Sorriu, continuando com a cabea escondida pela tampa do motor. Fantstico!
- Hum... - comeou Henry; o irmo estava a julgar-se muito esperto, mas havia mais de uma maneira de o fazer falar. - Ouve, estive a pensar se os dois poderiam acompanhar-nos, 
a mim e  Emma, numa viagem de barco durante o fim-de-semana.
- No prximo fim-de-semana?
- Sim. Podamos pescar um pouco, beber umas cervejas. Podia ser divertido.
- Acho que podemos conseguir isso.
Henry ergueu uma sobrancelha. 0 irmozinho estava a dar-se ares de pessoa importante. Engraado, como algum se torna diferente s por arranjar uma namorada.
- Olha, v se no te mostras to entusiasmado - resmungou.
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- Eh, no te enerves. S pretendo dizer que tenho, antes de mais, de combinar tudo com Julie.
- Ah, bom - aquiesceu Henry -, isso faz sentido. - E, infelizmente, no o podia negar.
Ficou ao lado do irmo durante mais um minuto, mas Mike nem se dignou pr a cabea de fora. Finalmente, Henry rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se para o escritrio; 
precisava de reflectir. Por agora, Mike parecia na m de cima. S pretendia algumas informaes, mas o irmo tinha de se armar em duro e mostrar que era do tipo 
silencioso.
Henry s tinha um problema: depois de vinte minutos a pensar, continuava a no saber o que fazer. Adorava uma boa chalaa, mas sem exageros, no tinha vontade de 
tornar as coisas mais difceis para o irmo mais novo.
Podia ser um fraco, pensava, mas no era mesquinho.


- Deixa que te diga, de h uns dias para c pareces resplandecer - dizia Mabel.
- No pareo nada disso. Ultimamente, tenho estado bastante tempo ao sol - respondeu Julie.
Estavam no salo, a gozar um intervalo entre dois trabalhos. Andrea estava no seu lugar, a fazer um corte de cabelo e a manter uma conversa sobre poltica, condenada 
ao fracasso desde que ela afirmara que gostava do governador em exerccio porque o cabelo dele  mais bonito do que o do outro tipo. 0 outro tipo a que ela se 
referia parecia totalmente irrelevante para o cliente; de qualquer das formas, no estava ali para conversar.
- No estou a falar do esplendor do Sol e tu sabes isso muito bem.
Julie pegou na esfregona e comeou a limpar o cho  volta da sua cadeira.
- Sim, Mabel, eu sei. No se pode dizer que sejas a pessoa mais subtil que conheci at hoje.
- Subtil? Para qu?  bastante mais fcil falar das coisas como elas so.
- Para ti, talvez. Ns, os mortais, preocupamo-nos por vezes com o que fazer quando encontramos outras pessoas.
- Minha querida, preocupa-te com essas coisas se te agrada. A vida  demasiado curta. Alm disso, tu gostas de mim, ou no gostas?
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'l u s nica, disso podes ter a certeza.
Mabel inclinou-se para ela. - Nesse caso, deita tudo c para fora.


Uma hora mais tarde, o ltimo cliente de Andrea estava servido e saiu, deixando uma gorjeta suficiente para pagar um novo modelo de suti Miracle que ela andava 
a cobiar. Passara as ltimas semanas a pensar que o seu problema estava no peito, no suficientemente volumoso para atrair o tipo de homens em que estava interessada, 
mas o
novo suti iria certamente ser uma boa ajuda.
Tambm iria ajud-la a sentir-se um pouco melhor na sua prpria pele. Mabel e Julie tinham passado a semana toda a sussurrar uma com a outra, como se estivessem 
a planear um assalto ao banco do fundo da rua, mas ela sabia que estavam a falar da nova relao de Julie com o Mike. Embora lhe parecesse que no falavam seno
de coisas triviais. Ela beijara-o! E depois? Que grande coisa! Andrea
andava a beijar rapazes desde o segundo ano, mas Julie parecia acreditar que tudo aquilo tinha de ser to romntico como no filme Um
Sonho de Mulher.
Alm de que, pensava Andrea, o caso com o Mike era completamente ridculo. Mike ou Richard? Que se deixassem de tretas, dizia para si mesma, a escolha era bvia, 
mesmo para uma pateta. Mike era um tipo simptico, mas no era o Richard. Richard tinha tudo! E Mike? 0 seu encanto sexual resumia-se a ser grande. Mas, quando se 
tratava de homens, Julie era completamente cega.
Melhor seria, acreditava, que Julie falasse com ela. Poderia dar-lhe umas boas dicas sobre a maneira de tratar a questo do Richard.
A sineta da porta soou naquele preciso momento e Andrea virou a cabea, a pensar: Pois bem, por falar no diabo...


0 salo ficou silencioso por momentos. Mabel tinha sado por instantes, e a ltima cliente de Julie estava tambm de sada. Richard segurou na porta para ela passar. 
Vinha de culos escuros e, quando se voltou, o reflexo das prprias feies dela nas lentes provocou-lhe uma sensao de peso no estmago. Singer levantou-se da 
manta.
- Richard? - comeou Julie.
A interrogao saiu como que a medo.
- Viva, Julie. Como ests?
No havia qualquer razo para ser malcriada, mas tambm no lhe agradava ficar ali a trocar amabilidades. Embora, uma vez por
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outra, tivesse de aceitar encontros fortuitos com Richard, como era inevitvel numa cidade pequena, parecia no lhe agradar a ideia de o ver aparecer no salo. Encontros 
acidentais eram uma coisa, outra era saber que teria de continuar a v-lo com regularidade e no lhe apetecia fazer nada que pudesse servir para o encorajar. No 
pretendia, por certo, uma repetio do encontro no
supermercado.
- 0 que h? - inquiriu.
Richard tirou os culos e sorriu. Depois, falou com voz suave. - Vinha com a esperana de que tivesses tempo para me cortar o cabelo. Parece-me que est na altura.
A duvidar de que aquela fosse a nica razo da vinda dele, Julie consultou a agenda de marcaes, sabendo de antemo o que ia encontrar. Comeou a acenar com a cabea.
- Lamento. No penso que tenha espao para te encaixar; hoje, tenho um dia muito ocupado. A minha prxima cliente chega dentro de poucos minutos e, depois dessa, 
tenho um trabalho de colorao, que pode levar muito tempo.
- Estou a ver que devia ter feito marcao, no ?
- Por vezes, pode pr-se uma pessoa num intervalo, mas hoje no tenho essa possibilidade.
- Estou a ver.
Desviou os olhos. - Bem, como j aqui estou, talvez possamos combinar qualquer coisa. 0 que me dizes de segunda-feira?
Ela voltou a pgina, uma vez mais a saber o que ia encontrar.
- Tambm tenho o tempo todo ocupado. As segundas-feiras so sempre movimentadas.  o dia dos clientes regulares.
- Tera-feira?
Desta vez, no teve necessidade de olhar para a agenda. - S trabalho meio-dia. Tenho uns assuntos a tratar durante a tarde.
Richard cerrou os olhos lentamente e abriu-os de novo, como se perguntasse: Ento  assim que vai ser, h? Contudo, no se voltou para sair. Ao sentir a tenso 
entre eles, Andrea afastou-se ligeiramente da sua cadeira.
- Eu posso fazer isso, doura - ofereceu. - Tenho algum tempo disponvel.
Passado um instante, Richard deu um curto passo atrs, sem tirar os olhos de Julie.
- Est bem - respondeu -, excelente.
Andrea endireitou a mini-saia, deu uma espreitadela ao espelho e indicou-lhe o caminho.
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- venna dai, doura. vamos l para trs. Preciso de lhe lavar a cabea.
- Com certeza. Obrigado, Andrea.
Ela olhou-o por cima do ombro, presenteando-o com o melhor dos sorrisos natalcios, deliciada com o som do seu nome na voz dele.


- 0 que  que ele veio c fazer? - perguntou Mike. Logo que viu Richard sair do salo (tinha tendncia para olhar para o salo sempre que tinha um minuto livre, 
o que lhe permitia, ao menos, imaginar o que Julie estava a fazer) tinha sado da oficina a correr e Julie saiu para se encontrar com ele na rua.
- Veio cortar o cabelo.
- Porqu?
- Bom,  isso que fazemos no salo.
Ele olhou-a com impacincia e Julie continuou. - Oh, no faas disto aquilo que no foi. Mal lhe falei. Foi a Andrea quem lhe cortou o cabelo, no fui eu.
- Mas ele queria que fosses tu, no queria? Mesmo depois de teres rompido com ele?
- Isso no posso negar. Mas julgo que ficou com a impresso de que no o quero ver mais, nem mesmo no local de trabalho. No o tratei mal, mas tenho a certeza de 
que entendeu a mensagem.
- Bem... bom - tartamudeou Mike. Fez uma pausa. - Ele apercebeu-se de que tu... bom, andas a sair comigo, no foi?
Em vez de responder, Julie pegou-lhe na mo. - Sabes uma coisa, acho que ficas bonito quando ests com cimes.
- Eu no estou com cimes.
-  claro que ests. Mas no te preocupes, acho-te sempre bonito. Vemo-nos esta noite?
Pela primeira vez, desde o momento em que avistara o Richard, Mike sentiu-se um pouco mais descontrado. - Vou l ter - concluiu.
Minutos depois, quando Julie regressou ao salo, Andrea estava novamente a trabalhar, embora continuasse corada devido ao tempo que passara junto de Richard. Fora 
a primeira vez, segundo Julie percebeu, que Andrea pareceu nervosa  volta de um homem. Bom para ela. Por uma vez, Andrea merecia algum com emprego certo, apesar 
de no poder imaginar que ela conseguisse manter, por muito
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tempo, uma conversa com uma pessoa assim. Julie tinha uma suspeita estranha: Andrea no tardaria a fartar-se dele.
Acabou o trabalho por volta das cinco e comeou a preparar o encerramento do salo. Andrea acabara meia hora antes e j tinha sado. Mabel estava ocupada em limpezas 
nas traseiras e foi ento que encontrou os culos de sol em cima da bancada, junto da planta envasada.
Viu logo que pertenciam a Richard e, por momentos, pensou em telefonar-lhe para lhe dizer onde tinha deixado os culos; contudo, decidiu no o fazer. Mabel ou Andrea 
tambm podiam encarregar-se disso. Era prefervel.


Julie passou pelo supermercado para comprar o jantar e estava quase a entrar em casa quando ouviu a campainha do telefone. Ps o saco das compras em cima da mesa 
e atendeu.
- Estou!
- Ol, Julie - comeou Richard. 0 tom era amvel, descontrado, como se os dois tivessem o costume de conversar todos os dias pelo telefone. - No tinha a certeza 
de j teres chegado, mas ainda bem que te apanhei. Tive pena de no poder conversar contigo.
Julie fechou os olhos, a reflectir. Outra vez, no! Chega!
- Ol, Richard - disse com voz glida.
- Como ests?
- Estou bem, obrigada.
Ao ouvir o tom de voz dela, Richard fez uma pausa. - Deves estar a tentar descobrir o motivo do meu telefonema.
- Mais ou menos.
- Bom, estive a pensar se terias encontrado uns culos de sol. Talvez os tenha deixado no salo.
- Sim, esto l. Deixei-os em cima da bancada. Podes ir busc-los na segunda-feira.
- No abrem ao sbado?
- No. A Mabel no acha que as pessoas devam trabalhar nos fins-de-semana.
- Oh!
Nova pausa. - Bom, estou prestes a sair da cidade e seria ptimo se pudesse ir busc-los antes de ir. Seria possvel ires l e abrires-me a porta esta noite? S 
te tomava uns minutos. Logo que os tenha, vou  minha vida.
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juine manteve o auscultador junto da orelha mas sem responder, a pensar que o homem devia estar a brincar com ela, pois era por demais evidente que ele deixara os 
culos no salo como um pretexto para voltar a telefonar-lhe.
- Est? Julie?
Ela soltou um profundo suspiro, sabendo que ele no deixaria de a ouvir, mas no se importando com isso. - Parece-me que isto j est a ultrapassar as marcas, no 
achas? - disse para o aparelho, sem qualquer vestgio de simpatia ou de compreenso na voz. - Sei o que pretendes e tenho tentado ser simptica para ti, mas penso 
que est na altura de parar, percebes?
- Do que  que ests a falar? S pretendo reaver os meus culos.
- Richard, estou a falar a srio. Agora ando com outra pessoa. Acabou-se. Na segunda-feira podes ir buscar os teus culos.
- Julie... espera...
Julie carregou no boto e desligou a chamada.
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VINTE E TRS
Uma hora mais tarde, Mike empurrou a porta da frente e enfiou a
cabea por ela.
- Eh, j cheguei! - chamou.
Julie estava na casa de banho a secar o cabelo e, logo que o Singer
ouviu a voz de Mike, saiu a trote para o receber.
- Ests visvel? - inquiriu Mike. Ouviu o secador ser desli
gado.
- Estou, chega aqui.
Mike atravessou o quarto e espreitou para dentro da casa de banho. - Tomaste um duche?
- Tomei. Sentia-me como que suja - respondeu Julie. Enrolou o cabo  volta do secador e guardou-o na gaveta. - Quando h muito que fazer, como sucedeu hoje, ao chegar 
ao fim fico com a sensao de estar coberta de cabelos de outras pessoas. Estarei pronta dentro de uns minutos.
- Importas-te que fique?
- No me importo nada.
Mike encostou-se  ombreira e ficou a ver Julie pegar na caixa de sombra e a aplic-la com gestos rpidos, sobre as plpebras. Depois aplicou a base e escovou as 
pestanas com os mesmos gestos rpidos e precisos, primeiro a de cima, depois a de baixo, inclinando-se para o espelho ao faz-lo.
Enquanto esperava, Mike entreteve-se a pensar que havia algo de sensual numa mulher a maquilhar-se, algo que falava do seu desejo de ser considerada atraente. Notou 
uma diferena subtil, sem tirar os olhos dela, viu-a ficar ligeiramente diferente. Como no tencionavam sair, todo aquele trabalho era em sua honra, uma ideia que 
considerou inegavelmente ertica.
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Jabla que estava apaixonado por Julie. As ltimas duas semanas em que tinham andado juntos tornaram a paixo bem evidente, mas tratava-se de um sentimento diferente 
do que tinha antes de comearem a namorar. Julie deixara de ser uma fantasia, era uma realidade, no conseguia imaginar a vida sem a ter a seu lado; cruzou os braos, 
como que a defender-se da possibilidade de tudo ainda se lhe escapar por entre os dedos.
Com um ligeiro sorriso, Julie ps os brincos, a tentar perceber o que ele veria de to interessante naquela operao, mas sem deixar de se sentir feliz com a anlise 
a que ele procedia. Pegou num frasco de perfume e aspergiu um pouco no pescoo e nos pulsos.
- Melhor? - perguntou.
- Ests uma beleza - respondeu Mike. - Como sempre.
Julie obrigou-o a encolher-se para a deixar sair, com o corpo a roar pelo dele, e Mike seguiu-a, de olhos pregados no movimento quase imperceptvel dos quadris 
e na curva suave do traseiro dela. De ps descalos e calas de ganga coadas, era a prpria imagem da graa, embora Mike tivesse de reconhecer que ela estava a 
mover-se da forma que lhe era habitual.
- Decidi fazer bifes para o jantar - anunciou ela. - Parece-te bem?
- Excelente, mas ainda no tenho muita fome. Almocei tarde, na oficina. Mas uma cerveja vem mesmo a calhar.
Julie esticou-se para tirar um copo do armrio. Quando estava em bicos de ps, a blusa levantou-se o suficiente para lhe deixar a barriga  mostra, obrigando Mike 
a desviar os olhos, forando-se a pensar no basebol. Momentos depois, de p em frente dele, levantou o copo e Mike serviu-lhe o vinho, preferindo uma cerveja para 
si. Abriu a garrafa e bebeu uma grande golada.
E depois outra.
- No queres sentar-te um pouco l fora? - perguntou Julie. - Quero.
Foram para o alpendre e Julie abriu o mosquiteiro para o co poder ir para o quintal. Vestia uma blusa sem mangas. Mike apreciou-lhe os msculos finos dos braos, 
junto aos ombros, e o volume do peito, sem conseguir coibir-se de imaginar o aspecto dela despida.
Fechou os olhos e respirou fundo. Por favor, pensou, no me faas armar em parvo. Por favor!
Bebeu outra grande golada, quase despejando a garrafa.
Pensou que aquela iria sem uma noite longa e difcil.
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Acabou por no ser to m como ele receara. Como era hbito, embrenharam-se uma conversa ligeira e deixaram-se acariciar pela brisa amena do fim de tarde; Mike acendeu 
o grelhador uma hora depois e grelhou os bifes, enquanto Julie foi para a cozinha preparar a salada.
Na cozinha, Julie reflectia que Mike estava com o ar de um nufrago que tivesse vivido isolado numa ilha deserta durante alguns anos. Desde que chegara, o pobre 
homem nunca mais tirou os olhos dela e, apesar de querer mostrar-se circunspecto, sabia exactamente o que ele estava a pensar, porque, para ser honesta, tinha de 
admitir que estava a pensar no mesmo. Sentia as mos encharcadas, mal conseguia pegar nas verduras.
Cortou pepinos e tomates s rodelas e juntou-as ao resto da salada; em seguida, ps a mesa com a melhor loua e talheres de que dispunha. Afastando-se um pouco para 
observar o efeito, apercebeu-se de que faltava qualquer coisa. Procurou duas velas, colocou-as no centro da mesa e acendeu-as. Depois de apagar a luz do tecto, acenou 
com a cabea; sentia-se satisfeita.
Foi  sala, colocou um CD de Ella Fitzgerald a tocar e estava a servir o vinho quando Mike chegou com os bifes. Parou junto  porta, a apreciar os preparativos dela.
- Gostas? - inquiriu Julie.
- Est... maravilhoso!
Julie reparou que olhara directamente para ela ao responder e, durante um bom bocado, estiveram apenas a olhar um para o outro. Finalmente, Mike desviou os olhos 
e colocou a travessa dos bifes em cima da mesa. Porm, em vez de se sentar, foi at junto de Julie e ela sentiu o estmago contrair-se. Oh, meu Deus, estarei realmente 
preparada para isto?
De p, em frente dela, Mike acariciou-lhe o rosto com a mo

aberta, como se pedisse permisso para continuar. Ouvia-se, em fun

o aroma do jantar enchia a pequena cozinha.

consciente de tudo isso. Mike parecia encher
para ela como se estivesse a ler-lhe a mente e Julie cedeu. Pressionou a face contra a mo dele, fechando os olhos e deixou-se contagiar pelo contacto. Mike aproximou-se 
mais, at ela sentir a presso do peito dele e a fora dos braos que a enlaaram pela cintura.
209
do, uma msica suave; Julie estava vagamente toda a diviso.
Foi naquele por ele.
Mike olhou
momento que compreendeu que estava apaixonada
Deitou-a. um peito suave, uma carcia que mais parecia o movimento de ar debaixo das asas de um pssaro zumbidor; e, embora j se tivessem beijado por diversas vezes, 
aquele beijo pareceu mais genuno do que todos os que tinham trocado antes. Mike voltou a beij-la e, quando as duas lnguas se tocaram, Julie abraou Mike, convencida 
de que todos aqueles anos de amizade recproca os tinham conduzido inexoravelmente para aquele momento.
Quando se separaram, Mike tomou-a pela mo, f-la sair da cozinha e levou-a para o quarto. Beijaram-se de novo e Mike comeou a desabotoar a blusa dela. Julie sentiu-lhe 
os dedos contra a pele, depois sentiu as mos de Mike moverem-se para o fecho das calas. Ele beijou-lhe o pescoo e acariciou-lhe a cabea, mergulhando as mos 
nos seus cabelos.
- Amo-te - sussurrou Mike.
Julie sentiu a respirao dele a aquecer-lhe a pele. - Oh, Mike, eu tambm te amo.


Amaram-se e, embora a situao no tivesse sido to embaraosa como Julie chegara a recear, tambm no fizeram nada capaz de incendiar o mundo. Mais do que tudo, 
Mike pretendia satisfazer Julie e Julie pretendia satisfazer Mike, o que obrigou a muita reflexo dos dois lados e evitou que ambos se tivessem limitado a desfrutar 
simplesmente o prazer do momento.
Depois de acabarem, deixaram-se ficar deitados ao lado um do outro, de respirao apressada e olhar fixo no tecto, ambos a pensar que, na realidade, se encontravam 
um pouco destreinados, cada um a desejar que o outro no desse por isso.
Porm, ao contrrio do que sucede com muitos casais, sentiram prazer nos abraos que trocaram depois, quando os sentimentos iniciais de carncia deram lugar  ternura. 
Uma vez mais, Mike disse a Julie que a amava, e tambm ela proferiu as palavras necessrias. E, uma hora mais tarde, quando voltaram a fazer amor, foi tudo perfeito.
J passava da meia-noite e continuavam deitados. Julie a observar os dedos de Mike a descreverem-lhe sulcos na pele da barriga. Quando j no podia aguentar mais, 
tentou desviar-se, a rir-se s gargalhadas e a tentar agarrar a mo dele, para que parasse.
- Isso faz ccegas - protestou.
Mike beijou-lhe a mo e olhou para ela. - A propsito, estiveste fantstica.
210
Bom, agora vamos descer de nvel? Como se eu tosse um
engate para uma noite s e quisesses lisonjear-me o ego, para evitares
os sentimentos de culpa por te teres aproveitado da situao.
- No, disse-o com sinceridade. Foste fantstica. A melhor. Nun
ca pensei que pudesse ser assim.
Ela riu-se. - Frases feitas, clichs. - No acreditas em mim?
-  claro que acredito. Fui fantstica - concordou. - A me
lhor. Nunca pensaste...
Mike recomeou a fazer-lhe ccegas antes de ela poder concluir a
frase; Julie saracoteou-se e conseguiu libertar-se dele. Depois, deitado
de costas, Mike levantou-se at ficar apoiado nos cotovelos.
- E, por falares disso, eu no me aproveitei da situao.
Julie rolou sobre um dos lados para o ver melhor e deu um puxo
no lenol.
- Ah, no? Tudo o que sei  que estava a preparar-me para jantar
e, no minuto seguinte, estava no quarto e as nossas roupas voavam em
todas as direces.
- Fui bastante sedutor, no fui?
- Foste muito sedutor - concluiu e estendeu a mo para lhe
acariciar a face. - Sabes que te amo, no sabes?
- Pois sei.
Julie deu-lhe um empurro. - E eu para aqui a tentar falar a
srio, s para variar - protestou. - 0 mnimo que podes fazer
 dizer que tambm me amas.
- Outra vez? Quantas vezes  necessrio que eu diga essas pala
vras?
- Quantas vezes  que pretendes repeti-las?
Mike ficou a olhar para ela; depois pegou-lhe na mo e beijou-lhe
os dedos, um por um. - Por minha vontade, ficaria a repetir isso em
todos os dias da minha vida.
Ah! Aquilo sim, foi bonito.
- Muito bem, j que me amas assim tanto, importas-te de ires
buscar alguma coisa que se coma? Estou a morrer de fome.
- Tu mandas.
Quando Mike estava a dobrar-se para apanhar as calas, o telefone
que estava em cima da mesa de cabeceira do seu lado comeou a tocar. Um toque. Dois. Ao terceiro, Mike respondeu. - Sim! Est l?
Julie cerrou os olhos, alimentando a esperana de que ele pousasse
o auscultador.
211
* Em francs, no original. (NT)
212
Desligou. - No havia ningum do outro lado. - Deve ter sido engano ou coisa do gnero - explicou. Depois, olhando para ela: - Sentes-te bem?
Julie esforou-se por sorrir. - Sim, estou ptima.
0 telefone tocou de novo. Desta vez, Mike olhou de relance para
ela e, espantado, atendeu de novo. Uma simples repetio.
Julie cruzou os braos. Embora quisesse convencer-se a si propria de que talvez os telefonemas no significassem nada, no conseguiu afastar a sensao de dj vu* 
que subitamente a assaltou, a mesma
sensao que tivera durante a visita  sepultura de Jim.
No pde deixar de pensar que algum andava a vigi-la.
VINTE E QUATRO
As alteraes na vida de Julie comearam naquela noite.
Maravilhosas, na sua maioria. Mike passou o sbado com ela, voltaram a fazer amor logo de manh e novamente antes de adormecerem. No domingo foram os dois  zona 
comercial de Jacksonville e Julie comprou um biquni, bem como cales e sandlias. Depois de regressarem a casa, Julie resolveu vestir o biquni e passear com ele 
pela sala. Mike ficou a olh-la, de olhos esbugalhados, e saltou do sof para a perseguir. Ela correu pela casa, a rir e a gritar, at que Mike conseguiu apanh-la, 
no quarto. Tombaram para cima da cama e rebolaram at que, uns minutos depois, se afundaram entre os lenis.
Para alm de passar muito tempo despida, ficou surpreendida, alm de grata, pelo facto de o que se passava na cama no ter alterado a amizade entre eles. Mike continuou 
a dizer piadas e a faz-la rir, Julie continuou a zombar dele, ele continuou a segurar-lhe na mo quando ficavam sentados no sof a ver filmes.
Contudo, ao passar os acontecimentos da semana em revista, e por muito que quisesse neg-lo, o que quase nunca deixou de a atormentar foram os telefonemas. As duas 
chamadas de sexta-feira, j noite alta. No sbado houve mais duas. No domingo, o telefone tocou quatro vezes e cinco na segunda-feira, mas nesses dois dias Mike 
tinha sado de casa por momentos e foi ela quem respondeu. Na tera-feira, depois de ter ido para a cama - Mike foi passar a noite a sua casa - houve quatro chamadas, 
antes de ela decidir tirar a ficha do telefone. E, na quarta-feira, logo que entrou na cozinha, depois de um dia de trabalho, verificou que a cassete do gravador 
de chamadas estava cheia de mensagens.
Lembrava-se de ter carregado no boto para ouvir a primeira e depois passar para a outra. Depois a outra. As chamadas tinham
213
cnegaao umas a seguir as outras. U gravador tinha registado a hora de cada uma; cada nova chamada tinha sido feita no momento em que a precedente fora desligada. 
 quarta mensagem, Julie comeou a ofegar;  nona comeou a sentir os olhos marejados de lgrimas. Quando chegou  dcima segunda, comeou a bater no boto de apagar 
com
a mesma velocidade com que carregava no boto de ouvir, numa tentativa desesperada de evitar o que estava a acontecer.
Quando acabou, sentou-se, a tremer.
Naquele dia, tinha havido um total de vinte chamadas para o seu gravador, com a durao de dois minutos cada uma.
Quem fez as chamadas no disse nada, em qualquer delas.
E na quinta e na sexta-feira no houve chamadas.
214
VINTE E CINCO
- Parece-me que est tudo a correr s mil maravilhas - disse Emma, no sbado.
Horas antes, Mike e Julie tinham-se juntado a Henry e Emma, em Harker's Island, para um almoo a bordo do barco. Encheram o barco de arcas frigorficas cheias de 
comida e cerveja, mais protectores solares, toalhas e chapus, baldes de gelo e material de pesca suficiente para apanhar tudo o que ousasse passar perto da popa, 
incluindo a Moby Dick, a grande orca ou um tubaro como o do filme Tubaro. Por volta do meio-dia, ancorados num local profundo prximo de Cape Lookout, Mike e Henry 
estavam de p, perto um do outro, a manejar os carretos, numa competio que, no fundo, se poderia considerar bastante juvenil. Sempre que um deles apanhava um peixe, 
fazia negaas em frente da cara do outro com a garrafa de cerveja. Um dos baldes j continha cavalas e solhas em quantidades suficientes para alimentar um exrcito 
de focas esfaimadas; ambos os homens tiraram as camisas encharcadas de cerveja e puseram-nas a secar na amurada.
Emma e Julie estavam sentadas em pequenas cadeiras de lona, perto da cabina, e portavam-se de forma um pouco mais adulta. Os raios de sol derramavam-se sobre todos 
eles. Porm, como ainda no era Vero, a humidade era suportvel, embora as latas de cerveja estivessem molhadas devido  condensao.
- Pois est - corroborou Julie. - Na verdade, tem sido excelente. Esta ltima semana fez-me pensar acerca daquilo que eu temi durante tanto tempo.
A forma como falou deixou Emma na expectativa.
- Mas?
- Mas o qu?
215
- na qualquer coisa que te perturba, no h?
-  assim to bvio?
- No. Mas no preciso de que seja assim to bvio. Conheo-te
h tempo suficiente para reconhecer os sinais. Ento, o que ? Tem
alguma coisa a ver com Mike? - No. De maneira alguma. - Tu ama-lo?
- Sem dvida.
- Ento, o que ?
Julie pousou lentamente a cerveja no convs. - Ultimamente, tenho recebido uns telefonemas estranhos. - De quem?
No sei. Ningum fala, nunca.
Respiraes ofegantes?
No, nem isso. Nenhum som.
E no sabes de quem so os telefonemas?
No. Quando procurei saber, fui informada de que se tratava
de um nmero particular; por isso, liguei para a companhia. Tudo o
que me podem dizer  que se trata de um telemvel. Mas o nmero
no est registado, motivo por que no podem localiz-lo.
- Como  que  possvel?
- No fao ideia. Explicaram-me mas, na realidade, eu nem esta
va a ouvir. Depois de me informarem de que no podiam fazer nada, parece que deixei de pensar.
- Fazes alguma ideia de quem poder ser?
Julie virou-se, a tempo de ver Mike voltar a lanar a linha. - Julgo que deve ser o Richard. No posso provar nada, mas tenho a sensao de que  ele.
- Porqu?
- Pela altura em que comeou, julgo eu. No consigo pensar em mais algum capaz de fazer uma coisa destas. No conheci ningum nos tempos mais recentes, alm dele... 
No sei... Apenas julgo que  ele. Pela maneira como agiu quando lhe disse que estava tudo acabado, pela maneira como continua a querer meter-se na minha vida.
- 0 que  que queres dizer?
- So pequenos pormenores. Quase choquei com ele no supermercado, depois apareceu no salo a querer um corte de cabelo. E, sempre que acontece encontr-lo, no deixa 
de tentar descobrir a maneira de ter outra oportunidade comigo.
Emma fitou-a com ar srio. - 0 que  que o Mike pensa disso?
- No fao ideia. Ainda no lhe contei.
216
- Porqu?
Julie encolheu os ombros. - 0 que  que ele vai fazer? Vai atrs do tipo? Como te disse, nem sequer tenho a certeza de que as chamadas sejam feitas pelo Richard.
- Ora bem, quantas chamadas houve?
Julie cerrou os olhos por momentos. - Na quarta-feira, havia vinte mensagens registadas.
Emma sobressaltou-se. - Oh, meu Deus. Ainda no participaste  Polcia?
- No. At ento ainda no me tinha apercebido bem do que estava a acontecer. Julgo que alimentava a esperana de ser um erro qualquer, uma qualquer avaria num computador 
da companhia dos telefones, por exemplo. Estava  espera de que desistissem. E talvez tenham desistido. 0 meu telefone no toca h dois dias.
Emma pegou na mo de Julie. - As pessoas desse gnero nunca desistem. Os jornais esto constantemente a referir casos desses: Ex-namorado procura um ajuste de contas. 
 tpico do caador furtivo. No ests a perceber isso?
-  claro que estou. E j pensei muito no assunto. Porm, o que  que posso contar aos polcias? No consigo provar que o Richard faz as chamadas e a companhia dos 
telefones tambm no. Ele no me ameaou. No detectei o carro dele parado perto da minha casa ou do salo. Em todas as ocasies em que nos encontrmos, nunca deixou 
de me tratar com delicadeza e, mais, houve sempre outras pessoas por perto. Tudo o que ele tem a fazer  negar.
Tratou todos os pontos como se fosse um advogado a fazer as suas alegaes finais. - E, alm do mais, como j te disse, no tenho a certeza de que o culpado seja 
ele. Tanto quanto sei, pode ser o Bob. Ou at algum que eu no conheo.
Emma fitou-a exercendo presso sobre a mo dela.
- Mas ests noventa e nove por cento convencida de que  o Richard?
Depois de uma ligeira hesitao, Julie aquiesceu.
- E durante a noite passada no houve chamadas? Nem na noite anterior? Ou quando o Mike l estava?
- No. Esteve tudo calmo. Talvez tenha desistido.
Emma franziu o cenho, ficando a reflectir sobre o assunto.
Ou est a pretender levar-te a acreditar que desistiu.
Mas no ia dizer uma coisa dessas. Em vez disso, limitou-se a dizer: - Estranho! Mete medo. Sinto um formigueiro s de pensar nisso.
217
ia 11UC111 Cu.
- E pensas fazer o qu?
Julie abanou a cabea. - No fao ideia.


Uma hora depois, Julie estava de p junto  proa quando sentiu os braos de Mike  volta da cintura e a face dele no pescoo. Encostou-se a ele, a sentir-se estranhamente 
confortada quando ele se colocou a seu lado.
- Ol - saudou Julie.
- Ol. Pareceste-me solitria, aqui em cima.
- No. Estava apenas a gozar a brisa. Ao sol, estava a ficar com
calor a mais.
- Tambm eu. Julgo que apanhei um escaldo. A cerveja deve ter
lavado o protector solar.
- Ento, venceste?
- No  para me gabar, mas pode dizer-se que apanhei muito
mais peixe do que ele.
Ela sorriu. - E o Henry, o que  que est a fazer?
- Provavelmente est amuado.
Julie olhou para trs e viu Henry debruado da amurada, a encher
uma lata de cerveja com gua do mar. Quando a viu a olhar, levou um
dedo aos lbios, a pedir silncio.
- Ento, ests preparado para logo  noite? - perguntou. - No
Clipper?
- Estou. J conheo a maioria das canes.
- 0 que  que vais levar vestido?
- Por esta vez, acho que levo calas de ganga. Julgo que estou a ficar demasiado velho para me vestir como um mido.
- E s agora  que ests a perceber isso?
- s vezes sou um bocado lento.
Julie aconchegou-se nele. - Como aconteceu em relao a mim?
- Pois, como tambm aconteceu contigo.
Mais longe, avistavam-se barcos de vrios tipos que tinham ancorado perto da praia de Cape Lookout. No primeiro fim-de-semana quente do ano, a praia estava cheia 
de famlias. Os midos mergulhavam e gritavam na gua, os pais ficavam deitados nas toalhas, a observar os filhos. Por detrs da multido, o farol erguia-se mais 
de vinte e cinco metros acima do solo; pintado de branco com losangos pretos, parecia um tabuleiro de xadrez enrolado.
- Hoje tens estado bastante calada - sondou Mike.
218
- Tenho estado a pensar.
- Sobre alguma coisa que a Emma disse?
- No. Pelo contrrio. Sobre uma coisa que eu lhe contei.
Mike sentiu as madeixas do cabelo dela roarem-lhe pela cara. - Queres falar disso?
Julie respirou fundo e depois falou-lhe de tudo o que tinha contado  Emma. Ao ouvir, a expresso de Mike foi-se alterando: primeiro, preocupao, depois receio 
e, finalmente, fria. Quando Julie terminou, ele pegou-lhe na mo e f-la rodar at poder olh-lo de frente.
- Portanto, pensas que era ele quando eu atendi o telefone naquela noite?
- No sei.
- Por que motivo no me falaste disto mais cedo?
- No havia nada para dizer. Pelo menos at h poucos dias.
Mike desviou o olhar, franziu o cenho e voltou a olhar para ela. - Bom, se voltar a acontecer terei de pr cobro a isso.
Julie pareceu estud-lo, at que acabou por soltar uma gargalhada. - Os teus olhos esto outra vez com aquele ar macho de antigamente.
- No tentes mudar de assunto - corrigiu Mike. - Isto  grave. Recordas-te da nossa conversa no Tizzy's?
- Sim, lembro-me - respondeu Julie, com voz neutra. - Mas esta  a minha maneira de agir quando estou preocupada. Tento ultrapassar a dificuldade com uma piada. 
Um velho hbito, percebes?
Passou algum tempo at Mike voltar a pr-lhe os braos  volta da cintura. - No te preocupes. No vou deixar que te acontea nada de mal.


0 almoo foi bastante informal: sanduches e batatas fritas e uma embalagem de salada de batata. Depois de ter desabafado com Mike e com Emma, e de estmago cheio, 
Julie sentiu-se muito melhor. Sentiu um certo alvio ao constatar que ambos tambm tinham considerado muito grave o que estava a acontecer.
Comeou at a descontrair-se e a gozar o passeio. Apesar de a expresso de Mike lhe mostrar que ele no estava esquecido do que ouvira, o Mike era o Mike, um homem 
que nunca poderia estar macambzio durante muito tempo, em especial quando Henry andava por perto. A dada altura, Henry ofereceu ao irmo a lata de cerveja
219
-a aua - caie ucuuiu se por uma grande
golada, que teve de interromper a meio para cuspir a gua por cima da amurada. Henry desatou s gargalhadas, Emma riu-se e Mike, depois de limpar o queixo, no teve 
outro remdio e riu-se tambm. Mas no se esqueceu. Pouco depois, pegou numa solha crua e usou-a para dar sabor a uma das sanduches do irmo, esfregando o peixe 
no po.
Henry fez-se verde, engasgou-se e atirou com o resto da sandes ao irmo.
Ao observar a cena, Emma inclinou-se para Julie. - Imbecis
- sussurrou ao ouvido da amiga. - Nunca te esqueas de que os
homens so uns imbecis.
Contudo, foi por causa dos telefonemas que Julie bebeu uma
cerveja para alm da sua conta habitual. Hoje precisava dela, pensou,
e, com aquela lgica enevoada de algum que v o mundo a andar um
pouco  roda, tentou afastar todos os temores para longe. Talvez os
telefonemas fossem uma das manifestaes do mau feitio de Richard.
Talvez estivesse furioso pela forma como fora tratado quando telefo
nou a perguntar pelos culos. Recordou-se de ter sido bastante dura
com ele.  certo que ele merecera o tratamento, mas no lhe devia ser fcil aceit-lo. Porm, como ainda no tinha passado pelo salo para os ir buscar, julgou que 
tivera razo ao pensar que tudo aquilo fora apenas um esquema pensado para estar com ela outra vez. As chamadas telefnicas eram uma maneira de a fazer saber que 
estava zangado por o plano no ter resultado.
Alm disso, voltou a recordar-se, os telefonemas tinham cessado havia dois dias. No era um intervalo grande, mas a situao tambm era recente. Como se tentasse 
convencer-se a si mesma, pensou ser provvel que tivessem terminado. Ao contrrio do que Emma pudesse ter pensado, Julie estava a levar o caso muito a srio. Ter 
sido uma sem-abrigo na adolescncia, embora por pouco tempo, tinha-lhe deixado uns saudveis vestgios de parania. At ter a certeza de que os telefonemas tinham 
cessado, no ia tomar nenhuma deciso estpida: nada de passeios solitrios  noite, portas sempre fechadas  chave, o Singer a dormir no quarto sempre que Mike 
no ficasse l. Teria cuidado.
Cruzou os braos e ficou a ouvir o rumor da gua que corria por debaixo da proa.
No, no poderia piorar, disse para si mesma. No podia, de forma
alguma.
220
A meio da tarde, Emma ps um CD de Jimmy Buffet a tocar alto; tinham levantado ncora e iam a passar em frente de Cape Lookout, de regresso a Harker's Island. 0 
barco deslizava lentamente, ao ritmo da ondulao, e Emma estava aninhada junto de Henry, que ia ao leme, e uma vez por outra mordia-lhe a orelha.
Na popa, Mike estava ocupado na limpeza e arrumao do equipamento, a guardar os carretos, no deixando que a linha se desenrolasse. Julie estava novamente na proa, 
a sentir o vento a agitar-lhe o cabelo. Tal como Mike, tambm se queimara bastante e sentia dores quando tocava nos ombros. 0 que tambm acontecia em todas as zonas 
da pele que esquecera ao aplicar o protector solar: testa e base do cabelo, uma poro da coxa e outra da canela. Espantosa, pensou, a forma como o sol tinha descoberto 
aqueles pedaos de pele e se vingara. Achou que tinha o aspecto de uma chita pintalgada de cor-de-rosa.
Apesar de o tempo continuar excelente, estava na hora do regresso  base. No princpio da manh, Henry e Emma tinham enfrentado uma ligeira revolta, pois os filhos 
no conseguiam compreender o motivo de no terem sido convidados. Sentindo-se algo culpados, tinham prometido lev-los a sair para comerem uma piza e irem ao cinema. 
Mike tinha de estar no Clipper s 20 horas para as afinaes finais com a banda. Como Julie no planeara ir juntar-se a ele antes das dez da noite, dormiria uma 
soneca. Sentia-se pesada. A cerveja e o sol tinham-lhe provocado uma certa embriaguez.
Foi at junto do saco e tirou uma blusa. Quando estava a vestir os cales, olhou de relance para a praia e os olhos registaram qualquer coisa fora do normal. Mesmo 
olhando com mais cuidado, era difcil perceber bem do que se tratava. A proteger os olhos da luz, observou os barcos, a linha da praia, as pessoas que estavam em 
terra.
Fora ali. Algures, por ali.
E, fosse o que fosse, no se ajustava quele lugar.
De cenho carregado, Julie olhou com mais cuidado e, finalmente, percebeu o que lhe tinha despertado a ateno. E tivera razo. No se ajustava, no estava certo 
num dia quente, em plena praia.
Confusa, baixou a mo.
Algum vestido de calas de ganga e uma camisa escura, azul, encontrava-se perto das dunas, a empunhar... o qu? Binculos? Um telescpio? No conseguia distinguir, 
mas, fosse o que fosse, estava focado no barco.
Nela.
221
- -au icYaiai yuc o homem Daixava aquilo que tinha nas mos, sentiu-se vazia e, por momentos, tentou convencer-se de que estava enganada. Mas, ento, como se soubesse 
exactamente o que ela estava a pensar, a pessoa acenou, lentamente, com o brao a descrever um movimento lateral, como o pndulo de um relgio antigo. Estou aqui, 
parecia dizer, estarei sempre aqui.
Richard.
Empalideceu e inspirou profundamente, tentando abafar um grito com as costas da mo encostadas  boca.
Porm, num abrir e fechar de olhos, Richard desapareceu. Foi at  amurada debruou-se para diante. Nada. No havia sinais dele. Foi como se nunca ali tivesse estado.
Mike ouviu o seu suspiro abafado e com dois saltos ps-se ao lado de Julie.
- 0 que foi?
Ela continuava de olhos pregados na praia. Mike olhou na mesma direco e, depois de no detectar sinais de Richard, nem vestgios de qualquer outra coisa fora do 
comum, sentiu que Julie se anichava sob a proteco dos seus braos. - No sei - respondeu ela.
Fora certamente uma iluso. Aquilo no podia ser verdade. Ningum podia mover-se e desaparecer com tamanha rapidez.
Ningum.
Mike levou Julie e ficou a descarregar as coisas enquanto ela entrou em casa. 0 co estava  espera e seguiu-a at  cozinha, viu-a pousar a bolsa em cima da bancada 
e levantou-se sobre as patas traseiras para a cumprimentar. Julie estava a tentar evitar a lngua do co quando viu que o gravador de chamadas estava a piscar. 0 
sinal indicava que havia uma nica mensagem.
Afastou o co, que deixou cair as patas dianteiras no cho; Singer seguiu lentamente para a sala, provavelmente para ir ao encontro de Mike. Na cozinha, o motor 
do frigorfico zumbia, uma mosca voava contra o vidro da janela, tambm a zumbir de fria por estar fechada. Julie no ouvia nada. Nem Mike, nem o co, nem o som 
da sua prpria respirao. De momento, naquela cozinha existia apenas o gravador de chamadas, com o seu piscar hipntico, de mau agouro.
Liga-me, parecia dizer o monstro, liga-me...
Por instantes, o soalho pareceu instvel e Julie sentiu-se outra vez no barco, de olhos fixos na praia. Ele tinha-lhe acenado. Havia estado a observ-la e depois 
telefonara a dizer-lhe onde a tinha visto.
222
Abanou a cabea. IN ao, nao era nada disso. Lie nao estivera ia. Nunca l esteve. Tinha sido uma miragem. Os olhos resolveram pregar-lhe uma partida, resultado de 
umas cervejas a mais e de nervos  flor da pele.
A mquina, porm, continuava a piscar.
Julie esforou-se por se recompor. Afinal, qualquer pessoa podia ter deixado um recado, qual era o problema? Para isso  que serviam os gravadores de chamadas; por 
isso devia ir at junto da mquina e limitar-se a premir o boto. Logo que o fizesse, reconheceria a voz de Mabel, ou de qualquer outra pessoa amiga, ou algum a 
fazer uma marcao, ou a fazer publicidade de um produto ou de uma revista, ou a pedir ajuda para a organizao local de caridade. Bastava premir o boto e aperceber-se 
de quanto eram ridculos os seus receios.
Porm, fazer um gesto em direco ao gravador era tarefa quase impossvel. Sentia um n estmago e as pernas rgidas. Chegou junto da mquina e ergueu a mo mas 
hesitou, com o dedo mesmo em cima do boto.
Liga-me ... 
Fechou os olhos, a dizer a si mesma que conseguia faz-lo.
De respirao pesada, no podia deixar de pensar que, por muito que estivesse a querer convencer-se de que era corajosa e racional, o medo estava a levar a melhor. 
Pedia a Deus que houvesse mesmo uma mensagem e no apenas um vazio. Que houvesse uma voz para se ouvir. Qualquer voz, excepto a dele.
Com a mo trmula, acabou por premir o boto.
De incio, no houve nada, apenas silncio, e Julie conteve a respirao. Depois, muito fraco, chegou-lhe o som de algum a sussurrar, um sussurro impossvel de 
identificar. Ps o ouvido mais perto do gravador, a tentar perceber a voz. Ouviu com a mxima concentrao e, quando estava prestes a premir o boto de apagar, 
percebeu qual era a mensagem. De olhos esbugalhados, ouviu o refro de uma cano, uma cano que sabia de cor.
Um cano ouvida duas semanas antes, no dia em que fora a Beaufort com Mike.
Bye, bye, Miss American Pie... 
223
VINTE E SEIS
Os gritos de Julie fizeram que Mike corresse para dentro de casa.
Encontrou-a junto do gravador, muito plida, a premir com frenesim o boto de desligar.
- 0 que foi que aconteceu?
Julie mal o ouviu. Tremia devido s imagens que lhe passavam pela cabea em sucesso rpida, uma logo a seguir a outra, deixando-a agoniada. Richard estivera hoje 
na praia, agora j no tinha dvidas. Os telefonemas eram todos do Richard, tambm no restavam quaisquer dvidas disso. E Richard, acabara de o verificar segundos 
antes, no se limitara a isso. Tambm fora a Beaufort para a espiar. Tinha-se mantido escondido enquanto ela jantava com Mike, tinha-os seguido durante o passeio 
no parque e tinha ficado por perto, suficientemente perto para saber a cano que Mike lhe dedicara. At podia ter sido ele quem pagara as bebidas. Tambm telefonara 
na noite em que Mike dormiu com ela. E agora j no lhe restavam muitas dvidas de que Richard a seguira quando foi ao cemitrio visitar a sepultura de Jim.
Richard andava a segui-la para onde quer que fosse.
Com um aperto na garganta, pensava que aquilo no podia estar a acontecer; mas acontecia. De sbito, tudo lhe parecia terrivelmente errado. A cozinha tinha luz a 
mais, as cortinas estavam abertas, as janelas davam para os lotes vagos, onde qualquer pessoa podia esconder-se. Onde ele podia esconder-se. As sombras alongaram-se 
e converteram-se em escurido, as nuvens comearam a mover-se l no alto, o mundo adquiriu um tom acinzentado, como um filme antigo, fotografado a preto e branco. 
Se a tinha observado hoje, se tinha andado a observ-la todos os dias, tambm era provvel que estivesse a observ-la naquele preciso momento.
224
No quintal, tanger levantou o nariz e ladrou.
Julie deu um salto, sentindo o corao bater apressado, e voltou-se para Mike, escondeu o rosto no peito dele e as lgrimas comearam a rolar-lhe pelas faces.
As pessoas desse gnero nunca desistem, dissera a Emma.
- Julie. Por favor... conta-me o que aconteceu - pediu Mike. - 0 que  que tens?
Quando, finalmente, conseguiu responder, falou com voz fraca e hesitante: - Tenho medo!


Quando entrou no carro com Mike, uns minutos mais tarde, Julie continuava a tremer. Decerto a soneca estava agora fora de questo; nunca conseguiria dormir num tal 
estado de nervos. E nem se atrevia a pensar em ficar sozinha em casa durante o tempo em que Mike estivesse no Clipper. Mike tinha-se oferecido para desistir do espectculo, 
mas ela no o permitiu, pois sabia perfeitamente que ia ficar em casa a rever os seus medos durante todo o sero. No havia qualquer necessidade de reviver aquele 
terror sufocante.
No, precisava de se divertir. Uma noite na cidade, msica bem alta e mais umas cervejas; ficaria como nova. Pensava que tornaria a ser a mesma pessoa.
Como se isso fosse possvel, dizia-lhe uma cptica vozinha interior.
Julie franziu a testa. Era provvel que no resolvesse coisa alguma, mas pensar de maneira obsessiva no mesmo tambm no era soluo. E dizia a si mesma que no 
ia pensar mais naquilo; s pensaria na sua forma de agir a partir daquele momento.
Sempre acreditara que as pessoas se enquadram em dois tipos fundamentais: o das que olham pelo pra-brisas e o das que vem pelo retrovisor. Ela sempre fora do tipo 
pra-brisas: o das pessoas que olham para o futuro, no para o passado, pois  o nico tempo que ainda permite a esperana. A me ps-te na rua? Trata de arranjar 
qualquer coisa de comer e um lugar para dormir. 0 marido morreu? Continua a trabalhar, ou acabars por ficar maluca. Anda um tipo a espiar-te? Arranja maneira de 
pr cobro a isso.
No carro, com Mike, retesou-se no banco. Julie Barenson, pensou, era rapariga para enfrentar qualquer situao.
A bravata durou uns momentos, antes de deixar descair os ombros. Daquela vez no ia por certo ser to fcil, pois o cenrio ainda no estava completo e  difcil 
algum concentrar-se no futuro
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7~~ ~~ y~~~uu~ aiuUa uai ~ciuuuuu. LC momento, estava imobilizada no presente, um sentimento nada agradvel. Apesar de se esforar por querer mostrar coragem, estava 
assustada, ainda mais assustada do que quando vivera na rua. Ali, arranjava sempre maneira de no dar nas vistas, de ser invisvel para sobreviver, como ela dizia, 
o que era absolutamente o contrrio do que estava a acontecer com Richard. 0 problema era a sua visibilidade actual e a impossibilidade de a evitar.
Quando Mike arrumou a carrinha em frente de casa, deu consigo a olhar para todos os lados e a tentar ouvir qualquer som estranho. Os espaos escuros entre as casas 
no a ajudavam muito a acalmar os nervos; nem uma restolhada, que verificou ser provocada por um gato a remexer no lixo.
E as perguntas que a afligiam? Excelentes calmantes para os nervos, no  assim? 0 que  que ele pretendia? 0 que faria em seguida? Passou-lhe pela cabea a imagem 
dela prpria  noite, deitada no quarto das traseiras, a acordar e, quando os olhos se habituaram  escurido, v-lo, ali no quarto, ao p dela. De p, ao lado da 
cama, s os olhos visveis por detrs da mscara, a empunhar qualquer coisa e a aproximar-se dela...
Julie agitou a cabea para afastar esta ltima imagem. No queria deixar-se tomar pelo pnico. Tal trio iria acontecer. Ela no deixaria que tal acontecesse. Mike 
no ia deixar que tal acontecesse. De maneira nenhuma. Nem pensar.
Mas, que fazer?
Agora achava que fizera asneira ao apagar a mensagem. De facto, no deveria ter apagado nenhuma das mensagens, pois eram a nica prova daquilo que estava a acontecer. 
A Polcia talvez tivesse meios para fazer qualquer coisa com elas.
Mas eles podem sempre fazer qualquer coisa, no podem?
Julie pensou no assunto, chegando  mesma concluso a que chegara durante a conversa com a Emma. Podia, decerto, tentar, mas, mesmo com as novas leis sobre o assunto, 
a Polcia no podia fazer nada sem provas. Acabaria em frente de um qualquer agente gorducho e cheio de trabalho, a martelar com o lpis no bloco de apontamentos, 
 espera de que ela lhe fornecesse qualquer prova concreta.
0 que  que ele dizia na primeira mensagem? Nada. Alguma vez a ameaou? No. Alguma vez o viu a segui-la? No, excepto na praia.
Tem a certeza de que era ele? Encontrava-me demasiado longe.
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Na ltima mensagem, se a pessoa em questo estava a sussurrar, como  que pode ter a certeza de que era o Richard? No tenho provas, mas sei que era ele.
Longa pausa. Ora bem, h mais alguma coisa? No. Se esquecermos o meu nervoso miudinho e o facto de no conseguir tomar um duche sem imaginar que um Norman Bates* 
pode estar do outro lado da cortina.
Outra pancadinha com o lpis.
Soava a falso, at para ela. Pensar que era ele no o tornava culpado. Mas tratava-se de Richard! Tinha a certeza absoluta.
Ou no teria?


No Clipper, Julie sentou-se junto de uns quantos homens que tinham chegado mais cedo para verem um desafio de basebol.
Mandou vir uma cerveja e foi deixando correr o tempo. A televiso foi desligada s oito e os homens deixaram o bar; os membros da banda, depois de terem regulado 
os amplificadores e afinado os instrumentos, foram at s traseiras para se descontrarem um pouco. Mike veio ter com Julie. Decidiram no falar do que tinha acontecido, 
o que, na opinio dela, funcionava tambm como uma maneira de no se esquecerem do problema. Porm, quando Mike disse que tinha de ir porque precisavam dele no palco, 
Julie viu-lhe nos olhos a fria de que estava possudo.
- Vou estar atento - assegurou-lhe.
Naquela altura, algumas pessoas tinham-se aproximado do balco, outras estavam sentadas nas mesas e tambm se tinham formado pequenos grupos de gente que permanecia 
de p. Por volta das 21 h30, quando a msica se fez ouvir, comearam a chegar ainda mais clientes, um verdadeiro caudal de gente. As pessoas acumularam-se junto 
do balco a pedir bebidas, mas Julie ignorou-as, agradecida  atmosfera barulhenta que, pelo menos em parte, abafava aquela torrente infindvel de perguntas. Mesmo 
assim, no deixava de olhar a porta com ar grave, receosa de ver Richard entrar.
Viu entrar dezenas de pessoas, mas no Richard.
As horas foram passando, sempre iguais: dez, onze, meia-noite e, pela primeira vez desde a tarde, Julie sentiu que estava a recompor-se um pouco. E, tal como acontecia 
com Mike, sentiu-se furiosa.
* 0 psicopata do filme Psico, de Alfred Hitchcock, interpretado por Anthony Perkins. (NT)
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#vias uu que ruao, queria envergonhar Richard em pblico, uma
ensinadela em voz alta, que inclusse dedos em riste apontados ao peito dele. Imaginou-se a gritar-lhe Quem  que tu pensas que s? Francamente, pensas que vou 
suportar esta treta por mais um minuto que seja? (Dedo apontado.) J suportei demasiado em toda a minha vida, para deixar que me roubes o que tenho de mais precioso. 
No vou, repito, no vou deixar que ds cabo da minha vida. (Dedo apontado. Dedo apontado.) Pensas que sou alguma parva? (Dedo apontado.) Uma pobrezinha que 
vai ficar sentada no sof a tremer de medo,  espera da tua nova jogada? No, com mil diabos! (Dedo apontado. Dedo apontado.) Est na altura de seguir o seu caminho, 
Mr. Richard Franklin. Ganha sempre o melhor e, tenho muita pena, meu caro, o melhor no s tu. Na verdade, nunca conseguirias ser como ele. Dedo, dedo, dedo, a 
que se segue o aplauso de dezenas de mulheres que se levantam para a apoiarem espontaneamente.
Enquanto Julie ia visionando a sua vingana mental, um grupo de jovens aproximou-se dela, a pedir bebidas para eles e para os que no conseguiam aproximar-se o suficiente. 
0 pedido demorou alguns minutos a ser atendido e, quando o grupo se afastou, Julie olhou para o lado.
A meio do balco, topou uma figura conhecida a inclinar-se para o empregado para pedir uma bebida.
Richard.
V-lo foi quase o mesmo que levar um murro no plexo solar, o que a fez esquecer toda a encenao pensada para a vingana. Ali estava ele.
Tinha-a seguido.
Outra vez.
Um minuto antes, Mike tinha visto a chegada de Richard e mal resistira  tentao de saltar do palco para o enfrentar, mas fez o esforo de continuar a tocar.
Richard tambm viu Mike. Cumprimentou-o com um sorriso malicioso e dirigiu-se para o balco, fingindo no reparar na presena de Julie.
A sentir a adrenalina subir de novo, Mike desejou poder mand-lo meter o sorriso no stio em que as ndegas se encontram. Um gesto em falso e aquela guitarra podia 
aterrar em cima da cabea do sujeito.
Julie viu-o, sentiu que ele estava ali, uma espcie de respirao pesada dentro de um elevador cheio de gente.
Ele no fez nada. No olhou na direco dela nem fez qualquer movimento para se aproximar. Em vez disso, deixou-se ficar de p, de costas para o balco, com a bebida 
na mo e a observar a multido, sem nada que o diferenciasse dos outros homens presentes. Como se estivesse realmente a pensar que ela consideraria a sua presena 
ali uma simples coincidncia.
Vai-te lixar, pensou Julie. No consegues meter-me medo.
A banda recomeou a tocar e Julie olhou para Mike. Tinha um ar grave, os olhos a enviarem-lhe um aviso de longe. Mexeu os lbios como quem diz: Estou quase despachado 
e ela assentiu, a desejar subitamente uma bebida. Uma verdadeira bebida, qualquer coisa forte que engolisse de um trago.
Na luz baa, o perfil de Richard ficava em parte na sombra. Cruzara uma perna sobre a outra e, durante uma fraco de segundo, Julie pareceu ver-lhe um sorriso irnico, 
como se quisesse mostrar-lhe que se sentia observado. Julie verificou que tinha a boca seca.
Para que estava a querer iludir-se? A pergunta surgiu-lhe de chofre. Reconheceu que ele a assustava mortalmente.
Chegara, porm, a altura de pr cobro quela situao.
Sem chegar a saber de onde lhe veio a fora para o que fez a seguir, Julie levantou-se e comeou a caminhar na direco dele. Richard voltou-se quando ela estava 
muito perto, com a expresso amistosa de quem tinha muito prazer em v-la.
- Julie! - exclamou. - No sabias que estavas c. Como tens passado?
- Richard, o que  que ests aqui a fazer?
Ele encolheu os ombros. - Vim apenas beber uns copos.
- Deixa-te de lrias, est bem?
Disse-o bastante alto, de forma que as pessoas  volta reparassem.
- Perdo... - comeou Richard.
- Sabes perfeitamente do que estou a falar!
- No, no sei....
- Tu seguiste-me at aqui!
- 0 qu?
Por esta altura, havia muitas mais pessoas a observar a cena e Julie comeou a recordar-se do discurso que tinha ensaiado. Do palco, Mike observava tudo com um interesse 
desesperado e, no preciso momento em que a cano acabou, dirigiu-se para eles, deixando cair a guitarra em pleno palco.
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- rcusas que pocies seguir-me para todo o lado e que eu no vou reagir? - perguntava Julie cada vez mais exaltada.
Richard levantou as duas mos. - Julie... acalma-te. Tem calma. No sei do que ests a falar.
- Se procuravas uma rapariga a quem meter medo, enganaste-te; e se no paras, chamo a Polcia e peo que sejas proibido de te acercares de mim. Fao que te metam 
atrs das grades. Pensas que podes ligar para minha casa e deixares mensagens, como fizeste...
- No deixei mensagens nenhumas...
Agora, Julie gritava e os olhares doscircunstantes iam dela para Richard e vice-versa, conforme as palavras que os dois trocavam. J se formara um semicrculo  
volta deles e toda a gente dera um passo atrs, como se esperasse uma cena de murros.
Julie, entretanto, descobrira o seu papel. Apercebeu-se de que levar a fantasia  prtica era ainda melhor do imagin-la. (Isso mesmo! No desistas!)
- ... e no te acontecer nada? Pensaste que no reparava em ti,
que podias andar todo o dia a espiar-me?
Richard recuou um passo. -  a primeira vez que te vejo. Estive
na obra durante todo o dia.
De cabea perdida, Julie nem reparou nas negativas dele. - No vou suportar mais isto! - Suportar o qu?
- Pra! S quero que pares!
Richard olhou os rostos das pessoas que o rodeavam, a encolher os ombros, como que a pedir apoio.
- Vejam... no fao ideia do que est a passar-se aqui, mas talvez seja melhor que me v embora...
- Acabou. No consegues perceber isso?
Nesse momento Mike abriu caminho por entre a multido. 0 rosto de Julie estava vermelho, mas deixava adivinhar o medo e, por instantes, os olhos de Richard encontraram 
os de Mike. Foi uma troca rpida de olhares, no detectvel por quem no estivesse atento. Mike reconheceu no rosto dele o mesmo sorriso de escrnio que Richard 
ostentava quando entrou no bar, um misto de chacota e de desafio, como a convidar Mike a tomar uma atitude.
No foi necessrio mais nada.
A fria que tinha estado a concentrar-se desde a tarde explodiu. Richard estava de p quando Mike mergulhou de encontro a ele, fazendo que o outro tivesse de encaixar 
a sua cabea como um jogador de rguebi encaixa a bola para iniciar uma jogada quando tem terreno livre.
0 impacte fez Richard voar, at bater com as costas contra o balcao. Garrafas e copos despedaaram-se no cho e houve gritos entre a assistencta.
Mike agarrou Richard pelo pescoo e torceu-lhe o brao; embora Richard tivesse levantado as mos, estava em desequilbrio, o que permitiu que Mike lhe assentasse 
um primeiro murro na cara. Richard voltou a estatelar-se de encontro ao balco e ficou a tentar no cair. Quando voltou a levantar a cabea, desta vez mais devagar, 
viu-se que tinha um golpe por baixo de um olho. Mike atingiu-o de novo. A cabea de Richard era atirada ora para um lado ora para o outro. Depois, bateu contra um 
banco alto do balco e tentou equilibrar-se, at escorregar para o cho, numa cena que parecia ter sido filmada em cmara lenta. No momento em que rolou sobre si 
prprio, viu-se que tinha sangue a sair da boca. Mike preparava-se para novo ataque, mas houve uns quantos homens que acorreram e o agarraram por trs.
A luta no levara mais de quinze segundos. Mike lutou para se libertar, at se aperceber de que as pessoas que o seguravam no pretendiam prend-lo para que Richard 
tivesse uma oportunidade de o atingir; s queriam evitar que ele o ferisse ainda mais. Logo que o soltaram, Julie agarrou-o pela mo e levou-o dali.
Os prprios membros da banda acharam conveniente no fazerem nada para os deter.
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VINTE E SETE
Uma vez na rua, Mike encostou-se  traseira de um carro, a tentar recompor-se.
- Deixa-me descansar um minuto - pediu. - Ests bem?
Mike levou as mos ao rosto e respirou fundo, falando por entre os dedos. - Estou ptimo. Apenas um pouco descontrolado.
Julie acercou-se mais, a agarr-lo pela camisa. -  uma faceta que eu desconhecia. Mas devias saber que eu estava senhora do que fazia.
- Tambm vi isso. Mas o olhar que ele me lanou fez-me saltar a tampa.
- Que olhar?
Mike descreveu-o e Julie sentiu-se estremecer. - No reparei nisso.
- No pensei que tivesses reparado. Mas acho que agora acabou.
Nenhum falou durante muito tempo. Atrs deles, umas pessoas que tinham sado do bar estavam a falar e a olhar na sua direco. No entanto, os pensamentos de Julie 
estavam longe dali. 0 que  que Richard lhe tinha dito? Que tinha estado a trabalhar? Que tinha passado todo o dia na obra? No tinha ligado s palavras quando ele 
as proferira, mas estava agora a record-las.
- Espero que sim - disse, esperanada.
Julie fez um breve sorriso, mas via-se que estava a pensar noutra coisa. - Negou que me tivesse visto hoje. Ou que tivesse feito os telefonemas. Disse que no fazia 
ideia daquilo de que eu estava a falar.
- Bom, no estavas  espera de que ele admitisse tal coisa, pois no?
- No sei. Acho que esperava que ficasse calado.
- Contudo, ests perfeitamente convencida de que foi ele, no ests?
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- Sim, tenho a certeza.
Fez uma pausa. - Ou, pelo menos, penso que tenho a certeza.
Ele pegou-lhe na mo. - Tens razo. Vi isso na cara dele.
Julie ficou a olhar para os ps. - Muito bem - concluiu.
Mike apertou-lhe a mo. - V l, Julie. Queres que comece a ter remorsos por bater num tipo que est inocente? Foi ele. Acredita em mim. E se ele fizer mais alguma 
coisa, vamos  Polcia e contamos tudo o que aconteceu. Vamos obter uma restrio de movimentos para ele, apresentar queixa. Faremos tudo o que for necessrio. Alm 
disso, se estivesse inocente, que veio ele aqui fazer esta noite? E como  que se aproximou tanto de ti, sem dizer ol? Estavas a um ou dois metros dele.
Julie fechou os olhos. Pensou que ele tinha razo. A razo absoluta. Richard nunca teria ido ali. No tinha dito que no gostava daquele lugar? No, fora l por 
t-la visto entrar, na companhia do Mike. Sabia para onde iam porque tinha andado a vigi-los. E, para mais, tinha mentido. Se Richard tinha feito todas as maluquices 
que lhe vieram  cabea, como  que Julie podia esperar que ele confessasse a verdade?
Porm, qual seria a razo de, por esta vez, se ter mostrado? E qual seria o significado disso?
Apesar de o ar ser quente, Julie sentiu-se subitamente gelada.
- De qualquer maneira, talvez seja conveniente eu ir  Polcia. S para que faam um relatrio dos factos.
- Talvez no seja m ideia.
- Vais comigo?
-  claro que vou.
Mike pegou-lhe na mo e fez-lhe uma festa na cara. - Ento, sentes-te melhor?
- Um pouco. Continuo com medo, mas agora estou melhor.
Ele fez deslizar um dedo pela cara de Julie antes de a beijar.
- Eu disse que no deixava que te acontecesse nada e vou cumprir. Percebes?
0 toque da mo dele fez-lhe pele de galinha. - Sim.


No bar, Richard conseguira finalmente pr-se de p. Entre as primeiras pessoas a chegarem junto dele estava Andrea.
Vira Mike saltar do palco e abrir caminho atravs da multido. 0 tipo com quem estava a danar - outro desgraado, pensava, apesar de a cicatriz do pescoo o tornar 
de certa forma atraente - agarrou-lhe
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u ~~ u ll ua uai... uma iuta. seguiram o caminho que Mike ia abrindo e, embora chegassem demasiado tarde para verem a briga comear ou acabar, Andrea viu Julie 
a conduzir Mike pela mo, em direco  sada, enquanto Richard tentava usar as travessas mais baixas dos bancos como apoios para conseguir pr-se de p. Estava 
a ser ajudado por outras pessoas e, enquanto os espectadores se entretinham a falar do que acontecera, ficou a par do essencial do que tinha acontecido.
- Ele atacou o homem de repente...
- Este tipo estava aqui, sem se meter com ningum, quando a mulher comeou a berrar com ele, e ento o outro gajo saltou...
- Ele no estava a fazer mal nenhum...
Andrea notou o golpe na cara, o sangue nos cantos da boca e deixou de mastigar a pastilha elstica. No podia crer no que via. Nunca vira Mike atacar algum, nem 
sequer se lembrava de o ouvir elevar a voz. Metido consigo, talvez, dado a confuses, podia ser, mas nunca nada de to violento como isto. Mas a prova estava ali, 
mesmo diante dos seus olhos. Richard estava mesmo  frente dela e, ao v-lo tentar levantar-se, o movimento seguinte de Andrea nunca poderia ser outro. Est ferido! 
Precisa de mim! Ignorou o tipo com quem estivera a danar e lanou-se praticamente para cima de Richard.
- Oh, meu Deus... voc est bem?
Richard olhou para ela sem responder e, ao v-lo cambalear, Andrea avanou e ps-lhe um brao  roda da cintura. Notou que no havia ali um grama de gordura.
- 0 que aconteceu? - perguntou, a sentir-se corar.
- Ele apareceu e bateu-me - respondeu Richard.
- Mas, porqu?
- No sei.
Cambaleou de novo e Andrea sentiu-o apoiar-se nela.
0 brao dele estendeu-se sobre os ombros dela. Tambm ali havia msculos, verificou Andrea.
- Precisa de se sentar um bocadinho. V l, eu ajudo.
Tentaram os primeiros passos e a multido abriu caminho. Andrea estava a gostar daquilo. At parecia que estavam na ltima cena de um filme, mesmo antes da passagem 
da ficha tcnica. Tinha justamente comeado a pestanejar para conseguir mais efeito, quando Leaning Joe, a coxear em cima da perna postia, apareceu de repente para 
auxiliar Richard.
- Vamos l - rosnou. - Sou o dono disto. Temos de con
versar.
Comeou a conduzir Kicnard para uma mesa e, quauuo suuiia mente decidiu mudar de direco, Andrea viu-se empurrada para um lado e teve de se deixar ficar para trs. 
Instantes depois, Leaning Joe e Richard estavam a conversar, de braos apoiados numa pequena mesa.
Perdida a sua grande oportunidade, Andrea ficou amuada, do outro lado do bar. Quando o companheiro reapareceu, j ela tinha decidido o que havia a fazer.


Visto em conjunto, aquele foi um dia que Julie preferia no ter de reviver.
 certo que tinha sido bom para, digamos, testar os motores. Podia dizer-se que passara por emoes de todos os gneros, desde o momento em que saltara da cama naquela 
manh, e todas se tinham sucedido segundo uma ordem perfeita. No conjunto, se quisesse estabelecer uma classificao dos seus dias, este poderia ser o nmero um 
quanto a medo (ultrapassando a primeira noite em que dormira debaixo do viaduto da estrada, em Daytona), o nmero trs em desgosto (o dia em que Jim morreu e o dia 
do funeral continuavam a ocupar os dois primeiros lugares nesta categoria) e o nmero um do captulo de exausto absoluta. Compondo o quadro com umas pinceladas 
de amor, raiva, lgrimas, riso, surpresa, alvio e os avanos e recuos da preocupao de imaginar o que poderia acontecer de seguida, no podia deixar de obter um 
dia para recordar durante muito, muito tempo.
Mike tinha ido para a cozinha e estava a pr caf no filtro da mquina. Tinha vindo calado durante a viagem para casa e continuava calado; logo que chegaram a casa, 
pediu aspirina e ps quatro comprimidos na boca, ainda antes de encher um copo de gua para os engolir. Julie ficou sentada  mesa e Singer escolheu o momento para 
se encostar a ela at receber as atenes que, para ele, tinham sido muito poucas nas ltimas horas.
No havia dvidas de que Mike tinha razo. Toda a operao tinha sido planeada; e, mais, Richard tinha calculado a forma como ela ia reagir. Tinha de ser. As suas 
respostas, as mentiras, tinham sido demasiado rpidas, demasiado naturais, demonstraram uma facilidade que tivera de ser preparada.
E Richard nem sequer lutara para se defender.
Todos aqueles pormenores a preocupavam, especialmente o ltimo.
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yu- iia        xuuuu. lv-LesIIlu conSiGeranufo que Mike tivera por si o efeito da surpresa, a surpresa no podia considerar-se total. Ela vira-o aproximar-se e tivera 
tempo de se desviar; mas Richard no s no ripostou, como tambm no fez qualquer tentativa para se desviar. Ora, se sabia a forma como Julie ia reagir, como  
que no conseguira calcular qual seria a reaco de Mike? No teve sequer uma suspeita? E, se teve, por que motivo no se preocupou?
E como era possvel que ela sentisse que a reaco de Mike tambm fazia parte do plano?
- De certeza no se sente tonto? Foi um golpe tremendo - afirmava Leaning Joe.
Estava com Richard, junto  sada do Clipper. Richard abanou a cabea. - S desejo ir para casa.
-No me importo de chamar uma ambulncia para o levar - ofereceu Joe. Para Richard, ao mostrar tanto interesse, Joe parecia querer dizer: Por favor, no apresente 
queixa.
- No  preciso - retorquiu Richard, j farto de aturar o velho. Abriu a porta e deu um passo para o escuro. Esquadrinhando o parque de estacionamento, verificou 
que os polcias se tinham ido embora. Comeou a atravessar o parque silencioso, a dirigir-se para o local onde tinha o carro.
Ao aproximar-se, verificou que havia algum  sua espera.
- Ol, Richard - saudou ela.
Hesitou, mas acabou por responder: - Ol, Andrea.
A rapariga levantou ligeiramente o queixo e no desviou os olhos
dele. - Est a sentir-se melhor?
Richard encolheu os ombros.
Passados instantes, Andrea pigarreou. - Sei que o pedido pode
parecer estranho, tendo em conta o que se passou, mas importa-se de
me dar uma boleia at casa?
Richard olhou  volta. Uma vez mais verificou que estavam ss. - 0 que  que foi feito do seu acompanhante? Ela fez um aceno na direco do Clipper. - Ainda l est. 
Disse
-lhe que tinha de ir  casa de banho.
Richard alou um sobrolho e no disse nada.
Em silncio, Andrea deu um passo na direco dele. Quando
estava suficientemente perto, levantou a mo e levou-a ao hematoma
que Richard tinha numa das faces, sem nunca desviar os olhos dos
dele.
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- teor Lavor! - murmurou
- E se fssemos para outro stio qualquer?
Andrea inclinou a cabea para um lado, como se analisasse a
proposta.
Ele sorriu. - Pode confiar em mim.


Julie e Mike estavam na cozinha; a cafeteira fervia.
- Em que  que ests a pensar? - indagou Mike.
Ela pensava que tudo o que acontecera naquela noite estava, de uma maneira ou de outra, errado. Porm, sabendo que Mike faria o possvel para demonstrar que ela 
interpretara tudo mal, deu-lhe uma resposta vaga. - Estou a reflectir sobre o que aconteceu. No consigo deixar de pensar nisto, percebes?
- Percebo. Comigo passa-se o mesmo.
A cafeteira emitiu um silvo; Mike levantou-se da cadeira e foi encher duas chvenas. Singer arrebitou as orelhas e Julie viu-o trotar em direco  sala. Na pressa 
de sair, nem fechara as persianas e viu que vinha um carro a descer a rua. No havia muito trfego quela hora da noite e Julie ficou a ver se reconhecia algum dos 
vizinhos a regressar a casa depois de passar o sero na cidade.
 co foi para junto da janela logo que as luzes se tornaram mais fortes. Porm, em vez de ver as luzes desaparecerem para darem lugar ao escuro logo que o carro 
passasse, reparou que os faris se tinham imobilizado. Borboletas e insectos diversos, atrados pela luz, faziam que os faris parecessem feitos de dedos em movimento. 
0 Singer ladrou e ficou a rosnar logo que a luz dos faris se fixou.
 automvel, percebia-se, estava parado com o motor a trabalhar. Julie levantou-se. Sentiu o motor acelerar e, subitamente, os faris foram desligados. Ouviu-se 
bater a porta de um carro.
Ele estava ali, pensou Julie. Richard tinha vindo at casa dela.
 rosnar do co tornou-se mais violento, o plo do pescoo do animal eriou-se. Mike ps a mo no ombro de Julie e deu um passo cauteloso em direco  porta. Singer 
ladrava e rosnava continuamente e Mike avanou.
Singer ficou descontrolado e, no meio da sua fria, percebeu-se um som inesperado. Um som simultaneamente normal e assustador que levou Mike a parar, a tentar perceber 
se tinha ouvido bem.
        o som repetiu-se. Perceberam que estava algum a bater  porta. Mike virou-se para Julie, como que a perguntar-lhe quem seria.
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-- ~ ~~~~~~~ 46 UW1.0.111,111, 11u0.11UU voltou a olhar para ela, tinha uma expresso de alvio. Fez uma festa ao co e disse: - Chiu, est tudo bem - o suficiente 
para o Singer deixar de ladrar e rosnar. Mas seguiu-o at o ver rodar o fecho da porta.
Instantes depois, Julie viu dois polcias no alpendre.


A agente Jennifer Romanello era nova na cidade, nova na profisso e ansiava pelo dia em que pudesse dispor do seu prprio carro-patrulha, quando mais no fosse para 
se livrar do colega com quem tinha de trabalhar. Depois de completar o curso de formao, em Jacksonville, fora colocada em Swansboro havia menos de um ms. H duas 
semanas que andava em patrulha com Pete Gandy e tinha de continuar assim durante mais quatro, pois os novatos tinham de acompanhar um colega mais experiente durante 
as primeiras seis semanas de trabalho; as seis semanas serviam de complemento  formao na academia, mas, se voltasse a ouvir de novo a palavra msica, receava 
ser atacada de uma fria que a levasse a estrangular o colega.
Pete Gandy rodou a chave, desligando o motor, e olhou na direco da colega.
- Deixa que seja eu a tratar disto - ordenou. - Ainda ests a aprender a msica.
Acho que vou apertar-lhe o pescoo, pensou Jennifer. - Espero no carro?
Embora tivesse perguntado s para o gozar, ele no percebeu a zombaria; a colega viu-o flectir os braos. Pete levava os seus bceps muito a srio. Antes de entrar 
em aco, tambm gostava de se olhar no espelho retrovisor.
- No, anda da. Bico calado, quem fala sou eu. E mantm esses olhos bem abertos, mida.
Disse aquilo como se tivesse idade para ser pai dela. Na realidade, s tinha dois anos de servio e, embora Swansboro no fosse exactamente o lugar mais propcio 
para a grande criminalidade, Pete era o autor da teoria segundo a qual a Mafia tinha comeado a infiltrar-se na cidade; mas a cidade podia contar com ele para solucionar 
o problema. Para Pete, Serpico era o maior filme de sempre, o motivo que o levara a ingressar nas foras policiais.
Jennifer cerrou os olhos. Havendo por a tantos idiotas, que razo haveria para ser ela a aturar aquele tipo?
- Como queiras.
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-  o Mike Harris - inquiriu o agente Gandy.
Pete Gandy tinha escolhido a pose Eu sei que o uniforme te mete medo, enquanto Jennifer lutava contra a tentao de lhe aplicar uma palmada no alto da cabea. 
Ainda no carro, soubera que Pete conhecia Mike e Julie h muitos anos, pois o colega no deixara de a informar que Mike lhe tratava do carro e que cortava o cabelo 
no salo onde Julie trabalhava. Nem fora necessrio olhar para o endereo de Julie. Vida de cidade pequena, pensou. Para uma rapariga que crescera no Bronx, tratava-se 
de um mundo inteiramente novo, a que ainda estava a habituar-se.
- Ol. Viva, Pete!        exclamou Mike. - Em que  que posso ser-te til?
- Podemos entrar por um instante? Preciso de falar contigo.
-  claro que sim.
Os agentes hesitaram e Mike olhou para baixo, para o Singer. - No se preocupem. Ele porta-se bem.
Os agentes entraram na sala e Mike apontou a cozinha com um dedo. - Bebem um caf? Tinha acabado de o fazer.
- No, obrigado. No estamos autorizados a beber em servio.
Jennifer nem queria acreditar, pois a norma s se aplicava a bebidas alcolicas.
Por essa altura, Julie tinha sado da cozinha e ficou de p, uns passos atrs, de braos cruzados. 0 co foi sentar-se junto aos ps dela.
- Pete, a que se deve esta tua visita? - indagou.
0 agente Pete Gandy no gostava de ser tratado por tu quando estava uniformizado e, por momentos, no soube muito bem como lidar com aquela familiaridade. Pigarreou.
- Mike, estiveste no Sailing Clipper esta noite?
- Sim, estive a tocar com os Ocracoke Inlet.
Pete olhou de esguelha para Jennifer, como a querer mostrar-lhe como se fazia. Pois, que grande descoberta, pensou a agente. Um facto corroborado apenas por um milho 
de pessoas.
- E estiveste envolvido numa altercao com um tal Richard Franklin?
Antes que Mike tivesse tempo de responder, Julie entrou na sala.
- 0 que  que se passa?
Pete Gandy vivia para momentos como aquele. Juntamente com o movimento de sacar da pistola, aquela era de longe a parte mais interessante do seu trabalho, mesmo 
que estivesse a tratar com pes
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~~ ~= iuy u ucvu imu Sc discute e, se ele deixasse as
pequenas infraces sem castigo, Swansboro poderia tornar-se a capital mundial do crime. S no ltimo ms, tinha multado uma dzia de pees que atravessaram a rua 
sem tomar as devidas precaues e passara mais outra dzia de multas por conspurcao da via pblica.
- Muito bem, Mr. Harris, lamento ter de lhe dizer que tenho uma centena de testemunhas que juram t-lo visto agredir Mr. Frank
lin, sem provocao.
Dois minutos depois, Mike estava a caminho da esquadra, levado no carro-patrulha.
VINTE E OITO
- Levaram-no preso? - perguntou Mabel, sem querer acreditar.
Estava-se na manh de segunda-feira e, como Mabel tinha ido visitar um irmo a Atlanta, no soubera de nada at chegar ao salo. Julie tinha passado os ltimos dez 
minutos a p-la ao corrente do que acontecera. Andrea estava ocupada com os cabelos de um cliente e a esticar-se o mais que podia para ouvir. No voltara a sorrir 
desde que Julie tinha comeado a narrativa e, quanto mais a ouvia, mais desejava inform-la de que ela no sabia do estava a falar.
Richard no era perigoso! Mike  que o atacou! Alm disso, Richard j no estava interessado em Julie! Andrea estava certa de que ele tinha, finalmente, visto a 
luz. Falar de romance! Ele tinha-a levado at  praia e tinham ficado a conversar! Durante horas! E ele nem tentara nada com ela! Nunca conhecera um homem que a 
tivesse tratado com todo aquele respeito. E tambm era amvel. Tinha-lhe pedido que no dissesse nada a Julie para no lhe ferir os sentimentos. Isso so coisas 
de um homem perigoso?  claro que no! Mesmo tendo recusado o convite para entrar, quando, finalmente, a fora pr em casa, ela sentia-se radiante desde que acordara 
na manh seguinte.
Julie encolheu os ombros. Estava plida, de olheiras fundas, como se mal tivesse dormido.
- 0 Pete Gandy interrogou-o durante uma hora e s s trs  que o Henry conseguiu solt-lo sob fiana.
Mabel parecia aturdida. - 0 Pete Gandy? Em que  que ele estava a pensar? No ouvia o que o Mike lhe estava a dizer?
- Sei l. Tentou sempre que o gesto no fosse visto como uma exploso de cime. Continuou sempre a querer descobrir o verdadeiro motivo que o levou a agredir o Richard.
- Disseste-lhe o que se estava a passar?
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a-uU que rosse relevante. isto , que no teve a ver com a acusao de agresso.
Mabel atirou com a bolsa para cima da mesa coberta de revistas. -  um idiota. Nunca passou de um idiota. Nem sei como conseguiu entrar para a Polcia.
- Essa pode ser uma grande verdade, mas no ajuda em nada o
Mike. Nem a mim, se queres saber a minha opinio.
- Ento, o que vai agora acontecer ao Mike? Vai ser acusado?
- No fao ideia. Acho que ficaremos a saber hoje, mais logo.
Tem uma entrevista marcada com o Steven Sides.
Steven Sides era um advogado da cidade; Mabel conhecia a famlia
dele h muitos anos.
- Foi uma boa escolha. J o conheces?
- No, mas o Henry conhece-o. Espera-se que consiga arrumar o
assunto com o promotor de justia.
- E tu, tencionas fazer o qu? Acerca do Richard? - Vou, hoje mesmo, mudar o nmero do telefone. - S isso?
- No sei que mais posso fazer. 0 Pete no me dar ouvidos; s
me diz para apresentar queixa se o Richard continuar a molestar-me. - No domingo, voltou a ligar? - No. Graas a Deus!
- E no o viste?
- No.
Do outro lado do salo, Andrea ficou muito sria. A reflectir que o motivo era Richard estar ainda a pensar nela. Achava que era tempo de Julie deixar de o ofender.
- Ento, pensas que foi tudo um esquema preparado por ele, no ?
- Penso que tudo faz parte de um plano, incluindo a noite de
sbado. Incluindo-me a mim. Penso que ele v tudo isto como um jogo. Mabel olhou-a nos olhos. - Julie, no se trata de um jogo. Julie levou algum tempo a responder. 
- Eu sei.
- Ento, como  que ele se portou? - perguntou Henry. - Durante o interrogatrio?
Estavam sentados no escritorio, de porta fechada. Desgostoso, Mike respirou fundo.
-  difcil de explicar.
- uirrcir, porquer
-  como se ele j tivesse uma ideia metida na cabea, todas as
explicaes sobre o caso, sendo impossvel faz-lo mudar de opinio. - No ligou importncia aos telefonemas? Ou ao facto de o
Richard ter andado a espiar-vos?
- No. Disse que lhe parecia que a Julie estava a exagerar. Um
salo onde vai gente - explicou -, para cortar o cabelo. Nada de
esquisito.
- E quanto ao segundo agente? A mulher?
- Como a Pete no a deixou abrir o bico, no fao ideia do que ela
vale.
Henry bebeu um gole do seu caf. - Bom, desta vez arranjaste-la
bonita - comentou. - No que esteja a atribuir-te a culpa. Se l
estivesse, teria feito a mesma coisa.
- E agora, o que  que julgas que vai acontecer?
- Bom, no acredito que vs parar  cadeia, se  isso que preten
des saber.
- No estou a falar disso.
Henry olhou para o irmo. - 0 qu? Quanto ao Richard? Mike assentiu.
Ao pousar a chvena, Henry s conseguiu dizer: - Olha, mani
nho, bem gostaria de te poder dizer.


A agente Jennifer j estava farta do agente Pete, embora naquela manh tivessem trabalhado apenas uma hora juntos. Tivera de vir mais cedo para acabar os relatrios 
das ocorrncias de sbado, que o colega no fizera avanar, porque, como dissera: -j tenho bastante que fazer a tentar afastar os criminosos da rua; no vou passar 
o meu turno amarrado a uma secretria. Alm disso, essa tarefa ajuda-te a aprender a msica.
Nas duas semanas passadas na companhia dele, no tinha aprendido nada acerca da funo, para alm do facto de Pete se sentir muito feliz quando se podia descartar 
do trabalho, para poder passar mais tempo a exibir-se  frente do espelho. Na opinio de Jennifer, o homem era uma perfeita nulidade a conduzir interrogatrios.
A outra noite constitura um bom exemplo.
No era preciso ser detentora de um Prmio Nobel para ver que Mike e Julie estavam assustados, e o medo no se devia  circunstncia de Mike ter sido levado  esquadra, 
a meio da noite, para ser interrogado. No, estavam com medo de Richard Franklin e, se esta
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talvez tivesse a sensibilidade de um poste de madeira, mas Jennifer, embora tivesse acabado a formao recentemente, tinha a vantagem de ser esperta. Um dado importante 
 que crescera a ouvir histrias daquele gnero.
Jennifer pertencia a uma longa linhagem de polcias; o pai era polcia, o av era polcia e tinha dois irmos polcias, embora estivessem todos a viver em Nova Iorque. 
Os motivos de se encontrar numa cidade costeira da Carolina do Norte eram diversos e inseriam-se numa longa histria, envolvendo a universidade, um ex-namorado, 
a necessidade de se afirmar e o desejo de conhecer outras partes do pas. Tudo pareceu conjugar-se cerca de seis meses antes, quando, por capricho, se candidatou 
 academia de Polcia e foi surpreendida ao ser aceite para preencher uma vaga existente em Swansboro. 0 pai, embora orgulhoso de a ver juntar-se aos bons, sentia-se 
consternado por ela ter de cumprir o seu dever no estado da Carolina do Norte. - Todos aqueles tipos mascam tabaco, comem papas de aveia e tratam todas as mulheres 
por bonecas. No vejo maneira de uma bonita rapariga italiana como tu se adaptar quela terra.
Mas tinha-se adaptado, alis, bastante bem. At agora, era muito melhor do que esperara, em especial as pessoas que, para que conste, eram to simpticas que cumprimentavam 
os estranhos enquanto conduziam. De facto, com excepo de Pete Gandy, achava todas as pessoas fantsticas. Pelo canto do olho conseguia v-lo a flectir outra vez 
o msculo do brao, fazendo-o sobressair e, sempre que passava por outro carro, fazia um sinal de cabea para o respectivo condutor, como a dizer no te atrevas 
a ir muito depressa, meu caro.
A certa altura resolveu indagar: - Ento, o que achas da histria do Mike Harris na outra noite?
Como estava no meio de um dos seus sinais de cabea aos automobilistas, Pete precisou de algum tempo para perceber que a colega estava a falar com ele.
- Oh, bem, hum... esteve a inventar desculpas - avanou. - Tanto faz ouvir aquela histria uma vez como cem vezes. Todos os acusados atiram com as culpas para o 
outro. Um criminoso nunca se confessa culpado e, se o fizer, arranja logo uma explicao razovel. Uma vez aprendida a msica, depressa nos habituamos.
- Mas no me disseste que o conhecias e que sempre o consideraste um tipo sossegado?
- No interessa. A lei  a lei,  igual para todos.
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gente, esperto e, acima de tudo, justo; porm, nas duas semanas em que fizera equipa com Pete, no achou que qualquer daqueles adjectivos pudesse ser-lhe aplicado. 
Inteligente e vivido? 0 homem achava que a luta livre profissional era um desporto a srio e, quanto  palavra justia, no parecia existir no seu vocabulrio. Com 
mil diabos, aplicou uma multa por atravessamento incorrecto da rua a uma senhora que usava canadianas e, na noite de sbado, quando ela abriu a boca para fazer uma 
pergunta ao Mike Harris, Pete tinha-a mandado calar, comentando que a pequena ainda no conhece a msica dos interrogatrios. No lhe ligue.
Por causa daquela observao, se no estivessem dentro da esquadra, no deixaria de o pr no seu lugar. Quase o fizera, de resto. Pequena? Logo que acabasse o perodo 
de formao, faria Pete Gandy pagar a afronta bem cara. De qualquer forma, em qualquer altura, pagaria.
No entanto, como em termos tcnicos continuava em formao, embora nas ltimas fases, que poderia fazer seno aguentar? Alm do mais, no era isso que importava. 
Quem estava em causa eram Mike Harris e Richard Franklin. Sem esquecer Julie Barenson. Por causa do que Mike e Julie tinham dito e pelo modo como Richard actuara 
ao ser interrogado, macio como veludo, acabado o seu turno de servio, Jennifer sentira dificuldade em adormecer.
Teve a sensao de que, naquele caso, Richard no era a vtima.
        nem Julie nem Mike lhe pareceram mentirosos.
- Mas no pensas que devemos, ao menos, investigar um pouco?
        se eles estivessem a falar verdade?
Pete suspirou, como se o assunto estivesse a aborrec-lo. - Nesse caso, deviam ter ido  esquadra apresentar queixa. Mas no o fizeram.
 admitiram que no dispunham de provas. Ela nem nos disse que tinham a certeza de as chamadas terem sido feitas pelo Franklin. 0 que  que isto te diz?
- Mas...
- Diz-te que  provvel que estivessem a inventar. Repara que  uma boa acusao, que o tnhamos na mo.
Jennifer tentou de novo. - Mas, e ela? Julie Barenson. No te pareceu assustada?
- E claro que estava assustada. 0 seu menino estava preso. Provavelmente, tambm te sentirias assustada. Qualquer pessoa se sentiria.
- Em Nova Iorque, a polcia...
Pete Gandy levantou a mo. - No me contes mais histrias de
Nova Iorque, est bem? Aqui as coisas so diferentes. 0 sangue  um
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-~-- r - ~....~ .uuw. -v-- Uc atucits a i uslca,
vais aperceber-te de que, por aqui, quase todas as altercaes tm a ver com inimizades antigas ou vinganas de um ou de outro gnero, pelo que a lei no est muito 
interessada em meter-se nisso, a menos que os tipos se excedam, como aconteceu com este. Alm disso, esta manh, antes de chegares, estive a falar com o chefe, que 
me disse ter recebido uma chamada do advogado e que esto a tentar uma soluo qualquer. Por isso, haver muitas possibilidades de o caso ser encerrado. Pelo menos 
naquilo que nos diz respeito. A menos que siga para o tribunal.
Jennifer olhou para o colega. - Do que  que ests a falar?
Pete encolheu os ombros. - Foi o que ele disse.
Outro dos pormenores que no suportava nas suas relaes com o agente Gandy era o facto de ele lhe escamotear informaes sobre casos em que trabalhavam juntos. 
Pete Gandy gostava de controlar tudo, uma das suas formas mesquinhas de lhe mostrar quem mandava.
Como Jennifer se calou, Pete regressou  sua tarefa de acenar aos automobilistas.
Jennifer abanou a cabea. Que imbecil!
No silncio que se seguiu, voltou a pensar em Mike e em Julie; ficou a pensar se no deveria ter uma nova conversa com eles, de preferncia sem a companhia de Pete.


Henry encontrava-se de p, no escritrio, a ouvir a conversa que Mike mantinha com o advogado. - Deve estar a brincar comigo - dizia o irmo. - No est a falar 
a srio. - Para logo acrescentar: - No posso crer! - Mike andava de c para l, com os passos pesados a alternarem com expresses de descrena, a repetir constantemente 
as mesmas afirmaes. Por fim, de maxilares contrados, comeou a responder com monosslabos, at que acabou a conversa e desligou.
No se mexeu nem disse uma palavra ao irmo. Em vez disso, ficou de olhos postos no telefone, a passar a lngua pelos dentes.
- Que conversa era aquela? - indagou Henry.
A este pareceu que a resposta tinha de passar por um sistema elaborado de filtragem, traduzida do ingls para outra lngua qualquer, para voltar ao ingls original. 
0 irmo afivelara a expresso das alturas em que as coisas vo de mal a pior.
- Ele diz que acabou de falar com o advogado do Richard Franklin.
- E?
Mike no conseguiu olhar para o irmao. i inna a cabea viraua paia a porta, embora o olhar parecesse focado no vcuo. - Disse que pretendem uma ordem de restrio 
temporria dos meus movimentos, at o caso estar definido. Diz que o Richard Franklin me conside
ra uma ameaa.
- Tu?
- Tambm tm a inteno de me mover um processo cvel.
- Est a brincar.
- Foi isso que respondi. Porm, de acordo com o outro advogado, o Richard continua a sentir vertigens devido ao que aconteceu naquela noite. Sups que estava bem 
e conseguiu chegar a casa na noite de sbado. Mas, na manh de domingo, teve problemas de viso e vertigens to fortes que teve de chamar um txi para o conduzir 
ao hospital. 0 advogado dele diz que lhe provoquei um traumatismo.
Henry inclinou-se ligeiramente para trs. - No lhe disseste que o Richard est a mentir? Que no tem nada contra ti? Parece-me que lhe deste bem, mas, um traumatismo?!
Mike encolheu os ombros, ainda a tentar processar toda aquela informao, a avaliar as razes de, subitamente, ter perdido o domnio de tudo o que estava a passar-se. 
Dois dias antes, s pretendia que Richard deixasse de incomodar Julie. Trs dias antes, nem pensava naquele tipo, ponto final. E agora era considerado um criminoso 
s por fazer aquilo que devia ser feito.
0 agente Pete Gandy, decidiu, estava definitivamente riscado da lista dos convidados da festa de Natal. No que ele costumasse dar festas de Natal, mas, se alguma 
vez organizasse uma, Pete Gandy no seria certamente convidado. Se ele tivesse ouvido, se apenas tentasse perceber as razes de Mike, nada disto estaria agora a 
acontecer.
Levantou-se da cadeira. - Tenho de falar com a Julie - anunciou, atirando com a porta ao sair.


Quando Mike chegou ao salo, bastou um simples olhar para Julie concluir que nunca o vira to perturbado.
- Isto  ridculo - repetia. - Quero dizer, para que serve a Polcia, se no consegue fazer nada em relao a ele? Neste caso, o maldito do problema  ele, no sou 
eu.
- Eu sei - respondeu Julie, a tentar acalm-lo.
- Ser que no percebem que no inventei aquilo que tentei explicar-lhes? Ser que no sabem que eu seria incapaz de o atacar se ele no merecesse? Qual  a vantagem 
de estar do lado dos cumprido
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r av aucui~aw cu1 ilaaa ao que lues dizemos? Em vez disso, sou eu que tenho de me defender, que tive de pagar uma fiana para andar em liberdade, que tenho de contratar 
advogados. 0 que  que isto me diz acerca do sistema de justia? Este tipo pode fazer tudo o que lhe apetecer, mas eu no posso mexer um dedo.
Julie no respondeu de imediato, nem Mike parecia precisar de respostas. Finalmente, pegou-lhe na mo e pressionou-a at ele se acalmar um pouco.
- Tens razo, no faz qualquer sentido - concordou. - E lamento muito.
Embora a carcia parecesse acalm-lo, Mike no conseguia olh-la de frente. - Tambm eu.
- Tu? Lamentas o qu?
- Lamento ter lixado tudo com a Polcia.  isso que me preocupa de verdade. Consigo suportar tudo o que aparecer, mas tu? Por causa de mim, os polcias no acreditaram 
na tua histria. E se, no futuro, continuarem a no acreditar em mim e em ti?
Julie no queria pensar mais no assunto. No pensara noutra coisa durante toda a manh. Tudo correra de acordo com os desejos de Richard. Estava mais convencida 
do que nunca de que ele tinha planeado tudo.
- E que no me parece justo! - lamentou Mike.
- 0 advogado avanou mais alguma coisa?
Ele encolheu os ombros. - Apenas o habitual. Que ainda no h
razes para eu estar preocupado.
- Fcil de dizer, para ele.
Mike no ligou a esta observao e respirou fundo, dizendo apenas:
- Pois -, com voz de quem est cansado, derrotado, obrigando
Julie a encar-lo.
- Ainda pensas ir a minha casa esta noite?
- Se me quiseres l. Se no estiveres furiosa comigo.
- Eu no estou furiosa contigo. Mas vou zangar-me se no fores.
Na verdade, esta noite no quero estar sozinha.


0 escritrio de Steven Sides estava situado perto do tribunal. Depois de entrar, Mike foi conduzido para uma sala com painis de madeira, em que sobressaam uma 
grande mesa rectangular e as estantes cheias de livros. 0 advogado segurou-lhe a porta e Mike sentou-se.
Um homem de cara redonda e cabelo preto, que estava a ficar cinzento nas tmporas, Steven Sides tinha 50 anos. Vestia um fato caro
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- uma dessas criaes em seda, importadas de itaiia - mas amarrotado, como se no costumasse ver o cabide. Tinha a pele balofa e a ponta do nariz dava a entender 
que talvez abusasse um pouco das bebidas fora de horas, mas a serenidade que demonstrou ao receb-lo deu a Mike a confiana de que necessitava. Sides falou devagar, 
foi cuidadoso, mediu cada palavra com que explicou o que fazer naquela situao. Deixou que Mike arengasse  vontade durante alguns minutos e depois, com uma srie 
de perguntas, levou-o a falar dos pontos importantes da histria. No foi necessrio muito tempo para que Mike lhe contasse tudo.
Quando ele terminou, Steven Sides pousou o lpis em cima do bloco e recostou-se na cadeira.
- Como disse pelo telefone, por agora acho que no temos que nos preocupar com a altercao de sbado  noite. Para comear, no tenho a certeza de que o procurador 
da comarca v optar por lev-lo a tribunal, por vrias razes.
E foi apontando as razes, uma por uma. - 0 seu cadastro limpo, a sua posio no seio da comunidade e o facto de ter conscincia de que voc poderia arranjar dezenas 
de testemunhas de abonao no lhe do a certeza de conseguir que o jri o declare culpado. E, depois de eu lhe contar as circunstncias que obrigaram o Mike a tomar 
aquela atitude no bar, a acusao  ainda mais duvidosa, mesmo que no consigamos provar o assdio. Esse  um pormenor que permite sempre influenciar o jri, e o 
procurador sabe isso to bem como eu.
- Mas, e quanto ao processo cvel?
- Esse  outro assunto, mas no  coisa que possa acontecer de imediato, se  que alguma vez vai acontecer. Se o procurador da comarca no deduzir acusao, isso 
no vai ajudar nada o caso do Franklin. Se o procurador decidir acusar e perder, tambm no vai ser bom para a outra parte. Em qualquer dos casos, no acredito que 
avancem com o processo cvel sem que o procurador ganhe o primeiro processo e, como j disse, no vejo que isso seja possvel. Voc pensou que Julie estava em apuros 
e reagiu; para o bem e para o mal, haver muita gente a considerar que foi uma atitude perfeitamente razovel. A ordem de limitao de movimentos no passa de fogo 
de vista. Parto do princpio de que no lamentar nada a proibio de estar perto de Richard Franklin.
- Pois no. Alis, nunca quis estar por perto de tal personagem.
- Bom. Deixe-me tratar do caso com o procurador, est bem? E no volte a falar com os polcias. Mande-os ter comigo, eu encarrego-me deles.
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- L uicauw, iiao pensa que me deva preocupar
muito com isto?
- Pelo menos por enquanto. Deixe-me falar com algumas pessoas e dentro de dias digo-lhe em que p  que as coisas esto. Se quer uma preocupao, preocupe-se com 
Richard Franklin.
Sides inclinou-se para diante e falou com ar grave. - 0 que lhe vou dizer fica s entre ns, est bem? S lhe estou a dizer isto porque voc parece um tipo decente. 
Se contar a algum que eu disse isto, nego tudo.
Passado um instante, Mike assentiu.
0 advogado esperou mais um pouco, quis ter a certeza de que o cliente o ouvia com toda a ateno.
- H uma coisa que tem de saber acerca dos polcias. So excelentes quando h um roubo ou um assassnio.  para isso que o sistema est montado, para caar as pessoas 
depois de consumado o facto. Mesmo que as leis sobre o assdio estejam nos cdigos, de facto, os polcias continuam a no poder fazer nada se um sujeito nos marcar 
como alvo e agir com cuidado, de forma a no deixar provas que possam lev-lo  cadeia. Se o sujeito estiver pronto para fazer mal e no se preocupar com as possveis 
consequncias, voc estar, no fundo, entregue a si mesmo. Ser voc quem tem de resolver o assunto.
- Pensa, portanto, que o Richard Franklin poder querer fazer mal  Julie?
- Essa no  a verdadeira questo. A pergunta a fazer : voc acredita que ele vai fazer-lhe mal? Se acredita, tem de estar preparado para o que der e vier.  que, 
se as coisas forem mais alm, ningum
poder ajud-lo.
A conversa deixou Mike indisposto. Sides era obviamente um homem esperto e, embora Mike se sentisse melhor com as perspectivas legais do caso, o alvio era anulado 
pelos avisos deixados pelo advogado.
Estaria o caso de Richard resolvido?
Encostou-se  carrinha e ficou a pensar no assunto. Reviu a expresso de Richard no bar. Voltou a ver aquele sorriso sarcstico e, juntamente com a viso, veio a 
resposta.
0 caso no estava encerrado. Richard estava apenas a comear.
Ao saltar para dentro da carrinha, voltou a ouvir as palavras de Sides:
Ningum poder ajud-lo.
***
Chegada a noite, Mike e Julie fizeram o que puderam para tornar o sero o mais normal possvel. Compraram uma piza no caminho para casa, viram um filme, mas nenhum 
se incomodou a esconder a preocupao que sentia sempre que um carro passava na rua. Mantiveram as cortinas corridas e o Singer dentro de casa. At o co pareceu 
inteirar-se do nervosismo deles. Percorrendo a casa como quem anda em patrulha, no ladrava nem rosnava. Quando fechava os olhos para dormitar, uma das orelhas ficava 
sempre arrebitada.
A nica anormalidade daquela noite foi parecer demasiado silenciosa. Como o telefone de Julie tinha sido substitudo e o nmero no vinha na lista, no houve chamadas. 
Decidira comunicar o novo nmero a muito poucas pessoas e tinha instrudo a Mabel para no o fornecer a clientes. No conseguindo telefonar, talvez Richard acabasse 
por perceber que devia deix-la em paz.
Julie ajeitou-se no sof. Talvez.
Depois do jantar, perguntou a Mike como tinha corrido a entrevista com o advogado e ele relatou-lhe o que Sides dissera, ou seja, que Mike no tinha muitos motivos 
para estar preocupado. Porm, para o olhar vigilante de Julie, a maneira como ele estava a comportar-se revelava que Sides dissera muito mais do que isso.


Do outro lado da cidade, Richard encontrava-se na sala escura, diante do tabuleiro dos reagentes de revelao, com um brilho vermelho no rosto enquanto o papel fotogrfico 
ia pondo a descoberto os segredos que continha. Para ele, continuava a ser um processo com sabor a mistrio: fantasmas e sombras, a escurecerem, a tornarem-se reais. 
A transformarem-se na imagem de Julie.
Dentro do tabuleiro raso, os olhos de Julie fitavam-no, brilhavam na direco dele.
Acabava sempre por regressar  fotografia, a nica constante da sua vida. Olhar para a beleza das luzes e sombras reflectidas nas imagens dava-lhe a iluso de ter 
um propsito na vida, recordava-o de que era ele quem controlava o seu prprio destino.
Ainda sentia aquela enorme alegria da noite de sbado. Sem dvida, a imaginao de Julie andava  solta. Mesmo agora, o mais provvel  que gostasse de saber onde 
ele estava, o que pensava, qual seria a sua prxima jogada. Como se ele fosse uma espcie de monstro, o
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r r~ r ~uu~ munis. yue vontade de rir. Como  que algo de to terrvel podia faz-lo sentir-se to bem?
E Mike, que parecia a cavalaria a carregar sobre ele, em pleno bar. To previsvel! Tambm na altura lhe apeteceu soltar uma gargalhada. Aquele nem chegava a constituir 
um verdadeiro desafio. Julie, porm...
To emotiva. To corajosa. To cheia de vida.
Ao estudar as fotografias que tinha  sua frente, voltou a reparar nas semelhanas entre Julie e Jessica. Os mesmos olhos. 0 mesmo cabelo. 0 mesmo ar de inocncia. 
Desde o momento em que entrou pela primeira vez no salo pensou que poderiam ser irms.
Richard abanou a cabea, sentindo a mente prisioneira da memria de Jessica.
Para passarem a lua-de-mel, tinham alugado uma casa nas Bermudas, num local pouco afastado de alguns grandes complexos tursticos. 0 lugar era calmo e romntico, 
com ventoinhas no tecto, moblias de vime pintado de branco e uma varanda de frente para o oceano. Havia uma praia particular, onde podiam passar horas ao sol, sozinhos, 
sem mais ningum por perto.
Oh, como desejara estar num lugar daqueles! Nos primeiros dias tirou dezenas de fotografias da mulher.
Adorava a pele dela: era macia e sem rugas, brilhante debaixo da camada de protector solar. A partir do terceiro dia, a pele adquiriu um tom de bronze, o que, juntamente 
com o biquni de algodo branco, lhe dava um aspecto deslumbrante. Naquela noite no desejava mais do que tirar-lhe o biquni muito lentamente e fazer amor com ela, 
tendo por tecto a abbada estrelada do cu.
Mas ela quisera ir danar. Para o complexo turstico.
Ele dissera que no, que ficassem ali. Estavam em lua-de-mel.
Ela rogara-lhe: Por favor, faz isso por mim. No fazes isso por mim?
Foram a um local barulhento e cheio de bbados; Jessica estava radiante e continuou a beber. As palavras comearam a sair-lhe truncadas e, mais adiante, quando pretendia 
dirigir-se para a casa de banho, tropeou e foi chocar com um jovem, a quem quase entornava a bebida. 0 jovem tocou-lhe no brao e riu-se. Jessica riu-se com ele.
Ao ver o que tinha acontecido, Richard ficou rgido. Sentiu-se envergonhado. 0 episdio deixou-o furioso. Mas pensou que devia perdoar-lhe. Era jovem e imatura. 
Havia de perdoar-lhe porque era o seu marido e amava-a.
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No entanto, ela teria de lhe prometer que cenas como aquela nau voltariam a acontecer.
JPorm, nessa mesma noite, ao regressarem a casa, tentou falar com essica mas ela no lhe deu ouvidos.
- Estava a divertir-me - desculpou-se. - Podias ter feito o mesmo.
-Como  que podia divertir-me, vendo a minha mulher a saracotear-se  frente de estranhos?
- Eu no estava a saracotear-me.
- Eu bem vi.
- No sejas louco.
- 0 que  que me chamaste? 0 que  que disseste?
- Ai... larga-me... ests a magoar-me...
- 0 que  que disseste?
- Ai... por favor... Ai!
- 0 que  que disseste?
Afinal, pensou Richard, ficara desapontado com Jessica. E Julie tambm o desapontou. 0 supermercado, o salo, o modo como lhe tinha desligado o telefone. Comeava 
a perder a f, mas ela conseguira redimir-se no bar. No conseguira ignor-lo, no fora capaz de passar adiante, sem dizer nada. No, tivera de lhe falar e, embora 
as palavras viessem carregadas de desprezo, ele sabia aquilo que na realidade Julie estava a sentir. Sim, sabia, ela preocupava-se com ele, pois no  verdade que 
dio e amor so faces opostas da mesma moeda? Um grande dio no  possvel se no houver um grande amor... e ela
tinha mostrado tanto dio.
Sentia-se bem s de pensar naquilo.
Richard saiu da sala de revelao e foi para o quarto. Deitado em cima da cama, por entre a confuso de lentes objectivas, encontrou o telemvel. Sabia que telefonar 
de casa podia deixar rasto, mas no podia passar aquela noite sem ouvir de novo a voz dela, mesmo gravada. Quando ouvisse a voz dela podia voltar a ver-se no teatro 
com ela, as lgrimas, a respirao acelerar-se quando o fantasma procurava decidir se permitiria que a sua amada o deixasse ou se ambos teriam de morrer.
Marcou o nmero e fechou os olhos, a gozar antecipadamente a sensao. Porm, em vez da voz familiar de Julie, ouviu uma gravao da companhia dos telefones. Terminou 
a chamada e voltou a marcar, agora com mais cuidado, mas apareceu-lhe a mesma mensagem gravada.
Ficou parado, a olhar para o telefone. Oh, Julie, porqu? Porqu?
253
VINTE E NOVE
Depois do tumulto do ltimo ms, a semana seguinte de Julie
decorreu numa extraordinria pacatez. No viu Richard em toda a
semana nem no fim-de-semana que se seguiu. Na segunda-feira tam
bm no aconteceu nada digno de registo e fazia cruzes para que a
tera-feira no fosse diferente.
Tudo levava a crer que seria igual. 0 seu telefone era a prova de
que os nmeros no constantes da lista, no conhecidos, eram uma
maneira eficaz de evitar telefonemas no desejados e, embora apreciasse o alvio de no ter de se preocupar com eles, comeava a pensar que tambm podia enterrar 
o telefone no quintal das traseiras, pois era evidente que ningum voltaria a ligar-lhe, nem que fosse s para falar do tempo, ningum, durante o resto da sua vida.
0 nmero s era do conhecimento de quatro pessoas: Mabel, Mike, Henry e Emma; como passava o dia todo na companhia de Mabel e as noites com Mike, no era razovel 
esperar que algum deles lhe telefonasse. Quanto a Henry, nunca lhe ligara desde que se conheceram, muitos anos antes, o que deixava a Emma como a nica possibilidade. 
Contudo, depois de saber como Julie ficara afectada pelos telefonemas annimos, Emma estava aparentemente a proporcionar-lhe algum descanso, no desejando sentir-se 
responsvel pelo mal-estar da amiga.
Ora bem, no lhe custava a admitir que nos primeiros dias no lhe fizera muita diferena. Era bastante agradvel conseguir cozinhar, tomar duche ou estar abraada 
a Mike sem ser perturbada, mas, passada uma semana, a situao comeava a irrit-la. Podia,  claro, telefonar a quem entendesse e fazia-o, mas no era a mesma coisa. 
Como ningum ligava, como ningum iria alguma vez ligar, comeava a sentir-se transportada para a poca dos pioneiros.
Engraado! Como uma semana de quietude pode alterar a perspectiva de uma pessoa!
Mas o facto  que a semana fora calma. Verdadeiramente calma. Normalmente calma. No vira ningum que considerasse parecido com Richard, nem de longe, embora, na 
prtica, estivesse sempre  espera de o ver aparecer. 0 que, como era evidente, tambm acontecia com Mike, Mabel e Henry. Ia  janela do salo pelo menos uma dzia 
de vezes por dia, para observar a rua nos dois sentidos. Quando ia de carro, virava por vezes para uma rua diferente e parava, ficando a olhar pelo retrovisor para 
ver se estava a ser seguida. Esquadrinhava os parques de estacionamento com olhos de profissional e nunca perdia a porta de vista, quer estivesse numa bicha nos 
correios quer andasse pelo supermercado. Quando chegava a casa, Singer corria para o bosque, mas ela chamava-o para que ele desse uma volta pela casa. Ficava  espera, 
c fora, empunhando um spray de pimenta que tinha comprado no Wal-Mart, enquanto o co vistoriava todas as divises da casa. Passados minutos, o Singer reaparecia, 
a agitar a cauda e a babar-se, feliz como uma criana numa festa de aniversrio.
0 que  que ests a fazer a no alpendre?, parecia perguntar. No queres entrar?
At o co sentia que ela estava a ficar paranica. Mas, como diz o velho ditado, o seguro morreu de velho.
E havia tambm Mike. S a perdia de vista por alguns minutos, excepto quando estava a trabalhar. Embora fosse muito agradvel t-lo por perto, havia momentos em 
que a sua presena se tornava sufocante. Algumas coisas, pensava, eram mais fceis de fazer sem ter Mike pegado a ela.
Na frente legal, havia alguma actividade. A agente Romanello havia aparecido l em casa na semana anterior e falara com os dois; ouviu a histria toda e disse-lhes 
que no hesitassem em cham-la se voltasse a acontecer algo fora do comum. 0 que fez Julie sentir-se melhor; o mesmo aconteceu com Mike, mas, at ao momento, ainda 
no houvera qualquer razo para pedirem ajuda. Noutra das frentes, o procurador da comarca resolvera no deduzir acusao e, embora deixando em aberto a possibilidade 
de mais tarde voltar a intim-lo, Mike encontrava-se em liberdade total. Informou que no tomara aquela deciso por achar que a aco de Mike tinha justificao; 
fizera-o por Richard no se ter apresentado para prestar declaraes formais. E no conseguira contact-lo.
Quando teve conhecimento disto, Julie no deixou de julgar a atitude de Richard muito estranha.
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254
wu~ y-. ayuclcs ulw uras em que nao
sucedera nada de anormal. No que fosse suficientemente tola para esquecer os riscos possveis - no se via no papel daquelas convidadas para o programa da manh, 
que todas as pessoas presentes consideravam idiotas por no terem previsto o que as esperava - mas, sem que tivesse perfeita conscincia disso. ocorrera nela uma 
mudana muito subtil. Na semana anterior mantivera-se na expectativa de ver Richard. Esperava v-lo saltar-lhe ao caminho em qualquer altura e estava preparada para 
agir. No sabia exactamente o que faria,  certo que isso dependia das circunstncias, mas, em caso de necessidade, no teria problemas em gritar, em correr ou em 
atiar o co contra o homem. Repetia a si mesma que estava pronta para tudo, que bastava ele avanar. Mr. Franklin arrepender-se-ia se a provocasse, pouco que fosse.
Todavia, um milhar de alertas visuais ou auditivos, sem descobrir vestgios dele, tinham desgastado lentamente a sua determinao. Agora, embora continuasse a sofrer 
daquela sensao de desconforto, tinha atingido um ponto em que j no esperava v-lo. Portanto, quando Mike a informou de que Steven Sides lhe tinha marcado uma 
pequena reunio para o final da tarde, Julie respondera que estava cansada e que ia direita para casa, mesmo sozinha.
- Aparece quando estiveres despachado - sugeriu. - E telefona, se estiveres atrasado, de acordo?


Singer saltou do jipe logo que ela parou e deu uma volta ao quintal, afastando-se cada vez mais, de nariz no cho, mesmo depois de ela o chamar.
V l, parecia querer dizer-lhe, h sculos que no me levas a passear. 
Julie saiu do carro.
- No, agora no podemos ir. Talvez mais tarde, depois de o Mike chegar.
0 co deixou-se ficar onde estava.
- Tenho muita pena mas no estou disposta a ficar c fora, percebes?
Mesmo de longe, viu as orelhas dele abaterem-se. V l.
Julie cruzou os braos e olhou  volta. No viu o carro do Richard, nem o vira no caminho de carro para casa. No andava por ali, a menos que estivesse disposto 
a percorrer uma grande distncia a p.
A nica viatura parada na rua pertencia  imobiliria que tinha posto
256
os lotes vizinnos a vencia e oslelllava u uUUa ua ~uir.~ow
senhora que os vendia: Edna Farley.
Edna era cliente regular do salo. Embora fosse Mabel quem lhe tratava do cabelo, h muitos anos que Julie conhecia Edna. Rolia, de meia-idade, era simptica  
maneira dos vendedores de propriedades - alegre e entusiasta, com tendncia para deixar cartes de visita espalhados por todo o salo -, mas tambm bastante descuidada. 
Quando estava excitada, um estado que podia considerar-se permanente, parecia no reparar no mais bvio e ia sempre ligeiramente atrasada nas conversas. Quando os 
outros j tinham mudado de assunto, Edna continuava a falar do tema anterior. Uma caracterstica que por vezes irritava Julie, mas tolerava-a com um encolher de 
ombros, a pensar: Ainda bem que  a Mabel que tem de aturar, no sou eu.
A cauda do Singer movia-se para diante e para trs. Por favoooor. 
Julie no queria ir, mas era verdade que no levava o co a passear havia muito tempo.
Esquadrinhou a rua. Nada.
Seria possvel que ele percorresse uns bons quilmetros a p,  espera da oportunidade remota de a encontrar a passear o co?
No, no havia hiptese. Alm disso, o co estava com ela, e o Singer no era um caniche. Tudo o que era preciso era gritar e ele apareceria logo de seguida, a carregar 
como um samurai que sob o efeito de esterides.
Mesmo assim, no lhe agradava a ideia. Passara a ter medo da mata. Havia demasiados stios onde ele poderia esconder-se. Demasiados locais para observar e ser observado. 
Demasiadas oportunidades para Richard se esconder por detrs de uma rvore e atac-la pelas costas, com as folhas secas a serem esmagadas pelo seu peso...
Sentiu-se de novo envolvida pelas garras do pnico, embora repetisse que no lhe podia acontecer nada, com o Singer por perto e a Edna a caminhar pelos lotes  venda. 
Sem se avistar o carro dele. Richard no andava por ali.
Nesse caso, por que no levar o co a dar um passeio?
Singer ladrou, como que a pretender captar-lhe a ateno. Ento?
- Ganhaste - acabou por dizer. 0 co voltou-se e entrou na mata, desaparecendo por detrs de umas moitas.
Levou cinco minutos a aperceber-se de que ia a falar sozinha.
- No vai acontecer nada - ia dizendo -, isto aqui  perfeitamente seguro.
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++uU 1lavla 111x1 C111 passar em
revista todas as opes, pois no?  que, por qualquer razo, no se sentia  vontade. Foi o que fez, at chegar de novo  concluso de que Richard no andava por 
ali, pronto a saltar-lhe ao caminho. Nem isso serviu para a acalmar totalmente. Comeou a ficar ofegante.
Uma asneira aquele passeio relaxante pela mata.
Julie apressou-se pelo carreiro, sempre de mo  frente para afastar os ramos mais crescidos. As ramagens estavam mais espessas em relao  ltima vez que por ali 
passara ou, pelo menos, assim parecia. Dantes, conseguia ver raios de sol a espreitar por entre as abertas no tecto verde mas, talvez por o sol j estar baixo e 
as nuvens terem naquele dia um tom escuro, acinzentado, a mata parecia excepcionalmente sombria.
Que ideia estpida. Estpida, estpida, estpida. Se tivessem o seu nmero de telefone, os tipos dos programas da manh estariam certamente a convid-la para a sesso 
do dia seguinte.
Por que motivo no teve mais cuidado?, perguntaria o apresentador do programa.
Porque, responderia de olhos baixos, sou uma parva.
Parou para escutar; no ouviu nada, excepto o palrar distante de uma pega. Olhou para ambos os lados, para a frente e para trs, no vendo nada de estranho. Nada. 
 evidente que no corro perigo, disse para si mesma.
Muito bem, minha menina, se entraste nisto agora tens de manter a calma. Posso no ver o Singer, mas sei que anda por a. Vou deix-lo vadiar uns minutos, depois 
vamos para casa e tudo voltar  normalidade. Talvez beba um copo de vinho para restaurar as foras, mas, com mil diabos, sou apenas humana. E o Singer aprecia tanto 
um passeio destes...
L longe, ouviu o co ladrar; sentiu o corao bater dentro do peito com uma fora tal que parecia turvar-lhe a viso. Muito bem, parecia estar na altura de mudar 
de ideias, o recado estava entregue...
- Singer! Vamos embora - gritou. - Vamos para casa! Est na hora de voltar!
Esperou,  escuta, mas o Singer no apareceu. Em vez disso, ladrou de novo, mas no foi um latido de raiva. Parecia um latido de saudao, um latido amigvel.
Deu um passo na direco de onde viera o som mas parou. Julgou que no devia avanar, pelo menos at reconhecer qualquer outro
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som. Uma VUL. L16U1111 wlaru u +u+w+         > - alvio ao reconhecer a voz. Edna Farley...
Caminhou mais depressa, seguindo pela longa curva do carreiro at poder ver a gua do canal interior. A, a mata formava uma clareira, que lhe permitiu ver Edna 
a dar palmadinhas na cabea do co, que estava de boca aberta, sentado sobre as patas traseiras. Voltou a cabea quando viu Julie entrar na clareira.
Isto  que  vida, parecia querer demonstrar. Um pouco de amor... 0 que poder haver de melhor?
Edna tambm se voltou.
- Julie! - chamou. - Pensei que estarias a vir para aqui. Como ests?
Julie olhou para Edna, que estava num plano ligeiramente inferior. - Viva, Edna. Estou ptima. Vim dar um passeio.
- Est um belo dia para passear. Ou estava, quando ns aqui chegmos. Mas agora parece que no tarda a chover.
Agora Julie estava muito perto.
- Ns?
- Sim, o meu cliente est a analisar dois dos lotes. Esto  venda h algum tempo; este parece bastante interessado, portanto, faz figas para que ele compre.
Como se percebesse o que Edna estava a dizer, o Singer ps-se de p num salto e foi postar-se ao lado de Julie, com o plo do lombo eriado e o pescoo rgido. Comeou 
a rosnar. Quando olhou na direco para onde o co estava virado, Julie sentiu o corao a bater novamente mais forte. Os olhos precisaram de uns instantes para 
se adaptarem  luz e ela soltou um suspiro prolongado. Atrs de si, Edna continuava a falar.
- Ah, ele a est - dizia Edna.
Antes que Julie conseguisse dar um passo ou pensar em mais qualquer coisa, alm de olhar, Richard chegou junto de Edna. Limpou a testa e sorriu-lhe, fazendo Edna 
corar.
- Tinha razo - afirmou Richard. - Aqueles lotes so interessantes, mas acho que gosto mais dos deste lado.
- Ah, sim. Tem toda a razo - respondeu Edna. - E a vista para o mar, deste lado, no tem preo. Como calcula, no  possvel construir mais em frente nesta costa. 
 um investimento maravilhoso.
Edna riu-se, mas j ningum estava a ouvi-la. - Oh, onde  que
esto as minhas boas maneiras? Gostaria de lhe apresentar uma
amiga...
259
~        ~u~ a~iauavci aut I sa.
Ela no respondeu; no conseguiu seno ficar ali especada. 0 co
continuava a rosnar, de lbios arreganhados para mostrar os dentes.
Edna ficou a meio da frase. - Oh, j se conhecem? - indagou.
- Pode dizer-se que sim - respondeu Richard. - No , Julie? Julie tentou recompor-se. Aquele canalha.., pensou. Como  que
sabia que a vinha encontrar ali? Como  que ele sabia?
- Julie, o que  se passa com o Singer? - estava Edna a pergun
tar. - Est muito inquieto, porqu?
Antes que pudesse responder, Richard dirigiu-se a Edna.
- Edna, trouxe consigo a informao que lhe pedi, com as di
menses dos lotes? E os preos? Enquanto aqui estamos, gostaria de
dar uma olhadela aos prospectos.
Ao ouvir a palavra preos, os olhos de Edna iluminaram-se.
-  claro que trouxe. Tenho tudo no carro. Deixe-me ir busc
-los. Estou certa de que ficar satisfeito, pois os preos so muito
razoveis. S preciso de uns minutos.
Ele encolheu os ombros. - Leve o tempo que quiser. No tenho
pressa nenhuma.
Momentos depois, Edna seguia a cambalear pelo carreiro, como um pino de bowling prestes a cair. Quando ela se afastou, Richard dirigiu o sorriso para Julie.
- Ests com um aspecto excelente - comeou. - Tenho sentido a tua falta. Como tens passado?
S ento, subitamente, Julie se apercebeu de que estavam ss, o suficiente para a fazer voltar  realidade. Deu um passo atrs, dando graas a Deus por o Singer 
se encontrar entre eles.
- Richard, o que  que tu ests aqui a fazer?
Ele encolheu os ombros, como se j esperasse a pergunta. - E um excelente investimento. Estou a pensar que este pode ser o lugar certo para eu criar razes. Um homem 
precisa de um lugar que possa considerar como o seu lar e, dessa forma, poderemos vir a ser vizinhos.
Julie empalideceu.
Ele sorriu. - No achas que te agradaria? Eu a viver perto de ti?... No? Talvez eu quisesse apenas falar contigo. Mudaste o nmero do telefone, nunca andas sozinha. 
Que mais poderia fazer?
Julie recuou mais um passo; o co ficou onde estava, como que  espera de que Richard ousasse aproximar-se dela, com as pernas traseiras tensas, pronto a saltar.
- No quero falar contigo - disse ela, a odiar aquele seu tom lamentoso. - Como  possvel que no consigas meter isso na cabea?
260
- No te recordas dos nossos encontros - responaeu tctcnara, com voz suave. Parecia alimentar esperanas e, de repente, Julie apercebeu-se da irrealidade de toda 
aquela cena. - 0 tempo que passmos juntos foi muito especial. Por que razo te recusas a admitir o que  evidente?
Julie recuou mais um passo. - No h nada que admitir!
Ele pareceu magoado, estupefacto. - Qual o motivo de estares a agir assim? 0 Mike no est aqui neste momento. Estamos sozinhos, eu e tu.
Os olhos de Julie dardejaram para os lados, para a entrada do carreiro. Era chegada a altura de sair dali.
- Se fizeres algum movimento na minha direco, ou se tentares seguir-me, eu grito e desta vez no agarro o co pela coleira.
Ele recebeu a admoestao com um sorriso simptico, como se estivesse preparado para explicar qualquer coisa a uma criana.
- No h razes para teres medo. Sabes que nunca te faria mal. Eu amo-te.
Ela pestanejou. Que tipo de amor era aquele?
- De que raio ests tu a falar? - acabou por dizer, com as palavras a sarem em tom mais alto do que o desejado.
- Amo-te - repetiu Richard. - E podemos comear de novo. Iremos de novo ao teatro. Sei que gostaste. E se no quiseres fazer isso, iremos a qualquer outro stio 
que desejes conhecer. No h problema. E consideraremos que este desvario com o Mike foi apenas um erro, est bem? Estou pronto a perdoar-te.
Deixando-o falar, Julie continuou a recuar, os olhos cada vez mais esbugalhados a cada palavra que ouvia. Todavia, mais do que as palavras, sentia-se aterrada pela 
expresso de absoluta sinceridade que ele demonstrava ao falar.
Presenteou-a com um sorriso fugidio. - Aposto que nem lhe disseste que me deixaste passar uma noite em tua casa. Como  que achas que ele vai reagir quando souber 
uma novidade dessas?
Aquelas palavras magoaram-na como se fossem pancadas fsicas. Richard registou a reaco dela e, vendo que pensara bem, estendeu a mo.
- Anda c, vamos a um lugar qualquer, onde possamos comer alguma coisa.
Julie recuou mais um pouco, tropeou numa raiz exposta, quase perdeu o equilbrio e sibilou: - No vou a lado nenhum contigo.
- No sejas assim. Por favor. Quero fazer-te feliz, Jessica!
Por um instante, Julie pensou se no teria ouvido mal, mas decidiu que ouvira perfeitamente.
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Desta vez as palavras fizeram mossa.
- No devias ter dito isso - disse Richard, numa voz fria e cor
tante. - No devias dizer coisas que no sentes.
Pelo canto do olho, Julie viu Edna a regressar  clareira.
-j vou a caminho - anunciou ela com alegria. - J vou a
caminho...
Richard continuava de olhos fixos em Julie quando Edna chegou ao p deles. Ela olhou para um e depois para o outro.
- Algum problema? - inquiriu.
Finalmente, Richard afastou os olhos dos de Julie. - No - mentiu -, no h qualquer problema. Estvamos apenas a calcular quantas casas deveria haver aqui. Julgo 
que Julie aprecia a privacidade.
Julie mal ouviu esta resposta. - Tenho de ir - disse de sbito, recomeando a recuar.
Richard sorriu. - Adeusinho, Julie. At  vista.
Ela girou sobre os calcanhares e comeou a andar para sair da clareira.
0 Singer ficou mais um pouco, para ter a certeza de que Richard no ia atrs dela, e depois seguiu-a.
Logo que deixou de ser vista pelos outros, comeou a correr, cada vez mais depressa. Com a respirao pesada e rpida, seguiu a tropear nos ramos estendidos sobre 
o carreiro. Caiu uma vez e levantou-se rapidamente, ignorando a dor no joelho. Ouvindo barulho, voltou-se para trs; no havia sinais de Richard atrs dela. Recomeou 
a corrida, forando as pernas a prosseguir, sentindo os galhos a rasgarem-lhe a pele enquanto abria caminho. Estou quase l, meu Deus, permite-me que chegue a casa...
Minutos depois, quando ainda estava a tentar conter as lgrimas, Mike chegou. Abraou-a e deixou-a chorar. Depois de lhe contar o que tinha acontecido, conseguiu 
acalmar-se o suficiente para poder perguntar-lhe por que chegara to cedo.
Mike estava muito plido. Quando falou, a voz no passava dum sussurro.
- No foi o advogado quem me enviou a mensagem.
262
TRINTA
Meia hora depois, a agente Romanello estava sentada  mesa da cozinha, de olhos postos em Julie, que contava o novo episdio.
Julie no levou muito tempo a contar a histria toda. Por muito importantes que as palavras fossem, foi a sua expresso que confirmou  agente que ela estava a dizer 
a verdade. Apesar da calma que tentava demonstrar, era evidente que estava destroada. At Jennifer ficou nervosa; sentiu pele de galinha pelo corpo todo, quando 
Julie contou que Richard lhe chamara Jessica.
J- Isto no me est a cheirar nada bem - observou, logo que ulie terminou.
Embora a frase parecesse uma banalidade digna da inteligncia de um Pete Gandy, que mais poderia dizer? Pelos deuses! Compra uma arma e tranca as portas. Este tipo 
 maluco! Mike e Julie estavam to enervados que precisavam de algum que os ajudasse a acalmar. Alm disso, era exactamente aquilo que o seu pai teria dito. 0 
pai era um verdadeiro mestre a manter as pessoas calmas em situaes de tenso. Sempre lhe dissera que era a coisa mais importante que um polcia podia fazer, se 
queria viver o suficiente para chegar  idade da reforma.
- 0 que havemos de fazer? - perguntou Mike.
- Ainda no tenho a certeza - respondeu Jennifer. - Mas quero rever uma ou duas coisas, para ver se as percebi bem.
Julie estava absorta, a roer as unhas, pensando na parte da histria que guardara para si mesma.
Aposto que nem lhe disseste que me deixaste passar uma noite em tua casa. Como  que achas que ele vai reagir quando souber uma novidade dessas?
0 mais provvel era Mike no se importar, pois no acontecera
nada. No foi nada de parecido com o que Sarah lhe fizera. E tam
263
u-        ,,a ieiessc para a compreenso da histria, pois no? Nesse caso, por que  que no conseguia referir-se a isso?
Imersa nestas reflexes, nem se apercebeu de que Jennifer tinha feito uma pergunta.
- Faz alguma ideia de como  que ele soube onde voc estava? - repetiu a agente.
- No.
- Mas ele chegou l antes de si?
- Julgo que a Edna lhe deu uma boleia. No sei h quanto tempo ali estava, mas no tenho dvidas de que chegou antes de mim. Vi o carro dela arrumado de um dos lados 
da rua e no os vi entrar nos lotes que esto  venda.
Jennifer voltou-se para Mike. - E voc pensou que tinha uma reunio com o advogado? - inquiriu.
- Deixaram um recado na oficina, dizendo que tinha uma reunio marcada para as cinco da tarde. Um dos empregados da oficina tomou nota do recado mas, quando cheguei 
ao escritrio do advogado, descobri que ele no sabia de nada e vim o mais depressa possvel para junto de Julie.
Mike parecia agoniado. E furioso.
Jennifer voltou-se novamente para Julie. - Posso, em primeiro
lugar, saber o que a levou a dar o passeio? - Sou uma tonta - murmurou Julie. - Desculpe?
- Nada.
Respirou fundo. - No o tinha visto nem ouvido durante toda uma semana; por isso, pensei que o caso estivesse encerrado.
- No penso que deva repetir isso no futuro. Tudo bem quanto a lugares pblicos, mas tente evitar os stios onde ele a possa encontrar sozinha, de acordo?
Julie resfolegou. - Acho que no precisa de se preocupar mais com esse aspecto.
- E o que  que sabe acerca de Jessica?
- Na verdade, no sei nada. Contou-me que esteve casado com ela durante uns anos, que no deu certo. No passou disso. Nunca mais falmos dela.
- E ele  de Denver?
- Foi o que me disse.
- E, uma vez mais, no lhe fez uma ameaa especfica?
- No. Mas no precisou de dizer fosse o que fosse.  um louco. Sem dvida, pensava Jennifer. Tambm pensava que ele era doido.
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- E no avanou qualquer pista sobre o que pensa iazei a acsus
perguntou a agente.
Julie negou com a cabea. Tive toda a espcie de fantasias. Quer saber quais? De olhos cerrados, limitou-se a dizer, num fio de voz: - S desejo que isto acabe.
- Vai prend-lo? - quis saber Mike. - Ou lev-lo para ser interrogado?
Jennifer no respondeu logo, defendeu-se. - Vou fazer o que puder.
No precisou de dizer mais. Mike e Julie viraram-se para o outro lado.
- E ento? Como  que ns ficamos? - indagou Julie.
- Vamos a ver. Sei que esto preocupados. Sei que esto com medo. E, acreditem-me, estou do vosso lado; por isso, no julguem que me vou embora e me esqueo do caso. 
Vou dar uma olhadela ao passado de Richard Franklin para ver o que da sai e estou certa de que irei ter uma conversa com ele, mas ainda no sei quando. Mas, no 
se esqueam de que neste caso tenho de trabalhar com o agente Gandy...
- Pois, fantstico!
Jennifer estendeu o brao por cima da mesa e apertou a mo de Julie.
- Mas dou-vos a minha palavra - continuou a agente -, de que vou investigar isto. E vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para vos ajudar. Creiam em mim, 
est bem?
Era o tipo de bl-bl que toda a gente gostaria de ouvir numa altura daquelas.
A ausncia de reaces no provocou qualquer surpresa.


Andrea estava a ver The Jerry Springer Show quando ouviu o telefo
ne tocar. Pegou no auscultador com ar ausente, mantendo os olhos
fixos no ecr ao balbuciar um estou!.
Uma fraco de segundo depois, tinha os olhos a brilhar. - Ora, viva! Estava  espera da sua chamada...


Jennifer mal conseguia concentrar-se durante a viagem para casa. No parava de sentir aquele enjoo no estmago e o nervoso miudinho que nem o ronronar do motor parecia 
afastar. 0 caso metia-lhe medo, a diversos nveis. Como agente da polcia, sabia at que ponto os assediadores podem tornar-se perigosos. Como mulher,
265
w        ru moa. -mel , i u'ic a um nevei nem mais pessoal. S
precisava de fechar os olhos: encontrava-se de imediato junto de Julie, a compartilhar a sua sensao de desamparo. No havia nada de pior. Na sua maioria, as pessoas 
vivem na iluso de que controlam as suas vidas, o que no  inteiramente verdade.  claro que cada um pode decidir o que vai comer ao pequeno-almoo, o que vai vestir 
e todos esses pequenos pormenores, mas, logo que damos os primeiros passos neste mundo, ficamos em grande parte  merc de todos os que nos rodeiam, restando-nos 
a esperana de que, se eles tiverem tido um dia mau, no resolvam descarregar as culpas para cima de ns.
Sabia que estava a pintar o quadro com tintas muito carregadas, mas era exactamente assim que avaliava a situao. Para Julie, a sensao ilusria de segurana fora 
destruda e agora tudo o que pretendia era que Jennifer - algum, qualquer pessoa, na verdade - voltasse a reconstru-la. 0 que  que ela disse? S desejo que isto 
acabe. Pois, quem no desejaria? 0 que ela quis mesmo dizer foi que desejava que a sua vida voltasse a ser como era. Num outro tempo em que o mundo era um lugar 
seguro.
No seria assim to fcil. Em parte, o problema residia no facto de a prpria Jennifer se sentir igualmente abandonada  sua sorte. Afinal, eles tinham-lhe pedido 
ajuda, mas ela nem sequer podia falar com Richard a ttulo pessoal e, a ttulo oficial, ainda no tinha capacidade para o fazer. E Pete Gandy, embora provavelmente 
fizesse tudo o que ela mandasse, desde que se mostrasse coquete, era bem capaz de mandar toda a investigao s urtigas logo que abrisse a boca.
Mas ela podia investigar o tipo por conta prpria. Foi o que prometeu ao Mike e  Julie. Era exactamente isso que ia fazer.


Uma hora depois de Jennifer Romanello os ter deixado, Julie e Mike continuavam sentados  mesa. Ele estava a beberricar uma cerveja, mas Julie no o tinha acompanhado. 
No tinha estmago para o copo de vinho que tinha enchido antes e despejou-o no lava-loua. Limitava-se a olhar em frente, no pensando em nada e falando pouco e, 
embora parecesse muito cansada, Mike no se atrevia a sugerir-lhe que fosse para a cama, pois dormir era uma impossibilidade para qualquer deles.
Mike acabou por perguntar: - Tens fome?
- No.
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- Queres alugar um filme?
- Penso que no.
- Bom, tive uma ideia - props Mike. - Vamos ficar sentados a olhar um para o outro durante um bocado. E talvez consigamos zangar-nos um pouco, s para quebrar a 
monotonia. S pretendo dizer que precisamos de descobrir qualquer coisa que nos permita gastar tempo.
Foi esta tirada que acabou por provocar o sorriso de Julie.
- Tens razo - aquiesceu. Pegou na cerveja dele e bebeu um gole. - De qualquer das formas, comeo a ficar cansada desta situao. No parece estar a trazer-me qualquer 
benefcio.
- Portanto, queres fazer o qu?
- Importas-te de me abraar? - perguntou ao levantar-se e caminhar para ele.
Mike levantou-se e rodeou-a com os braos. Apertou-a contra si, absorvendo o calor que irradiava do corpo dela. Presa nos seus braos, Julie deixou a cabea descair 
para o peito dele.
- Estou satisfeita por estares aqui - murmurou Julie. - No sei o que faria sem ti.
0 telefone tocou antes que Mike pudesse responder. Ambos ficaram tensos ao ouvir a campainha. Continuaram a cingir-se at ouvirem o segundo toque.
Depois, o terceiro.
Mike largou-a.
- No atendas - gritou Julie, a quem o terror fazia arregalar os olhos.
0 telefone tocou pela quarta vez.
Mike ignorou-a. Foi at  sala e levantou o auscultador. Deixou-o a meio caminho durante um instante, at que o levantou lentamente at ao ouvido.
- Estou!
- Ol, boa noite. Cheguei a pensar que no estava ningum em casa - disse a voz do outro lado do fio, para alvio de Mike.
- Ol, boa-noite, Emma - respondeu com um largo sorriso. - Como ests?
- Estou ptima - respondeu uma voz cheia de energia. - Mas, ouve, estou em Morehead City e nem vais acreditar quando te disser quem acabo de ver.
Julie veio at  sala e ficou junto de Mike, que afastou o auscultador da orelha para ela tambm ouvir.
- Quem?
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- Quem era?
- Estava com o Richard. E, digo-te mais, acabo de o ver beij-la.


- No sei o que pensar acerca disto - admitiu Julie. - Quero dizer, no faz sentido.
Mike tinha pousado o auscultador e estavam ambos sentados no sof, com uma s lmpada a iluminar a sala. 0 Singer estava a dormir junto  porta da frente.
- No salo, no fez nenhuma meno a isto, durante uma semana
inteira? Sobre o namoro com ele, pergunto eu?
Julie acenou que no com a cabea. - Nada. Nem uma palavra.
Ela cortou-lhe o cabelo: e  tudo quanto sei sobre o assunto. - No ouviu as coisas que disseste acerca dele? - Ouviu, de certeza.
- Mas no ligou.
- Ou no ligou ou no quis acreditar em nada do que eu disse. - Por que motivo no ia acreditar em ti?
- Quem sabe? Mas amanh falo com ela. Pode ser que consiga
meter-lhe algum juzo naquela cabea.


Mais tarde, Richard levou Andrea para sua casa e deixaram-se ficar na varanda a olhar o cu. Encostado a ela, ps-lhe as mos na barriga, movendo-as at lhe agarrar 
os seios. Andrea encostou a cabea a ele e suspirou.
- Cheguei a recear que nunca mais telefonasses.
Richard beijou-lhe o pescoo e o calor dos seus lbios f-la
arrepiar-se. A Lua derramava uma luz de prata sobre as rvores.
- Isto aqui fora  to bonito - disse ela. - To calmo. - Chiu. No digas nada. Limita-te a ouvir.
No queria ouvir a voz dela, porque lhe lembrava que no estava a
abraar Julie. Estava com outra mulher, uma mulher que nada sig
nificava para ele, mas tinha um corpo macio e quente. E desejava-o. - E o luar...
- Chiu!
Uma hora depois, quando estavam juntos na cama, Andrea gemeu e enterrou os dedos no cabelo dele, mas Richard avisara-a de que no devia emitir quaisquer outros sons. 
No haveria sussurros nem palavras. Tambm insistira na escurido total.
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Debruou-se por cima seta, a seuuu-il a
peito. Julie, queria sussurrar, no podes continuar a fugir de mim. No vs o que temos em comum? No suspiras pela plenitude que a nossa unio nos proporcionar?
Mas, ento, recordou-se do encontro na mata, na expresso de horror dos olhos dela. Sentiu a sua repulsa, ouviu-lhe as palavras de rejeio. Sentiu-lhe o dio. A 
recordao fez doer; Richard lembrou-a como uma agresso aos seus sentimentos. Julie, gostaria de sussurrar, hoje foste cruel para mim. Ignoraste a minha confisso 
de amor. Trataste-me como se eu no significasse nada para ti...
Ouviu-se um grito na escurido do quarto. - Ai! Com tanta fora no... ests a magoar-me... Ai!
0 som obrigou-o a enfrentar a realidade.
- Chiu - sussurrou, mas no aliviou a presso das mos. Na luz escassa que se coava pela janela, s conseguiu vislumbrar o medo que ensombrava os olhos de Andrea. 
Sentiu o desejo submergi-lo.
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vais aucarrar em quem estava com ela.
TRINTA E UM
Na quarta-feira, embora o seu turno s comeasse s oito horas, s
seis Jennifer j se encontrava sentada diante do computador; ao lado
do computador estava uma cpia do auto de priso de Mike Harris.
0 auto comeava pelos elementos fundamentais: nome, endereo,
nmero de telefone, local de trabalho, etc. Desprezou essa parte e
passou a ler a descrio da altercao propriamente dita. Como espe
rava, no havia ali qualquer elemento que ajudasse a definir o passado
de Richard, mas esse pareceu-lhe o elemento que devia procurar.
Precisava de qualquer coisa que pusesse a bola a rolar.
Graas a Deus, o pai tinha-lhe dado uma ajuda na noite anterior.
Tinha-lhe ligado depois de chegar a casa, para lhe perguntar o que ele
pensava do caso; depois de ser posto ao corrente, o pai confirmou as
suas primeiras impresses, por muito vagas que fossem, acerca do que
poderia vir a acontecer. - Ambas as hipteses so vlidas - dissera
o pai. - Por conseguinte, tens de descobrir se o tipo  realmente
louco ou se anda apenas a representar o papel de louco.
Ainda no sabia ao certo por onde comear, pois as informaes sobre Richard Franklin escasseavam e as horas de que dispunha para as investigar no eram exactamente 
as horas normais de expediente. 0 departamento de pessoal do projecto da ponte s abria mais tarde e, embora lhe parecesse a entidade mais indicada para comear, 
o pai sugerira que comeasse pelo senhorio. - Esto habituados a receber chamadas  noite, no faz mal ligar-lhes fora das horas normais de trabalho. Talvez consigas 
obter o nmero da Segurana Social ou da carta de conduo, para alm de referncias.  habitual exigirem esse tipo de dados quando elaboram os contratos de arrendamento.
E foi exactamente o que fez. Depois de obter o nome do proprietrio atravs de um conhecido que trabalhava para o municpio, falou
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com ele, um homem que parecia nao ter mais UC L11111a cm .
ouviu, a casa pertencera aos avs do proprietrio actual, a renda era paga a tempo e horas pela empresa do inquilino, alm de Richard Franklin ter feito um depsito 
de garantia e pago dois meses adiantados. 0 proprietrio no conhecia Richard pessoalmente e no visitava a propriedade h mais de um ano. A administrao do prdio 
era feita por uma empresa de gesto imobiliria local, cujo nmero de telefone lhe forneceu.
A seguir, ligou para o gerente que, depois de um bocado de conversa, lhe enviou um fax com o contrato de aluguer. Como referncias indicou a empresa local e o respectivo 
chefe de pessoal; nenhuma de Ohio ou do Colorado. Conseguiu obter os nmeros da Segurana Social e da carta de conduo e, sentada  secretria de Pete Gandy, inseriu 
estes dados no computador.
Passou a hora seguinte  procura de informaes, comeando pelo estado da Carolina do Norte. Richard Franklin parecia no ter cadastro nesse estado, nem nunca fora 
preso. Embora a carta de conduo tivesse sido utilizada em Ohio, era demasiado cedo para contactar a diviso de trnsito local. 0 mesmo se passava com o Colorado.
Depois, usando o computador porttil, ligou-o  rede telefnica de banda larga e pesquisou na Internet. Usando os motores de busca normais, encontrou milhes de 
referncias ao nome dele e algumas pginas pessoais da Web sobre vrios Richard Franklin, mas nenhuma do Richard Franklin que procurava.
A partir daqui, comeou a deparar com obstculos. Obter informaes dos estados do Colorado e do Ohio sobre um possvel cadastro levaria pelo menos um dia e exigiria 
a cooperao de outro departamento, pois os cadastros policiais eram objecto de manuteno local. No era difcil para um agente, mas para uma novata em formao 
no era pra doce. Alm disso, a resposta era dada atravs de um telefonema feito por eles e, se ligassem enquanto ela andava em patrulha no exterior - estaria com 
certeza no carro com Pete Gandy - teria de explicar ao chefe a razo das chamadas para as polcias de Denver e de Columbus; poderia ser totalmente afastada do caso 
e talvez at ficasse sem emprego.
Mas continuava a ter dvidas quanto ao passado do homem e gostaria de saber se era o que apregoava.
Teria nascido em Denver? Julie pensava que sim, mas quem saberia a verdade? 0 pai tinha-se referido a isso na noite anterior: - Novo na cidade e possivelmente tarado? 
No me parece que
ligasse muito ao que ele disse a essa mulher da. Se at agora conse
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272
~~ 4a ic, termo a certeza de que e
igualmente bom a evitar falar dos problemas do passado.
Embora soubesse que era ilegal, Jennifer resolveu dar uma olhade
la aos registos pessoais de crdito de Richard. Sabia quais eram as trs
agncias mais importantes do ramo e que quase todas publicavam
relatrios anuais. Usando o contrato de arrendamento como guia, foi
inserindo todas as informaes exigidas, exactamente as mesmas que
a empresa de gesto imobiliria tinha utilizado para elaborar o
contrato da casa onde Richard vivia. Nome, nmero da Segurana
Social, ltima morada, endereos anteriores, nmero da conta banc
ria - finalmente, viu resultados.
Apareceu um conjunto de pginas que incluam todos os porme
nores dos registos pessoais de Richard.
A nica pesquisa recente fora efectuada pela empresa de gesto imobiliria; at aqui no havia nenhuma surpresa, mas foi posta de sobreaviso por um pormenor caricato: 
nenhum daqueles registos parecia fazer muito sentido. Especialmente para um engenheiro que dispunha de um bom emprego.
No havia nota de cartes de crdito em vigor, nenhum emprstimo para compra de automvel, qualquer linha de crdito pessoal. Uma passagem rpida pelo registo de 
crdito mostrava que todas as contas constantes do registo tinham sido fechadas.
Estudando o registo com mais cuidado, verificou que, quatro anos antes, houvera uma importante falta de pagamento a um banco de Denver. Estava inscrita na lista 
de bens imobilirios e, pelo valor envolvido, pensou tratar-se de uma hipoteca sobre uma casa.
Por essa altura, havia tambm uma srie de pagamentos fora de prazo: Visa, MasterCard, American Express, contas de telefone, de electricidade, de gua - em todos 
os casos havia verbas em falta, que acabaram por ser pagas.
Mais tarde, cancelara as contas Visa e MasterCard, bem como os cartes American Expresse Sears.
Jennifer recostou-se na cadeira, a reflectir sobre o que acabava de ver. Ora bem, vivera em Denver em determinada altura da vida e, quatro anos antes, tivera certas 
dificuldades de ordem financeira. Podia haver diversas explicaes para isso, pois h muitas pessoas que no sabem muito bem como gerir o seu dinheiro; alm disso, 
ele tinha contado a Julie que se tinha divorciado. Talvez o problema financeiro tivesse algo a ver com isso.
Ficou a contemplar o ecr. Mas por que razo no havia movimentos mais recentes?
Era provvel que as suas contas iusscui p aa I,-
empresa, como acontecia com a renda da casa. Tomou uma nota para investigar esse pormenor.
Que mais? Sabia que no podia deixar de tentar saber mais acerca de Jessica. Porm, sem novos dados, no havia a mnima possibilidade de prosseguir a investigao 
desse ponto.
Desligou o computador porttil e guardou-o na maleta de proteco, a reflectir sobre o devia fazer em seguida. 0 melhor que tinha a fazer, decidiu, era esperar que 
o departamento de pessoal abrisse, para poder falar com algum de l. Se Richard era engenheiro-consultor a trabalhar num projecto importante, por conta de uma grande 
empresa, era foroso que o departamento de pessoal dispusesse de outras referncias. Talvez alguma delas pudesse aclarar o que acontecera quatro anos antes. Contudo, 
isso exigia mais uma hora de espera.
No sabendo o que fazer nesse perodo de tempo, analisou o auto de priso, antes de se concentrar no endereo e perguntar a si mesma se no deveria ir dar uma vista 
de olhos. No sabia muito bem aquilo de que andava  procura; s pretendia saber onde ele morava, na esperana de que a localizao lhe dissesse mais qualquer coisa 
sobre o homem. De computador debaixo do brao, serviu-se de um copo de caf no caminho para a sada e meteu-se no carro.
Como ainda no conhecia bem a cidade, consultou o mapa guardado no porta-luvas e decidiu seguir pela avenida principal at sair da cidade e entrar numa zona rural.
Dez minutos depois, entrou na estrada de macadame onde Richard Franklin vivia. Abrandou ao aproximar-se da caixa de correio,  procura de um nmero, a tentar saber 
onde se encontrava. Depois de saber, verificando que ainda estava longe, voltou a acelerar.
Estava admirada por aquelas casas estarem ali, numa zona to remota. Muitas delas faziam parte de propriedades com vrios hectares, deixando-a a especular sobre 
as razes que levavam um engenheiro, vindo de uma grande cidade, a escolher um stio daqueles para morar. No estava perto da cidade, nem do local de trabalho, nem 
do que quer que fosse. E a estrada estava a ficar cada vez pior.
 medida que avanava, as casas eram mais velhas e estavam mais
degradadas. Algumas pareciam abandonadas. Passou pelas runas de
um antigo celeiro de tabaco. As paredes laterais tinham desabado
para o interior devido  queda do telhado e toda a estrutura comeava
a ficar coberta de arbustos, que emergiam de entre as pranchas de
madeira apodrecida. Mais atrs, havia um tractor a enferrujar no meio
das ervas daninhas.
273
uc -urreio. estava perto.
Jennifer abrandou. Calculou que a casa dele devia ser a prxima, do lado direito, e viu-a por entre as rvores. Construda longe da estrada, era uma casa de dois 
pisos, menos degradada do que as restantes, mas o jardim mostrava ervas e arbustos bastante altos.
No entanto...
Era provvel que as pessoas vivessem ali por se tratar de proprieda
des familiares ou por no terem escolha. Por que  que ele teria
escolhido um lugar daqueles?
Por querer esconder-se?
Ou por querer esconder qualquer coisa?
No parou; seguiu e fez inverso de marcha cerca de um quilmetro
mais adiante. Continuava a fazer a si mesma as mesmas perguntas quan
do voltou a passar pela casa e iniciou o caminho de regresso  esquadra.


Richard Franklin afastou-se da cortina, mostrando-se algo contrariado.
Tinha uma visita, mas no reconhecia o carro. Sabia que no era Mike nem Julie. Nenhum deles tinha um Honda e estava certo de que nenhum deles viria procur-lo ali. 
Tambm no era ningum que vivesse para aqueles lados. A estrada acabava a poucos quilmetros dali e nenhum dos vizinhos conduzia um Honda.
0 certo  que algum viera. Tinha observado o carro ainda longe, a mover-se demasiado devagar, calculando que os ocupantes andassem  procura de alguma coisa. A 
inverso de marcha s servira para confirmar as suspeitas. Se a inverso tivesse sido devida a um erro, ou se algum andasse perdido, no haveria necessidade daquele 
abrandamento em frente da casa - e s em frente da sua casa - e da acelerao que se seguiu.
No, algum viera certificar-se do lugar onde ele vivia.
- 0 que  que ests a ver? - indagou Andrea.
Richard largou a cortina e voltou-se. - Nada - respondeu seca
mente.
0 lenol tinha descado, deixando-lhe o peito  mostra. Acercou-se da cama e sentou-se junto dela. Andrea tinha ndoas negras nos braos e Richard passou um dedo 
sobre elas, suavemente.
- Bom dia - saudou. - Dormiste bem?
 luz da manh, vestindo apenas umas calas de ganga, Richard tinha uma figura extica. Sensual. Que mal havia em ter sido um pouco bruto na noite passada?
Andrea afastou uma madeixa solta de capeio que me urina Laiuu sobre a cara. - Quando finalmente decidimos dormir, dormi bem.
- Tens fome?
- Alguma. Mas tenho de ir primeiro  casa de banho. Onde  que fica?, j no me lembro. Acho que ontem  noite estava um pouco tocada.
- E a ltima porta do lado direito.
Andrea saltou da cama, levando o lenol consigo. De pernas vacilantes, saiu do quarto. Richard ficou a v-la ir, a pensar que preferia que ela no tivesse passado 
ali a noite, e voltou para junto da janela.
Algum viera certificar-se do lugar onde ele vivia.
No foram o Henry ou a Mabel. Tambm conhecia as matrculas dos carros de ambos. Quem tinha sido, ento? Esfregou a testa.
Polcias? Sim, podia imaginar Julie a cham-los. No dia anterior revelara-se completamente irracional. Assustada e furiosa. E agora, alterando as regras do jogo, 
estava a tentar recuperar o domnio da situao.
Mas qual seria o agente a quem pedira auxlio? No seria a Pete Gandy. Disso tinha a certeza. Mas, e a outra, a agente nova? 0 que  que Gandy dissera a respeito 
dela? Que o pai dela era polcia em Nova Iorque?
Ficou a reflectir sobre o assunto.
A agente Romanello no acreditara na sua verso da altercao no bar. Lera descrena na maneira como olhou para ele. E era mulher.
Sim, decidiu que devia ter sido ela. E Gandy, estaria a apoi-la naquilo? No, pensou, ainda no. E tomaria as suas precaues, para que tal no viesse a acontecer. 
0 agente Gandy era um idiota. Podia ser manipulado com a mesma facilidade com que manipulara o agente Dugan.
Uma parte do problema estava solucionada. Ora, quanto a Julie...
Os pensamentos de Richard foram interrompidos por um grito vindo da parte de Andrea. Quando entrou no corredor viu Andrea rgida, de olhos esbugalhados, a tapar 
a boca com a mo.
No abrira a porta da direita, a que dava entrada na casa de banho. Estava a olhar para o quarto do lado esquerdo.
A cmara escura.
Voltou-se e olhou para Richard, como se o visse pela primeira vez.
- Oh, meu Deus - murmurava Andrea -, oh, meu Deus!...
Richard ps-lhe o indicador em cima dos lbios. - Chiu...
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r~~~~ yuaiiuu me viu aquela expresso.
- No devias ter aberto essa porta - ameaou Richard. - Eu
disse-te onde era a casa de banho, mas no me deste ouvidos.
- Richard? As fotografias...
Deu um passo na direco dela. - Estou muito... desapontado. Mais um passo atrs, um novo murmrio. - Richard!


Jennifer regressou  esquadra e ainda ficou com uns minutos livres. Graas a Deus, Pete ainda no tinha chegado. Dirigiu-se  secretria dele, sabendo que no dispunha 
de muito tempo. Apontou o nmero do telefone dos escritrios centrais do gabinete da ponte num pedao de papel, colocando o auto no arquivo a que pertencia. No 
havia necessidade, pelo menos para j, de o colega Pete saber o que ela andava a magicar.
Discou o nmero e foi atendida por uma secretria; depois de se identificar, Jennifer pediu para falar com Jake Blansen e ficou  espera.
Tratava-se do homem anteriormente mencionado por Mike.
Enquanto esperava, Jennifer recordou a si prpria que tinha de
agir com cuidado; a ltima coisa que desejava era fazer Richard
desconfiar do que ela andava a fazer. Tambm no lhe interessava que
Mr. Blansen ligasse para o chefe a reclamar ou lhe dissesse que aquele
tipo de informaes s era fornecido com ordem do tribunal. Nenhuma daquelas opes lhe seria til; por isso, resolveu usar a verdade com uma pequena distoro, 
como se estivesse apenas a tentar confirmar os dados do auto de priso de Mike.
Jake Blansen atendeu com a voz rouca de um sulista que andava h cinquenta anos a fumar cigarros sem filtro. Jennifer identificou-se como agente da esquadra de Swansboro, 
despachou a conversa mole habitual e fez um breve resumo do incidente.
- Nem quero acreditar que perdi as informaes respeitantes  priso e, como sou principiante, no quero meter-me em mais sarilhos. Nem desejo que Mr. Franklin pense 
que aqui somos uns desorganizados. Quero completar o auto, no caso de ele vir a ser necessrio mais tarde.
Continuou a cena da agente pouco inteligente e, embora estivesse a construir um castelo de areia, para no dizer pior, Mr. Blansen no pareceu reparar nisso, ou 
no se preocupou.
- No sei o que mais posso dizer-lhe - respondeu sem hesitao, a arrastar lentamente as palavras. - Sou apenas o encarregado.
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 provvel que tenha de talar com a auIiiiuisLI au.
dispem desse tipo de informaes sobre os consultores. A sede  em Ohio, mas a secretria poder dar-lhe o nmero.
Estou a perceber. Bom, talvez me possa ajudar.
No vejo como.
- Trabalhou com Richard Franklin, no  verdade? Como  que ele ?
Jake Blansen levou o seu tempo a responder. Finalmente, perguntou:
- Isto  a srio?
- Desculpe, porqu?
- Voc. Essa histria de ter perdido o auto. Estar a falar da esquadra. Tudo isto.
- Pois, compreendo. Se preferir, posso dar-lhe o nmero da minha extenso e o senhor liga para c. Ou vou a falar consigo.
Jake Blansen respirou fundo. - Ele  perigoso - disse, em voz baixa. - A empresa contratou-o porque ele consegue manter os custos baixos, mas f-lo  custa de cortes 
na segurana. Tivemos um
acidente por causa dele.
- Como  que foi?
- Corta na manuteno, as coisas partem-se, as pessoas magoam-se. Os inspectores do trabalho teriam muito que fazer aqui. Numa semana, foi uma das gruas. Na semana 
seguinte, foi a caldeira de uma das barcaas. Cheguei a informar a sede e prometeram-me que iam investigar. Mas julgo que ele descobriu e veio  minha procura.
- Agrediu-o?
- No... mas ameaou-me. De uma forma indirecta. Comeou a falar como se fssemos amigos, percebe? A perguntar-me pela mulher e pelos filhos, coisas assim. Para 
depois me dizer que se sentia muito desapontado comigo e que, se eu no tivesse cuidado, deixaria de me proteger. Como se tudo acontecesse por minha culpa, como 
se estivesse a fazer-me um grande favor ao tentar proteger-me. Ps o brao  volta dos meus ombros, a murmurar que seria uma desgraa se houvesse mais acidentes... 
A maneira como o disse deixou-me com a sensao de que estava a referir-se especificamente a mim e  minha famlia. Meteu-me medo e, para lhe ser franco, digo que 
fiquei encantado de o ver pelas costas. Passei o resto do dia a danar. E aconteceu o mesmo com toda a gente que trabalha aqui.
- Espere l... ele foi-se embora?
- Foi. Despediu-se. Teve de atender uma emergncia qualquer,
fora daqui, anunciou que precisava de dispor de algum tempo para
tratar de assuntos pessoais. Nunca mais o vi.
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#
r~ -v-- a Liiaii,aua ter sido devolvida  secretria, que lhe deu o necessrio nmero de Ohio, Jennifer desligou aquela chamada e telefonou para a sede da empresa. 
Foi passando de um funcionrio para outro, at finalmente ser informada de que a pessoa que a podia ajudar estava fora e s voltaria pela tarde.
Jennifer tomou nota do nmero e da pessoa a quem devia ligar - Casey Ferguson - e recostou-se na cadeira.
Richard era perigoso, dissera Blansen. Muito bem, mas isso j ela sabia. Que mais? Richard tinha deixado o emprego um ms antes; a ela e ao Pete tinha contado uma 
histria algo diferente. Em condies normais, no seria um dado muito importante, mas a altura em que se despediu no lhe passou despercebida.
Tinha-se despedido depois de ter regressado, solucionada a situao de emergncia. Tinha-se despedido depois de Julie lhe ter afirmado que nunca mais queria v-lo.
Uma ligao?
Viu Pete que entrava na sala pela porta situada na outra extremidade. No a vira sentada  secretria dele, o que a alegrou bastante. Ainda precisava de mais uns 
segundos.
Era, decididamente, uma coincidncia esquisita, em especial se tivesse em conta o que soubera naquela manh acerca do seu passado. Mas Julie, segundo ela prpria 
admitira, viu Richard poucas vezes e, embora lhe tivesse telefonado em diversas ocasies, nunca ficara muito tempo ao telefone.
Jennifer ficou a olhar pela janela, em profunda reflexo.
Ento, o que teria ele andado a fazer durante aquele tempo todo?


Mike parou a carrinha j dentro da oficina. 0 nevoeiro comeava finalmente a dissipar-se. Julie ficara de olhos baixos e Mike seguiu-lhe o olhar, at s biqueiras 
dos sapatos. Estavam cobertas por uma camada do orvalho do seu relvado e, quando percebeu para onde estava a olhar, Julie encolheu ligeiramente os ombros, como se 
dissesse: Acho que temos de aguardar e ver o que nos reserva mais este dia.
Nenhum deles tinha dormido bem, e ambos tinham passado a manh a mover-se lentamente. Durante a noite anterior, Mike no conseguia sentir-se confortvel e levantou-se 
quatro vezes para beber gua. Sempre que se levantava, dava consigo junto  janela, a espreitar para fora durante muito tempo. Julie, por sua vez, passara a noite 
a sonhar. Mesmo sem conseguir recordar-se dos pormenores dos so
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nhos, acordou com urna senso au u< .-        -~
deixou de aparecer e desaparecer durante o tempo que levou a vestir
-se e a tomar o pequeno-almoo.
Quando saiu do carro sentiu que ainda no readquirira o domnio
de si mesma. Mike abraou-a, deu-lhe um beijo e ofereceu-se para a acompanhar at ao salo, mas ela no aceitou a oferta. Entretanto, o Singer seguira de cabea 
baixa para o salo, em busca do seu biscoito
da manh.
- Eu fico bem - sossegou-o Julie. Parecia insegura e sentia-se
insegura.
- Eu sei - corroborou Mike, igualmente inseguro. - Daqui a pouco vou l espreitar para ver como ests, de acordo?
- De acordo.
Quando Mike entrou na oficina, Julie respirou fundo e atraves
sou a rua. A parte baixa da cidade ainda estava com pouco movimento - o nevoeiro parecia ter atrasado um pouco os relgios de
toda a gente - mas, a meio da rua, imaginou que um carro se dirigia para ela a toda a velocidade e correu para sair dali o mais depressa possvel.
No apareceu nenhum carro.
Logo que alcanou o passeio do outro lado, ajeitou a mala e voltou
a olhar para trs, tentando recompor-se. Pensou num caf; com um
caf ficaria bem.
Entrou no restaurante. A empregada encheu-lhe a chvena na
cafeteira acabada de tirar do lume. Acrescentou-lhe leite e acar, entornando um pouco em cima do balco e, ao pegar num guardanapo para limpar a mancha, teve a 
estranha sensao de estar a ser observada por algum postado no canto. Sentiu um n no estmago e olhou para l, esquadrinhando uma srie de compartimentos, alguns 
ainda sujos com os restos dos pequenos-almoos de clientes que j
tinham sado.
No estava l ningum.
Cerrou os olhos, sentindo-se prestes a chorar. Saiu do restaurante
sem se despedir.
Era cedo. 0 salo s abriria dentro de cerca de uma hora, mas
estava certa de que Mabel j l deveria estar. Quarta-feira era o seu dia de fazer o inventrio e de encomendar o que faltava, pelo que, logo que abriu a porta, 
viu-a a observar as prateleiras dos champs e amaciadores. Ficou com uma expresso preocupada logo que voltou a cabea e viu a cara de Julie. Ps de lado o bloco 
de aponta
mentos.
i
279
u teceu?        'i F"" "iu loram: - v que  que acon
- Pareo assim to mal?
- Richard, outra vez?
Como resposta, Julie mordeu o lbio e Mabel atravessou de imediato a sala para a abraar.
Julie respirou fundo, lutando para se dominar. No queria deixar-se vencer; para alm de se sentir aterrada, ultimamente parecia que estava sempre pronta a chorar, 
que no era capaz de fazer mais nada.
E estava exausta. Por isso, apesar de todos os esforos, sentiu as lgrimas a assomarem-lhe aos olhos e no tardou muito que estivesse a chorar nos braos de Mabel, 
a tremer, com as pernas e braos to fracos que, se a amiga a largasse, certamente cairia.
- V l, v l - murmurava Mabel. - Acalma-te... vai correr tudo bem...
No fez ideia do tempo que passou a chorar mas, no final, tinha o nariz vermelho e a maquilhagem estava borratada. Finalmente, quando Mabel a largou, s foi capaz 
de fungar e de pegar na caixa dos lenos.
Contou a Mabel o encontro com Richard nas imediaes da casa. Contou-lhe tudo o que ele dissera e o aspecto que tinha; relatou o pedido de ajuda  agente Romanello 
e a conversa que tiveram na cozinha.
Mabel ouviu com uma expresso de grande inquietao e de simpatia, mas no disse nada. Estremeceu ao ouvi-la mencionar o telefonema da Emma.
- Vou telefonar  Andrea - decidiu.
Julie ficou a v-la atravessar a sala e pegar no auscultador. Tentou mostrar um sorriso que, lentamente, quando se tornou evidente que Andrea no estava em condies 
de atender, foi dando lugar a um ar de profunda preocupao.
- De certeza j vem a caminho - atalhou Mabel. - Se calhar estar aqui dentro de poucos minutos. Ou talvez tenha decidido que este era um dos seus dias pessoais. 
Sabes como ela . De qualquer maneira, a quarta-feira no costuma ser um dia de grande movimento.
Ao ouvi-la falar, Julie pensou que Mabel estava a tentar convencer-se a si mesma.
280
Jennifer passou parte da manh, em que era suposto estar a acabar os relatrios de Pete, a fazer chamadas sub-reptcias para diversas empresas. As suas suspeitas 
estavam a confirmar-se. Todas as facturas tinham sido pagas por intermdio da empresa onde Richard trabalhava, RPF Industrial, Inc. Todas tinham sido pagas dentro 
dos prazos.
A partir daqueles dados, ligou para o gabinete da Secretaria de Estado, em Denver, Colorado, e ficou a saber que presentemente no havia qualquer empresa registada 
com aquele nome, embora tivesse existido uma RPF Industries, Inc. 0 registo fora cancelado havia cerca de trs anos. Agindo por palpite, ligou para a Secretaria 
de Estado de Ohio, em Columbus, para ficar a saber que a sociedade de Richard em Ohio tinha sido criada mais de um ms antes de ele comear a trabalhar para a firma 
JD Blanchard Engineering e apenas uma semana depois de a RPF Industries ter falido, no Colorado.
As chamadas para os bancos onde a sociedade tinha contas proporcionaram-lhe poucas informaes, embora tivesse ficado a saber que Richard Franklin no tinha contas, 
quer  ordem quer a prazo, em nenhum deles.
Continuando sentada  secretria, Jennifer ficou a reflectir sobre esta nova informao. Para ela, parecia evidente de Richard Franklin tinha fechado uma empresa 
para fundar outra com um nome parecido, num estado diferente, e que, a partir dessa data se decidira por um estilo de vida que no desse muito nas vistas. Ambas 
as decises tinham sido tomadas pelo menos trs anos antes. Uma situao esquisita. Sem contornos criminais, mas esquisita.
Apesar de ter comeado por pensar que poderia estar perante um esquema engendrado por causa de Richard ter tido problemas anteriores com a justia - a no ser assim, 
por que razo se dava ao cuidado de passar despercebido e, com tudo o que se estava a passar com Julie, a concluso era bvia -, agora j no pensava assim. Querer 
passar despercebido era uma coisa, outra, muito diferente, era tentar ser invisvel, e Richard Franklin podia ser encontrado com relativa facilidade por quem andasse 
 sua procura, incluindo a Polcia. Bastava consultar o relatrio do crdito e o endereo; l estava, bem  vista. Logo, que interesse poderia ele ter naquele jogo 
de
enganos?
No fazia sentido.
Verificou as horas, com a esperana de que a chamada para a firma JD Blanchard pudesse levantar um pouco aquele vu de mistrio.
Infelizmente, ainda teria de esperar mais umas horas.
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* * *
Pete Gandy dirigiu-se ao ginsio durante a hora de almoo e deu de cara com Richard Franklin, que estava na mesa de levantamento de halteres. Viu-o repetir o movimento 
seis vezes e repor o haltere no suporte; no era mau, embora nada que se pudesse comparar aos pesos que Pete Gandy conseguia levantar.
Quando Richard se sentou pareceu levar uns instantes a reconhecer o polcia.
- Viva, senhor agente, como est? Sou o Richard Franklin.
Pete Gandy aproximou-se. - Estou ptimo. Como  que se sente? Richard sorriu. - A melhorar. No sabia que frequentava este
ginsio.
- H anos que sou scio.
- Tenho andado a pensar em fazer-me scio. Hoje fiz uma inscrio provisria. Quer usar este haltere, enquanto eu descanso um pouco?
- Se no se importa. -  claro que no.
Um encontro casual, seguido de uma conversa sem importncia. Depois, passados uns minutos: - Oua, agente Gandy... - Trate-me por Pete.
- Pete - corrigiu Richard. - Verifiquei que me esqueci de lhe
falar num pormenor quando prestei declaraes, mas talvez o facto j
seja do seu conhecimento. Pode ser que o considere importante. - 0 que foi?
Richard explicou. Antes de se despedir, acrescentou: - Como disse, achei que devia saber este pormenor. Pode ach-lo importante.
Ao afastar-se, pensou no agente Dugan e na sua expresso quando abriu o casaco para lhe mostrar o ferimento. Idiota!
TRINTA E DOIS
Julie iria sempre recordar aquele dia como o ltimo em que a sua vida decorreu com alguma normalidade.
E normal no sentido genrico do termo, pois, desde h vrias semanas, nada lhe parecia normal. No salo, o Singer mostrou-se estranhamente nervoso, a andar sem descanso 
por entre as cadeiras, enquanto Mabel e Julie estavam a trabalhar. Os clientes apareceram, mas nenhum se mostrou muito falador. Julie supunha que aquela sensao 
se devia ao facto de no lhe apetecer estar ali (tambm no lhe apetecia estar em qualquer outro stio, a no ser que se tratasse de um lugar muito, muitssimo afastado) 
e de os clientes, especialmente as mulheres, notarem aquele seu estado de esprito.
A temperatura subira depois de o nevoeiro se ter dissipado e, para complicar tudo, a meio da manh o aparelho de ar condicionado deixou de funcionar, o que contribuiu 
para acentuar o ambiente opressivo do salo. Mabel prendeu a porta com um tijolo para a manter aberta, mas como soprava apenas uma brisa ligeira, no serviu de muito 
e ainda fez entrar mais calor. A ventoinha do tecto no era suficiente e, com o avanar da tarde, Julie, inundada de suor, parecia prestes a desmaiar. As faces pareciam 
irradiar brilho e puxava o tecido da blusa com gestos rudes, a tentar arrefecer um pouco a pele.
No voltara a chorar desde o abrao amigo de Mabel; quando Mike passou por l, tinha-se recomposto o suficiente para conseguir esconder o facto de se ter deixado 
abater outra vez. Odiava a forma como se deixara afundar naquela manh; gostava de imaginar que estava a conseguir enfrentar a situao com uma calma dignidade. 
Uma coisa era mostrar a Mike como na realidade se sentia, outra era deixar que as outras pessoas se apercebessem, mesmo os amigos. Desde a manh que Mabel lhe lanava 
olhares furtivos, como se estivesse preparada
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i,,-- aa a paia a wururrar uma vez mais. A amiga estava a ser prestvel mas, ao mesmo tempo e em primeiro lugar, aquela simpatia no deixava de lhe recordar como 
se sentia desamparada.
E Andrea. Ainda no aparecera. Depois de ter consultado a agenda
dela, verificou que Andrea s tinha marcaes para o final da manh,
dispondo, portanto de duas horas para se convencer de que a colega
tinha apenas decidido tirar uma manh de folga.
Mas,  medida que as horas foram passando e os clientes de An
drea comearam a aparecer, as preocupaes de Julie aumentaram.
Mesmo sem serem verdadeiras amigas, esperava que no lhe tives
se acontecido nada de mal. E rezava para que ela no estivesse com
Richard. Pensou em avisar a Polcia, mas o que  que tinha para
dizer? Que Andrea no tinha aparecido? Sabia que comeariam por
perguntar se a ausncia era um caso isolado. E Andrea sempre fora um pouco distrada quando se tratava de ir trabalhar.
Para comear, como  que Richard e Andrea travaram conheci
mento? Seria durante o corte de cabelo? Fora bvia a tentativa que ela fizera para se insinuar mas, tanto quanto lhe foi dado observar, Richard no correspondeu. 
No correspondeu porque os seus olhos estiveram sempre focados nela. Estivera concentrado nela da mesma maneira que o fez logo que Edna se afastou deles.
Andrea estivera com Richard, conforme Emma contara ao Mike. Acabo de o ver dar-lhe um beijo.
Emma telefonou apenas umas horas depois de se terem encontrado na mata. Alm disso, se estavam juntos em Morehead City, a meia hora de carro de Swansboro, Richard 
devia ter ido directamente para casa de Andrea, depois do encontro com ela. E fizera aquilo, pensou, logo a seguir a ter-lhe dito que a amava.
No fazia qualquer sentido.
Teria Richard sabido que Emma andava por perto? Embora se tivessem encontrado apenas uma vez, tinha a certeza de que Richard reconheceria Emma se a visse de novo, 
e ficou a pensar se ele no quisera deixar um recado, pois sabia que Emma no deixaria de relatar o que viu. S havia um problema: no conseguia perceber qual o 
sentido do recado. Se fora destinado a dar-lhe uma falsa sensao de segurana, estava redondamente enganado. No ia deixar-se apanhar uma segunda vez.
De forma alguma. Richard j no conseguia surpreend-la, fizesse o que fizesse.
Era, pelo menos, o que ela pensava.
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Jennifer estava ao telefone, a falar com Casey Ferguson, da firma JD Blanchard, a brincar com a caneta e o bloco de notas.
- Sim, com certeza - dizia Ferguson, continuando a empatar,
mas no devemos fornecer esse tipo de informaes. Os ficheiros de pessoal so confidenciais.
- Compreendo - respondeu a agente, a acomodar-se melhor na cadeira, fazendo o seu melhor para dar  voz o tom mais srio possvel. - Mas, como disse, estamos a meio 
de uma investigao.
- Temos acordos estritos de confidencialidade. As administraes dos estados americanos assim o exigem, quando assinam contratos connosco.
- Compreendo - repetiu Jennifer -, mas, em caso de necessidade, podemos obter ordem judicial para acedermos a esses ficheiros. No tenho qualquer interesse em ver 
a sua firma acusada de colocar
entraves  investigao.
- Isso  uma ameaa?
- No,  claro que no - atalhou Jennifer, mas reconheceu que tinha exercido demasiada presso, enquanto ficou  espera de que ele dissesse mais alguma coisa.
- Lamento muito no poder ajud-la - acabou por dizer Casey Ferguson. - Desde que haja um mandado do juiz, estaremos prontos a colaborar.
No instante seguinte, desligou, deixando Jennifer a praguejar baixo ao pousar o auscultador, a tentar descobrir o que poderia fazer em
seguida.
Nessa noite, em casa de Julie, Mike pegou-lhe na mo e levou-a para o quarto.
No faziam amor desde a noite em que encontraram Richard no bar. Apesar disso, nenhum deles mostrou um desejo premente. Agiram com lentido e ternura, com muitos 
beijos  mistura. Depois, Mike manteve-se abraado a Julie durante muito tempo, a passar os lbios lentamente pelo intervalo entre as omoplatas dela. Julie dormitou 
at que os movimentos de Mike a obrigaram a despertar. Estava escuro, mas ainda era cedo e Mike estava a vestir as calas.
- Aonde  que vais?
- Tenho de levar o Singer  rua. Acho que est a precisar. Julie espreguiou-se. - Quanto tempo  que dormi?
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- Desculpa.
- Gostei que dormisses. Foi agradvel ficar a ouvir a tua respira
o. Devias estar verdadeiramente cansada.
- Ainda estou - comentou com um sorriso. - Mas vou arranjar
qualquer coisa que se coma. Queres alguma coisa? - S uma ma.
- S isso? Nem queijo, bolachas ou coisa do gnero?
- No. Esta noite no sinto fome. S estou cansado.
Saiu da sala e Julie sentou-se, estendeu um brao para acender o
candeeiro e ficou a piscar os olhos enquanto as pupilas no se acomo
daram  luz. Levantou-se, abriu uma das gavetas da cmoda e tirou
uma T-shirt comprida, que enfiou pela cabea e foi vestindo enquanto
descia a escada para a casa de entrada.
Mike estava de p, enquadrado pela porta aberta,  espera do co; olhou-a pelo canto do olho quando Julie passou a caminho da cozinha. Ela abriu o frigorfico e 
tirou de l um iogurte, algumas bolachas com chocolate e uma ma.
Foi ao passar pela sala que viu o medalho; sentiu-se gelar. Estava na secretria, junto do calendrio, parcialmente escondido por uma pilha de catlogos e v-lo 
fez que se sentisse agoniada. 0 medalho trouxe-lhe  mente imagens de Richard: o olhar dele quando lho ofereceu, Richard a agarrar a porta num repente, Richard 
na clareira,  espera dela. No queria aquela jia dentro de casa mas, com tudo o que tinha acontecido, acabara por ficar ali esquecida.
Agora estava ali, em cima da secretria, e vira-a facilmente, sem a procurar. Sem que quisesse v-Ia. Como  que no tinha reparado nela antes?
No silncio, conseguia ouvir o tiquetaque do relgio, na parede atras de si. Pelo canto do olho via Mike encostado  ombreira da porta. 0 medalho reflectia a luz 
do candeeiro de secretria, conferindo-lhe um brilho sinistro. Percebeu que tinha as mos a tremer.
De sbito, pensou no correio. Sim, fora isso. Quando ps o correio em cima da secretria, deve ter feito deslocar o medalho. Engoliu em seco. Teria sido assim?
No sabia. S lhe interessava saber que no queria aquele objecto

em casa. Por mais que achasse a ideia ridcula, a jia parecia ter

adquirido poderes malficos, como se o gesto de lhe tocar fosse sufi

ciente para provocar o aparecimento de Richard. Mas tinha de ser.

Forou-se a caminhar na direco da jia, pegou-lhe e libertou-a

da pilha de catlogos. Era apenas um medalho, disse para si mesma.
Naaa inu15. iCliwu ---        -        i
veu guard-lo numa das suas gavetas para mais tarde o vender a um dos ourives locais, quando tudo estivesse solucionado de vez. No valeria muito, dado que tinha 
as suas iniciais no interior, mas m lhe daria qualquer coisa; num domingo que fosse  igreja, punha dinheiro no aafate das esmolas. No queria tirar benefcios 
daquela coisa e o dinheiro serviria uma boa causa.
Levou-o para o quarto e, ao abrir a gaveta, deitou-lhe um ltimo olhar. A decorao floral exterior parecia ter levado semanas a talhar por algum que, obviamente, 
gostava muito do seu trabalho.
Pensou que era uma pena. Teria muita sorte se conseguisse que lhe dessem 50 dlares por aquilo.
Quando comeou a arredar as roupas para um lado, sentiu necessidade de olhar o medalho uma vez mais. Em si, o medalho era o mesmo, mas havia qualquer coisa diferente. 
Qualquer coisa...
Sentiu um n na garganta.
No, no era possvel. Por favor... no...
Abriu o fecho do fio, sabendo que era a nica maneira de ter a certeza. Acercando-se do espelho da casa de banho, ps as duas mos  volta do pescoo, colocou o 
medalho e fechou o fecho.
Ento, ao olhar para o espelho, tentou apelar a todas as suas foras para resistir ao que j era evidente. 0 medalho, que antes ficava entre a parte superior dos 
dois seios, ficava agora cinco centmetros mais acima.
Vou arranjar um fio mais curto, dissera Richard. Desse modo, passas a us-lo sempre que te apetea.
De repente, sentiu-se tonta, afastou-se do espelho, largando o fio
como se o metal estivesse a escaldar-lhe os dedos. 0 medalho tom
bou por cima da blusa, antes de, com um som metlico, se despenhar
em cima dos mosaicos do cho.
No entanto, no gritou.
No, o grito no chegou nos dois segundos seguintes, s gritou
quando olhou para baixo, para o medalho cado.
Abrira-se ao bater no cho.
E, de ambos os lados, em fotografias escolhidas especialmente para
ela, Richard sorria-lhe.
JDesta vez, Jennifer Romanello no estava s quando veio a casa de ulie. 0 agente Pete Gandy estava sentado  mesa da cozinha, a examinar todos os presentes, sem 
se dar ao cuidado de esconder a sua
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---- w~ ~~~ava cru ciiua ua iiiesa e rete
estendeu a mo para lhe pegar.
- Bem, vamos l a ver se nos entendemos - comeou, ao abrir o medalho -, voc bate no tipo e, como vingana, ele d a Julie um par de fotografias dele. No entendo.
Mike cerrou os punhos por debaixo da mesa, a conter-se para no explodir.
- J lhe expliquei. Ele tem andado a assedi-la.
Pete assentiu mas continuou a olhar para as fotografias. - Pois . Voc continua a dizer a mesma coisa, mas eu estou apenas a tentar ver se o caso pode ser visto 
de outros ngulos.
- Outros ngulos - repetiu Mike. - No consegue ver que a prova est diante dos seus olhos? Que ele esteve aqui?  um caso de entrada por arrombamento.
- Mas, segundo parece, no falta nada. E no h sinais de arrombamento. Quando chegaram a casa encontraram todas as portas fechadas, as janelas tambm. Segundo me 
disseram.
- No o acusmos de roubar nada! E no fao ideia de como o fez, mas entrou. Tudo o que tem de fazer  abrir os olhos!
Pete levantou as duas mos. - Vamos l, acalme-se, Mike. No h razo para se exaltar. S pretendo chegar ao fundo da questo.
Jennifer e Julie estavam igualmente exaltadas, mas Pete informara Jennifer de que iria resolver aquele caso de uma vez por todas e que ela devia manter o bico calado. 
A expresso dela era um misto de horror e fascnio mrbido, especialmente depois do que conseguira na investigao pessoal a que dedicara a manh. Como era possvel 
que o homem fosse to cego?
- Chegar ao fundo da questo?
- Isso mesmo - respondeu Pete. Debruou-se para diante e voltou a pr o medalho em cima da mesa. - No quero dizer que tudo isto no me parea um pouco suspeito, 
porque parece. E, se Julie est a dizer a verdade, Richard Franklin tem um pequeno problema que vai exigir uma visita minha.
As feies de Mike endureceram. - Ela est a dizer a verdade - deixou escapar por entre os dentes cerrados.
Pete ignorou o comentrio e olhou para Julie, sentada do outro lado da mesa. - Tem a certeza de tudo o que disse? Tem a certeza de que Richard s pode ter posto 
as fotografias no medalho penetrando aqui em casa?
Ela acenou que sim.
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- E disse tambem que nao tocou Ile-c uicuauia~ uu.a=.
ltimas semanas?
- No toquei. Estava escondido debaixo de uma pilha de revistas, em cima da secretria.
- Por favor, Pete - atalhou Mike -, o que  que isso tem a ver com o problema que temos?
JPete continuou a ignorar os comentrios de Mike, no desfitando ulie e mantendo a expresso de dvida. - No teria ele disposto de outra ocasio para colocar as 
fotogra
fias no medalho? - persistiu. - Nenhuma outra ocasio?
Depois desta pergunta, registou-se um silncio estranho na cozinha. Pete continuou a fit-la e, perante aquele olhar de quem est seguro do que faz, Julie acabou 
por reconhecer que ele sabia. Sentiu
um aperto no estmago.
- Quando  que ele lhe disse? - indagou.
- Disse o qu? - interrompeu Mike. Quando, finalmente, Julie respondeu, f-lo em voz calma mas cheia de desprezo.
- Telefonou-lhe e disse-lhe que se tinha esquecido de mencionar um pormenor qualquer? Ou encontrou-se consigo, por mero acaso, e trouxe o assunto  baila?
Pete no disse nada, mas no era necessrio que o fizesse. Um movimento sbito, quase imperceptvel, de cabea deu a Julie a certeza de que uma das suas insinuaes 
estava certa. A ltima, provavelmente. Richard teria preferido fazer a revelao pessoalmente, desejaria que Pete estivesse a olhar para ele quando a fizesse. Para 
lhe ser mais fcil enganar o polcia.
Entretanto, Mike olhava ora para Pete ora para Julie, a tentar perceber do que  que eles estavam a falar. Havia entre eles um canal de comunicao secreto, um meio 
de comunicao que o fez sentir que estava a perder por completo o domnio da situao.
- Quer fazer o favor de se limitar a responder  pergunta? - insistiu Pete.
Contudo, Julie no respondeu de imediato. Continuou a trocar olhares com o polcia.
- Ela j respondeu  pergunta! - interps Mike. - No h
forma...
Julie mal o ouviu. Em vez disso, voltou-se para a janela, e olhou as
cortinas com ar absorto.
- Sim - admitiu, com uma voz neutra. - Houve uma altura
em que o poderia ter feito.
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~,        o-uiaii(-ciuas erguidas. - quando
passou aqui a noite, quer voc dizer?
- 0 qu? - bradou Jennifer, boquiaberta.
0 brado de Jennifer pareceu fazer eco em Mike: - 0 qu? Julie virou-se para o encarar.
- Mike, no aconteceu nada entre ns - explicou calmamente.
- Nada de nada. Vinha de assistir ao funeral da me, estava pertur
bado e conversmos. Apenas conversmos. Ele acabou por adormecer
no sof.  a isso que Pete se est a referir.
Embora tudo o que disse fosse a pura verdade, quando voltou a
olhar para Pete, pela expresso do polcia verificou que Richard tinha
insinuado qualquer coisa totalmente diferente.
E Mike, notou Julie, tambm verificou o mesmo.


Richard baixou a mquina fotogrfica. Equipada com uma teleob) . ectiva, a cmara podia servir de culo improvisado, que lhe havia permitido observar Mike e Julie 
desde que tinham chegado a casa ao princpio da noite. Ou melhor, observara aquilo que as cortinas de gaze permitiam. Durante o dia era impossvel ver qualquer coisa 
mas,  noite, quando as luzes iluminavam o interior da casa, podia observar sombras e isso era tudo aquilo de que necessitava.
Esta seria a noite em que ela iria encontrar as fotografias. Depois de se ter encontrado com Pete Gandy, tivera de colocar o medalho numa posio melhor, para estar 
certo de que ela o veria em cima da secretria.
Sabia que era uma aco miservel, mas no havia outra soluo. Chegara a altura de acabar, de uma vez para sempre, com aquele pequeno capricho entre ela e o Mike.
Depois de ter acompanhado os polcias at  sada, Mike deixou-se ficar com as duas mos apoiadas na porta, como se estivesse para ser revistado. Tinha a cabea 
descada sobre o peito e Julie podia ouvir-lhe a respirao pesada. 0 co deixou-se ficar por perto, olhando-o com curiosidade, como se estivesse a ponderar se aquela 
posio se referia a um novo tipo de brincadeira. Mike no conseguia encarar os olhos de Julie.
- No me disseste nada, porqu? - inquiriu, levantando um pouco o queixo.
Ainda de p no meio da cozinha, Julie no olhou para ele. - Sabia que ficarias zangado...
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MlKe resroleguu, ucas cia piusx~uiu bido.
- Mas, pior do que isso, sabia que ia ferir os teus sentimentos e no havia razo para que isso acontecesse. Juro-te que no aconteceu nada. A nica coisa que ele 
fez foi falar.
Mike endireitou-se e virou-se para ela, com uma expresso de fria contida, dura.
- Isso aconteceu na noite da nossa primeira sada, no foi?
Tambm foi, recordava-se agora, a noite em que tentou o primeiro beijo, que ela recusou.
Julie aquiesceu. - Uma ocasio bem escolhida, no foi?
No era a melhor altura para estar com piadas e arrependeu-se logo de seguida. Deu um passo em frente. - No sabia que ele ia passar por aqui. Estava a pensar ir 
para a cama, quando ele bateu  porta.
- E depois? Deixaste-lo entrar, assim, sem mais nem menos?
- No foi nada disso. Tivemos uma discusso porque eu lhe disse que nunca mais queria v-lo. A discusso aqueceu um pouco e ento
o Singer...
Parou. No queria entrar em mais pormenores. No queria mais falar do assunto, porque no fazia qualquer sentido.
- 0 Singer fez o qu?
Julie cruzou os braos e encolheu os ombros. - 0 Singer mordeu-lhe. Quando tentei fechar a porta, ele estendeu a mo para a segurar e o Singer saltou e abocanhou-lhe 
o brao.
Mike olhou-a de frente. - E pensaste que nada disso tinha importncia, que no valia a pena contares-me? Mesmo depois de tudo o que tinha acontecido nessa noite?
- Foi isso mesmo - lamentou-se Julie. - No teve qualquer importncia. Disse-lhe que no o queria ver mais e ele ficou perturbado.
Mike cruzou os braos. - Vamos l ver se eu entendo. Ele bate  porta, tens uma discusso com ele, o Singer morde-lhe o brao e, depois disso tudo, convida-lo a 
passar aqui a noite. Corrige-me se estou enganado, mas a tua histria no faz assim muito sentido.
- Mike, no sejas assim. Por favor...
- No sou assim como? Como algum que fica chateado quando
tu lhe mentes?
- Eu no te minto.
- No? Ento, o que  que chamas a isto?
- No te contei porque no interessava. No teve qualquer signi
ficado e no aconteceu coisa nenhuma. 0 que est a acontecer no tem
nada a ver com aquela noite.
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- y uI~ ucu sucia, auUIC
a melhor maneira de te perseguir.
- Mas eu no fiz nada, para alm de ficar sentada a ouvi-lo! Mike no replicou, mas Julie sentiu o seu olhar acusador.
- No acreditas? - perguntou. - 0 qu? Tu pensas que eu fui
para a cama com ele?
Ele deixou a pergunta no ar durante uns instantes. -j no sei o que hei-de pensar.
Julie vacilou. Em parte, sentia vontade de reagir com violncia e imediatamente, de o invectivar, de o mandar embora, mas, com as palavras de Richard a ressoarem-lhe 
dentro da cabea, resistiu a reaces instintivas desse gnero.
Aposto que nem lhe disseste que me deixaste passar uma noite em tua casa. Como  que achas que ele vai reagir, quando souber uma novidade dessas?
Percebeu, de sbito, que tambm isto fazia parte do plano de Richard. Estavam a ser manipulados por ele, como j acontecera com Pete Gandy. A forma como ele agira 
no Clipper. Respirou fundo, fazendo um enorme esforo para falar com voz calma, sem se deixar perturbar pela raiva.
- Mike,  isso que pensas de mim? Que dormi com um homem que mal conheo, no prprio dia em que lhe disse que no o queria ver mais? Depois de te ter dito que nem 
sequer gostava do homem? Depois de me conheceres h tantos anos, acreditas realmente que eu sou capaz de fazer coisas dessas?
Mike encarou-a sem pestanejar. - No sei.
As palavras caram fundo e Julie sentiu os olhos hmidos de lgrimas. - No fui para a cama com ele.
- Talvez no - acabou Mike por concluir. Voltou-se para a porta. - Mas no evita a mgoa de no teres confiado em mim numa situao dessas. Especialmente depois 
de tudo comear a acontecer.
- Eu confio em ti. S no quis magoar-te.
- Acabaste de fazer isso mesmo - respondeu Mike. - Acabaste de o fazer.
Dito isto, estendeu a mo para a porta e abriu-a e, pela primeira
vez, Julie apercebeu-se de que ele se ia embora.
- Espera... onde  que tu vais?
Mike ergueu as mos. - Preciso de algum tempo para reflectir
sobre isto, est bem?
- Por favor, no vs. No quero ficar sozinha numa noite destas.
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rie paiuu p
a
a cabea, saiu.
Richard observou Mike a descer o caminho e a bater com a porta quando entrou na carrinha.
Sorriu, sabendo que Julie tinha finalmente descoberto a verdade acerca de Mike. Que no podia contar com ele. Que Mike era uma pessoa que reagia impulsivamente, 
ao sabor das emoes e sem raciocinar. Que Mike no era digno dela, nem nunca fora. Que precisava de algum mais forte, mais inteligente, algum to grande como 
o seu amor.
Em cima da rvore, mal conseguia aguardar o momento de a tirar daquela casa, daquela cidade, daquela vida em que ela se deixara aprisionar. Voltando a erguer a cmara, 
ficou a observar a silhueta de
Julie atravs das cortinas da sala. Em Julie, at a sombra era bela.
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TRINTA E TRS
- Ela fez o qu? - perguntou Henry.
- Tu ouviste - respondeu Mike. - Deixou-o passar a noite l
em casa.
Nos quinze minutos de que precisara para chegar a casa do irmo, Mike foi ficando cada vez mais furioso. Encontravam-se os dois de p, no quintal da frente. Emma 
abrira a porta uma vez, para perguntar o que se passava, mas Mike tinha deixado uma frase a meio e ficado a olhar para a cunhada, convencido de que ela j sabia 
o que Julie tinha feito. Henry limitou-se a erguer a mo.
- Emma, espera um minuto, se fazes favor. De momento, o Mike est muito perturbado.
Antes de se voltar para entrar em casa, a mulher lanou-lhe um olhar que dizia claramente: Vou fechar a porta, mas fico  espera de um relatrio completo, um pouco 
mais tarde. Henry voltou-se de novo para o irmo.
- Foi ela que te disse isso? - perguntou.
- Foi, na presena dos polcias...
- Espera a - atalhou Henry -, os polcias estavam l?
- Saram h pouco.
- Qual o motivo de terem l ido?
- Por causa do medalho. Richard ps fotografias dele l dentro. Que raio  que eu hei-de fazer depois disto?
Henry tentava perceber, mas sentia-se cada vez mais baralhado. Acabou por agarrar o irmo por um brao.
- Vamos, acalma-te. Acho melhor comeares pelo princpio.
* * *
- Ento, quanto tempo  que vais estar sem raiar coungu: inquiriu Pete Gandy.
JSeguiam lentamente pela baixa, no carro-patrulha, e Jennifer Romanello no dissera uma nica palavra deste que saram de casa de ulie.
Ao ouvir o som da voz dele, Jennifer voltou-se para a janela.
- Continuas zangada comigo por causa do Mike Harris? - perguntou Pete. - Se  isso, tens de aprender a ultrapassar este tipo de coisas. 0 nosso trabalho nem sempre 
 fcil.
A colega olhou-o com uma expresso de desgosto. - Pode no ser fcil - concordou -, mas tambm no precisavas de fazer figura de parvo.
- De que  que ests a falar? Eu no fiz figura de parvo.
- No? Ento para que serviu aquele pequeno comentrio que fizeste em frente de Mike? No havia nenhuma necessidade de o fazeres.
- Referes-te ao facto de Richard ter l passado a noite?
Ela no respondeu, mas tambm no era preciso. At Pete era capaz de perceber que aquele era o facto que a preocupava.
- Qual o motivo de estares to perturbada com isso? Foi verdade, no foi?
Jennifer decidiu que nunca deixaria de sentir desprezo por aquele tipo.
- Mas no era necessrio dizer aquilo em frente do Mike - retorquiu. - Podias ter levado Julie para um canto para fazeres a pergunta. Ela poderia explicar tudo ao 
Mike, mais tarde.
- Qual  a diferena?
- A diferena  que apanhaste os dois desprevenidos e, de caminho, deste origem a uma tremenda discusso.
- E depois? No tenho culpa de eles no serem honestos um com o outro. S estava a tentar chegar ao fundo da questo.
- Pois estavas - aquiesceu Jennifer -, e essa  outra habilidade. Como  que descobriste onde ele tinha passado aquela noite? Falaste
com Richard, ou qu?
- Sim, por acaso falei. Quase tropecei nele, no ginsio. Parece-me
ser um tipo porreiro.
- Um tipo porreiro.
- Sim - disse Pete, parecendo adoptar uma atitude de defesa. - Em princpio, no vai apresentar queixa, o que quer dizer alguma coisa, no achas? Pretende pr toda 
a questo para trs das costas, esquecer-se de tudo. Tambm no quer prosseguir com a aco cvel.
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7uw        yuc iccionavas por-me ao corrente disso tudo?
- Pr-te ao corrente de qu? Como te disse, o caso ser encerrado e, alm disso, no  da tua responsabilidade. Tu ainda ests a aprender a msica.
Jennifer fechou os olhos. - 0 problema  que Richard anda a assediar a Julie, que tem um medo de morte. Ser que no consegues ver isso?
Pete abanou a cabea. - Vamos a ver, Richard falou-me do medalho, percebes? Mencionou-o para o caso de acontecer uma coisa deste gnero e disse-me que colocou l 
as fotografias na noite que passou com ela. E recorda-te que a prpria Julie declarou que no olhara para o medalho desde essa altura. Ento, quem  que estar 
a mentir?
- E no te preocupas com todas as outras coisas que ela disse? Por ele andar a segui-la? No te passa pela cabea que h coincidncias a mais neste caso?
- Eh! - protestou Pete -, j falei com aquele homem por diversas vezes...
Foi interrompido pelo rudo do rdio. Ainda a fitar Pete intensamente, Jennifer esticou-se e pegou no microfone.
Sylvia, uma telefonista com vinte anos de servio, que conhecia praticamente todos os habitantes da cidade, falou como se no fizesse a mnima ideia do que deveria 
pensar.
- Acabmos de receber a chamada de um camionista que est na estrada. Diz que viu algo de estranho na valeta e pensou que seria melhor mandarmos l uma viatura.
- E pareceu-lhe que era o qu?
- No esclareceu. Pareceu-me que estava com pressa e que no desejava ficar por ali para ter de responder a perguntas. Est  sada da estrada 24, cerca de quatrocentos 
metros adiante da estao de servio da Amoco, no lado norte da estrada.
- Vamos dar uma vista de olhos - respondeu Jennifer, feliz por aquele acontecimento que obrigara Pete a calar-se.
Mike sara h meia hora e em casa vivia-se uma quietude esquisita. Julie percorreu todas as divises, a verificar se todas as portas e janelas estavam fechadas, 
e depois regressou  sala, que ficou a calcorrear de uma ponta  outra, sempre acompanhada pelo co. L fora, ouvia-se o barulho das asas dos grilos e as folhas 
das rvores agitadas
pela brisa.
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alie cruzou os braos e ricou a urrar vaia a Y-- ' b
ao seu lado, descansando a cabea na perna dela. Ganiu passado algum tempo e Julie confortou-o com umas festas no lombo. Como se soubesse o que estava a acontecer, 
no a tinha largado um segundo depois de Mike se ter ido embora.
Ela tinha a certeza de que Richard no pusera as fotografias no medalho na noite que passara ali em casa. Por amor de Deus, o homem vinha de um funeral! E era plausvel 
que andasse com duas fotografias pequenas de si prprio, prevendo a possibilidade de conseguir coloc-las no medalho, enquanto ela estava a dormir no quarto ao 
lado?
Nem pensar.
No, ele tinha estado ali. Tinha invadido a casa dela. Bisbilhotara, abrira gavetas, remexera nas suas coisas. 0 que implicava que conhecia a maneira de entrar.
E que podia faz-lo de novo.
Sentia um aperto na garganta s de pensar nisso; correu para a cozinha, pegou numa cadeira e colocou-a a servir de tranca, apoiada por baixo do puxador da porta.
Como pudera Mike deix-la sozinha? Com Andrea desaparecida e Richard  volta da casa? Onde encontrara coragem para a deixar sozinha numa noite daquelas?
No lhe tinha contado o que acontecera com Richard. E depois? No aconteceu nada!
No entanto, Mike no acreditara nela. Estava zangada com ele por isso, alm de muito magoada. No era noite para se deixar uma pessoa ao abandono...
Dirigindo-se para o sof, Julie comeou a chorar.


- Acreditas nela? - perguntou Henry.
Mike percorreu a rua com os olhos e respirou fundo. - No sei. 0 irmo encarou-o com ar severo. -  claro que acreditas.
- No, no  nada claro - retorquiu Mike. - Como posso saber
se nem estava l?
- Porque conheces a Julie - contraps Henry. - Es a pessoa
que a conhece melhor.
Depois de reflectir durante algum tempo, os ombros dele descon
traram-se um pouco. - No - concluiu -, no penso que a Julie
tenha dormido com ele.
Henry no lhe respondeu de imediato.
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- Ela mentiu-me.
- No, nada disso. S no te contou. -  a mesma coisa.
- Ai isso  que no . Julgas que conto tudo  Emma? Especial
mente coisas sem importncia?
- Isto teve importncia, Henry. - Mike, para ela no teve.
- Como  que no teve? Depois de tudo o que tem estado a
passar-se?
Henry pensou que nesse ponto o irmo tinha alguma razo de queixa. Ela deveria ter-lhe dito qualquer coisa, mas, naquele momento, no havia interesse em discutir 
esse assunto.
- Ento, agora vais fazer o qu?
Mike levou muito tempo a responder. - No sei.
Richard conseguia ver a mancha de Julie sentada no sof. Sabia que estava a chorar e gostaria de estar junto dela, de a confortar, de afastar aquela mgoa. Levou 
o indicador aos lbios, como se tentasse acalmar um criana. As emoes tinham-se tornado suas, sentia toda
a solido de Julie, todo o seu temor, o seu corao arrasado. At agora, nunca se deixara comover pelas lgrimas de pessoa alguma.
Recordou que no se sentira assim ao ver a me chorar nos meses que se seguiram ao funeral do pai. No entanto, como tambm recordou, no fim acabou por odi-la.
Mike deixou Henry e dirigiu-se para casa, com a cabea ainda a andar  roda.
A estrada era uma mancha indistinta, de cada lado havia uma sucesso de imagens que parecia no reconhecer.
Voltou a pensar que Julie devia ter-lhe contado. Sim, teria ficado aborrecido, mas teria conseguido ultrapassar isso. Amava-a, e o que valia o amor se no existisse 
confiana e honestidade?
Tambm estava furioso com o irmo, por ele no dar importncia ao episdio. Talvez sentisse de maneira diferente se Emma o enganasse, como a Sarah lhe tinha feito 
uns anos antes. Gato escaldado at da gua fria tem medo, como diz o velho ditado.
Todavia, Julie no o tinha enganado. Quanto a esse aspecto, sabia que ela no estava a mentir.
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No entanto, se nao mentira, ramDCUI 11'aU 1u1111-11a L--- vu-.. -i-
tudo no passava disso. Confiana. No lhe restavam dvidas de que Julie teria contado ao Jim. Ento, por que motivo no lhe contara a ele, Mike?
Seria a sua relao to diferente da que tinha existido entre Julie e Jim? Dar-se-ia o caso de ela no confiar nele como confiara em Jim?
Dar-se-ia o caso de ela no o amar?


Empoleirado na rvore, Richard continuava a pensar na me.
Alimentara a esperana de que, morto o marido, ela se tornasse melhor, mais forte. Em vez disso, comeara a beber como uma esponja e a cozinha estava imersa numa 
neblina perptua, devido aos cigarros que ela fumava sem cessar. Depois tornara-se violenta, como se, para se recordar do marido, tivesse resolvido assumir os seus 
vcios. Da primeira vez que aconteceu, estava a dormir e acordou com uma dor excruciante, como se tivesse um fsforo a arder contra a pele.
A me estava de p, junto da cama, de olhos muito abertos, empunhando o cinto que fora do marido. Tinha-lhe batido com a ponta onde estava a fivela.
- A culpa foi tua! - gritava. - Estavas sempre a faz-lo zangar!
Bateu, uma e outra vez. Ele aceitava cada pancada, a implorar-lhe que no lhe batesse mais, tentando cobrir-se, mas ela continuou a vergast-lo com o cinto at ficar 
exausta e no conseguir mais mexer o brao.
Na noite seguinte, a me fizera o mesmo; s que, dessa vez, ele estava  espera dela e aceitara a tareia com a mesma fria contida com que costumava aceitar as surras 
do pai. Foi ento que soube que a odiava, embora tambm soubesse que, de imediato, no podia fazer nada para obrig-la a parar. No podia, dadas as suspeitas da 
Polcia acerca das circunstncias da morte do pai.
Nove meses depois, com as costas e as pernas cheias de mazelas, triturou os comprimidos para dormir da me e despejou o p no seu copo de vodca. A me adormeceu 
e nunca mais acordou.
Na manh seguinte, ficou um certo tempo de p, junto da cama da me, a pensar quo limitada fora a inteligncia dela. Embora suspeitasse de que o filho tivera algo 
a ver com a morte do marido,
no conseguiu convencer-se a si prpria de que lhe poderia vir a suceder o mesmo. A me deveria ter sabido que ele era suficiente
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i vU1C111a:
y. a uc ser reito. tambm a Julie
tinha tido fora suficiente para mudar a sua vida. Julie era uma lutadora.
Admirava-a por isso. Amava-a por ela ser assim.
Decerto chegara a altura de ela deixar de lutar. Richard tinha a certeza de que, a partir de agora, Julie ia perceber isso. Talvez no tivesse conscincia disso; 
iria perceber, mesmo sem ter perfeita conscincia do que estava a suceder. Agora que aquela farsa com o Mike tinha terminado, no existiam mais razes para adiar 
o inevitvel.
Lentamente, comeou a descer da rvore.


Os agentes Jennifer Romanello e Pete Gandy passaram pela estao de servio da Amoco e estacionaram o carro na berma da estrada. Depois de ligarem as luzes de emergncia, 
saram do carro.
A curta distncia, Jennifer via as luzes do posto de abastecimento, via carros a serem abastecidos nas bombas. Na estrada, os carros passavam a toda a velocidade. 
Aquele lado da estrada brilhava alternadamente com luzes azuis e vermelhas, que alertavam os motoristas para a presena deles ali.
- Vais naquele sentido - ordenou Pete, a apontar para as bombas de gasolina. - Eu vou por aqui.
Jennifer ligou a lanterna e iniciou a busca.


Sentada no sof, Julie continuava a chorar quando ouviu movimento do lado de fora da porta. 0 Singer arrebitou as orelhas e correu para a janela, a rosnar. Com o 
corao a bater apressado, olhou  volta,  procura de uma arma qualquer.
Quando o co ladrou, Julie saltou do sof de olhos muito abertos, sem reparar logo que o Singer estava a agitar a cauda.
Ouviu algum l fora, que a chamava pelo nome. - Julie! Sou eu, o Mike.
Acercou-se da porta e no perdeu tempo a remover a cadeira que
servia de tranca, sentindo um enorme alvio. Logo que Julie abriu a
porta, Mike olhou para ela e depois ps os olhos no cho. - Sei que no dormiste com ele - explicou. Julie aquiesceu. - Obrigada. - Mesmo assim, gostaria que falssemos 
sobre isso. - Pois bem, falaremos.
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Manteve-se calado durante algum tempos        ivic~cu a ~~        _ o
beiras e respirou fundo.
Finalmente, perguntou: - Terias contado ao Jimj ?
Julie hesitou. Era uma pergunta que nunca se lembraria de fazer a
si mesma.
- Sim - respondeu. - Ter-lhe-ia dito.
Mike concordou. - Tambm acho que lhe dizias. - ramos casados, Mike. Tens de perceber isso. - Eu sei.
- No tem nada a ver com aquilo que sinto por ti. Se me pergun
tasses se o teria feito quando namorvamos, a resposta seria no.
- De verdade?
- De verdade. No quis magoar-te. Amo-te. E, se soubesse as propores que o caso iria tomar, que acabaria por perder o domnio da situao, no tinha guardado segredo. 
Lamento.
- Eu tambm lamento. Por ter dito o que disse.
Julie avanou um pouco, como que a medo, e, quando viu que Mike no recuou, acercou-se mais e encostou a cabea ao peito dele. Sentiu-se abraada pelos braos dele.
- Gostaria de ficar aqui esta noite - disse Mike -, se no te importas.
Julie cerrou os olhos. - Tinha uma certa esperana de que falasses
nisso.
Richard interrompeu a operao quando viu Mike parar a carrinha em frente da casa dela; voltou a trepar para cima do mesmo ramo. Ficou a observ-los com uma expresso 
cada vez mais sombria.
No, pensava. No, no, no...
Como se vivesse um pesadelo, viu Julie cair nos braos dele; viu-o abra-la... No, aquilo no estava a acontecer, no podia estar a acontecer.
Mike regressara e eles estavam abraados. Como se se amassem mutuamente.
Richard procurou acalmar-se, recuperou o seu autodomnio. Cerrando os olhos, visualizou as fotografias que tirara a Jessica, as que tirara a Julie, os pssaros que 
fotografou; recitou lies sobre a maneira como focar uma cmara. Sobre objectivas e respectivas aberturas. Sobre o ngulo mais conveniente para o flash, sobre as 
propriedades
da luz...
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r wu~ ~~~a~icaua, voirou a abrir os olhos. -linha
readquirido o autodomnio, mas continuava a sentir a fria que lhe percorria o corpo.
Porqu? Como  que ela podia insistir nos mesmos erros?
Tentara ser simptico. Tentara ser justo. Tinha sido muito paciente com ela e com o seu amiguinho. Mais do que paciente.
Semicerrou os olhos. Teria ela alguma noo daquilo que estava a for-lo a fazer?


Jennifer fazia a luz da lanterna girar de um lado para o outro, tentando descobrir o que teria despertado a ateno do camionista.
A Lua estava baixa, ainda se encontrava abaixo da linha das rvores. 0 cu, l em cima, era pontilhado por milhares de estrelas. Movia-se com cuidado, a esquadrinhar 
a valeta. Nada.
A menos de dez metros da estrada, havia um pinhal denso. 0 terreno  volta das rvores estava coberto por uma camada de moitas e erva alta, onde a luz no penetrava.
Os carros continuavam a passar, mas mal reparava neles. Ia de olhos postos no cho, a caminhar lentamente. Com o mximo cuidado. Deu mais um passo e ouviu uma restolhada 
vinda do pinhal.
Levantando a luz, viu o reflexo de dois olhos. Parou, surpreendida, mas o alce virou-se de repente e desapareceu a correr.
Respirando fundo, baixou a cabea e continuou. A bomba de gasolina j estava perto e voltou a pensar naquilo que deveria procurar.
Passou ao lado de um saco de lixo atirado para ali, viu latas de alumnio e guardanapos acumulados no talude. Comeava a pensar se no seria melhor voltar e ir ajudar 
o Pete, que seguia na direco oposta, quando a lanterna iluminou qualquer coisa que, a princpio, a sua mente se recusou a identificar.
Quando finalmente o conseguiu, gritou.


Pete Gandy voltou-se logo que ouviu o grito e correu na direco de Jennifer. Chegou junto dela em menos de um minuto e viu-a debruada sobre um corpo. Ficou hirto, 
subitamente incapaz de se mexer.
- Chama uma ambulncia, imediatamente! - gritou Jennifer. Pete voltou-se e correu para o carro-patrulha.
302
I L1 tIQlluv        .1
jazia no cho. A face de uma mulher jovem estava cheia de sangue que
e deformada. Notava-se uma marca roxa, de aspecto repugnante, a
toda a volta do pescoo. Uma das mos ficara num ngulo esquisito, com o pulso obviamente partido. Jennifer pensou que estivesse morta, at estender a mo e sentir 
uma dbil pulsao.
Quando Pete regressou, deixou-se ficar ao lado da colega. Momentos depois, ao reconhecer a vtima, vomitou na beira da estrada.
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TRINTA E QUATRO
Na quinta-feira, pela manh, quando Julie chegou ao emprego tinha  sua espera os agentes Gandy e Romanello. Pelas expresses deles, percebeu imediatamente a razo 
da sua presena ali.
-  por causa da Andrea, no ?
Mabel estava junto deles, de olhos vermelhos e inchados. - Oh, querida! - exclamou, atravessando a sala para se abraar a Julie. - 0 Mike e o Henry j vm a caminho... 
- gemeu, sem conseguir parar de tremer.
- 0 que aconteceu?
- Ele bateu-lhe - disse Mabel, com voz sufocada. - Quase a matou... Est em coma... No sabem se vai conseguir safar-se... Durante a noite tiveram de a levar de 
helicptero para Wilmington...
Julie teve de fazer um esforo para dominar a fraqueza que sentia
nos joelhos. Momentos depois, Mike e Henry irromperam pela porta.
Mike viu Julie e Mabel antes de encarar os dois polcias. - 0 que  que ele fez  Andrea? - indagou. Jennifer hesitou. Como  que podia descrever uma
Ias? 0 sangue, os ossos partidos...
Por fim, foi Pete quem se decidiu a falar. - Muito mau. Nunca
tinha visto uma coisa assim.
Mabel rompeu de novo em soluos enquanto Julie lutava para no
chorar. Henry parecia incapaz de se mexer, mas Mike olhou Jennifer,
olhos nos olhos.
- J prenderam o Richard? - inquiriu. - No - respondeu Jennifer. - E por que no, com mil diabos?
- Por no sabermos se  ele o responsvel.
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- n claro que ror ele. buem mais puucua ia~u u w ~~ ~~ u dessas?
Jennifer ergueu as mos, a tentar manter o domnio da situao.
- Oua, sei que estamos todos perturbados...
-  claro que estamos perturbados! - bradou Mike. - Como no haveramos de estar? Ele continua  solta pelas ruas, enquanto as autoridades esto aqui a perder tempo!
- Espera l - atalhou Pete, levando Mike a voltar-se para ele.
- Espera l? Para comear, foste tu quem lixou isto tudo! Se no fosses estpido como uma porta, nada disto teria acontecido! Eu disse-te que o tipo era perigoso! 
Ns pedimos que fizesses qualquer coisa! Mas estavas to ocupado a brincar aos polcias duros que no conseguiste perceber o que se estava a passar.
- Vamos a ter calma...
Mike deu um passo na direco ele. - No me digas o que tenho de fazer! A culpa  tua!
Pete apertou os lbios at eles formarem uma linha fina e deu um passo na direco de Mike. Com um salto, Jennifer colocou-se entre os dois.
- Isso no serve para ajudar a Andrea! - gritou. - Para trs, os dois!
Mike e Pete no tiraram os olhos um do outro, de corpos ainda tensos. Jennifer no perdeu tempo.
- Ouam l... no sabamos o que estava a acontecer com Richard - disse, olhando para Mike e Julie. - Nenhum dos dois nos informou de que a Andrea tinha sido vista 
com ele; e s encontrmos a Andrea na noite passada, depois de termos sado de vossa casa. Estava j em coma, pelo que no houve maneira de sabermos quem a tinha 
posto naquele estado. Pete e eu estivemos no local onde foi encontrada quase at de madrugada e viemos aqui, logo pela manh, por sabermos que ela trabalhava c, 
no por suspeitarmos de qualquer coisa. S h menos de cinco minutos  que a Mabel nos ps ao corrente do que se passava entre ele e Andrea. Esto a perceber?
Mike e Pete continuavam a enfrentar-se, at que Mike desviou os olhos, respirando fundo e desculpando-se:
- Sim, j percebi. Estou muito perturbado. Peo desculpa.
Contudo, Pete no tirou os olhos de Mike. Instantes depois, Jennifer interpelou Julie.
- A Mabel informou-nos de que a Emma viu o Richard e a Andrea juntos, em Morehead City;  verdade?
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agresso daque
uuis aras. rvo aia em que o vi
na mata.
- De entre vs, ningum os tinha visto? Sabiam que andavam a namoriscar?
Foi Julie quem respondeu. - No. Ela nunca nos falou disso. S soube quando a Emma telefonou.
- Mabel?
- No. Nunca me falou no assunto. - E ontem no veio trabalhar? - No.
- No lhe pareceu estranho? Se sabia que ela tinha sido vista com
Richard, quero eu dizer?
- Decerto ficmos preocupadas, mas, quando se trata da Andrea, h que dar um certo desconto - explicou Mabel. - No foi a primeira vez que faltou ao trabalho. Ela 
 assim mesmo.
- Mas no costumava telefonar, ou coisa assim?
- s vezes. Nem sempre.
Jennifer voltou-se de novo para Julie. - Por que motivo no nos disse nada acerca do caso de Andrea e Richard quando eu e o agente Gandy fomos a sua casa, na noite 
passada?
- No pensei nisso. Estava demasiado preocupada com o medalho; e depois do que o agente Pete disse...
Jennifer assentiu, sabendo exactamente o que Julie queria dizer. - Seria possvel que a Emma viesse aqui ter connosco? Gostaria de ouvir o que ela tem a dizer.
- No  difcil - respondeu Henry. - Deixe-me fazer uma chamada.
Para ter a certeza de que ficava de posse de todos os dados, Jennifer voltou a colocar todos os eventos na devida sequncia, antes de passar s questes mais gerais: 
onde Andrea gostava de passar os tempos livres, quem eram os seus amigos, quaisquer outras pessoas que pudessem estar envolvidas. Era o procedimento normal num inqurito 
policial, pois a agente sabia que a falta de investigao de outros possveis suspeitos poderia ser usada em tribunal por um advogado de defesa empenhado em demonstrar 
que o seu cliente estava a ser perseguido pelos agentes da autoridade.
Julie sentiu dificuldades de concentrao quando procurou responder s perguntas seguintes. Preocupada como estava com o que tinha sucedido  Andrea, tambm no 
conseguia deixar de pensar que andava a ser seguida pelo Richard h vrias semanas. Que ele tinha estado em sua casa. E que podia ser ela a prxima vtima.
Finalmente, Emma chegou, de olhos vermelhos cie cnorar. jennuer repetiu o interrogatrio.
No adiantou nada em relao ao que Julie e Mabel j tinham declarado, com excepo de um pormenor importante: o local onde tinha visto Andrea e Richard juntos; 
foi  porta de um bar chamado Mosquito Grove, no cais.
Depois de ter interrogado Emma, Jennifer inspeccionou um dos lados da sala. - Importa-se que d uma vista de olhos ao posto de trabalho da Andrea? - perguntou. - 
Pode ter deixado alguma pista que nos d uma ideia de quando comeou a andar com Richard, ou se essa foi a primeira vez.
- No, faa favor - aquiesceu Mabel.
Jennifer levou pouco mais de um minuto a abrir as gavetas e a dar uma olhadela ao contedo. Fechou as gavetas e notou a fotografia de Andrea colada no espelho.
- Posso ficar com isto? Pode vir a ser necessria.
- Com certeza - assentiu Mabel.
A agente analisou a fotografia de Andrea, antes de a guardar. - Muito bem - acrescentou -, por agora  tudo.
Toda a gente pareceu concordar. Jennifer pensou que estava na altura de sair, mas, em vez disso, dirigiu-se para onde estavam Mike e Julie. Depois das horas que 
passara na cozinha com eles, comeava a consider-los quase como amigos.
- Desejo que ambos saibam - comeou -, que, se Richard foi o autor desta agresso, ento  um homem capaz de tudo. Foi a agresso mais violenta de que tenho conhecimento. 
Quase no h palavras para a descrever. Estamos perante um tarado. S quis ter a certeza de que ficavam bem cientes disso.
Mike engoliu em seco, sentia um n na garganta.
- Faam o que tm a fazer para estarem em segurana - aconselhou Jennifer. - Ambos.

A caminho da sada, Jennifer passou por Pete, mas nenhum deles falou. Tinha de estar-lhe grata, no s por ter-lhe permitido a conduo do interrogatrio mas tambm 
pelo ar resoluto que agora notava na expresso grave do colega.
Depois de entrarem no carro, Pete enfiou a chave na ignio mas recostou-se no assento, sem ligar o motor. Ficou a olhar em frente, sem parecer ver nada.
- Era ela quem me cortava o cabelo - acabou por admitir.
- A Andrea?
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- 3111. rui por isso que a reconheci, a noite passada.
Jennifer manteve-se em silncio, a ver Pete cerrar os olhos.
- No merecia o que lhe aconteceu - concluiu. - Ningum merece semelhante coisa.
A colega ps-lhe a mo no ombro, dizendo apenas: - Lamento.
Ele assentiu, com ar de quem queria apenas esquecer o que vira na noite anterior. Ps o motor em marcha.
- Julgo que  tempo de fazermos uma curta visita ao senhor Richard Franklin, no local de trabalho - disse, calmamente. - Se possvel, prefiro ca-lo desprevenido. 
No quero dar-lhe tempo para engendrar uma histria. Se for o homem que procuramos, quero faz-lo pagar. Com juros.
Jennifer juntou as duas mos no colo. 0 carro deslocava-se velozmente em direco  ponte; l fora, as rvores e os edifcios eram apenas manchas fugidias.
- No o vamos encontrar l - acabou por dizer. - Despediu-se h um ms.
Pete olhou para Jennifer. Tinha crculos escuros  volta dos olhos; no interior sombrio do carro, pareceu sentir a mesma fadiga que afectava a colega.
- Como  que sabes isso?
- Esta manh contactei o departamento de pessoal da firma JD Blanchard.
Pete continuou a olhar para ela. - Andaste a investig-lo?
- Sem carcter oficial.
Pete voltou a concentrar a ateno na estrada e encostou  berma, parando o carro  sombra de uma magnlia imponente. - No ser prefervel comeares do princpio 
e contares-me tudo o que tens andado a fazer? - perguntou, enquanto procurava a caneca de caf que tinha trazido pela manh. - E no te preocupes com possveis sarilhos: 
isto ficar s entre ns os dois.
Jennifer soltou um longo suspiro e comeou.


Dos que permaneceram no salo, Henry olhava para diante com ar absorto, Mike estava plido e Mabel no conseguia deixar de chorar. Emma parecia doente e sentava-se 
enroscada sob a proteco do brao do marido. Julie tinha cerrado os olhos e estava sentada no sof, a oscilar o tronco para diante e para trs.
- No posso acreditar - sussurrou Emma. - No consigo. Como  que ele pde fazer uma coisa daquelas  Andrea?
Ningum tinha resposta; Mabel ticou a olhar para os pes. - naiu
que vou a Wilmington para tentar v-la. No sei o que mais possa
fazer.
- A culpa foi minha - interrompeu Julie. - Naquele dia em
que ela lhe cortou o cabelo, devia t-la avisado, dizer-lhe que se
mantivesse afastada dele. Bem vi que ela se sentia atrada pelo Ri
chard.
- A culpa no  tua - protestou Mike. - No podias fazer nada
para evitar o que se passou. Se no fosse a Andrea, seria outra pessoa
qualquer.
Eu, por exemplo.
Mike aproximou-se dela. - Ela vai pr-se boa.
Julie abanou a cabea. - Como  que podes saber isso? No te
deites a adivinhar.
Pareceu mais impaciente do que desejaria e Mike virou-se para o
outro lado. No, no podia saber.
- S h uma coisa que me faz confuso - disse Julie. - Porqu
aqui? Qual o motivo da sua vinda para aqui, entre tantas cidades
possveis? E porqu a Andrea? No lhe fez mal nenhum.
- Ele  louco - redarguiu Mabel. - Quando o apanharem,
espero que o ponham atrs das grades durante muito, muito tempo. Se o apanharem, reflectiu Julie.
No silncio que se seguiu, Henry observou a rua e depois olhou
para Julie.
- A agente teve razo acerca do que h a fazer. No podeis ficar
aqui.
Julie levantou os olhos para ele.
- No  sensato, depois do que aconteceu  Andrea - continuou
Henry. - Se ele esteve na tua casa, no podes ficar aqui. No 
seguro, para nenhum de vs.
- E para onde  que havemos de ir?
- Para qualquer stio. H que desaparecer enquanto este tipo no
for apanhado.
Fez uma pausa. - Se quiserem, podem usar a casa da praia. No
vai encontr-los ali.
- Ele tem razo - acrescentou Emma. - Tendes de sair daqui.
- E se estiveres enganado? - inquiriu Julie. - E se ele me
encontrar?
- No consegue. A casa nem est registada nos nossos nomes.
Usamo-la a ttulo de usufruto, Richard no tem maneira de descobrir
que a casa nos pertence. Ningum l viveu nos ltimos dois meses,
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1        1-1 u-        3 wii iuuiuo que o leve a descontiar da sua existn
cia. Nem saber por onde comear a procurar.
- Fico numa pilha de nervos s de pensar em viver num stio
daqueles - objectou Julie. -  demasiado sossegado.
- Preferes ir viver para minha casa? - ofereceu Mike.
- No. Tenho a certeza de que ele tambm sabe onde tu vives. - Vo - interps Mabel. - 0 Henry tem razo. Isto aqui 
muito perigoso.
- E se ele nos seguir? E se ele estiver a observar-nos neste preciso momento?
Cinco pares de olhos dirigiram-se instintivamente para a janela.
- Levem o meu carro - alvitrou Henry. - No, levem o da Emma. E saiam j. Eu e o Mike vamos dar uma vista de olhos l por fora, para vermos se ele anda por a. Se 
no houver sinais dele, dirijam-se para a estrada e mantenham-se a rodar.  sempre em linha recta e conseguem ver se vai algum a perseguir-nos. Logo que chegarem 
a Jacksonville, faam uma srie de desvios malucos para terem a certeza de que no esto a ser seguidos. 0 mais importante  conseguirem afastar-se daqui antes que 
Richard se aperceba de que j c no esto.
- E quanto  Polcia? No devamos avis-los?
- Eu encarrego-me disso. Mas vo. E, seja o que for que decidirem, no vo a casa primeiro.
Momentos depois, Mike e Julie tinham desaparecido.


Jennifer levou quase dez minutos a descrever o que tinha conseguido averiguar: a estranha histria dos crditos, a nova empresa de Ohio para substituir a do Colorado, 
o desejo evidente de Richard no dar nas vistas, os comentrios de Jake Blansen acerca do perigo que o homem representava, para alm do facto de j no trabalhar 
para a firma JD Blanchard. Quando ela terminou, Pete ficou a batucar no volante e a acenar com a cabea, como a dizer que tudo o que ela dissera fazia perfeito sentido.
- Sabia que havia qualquer coisa de esquisito naquele gajo - comentou. - Mesmo no ginsio, pareceu-me demasiado escorregadio, percebes o que quero dizer?
Jennifer ficou a olhar para ele, sem proferir palavra. Apesar do alvio que sentia por lhe parecer que Pete acabara, finalmente, por perceber, mesmo mortificada 
por concluir que tinha de lhe meter tudo  fora na cabea, restava-lhe, pelo menos, a consolao de o ver do seu lado.
- Foi o que me constou - acabou por dizer.
- Mas, ento, se no est a trabalhar, onde  que se encontra? - No sei. Podemos tentar a casa dele. Pete assentiu. -  isso que vamos fazer.
Um quarto de hora mais tarde, Pete e Jennifer paravam no acesso  casa alugada de Richard. Ao sarem do carro, ambos abriram os coldres e ficaram a analisar o local.
Mais de perto, a casa parecia mais degradada do que quando era vista da estrada. As cortinas da frente estavam corridas. No havia sinais de qualquer veculo, embora 
existisse uma vereda, coberta de erva, que conduzia s traseiras da casa.
0 motor do carro-patrulha dava estalidos ao arrefecer. Um bando de estorninhos, a pipilar e a bater as asas, pareceu explodir das ramagens das rvores. Um esquilo 
passou a correr e procurou abrigo num dos ramos mais altos de um pinheiro. Nada mais, nenhum som. Nenhum sinal de movimento no interior das janelas.
- Parece que o nosso suspeito fugiu - murmurou Pete.
No, pensou Jennifer com uma certeza que a assaltou subitamente, ele ainda c est.
Richard estava escondido por entre as rvores, a observ-los. Estava fora de casa, a lavar o interior do carro - j fizera uma limpeza  casa, na tentativa de eliminar 
os sinais mais evidentes do que se passara naquela noite -, quando os ouviu chegar.
 certo que esperava aquela visita; s no a esperava to cedo.
Pete e Jennifer caminharam com todo o cuidado em direco  porta da frente, fazendo o soalho do alpendre ranger. Ficaram defronte da porta, com a pintura em mau 
estado, a olharem um para o outro, antes de Pete bater. Jennifer postou-se de um dos lados, a mo na coronha da arma. Ia olhando de relance para as cortinas,  espera 
do
mnimo movimento.
Ento, por puro instinto, sacou da arma.
Richard observou os movimentos dos polcias.
Fez uma inspirao longa, profunda, e internou-se mais no bosque, a reflectir sobre a rapidez com que se tinha estabelecido a ligao entre ele e Andrea.
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yciisuu, peio menos uma semana. Andrea deve ter contado qualquer coisa a algum, mesmo que lhe fosse ordenado que mantivesse a boca fechada. Tambm no era de descartar 
a hiptese de terem sido vistos juntos. No bar, talvez. Ou em Morehead City.
No interessava. J sabia que o seu tempo como Richard Franklin tinha chegado ao fim. 0 incidente com Andrea servira apenas para acelerar o desfecho inevitvel. 
Apesar dos seus esforos na limpeza, sabia que era impossvel eliminar todas as provas do que ele tinha feito  Andrea dentro daquela casa. A cincia forense moderna 
tem evoludo de tal maneira que um perito consegue identificar vestgios de sangue, ou um simples cabelo, uma das razes que o tinham levado a no se preocupar em 
esconder o corpo de Andrea. Se os polcias conseguissem uma ordem de busca - o que, na realidade, era apenas uma questo de tempo -, encontrariam tudo aquilo de 
que precisavam para o condenar.
S lamentava no ter podido dispor de mais uma hora para juntar as suas coisas. As cmaras e as objectivas estavam no interior da casa e no lhe agradava a ideia 
de partir sem elas. E as fotografias que tinha na pasta, especialmente as de Jessica. Sabia no ser provvel que a Polcia as pudesse usar para saber mais pormenores 
acerca de Jessica, pois tivera o cuidado de destruir todas as fotografias que pudessem conter qualquer pista que denunciasse os lugares onde tinham estado, mas no 
lhe seria possvel substitu-las.
Tambm lamentava ter perdido as de Julie, mas essas no o preocupavam tanto. Tinham o resto das suas vidas para suprir a falta das que agora eram deixadas para trs.
Gostaria de saber se Julie j estaria a par do sucedido com Andrea. Sim, era mais que provvel. 0 mais certo era aqueles polcias terem acabado de falar com ela. 
0 que  que ela iria fazer?
Fugiria, pensou de imediato. Como tinha fugido da me. Tentaria esconder-se e provavelmente levava aquele tonto com ela. De facto, era provvel que j tivesse fugido.
Mais uma razo para se pr a andar dali para fora.
Ficou a ponderar aquela opo. Se os polcias decidissem ver o que se passava nas traseiras da casa...
Era um risco, mas que alternativa tinha? Lentamente, comeou a caminhar em direco ao carro-patrulha.
- Vamos dar uma vista de olhos nas traseiras - sussurrou Jennifer. Na mo, a arma parecia-lhe estranhamente leve. - Tenho a estranha sensao de que ele ainda anda 
por aqui.
Pete assentiu e saram ambos do alpendre. Pete dirigiu-se para a vereda de gravilha mas, ao ver Jennifer seguir pelo outro caminho, hesitou um pouco, acabando por 
se decidir a seguir a colega. Deste lado, tinham de caminhar por entre as rvores, com os ramos a estalar debaixo dos ps. Ervas altas e mato roavam pelos uniformes, 
produzindo o som de raspar. Pararam junto s traseiras da casa. Jennifer seguia  frente e, bem encostada  parede, deu uma espreitadela para o outro lado.
0 carro de Richard encontrava-se ali, com a porta do lado do passageiro aberta.
Segurou a arma  frente do peito, de cano levantado, e fez um sinal naquela direco. Lentamente, Pete tirou a arma do coldre.
Jennifer espreitou outra vez, percorrendo o jardim com os olhos,  procura de sinais dele, e fez o sinal para Pete avanar. Deram a volta  esquina da casa, tentando 
no fazer rudo.
Passaram pelas janelas do gaveto.
Sempre  escuta...
Jennifer notou que at os pssaros estavam silenciosos.
Passaram o alpendre. Viram que a porta das traseiras da casa estava aberta. Ela apontou naquela direco e Pete acenou que sim e dirigiu-se para a casa.
0 carro j estava prximo. Vindo do interior, ouvia-se o som fraco do rdio, sintonizado numa estao de Jacksonville, a transmitir msica tradicional.
Jennifer parou, a olhar para ambos os lados. Ele andava ali por fora, pensou. E estava a observ-los.
A persegui-los. Como fazia com Julie.
Mentalmente, recordou o que tinha restado do rosto de Andrea. Olhando por cima do ombro, viu Pete no alpendre das traseiras, a aproximar-se da porta aberta.
Foi ento que ouviram o grito.
Foi um grito lancinante, angustioso e doentio, que quase levou Jennifer a puxar o gatilho da arma. Houve uma pequena hesitao, at trocar um olhar com o colega.
0 grito viera da parte da frente da casa.
Pete saltou do alpendre a comeou a correr pelo mesmo caminho
de onde viera. Jennifer seguiu-o. Rodaram a esquina e correram por
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CLl~1C us ramos oaixos cias rvores, com as folhas e os galhos secos a fustigarem-nos, procurando atingir a frente da casa.
Contudo, quando l chegaram, no viram nada.
Estava tudo exactamente como tinham observado minutos antes.
Separaram-se, com Pete a aproximar-se da frente da casa, enquanto Jennifer seguia em frente, penetrando no quintal.
Sentia a boca seca e a respirao ofegante, mas procurava manter-se calma. A curta distncia, avistou um macio de rvores baixas, rodeado de buxo, um esconderijo 
perfeito.
Desviou os olhos, mas voltou a olhar o macio. Sentia a arma a ficar escorregadia devido  transpirao das mos.
Devia estar ali, pensava. Est escondido, a aguardar que eu me aproxime para o ir buscar. Mais atrs, ouvia os passos de Pete na gravilha.
Jennifer ergueu a arma bem  sua frente, como o pai lhe ensinara.
- Mr. Franklin, sou a agente Jennifer Romanello e estou a apontar-lhe uma arma - chamou em voz alta e ntida. - Identifique-se e saia da, de mos levantadas.
Pete voltou-se ao ouvir a voz dela e, vendo o mesmo que ela estava a ver, comeou a andar na direco da colega, atravessando a vereda, Tal como ela, empunhava a 
arma.
Das traseiras da casa chegou-lhe o som de um motor a ser posto em funcionamento. 0 motor gemeu quando o acelerador foi carregado a fundo, com os pneus a fazerem 
as pedras saltar. Vindo do outro lado da casa, o carro dirigia-se velozmente para eles.
Pete ficou no meio da vereda; viu o carro uma fraco de segundo antes de Jennifer.
Percebeu que o condutor no tencionava abrandar.
0 agente ficou paralisado por um instante. Apontou a arma ao carro mas hesitou e, nessa altura, at Jennifer se apercebeu do que ia acontecer.
No ltimo instante, Pete mergulhou da vereda e o carro raspou por ele a toda a velocidade. Caiu de peito no cho, como um jogador de basebol a deslizar para a meta, 
no conseguindo segurar a arma.
Jennifer disps de uma fraco de segundo para apontar e atirar mas, devido ao mergulho de Pete e  m viso provocada pelas rvores, desistiu.
0 carro estrondeou em direco  estrada, fez a curva a derrapar e desapareceu da vista, deixando um rasto de gravilha a voar juntamente com os gases do escape.
Jennifer correu para Pete, que j estava a levantar-se e a procurar a arma na altura em que ela chegou ao p dele.
Passaram alguns segundos at conseguirem encontra-ia e, sem palavras, correram para o carro-patrulha. Jennifer abriu a porta do passageiro e sentou-se de um salto; 
ambas as portas foram fechadas simultaneamente. Com um gesto instintivo, Pete levou a mo  chave de ignio.
No estava l.
Foi ento que Jennifer reparou nos fios de ligao do rdio. Tinham sido arrancados do quadro de bordo.
0 som do motor do carro de Richard j nem se ouvia.
- Raios o partam! - berrou Pete, dando um murro no volante.
Jennifer pegou no telemvel e ligou para a esquadra. Como se tratava de uma cidade pequena e dispunha de poucos guardas de servio, no alimentava grandes esperanas 
de que conseguissem evitar que Richard se escapasse. Quando desligou, viu que Pete estava a olhar para ela.
- E agora, que fazemos?
- Vou entrar.
- Sem um mandado.
Jennifer abriu a porta e saiu do carro. - Ele tentou atropelar-te e  provvel que esteja a caminho de cometer outro crime. Julgo tratar-se de uma situao que nos 
d o direito de entrar. No achas?
Instantes depois, Pete Gandy seguia no encalo da colega.
Mesmo inundado de adrenalina e de frustrao, tinha de reconhecer que, quanto a aprender a msica, nunca conhecera ningum to rpido como Jennifer Romanello.


Mal entrou, Jennifer ficou surpreendida pela normalidade que se respirava naquela casa.
Pelo que via, aquela podia ser a casa de qualquer pessoa.
A cozinha estava impecavelmente limpa, o lava-louas brilhava  luz do sol, junto da cuba estava arrumado um esfrego bem dobrado. No havia tachos ou panelas em 
cima do fogo ou pratos sujos em cima da bancada. Se a fotografasse, ningum veria naquela cena nada de errado. Embora, sem dvida antiquada: o frigorfico parecia 
um ltimo modelo anunciado no catlogo da Sears distribudo logo a seguir  Segunda Guerra Mundial, e no havia mquina de lavar loua ou microondas - a cozinha 
era acolhedora, aquele gnero de cozinha que as crianas recordam quando pensam nos avs.
Jennifer avanou, passando por uma saleta que devia ter servido para tomar o pequeno-almoo. A diviso tinha uma luz fantstica, o
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~ I--- -avc~, uaa viuraas altas e enviava jorros de luz
dourada que se derramavam sobre o soalho. As paredes estavam forradas de papel com um padro floral bonito, amarelo-plido, com o tecto de madeira de carvalho a 
conferir  sala um certo ar de riqueza. A mesa era simples e as cadeiras encontravam-se muito bem arrumadas  sua volta.
Passou  sala de visitas, voltando a reflectir que no havia ali nada fora do comum. A moblia era vulgar e estava tudo nos devidos lugares. No entanto...
Levou algum tempo a aperceber-se do que estava mal.
No havia ali o mnimo toque pessoal, pensou. Nada. No viu fotografias ou pinturas nas paredes, no havia revistas ou jornais espalhados pela mesa, as plantas estavam 
ausentes. Nem sistema de alta-fidelidade, nem televisor.
Apenas um sof, mesinhas e candeeiros.
Jennifer analisou a escada. Atrs dela, estava Pete, de arma aperrada.
- Um bocado vazio, no achas? - opinou Pete.
Ela decidiu-se. - Vou l acima.
Pete seguiu-a. Chegados ao cimo, espreitaram o corredor e decidiram-se por virar  direita. Abrindo a porta, deram com a sala escura e carregaram no interruptor. 
De sbito, banhada pela luz avermelhada, Jennifer sentiu as pernas fracas; apercebeu-se do modo como Richard tinha ocupado o tempo desde que se despediu do emprego.
- Valha-nos Deus! - foi s que conseguiu dizer.


No querendo chamar a ateno sobre si, Richard abrandou logo que atingiu as vias principais.
Sentia o corao a bater forte, mas estava livre! Livre! Soltava sonoras gargalhadas ao lembrar que escapara quando a fuga parecia impossvel. Ainda estava a ver 
a cara dos polcias quando ele disparou a toda a velocidade pela vereda de acesso  estrada e sentia-se nas nuvens.
Era pena que Pete Gandy tivesse conseguido saltar do caminho. Mentalmente, conseguia sentir o som cavo e delicioso que o carro faria ao passar por cima dele mas, 
pouca sorte, Pete ainda poderia viver mais um dia.
Radiante, soltou outra gargalhada e comeou a concentrar-se no seu plano.
llnna ae livrar-se uu auwuwvu, 111a yu- - -
possvel de Swansboro. Entrou na estrada que vai dar a Jacksonville. Chegado ali, arrumaria o carro num stio onde no fosse encontrado
com facilidade e iniciaria a caada para encontrar Julie.
Jessica tambm fizera uma tentativa de fuga, recordou, e pensou que tomara todas as precaues. Tomou um autocarro que percorreu metade do pas e esperava que ele 
se limitasse a deix-la ir. Mas encontrou-a e, quando abriu a porta do quarto do motel decadente em que ela estava e a encontrou sentada na cama, Jessica nem se 
mostrou surpreendida de o ver. Tinha estado  sua espera e, no final, apenas conclura que a espera s servira para a desgastar. Nem teve energia para gritar. Quando 
lhe deu o medalho, limitou-se a p-lo ao pescoo, como se soubesse que no tinha alternativa.
Ajudou-a a levantar-se da cama, ignorando a letargia dos seus movimentos e rodeou-lhe a cintura com os braos. Afundou o rosto nos seus cabelos, sentindo-lhe o cheiro, 
enquanto Jessica, de braos cados ao longo do corpo se deixava abraar.
Sussurrou-lhe junto ao ouvido: - Nunca pensaste que eu desistia de ti com toda esta facilidade, pois no?
A resposta foi apenas um murmrio: - Por favor!
- Responde.
As palavras de Jessica saram, aos poucos: - No, sabia que nunca me deixarias fugir.
- Fizeste asneira, no fizeste?
Jessica comeou a chorar, finalmente a reconhecer aquilo que a esperava.
- Oh... por favor... no me batas... por favor, outra vez no...
- Mas tentaste fugir - bradou ele. - Isso magoou-me Jessica.
- Oh... meu Deus... por favor... no...


Pete Gandy ficou  entrada da sala escura, a pestanejar repetidamente, a virar a cabea de um lado para o outro como se tentasse registar tudo o que estava a ver.
Nas paredes estavam pregadas centenas de fotografias de Julie. Julie a sair do salo e a entrar no carro, Julie na mata a dar um passeio com o co, Julie a jantar, 
Julie no supermercado, Julie no alpendre das traseiras, Julie lendo o jornal da manh, Julie a recolher o correio, Julie na praia, Julie a caminhar pela rua. Julie 
no quarto.
Julie em todos os stios onde estivera durante o ms precedente.
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aia uciitiu ueia. mesmo que
estivesse  espera daquilo. Queria ficar ali mais tempo, sabia quanto era importante vasculhar o resto da casa  procura de provas palpveis de que Andrea tinha 
ali estado. Pete parecia petrificado, no passara da porta.
- No consigo perceber este tipo - murmurou quando a colega passou por ele. No segundo quarto, Jennifer encontrou o equipamento desportivo de Richard. Tinha um espelho 
na parede, rodeado de mais fotografias. Passou para a ltima porta, que julgou ser o quarto de dormir. Embora tivesse dvidas sobre a legalidade dos seus actos, 
decidiu dar uma vista de olhos enquanto esperava a chegada de reforos.
Aberta a porta, deparou com uma cmoda antiga, com todo o aspecto de ter sido abandonada por algum que vivera naquela casa. No guarda-fatos encontrou as roupas 
de Richard, arrumadas com todo o cuidado. Junto  parede, havia um cesto grande; o telefone estava no cho, junto da cabeceira da cama.
Mas foi a fotografia colocada na mesa de cabeceira que lhe chamou a ateno.
A princpio, pensou que fosse de Julie. 0 cabelo era o mesmo, os olhos a mesma mistura de azul e verde; mas no era Julie, conforme percebeu quase de seguida, mas 
algum parecido com ela. A segurar uma rosa junto da face, a mulher da fotografia era uns anos mais nova do que Julie, alm de mostrar um sorriso quase infantil.
Foi ao estender a mo para a moldura que reparou no medalho pendurado do pescoo da mulher. 0 mesmo medalho que Julie lhe havia mostrado na cozinha.
0 mesmo...
Tropeou num objecto qualquer; era pesado, embora fcil de deslocar. Olhando para o cho, viu o canto de uma pasta a aparecer de baixo da cama.
Trouxe-a para cima da cama e abriu-a.
L dentro viu dezenas de fotografias da mulher da moldura e
comeou a dar uma vista de olhos a todas elas.
Pete veio at junto dela. - 0 que ? - perguntou. Jennifer abanou a cabea.
- Mais fotografias.
- De Julie?
- No - concluiu Jennifer, ao virar-se para ele. - No tenho a certeza, mas julgo que devem ser de Jessica.
TRINTA E CINCO
No espao de quarenta minutos juntou-se em casa de Richard Franklin uma verdadeira multido de polcias de Swansboro e de xerifes do distrito de Onslow. A equipa 
de especialistas forenses, vinda de Jacksonville, tambm l estava, a colher impresses digitais e a procurar outras provas da presena de Andrea na casa.
Jennifer e Pete encontravam-se no exterior, a falar com o seu chefe, o capito Russell Morrison - um homem rude e forte, com o cabelo grisalho a ficar ralo e os 
olhos demasiados juntos. Por sua insistncia, os agentes foram obrigados a contar a histria duas vezes e Jennifer teve de lhe relatar tudo o que j tinha descoberto.
Quando ela acabou, Morrison no fez mais do que abanar a cabea com veemncia. Tinha nascido e crescido em Swansboro, considerando-se protector da cidade; na noite 
anterior fora das primeiras pessoas a chegar ao local onde Andrea foi encontrada, embora estivesse a dormir profundamente quando lhe ligaram para casa.
- Este  o mesmo tipo que foi agredido por Mike Harris no bar? Aquele que foi acusado de andar a assediar a namorada do Mike?
- Esse mesmo - respondeu Jennifer.
- Mas ainda no h quaisquer provas concretas que o relacionem com este crime?
- Ainda no.
- Falaram com os vizinhos da Andrea para saber se ele foi visto por l?
- No. Viemos directamente do salo para aqui.
Russell Morrison ficou uns instantes a analisar o que acabava de
ouvir.
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r a-- uc ter rugiuo nao significa que ele seja o homem que agrediu Andrea. E o mesmo acontece com todos os outros pormenores que me contaram acerca dele.
- Mas...
Morrison ergueu as duas mos para no os deixar prosseguir. - No estou a dizer que o considero inocente. Com mil diabos, ele tentou matar um polcia, uma coisa 
que no pode acontecer na minha rea. Olhou Pete com cuidado. - Tens a certeza de que ests bem?
- Sim. Apesar de chateado, sinto-me bem.
- Bom. Ests encarregado desta investigao, mas vou pr algum a ajudar-te.
Pete assentiu, mas, nesse preciso momento, a conversa foi inter
rompida por um grito de Fred Burris, um dos agentes que se encon
travam dentro de casa. Vinha a caminhar rapidamente para eles. - Meu capito! - chamou. Morrison virou-se para ele. - 0 que  que se passa? - Acho que encontrmos 
qualquer coisa - anunciou. - 0 qu?
A resposta de Burris foi simples e directa: - Sangue.


A casa de praia de Henry ficava na Topsail Island, uma tira de terra, a cerca de dois quilmetros da costa,  distncia de quarenta minutos de viagem de Swansboro. 
Coberta de dunas arredondadas, espinheiros e areias brancas, a ilha era um destino favorito das famlias durante a poca balnear, embora tivesse poucos habitantes 
permanentes. Durante a Primavera, os visitantes pareciam ter toda a ilha por sua conta.
Como sucedia com todas as casas das redondezas, o piso principal da casa fora construdo por cima da garagem e das reas adjacentes, onde eram guardados diversos 
artigos sempre que havia tempestades. Nas traseiras havia uma escada que dava directamente para a praia e uma janela com uma vista desafogada, que permitia observar 
as ondas a rebentar no areal.
Julie estava  janela, a observar o movimento incessante das ondas.
Nem ali conseguia descontrair-se. Ou sentir-se segura.
No caminho, ela e Mike tinham passado pelo supermercado e comprado gneros alimentares para uma semana; tambm pararam num armazm Wal-Mart e compraram roupa suficiente 
para se aguentarem durante vrios dias. Nenhum deles fazia a mnima ideia
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de quanto tempo
frequentar lugares pblicos, a menos que tivesse absoluta necessidade.
As cortinas estavam corridas em todas janelas, excepto numa; Mike tinha recolhido o carro de Emma na garagem, de forma a que no pudesse ser visto da estrada. Durante 
a viagem seguiram o conselho de Henry, tendo sado da estrada principal por trs vezes, s voltas por bairros inteiros, sempre a observarem o retrovisor para verificar 
se eram seguidos. Ningum viera atrs deles; tinham a certeza disso. Mesmo assim, Julie no conseguia libertar-se da sensao de que, fizesse o que fizesse, Richard 
acabaria por encontr-la.
Por detrs dela, Mike estava a arrumar os artigos de mercearia; Julie ouvia o rudo das portas dos armrios que ele ia abrindo e fechando.
- Talvez j o tenham apanhado - sugeriu Mike.
Julie no respondeu. 0 Singer acercou-se e aninhou a cabea no colo dela. A mo de Julie dirigiu-se automaticamente para a cabea do animal.
- Sentes-te bem?
- No - respondeu Julie -, no estou nada bem.
Mike assentiu. Pergunta estpida.
- Espero que Andrea esteja bem - continuou Mike.
Ao ver que Julie no respondia, olhou para o mar. estamos em segurana. Sabes isso, no sabes? Ele no tem maneira saber que estamos aqui.
- Eu sei.
Mas no estava assim to certa disso, sentia um medo to forte que deu consigo a afastar-se instintivamente da janela. Com aquele movimento, o co levantou-se e 
ficou atento.
- 0 que foi? - perguntou Mike.
Julie abanou a cabea. Na praia viam-se dois casais que caminhavam  beira da gua, mas em direces opostas. Uns minutos antes, tinham passado junto da casa, sem 
se dignarem olhar.
- Nada - acabou por responder.
-  uma bela vista, no ?
Julie baixou os olhos. Para ser franca, nem tinha reparado.


Morrison estava reunido com os subordinados junto da casa de Richard, a passar o caso em revista e a esboar um plano de aco.
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Lellaui UC au pCIu.au~. . Ju        ..- y
- Aqui,
de
procura do automvel, para ver se conseguimos encontrar este tipo - anunciou -, mas, entretanto, h uma srie de coisas que quero que faam.
Foi apontando os agentes com quem falava.
- Haroldson e Teeter: quero que vo at  ponte e falem com algum da equipa que possa ter alguma ideia do paradeiro deste homem. Onde costuma parar, quem so os 
seus amigos, o que gosta de fazer...
Thomas: quero que fiques aqui enquanto os especialistas forenses recolhem as provas. Assegura-te de que guardam tudo em sacos devidamente identificados... Este 
caso tem de obedecer a todas as normas...
Burris: quero que vs ao apartamento da Andrea e fales com os vizinhos. Quero saber se algum viu este tipo a entrar ou a sair do apartamento...
Johnson: o mesmo trabalho. Preciso que vs a Morehead City para saberes se algum poder confirmar que viu Andrea e Richard Franklin juntos...
Puck: preciso de que descubras se Andrea andou com algum capaz de a agredir daquela forma. E provvel que j tenhamos o nosso homem, mas sabem como so os advogados 
de defesa. Temos de investigar todos os presumveis suspeitos...
Voltou-se para Jennifer e Pete. - Tu e tu: quero que descubram tudo o que for possvel descobrir acerca deste tipo. Tudo.  vejam tambm se conseguem saber mais 
acerca de Jessica. Quero falar com ela, se for possvel.
- E quanto  intimao da firma JD Blanchard? - inquiriu Jennifer.
Morrison olhou-a nos olhos. - Deixa isso por minha conta.


Tal como Julie e Mike, Richard parou no supermercado. Depois de ter arrumado o carro no parque de estacionamento existente nas traseiras do hospital - onde no daria 
nas vistas que ficasse parado no mesmo stio durante vrios dias -, pegou nos sacos das compras e percorreu uns quarteires, at  casa de banho da estao de servio. 
Fechou a porta com cuidado. Olhando-se no espelho de m qualidade pendurado na parede, voltou a ser o homem metdico de sempre.
Nos sacos de plstico havia os artigos necessrios para ele operar a transformao, como j fizera antes: mquina de barbear, tesoura,
tinta para o cabelo, creme cie nronzear e uns u-1>
muito, mas era o suficiente para, visto de longe, parecer diferente; suficiente para, de imediato, se esconder, embora andando  vista de toda a gente. 0 suficiente 
para a encontrar.
Havia, contudo, o problema de saber para onde ela teria ido. Tinha a certeza de que Julie j no se encontrava na cidade. No salo ningum atendia o telefone e, 
quando ligou para a oficina, um dos lacaios de Henry disse que Mike tambm se fora embora.
Portanto, Julie tinha fugido. Para onde? Richard sorriu, sabendo que no tardaria a obter uma resposta. As pessoas cometem erros, por mais cuidadosas que tentem 
ser. E o erro dela, tinha a certeza disso, fora o seguinte: algum sabia exactamente onde Julie se encontrava.
Henry, Emma e Mabel provavelmente sabiam. E os polcias tambm no deixariam de saber. Teriam necessidade de falar com ela, de a informar sobre o que tinham descoberto, 
de a manter vigiada.
No tinha dvidas de que uma daquelas pessoas iriam conduzi-lo at  porta dela.
Assobiava baixinho ao empreender a tarefa de alterar o seu aspecto. Meia hora mais tarde, emergiu  luz do dia: mais louro, mais bronzeado, de culos e sem bigode. 
Um homem diferente.
Pensou que s precisava de arranjar um novo carro. Comeou a percorrer a rua, em direco  baixa, afastando-se do hospital.


De regresso  esquadra, o primeiro telefonema de Jennifer foi para o Departamento de Polcia de Denver, onde a chamada foi passando de uma pessoa para outra, at 
chegar ao inspector Cohen. Disse-lhe quem era e p-lo ao corrente da investigao; enquanto ia falando, ouviu o inspector soltar pequenos assobios.
- Pois bem - rematou Cohen -, vou ver o que posso fazer. No estou na minha secretria; por isso, desligue que eu ligo-lhe dentro de minutos.
Depois de desligar, olhou de relance para Pete. Estava ao telefone, a ligar para diversas companhias areas das reas de Jacksonville, Raleigh e Wilmington, a tentar 
descobrir se Richard tinha sado da cidade por via area na altura em que informara Julie de que fora assistir ao funeral da me. Em caso afirmativo, queriam saber 
aonde  que tinha ido, na esperana de que a informao os levasse junto de algum que lhes dissesse alguma coisa acerca do homem.
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~u ~a~l icic, seivuiao cie coordenador das informaes que eram transmitidas pelos agentes. Thomas ligara momentos antes: informara que os especialistas forenses 
tinham encontrado manchas de smen nos lenis e continuavam a vasculhar a cama para obterem provas adicionais.
Quando Cohen ligou, Jennifer levantou o auscultador logo ao primeiro toque.
- Dispomos de dados sobre diversos indivduos com o nome de Richard Franklin - informou. - No  um nome invulgar, pelo que o sistema nos revelou a existncia de 
vrios. Fale-me dele.
Jennifer forneceu-lhe uma descrio sucinta: altura olhos e do cabelo, idade aproximada, raa.
- Muito bem, espere um pouco.
Atravs do telefone chegavam-lhe os rudos que ele fazia a teclar no computador.
- Ah!
- 0 que ?
0 outro hesitou. - Julgo que no tenho qualquer informao com interesse para si.
- Nada? Nem mesmo uma priso?
- Com base nos elementos que me deu, no tenho. Temos registos de sete indivduos com o nome de Richard Franklin. Quatro deles so afro-americanos, um morreu, outro 
anda na casa dos sessenta.
- E quanto ao stimo?
-Um drogado tpico. Tem mais ou menos a idade do seu homem, mas nenhum dos outros dados se ajusta. No teria a mnima hiptese de passar por engenheiro, nem por 
um dia. Tem passado os ltimos vinte anos a entrar e a sair da priso. E, de acordo com os nossos registos, nunca morou no endereo que me indicou.
- H mais alguma coisa? Pode verificar nos registos da comarca? Ou talvez nos registos de cidades vizinhas?
- Est tudo aqui - respondeu Cohen, parecendo to desapontado quanto Julie. - 0 sistema foi aperfeioado h uns dois anos. Dispomos de informaes sobre todas as 
prises feitas a partir de 1977. Se tivesse sido preso em qualquer ponto do estado do Colorado, teramos conhecimento.
Jennifer bateu com o lpis no bloco de apontamentos. - De qualquer modo, podia mandar-me por fax a fotografia desse ltimo tipo? Ou envi-la juntamente com um e-mail?
- Com certeza. avias nao juigo que seja u sl u ..~
Cohen, demonstrando pouco entusiasmo. Fez uma pausa. - Oua, se precisar de mais alguma coisa, no faa cerimnia. Esse fulano no me parece nada bom. No  o tipo 
de pessoa que gostemos de ver andar por a  solta.
Depois de desligar, Jennifer ligou para a Polcia de Columbus, Ohio, alimentando a esperana de ser mais bem-sucedida.


Mabel deixara o salo logo pela manh e fora de carro at ao hospital. Estava agora sentada junto da cama de Andrea, na unidade de cuidados intensivos, pegando-lhe 
na mo e desejando que a rapariga, por um qualquer meio desconhecido, pudesse saber quem se encontrava ali junto dela.
- Vais pr-te boa, minha querida - murmurou quase s para si. - Os teus pais no devem tardar a aparecer.
A nica resposta foram os sinais ritmados do monitor dos movimentos cardacos. A ateno de Mabel desviou-se para o telefone.
Gostaria de saber em que p estava a investigao. Por momentos, esteve tentada a telefonar a Pete Gandy e perguntar-lhe. Continuava, porm, furiosa por ele ter 
deixado as coisas irem to longe e julgava no conseguir falar com ele sem gritar. Mike tinha razo. Tudo o que se exigia de Pete era que tivesse dado ouvidos a 
Julie. Se assim fosse, nada daquilo teria acontecido. Como  que aquele homem podia ser to estpido? Como diabo tinha conseguido fazer o curso de formao?
Mabel ouviu o som de passos que se aproximavam, levantou a cabea e deparou com a enfermeira que vinha, de vinte em vinte minutos, verificar os monitores para detectar 
qualquer alterao.
0 perodo mais crtico era o das primeiras vinte e quatro horas, dissera o mdico. Se Andrea viesse a conseguir sair do coma sem leses cerebrais, o mais provvel 
seria que passado esse perodo apresentasse algum sinal de melhoria.
Observar a enfermeira em aco, a verificar os sinais vitais e a tomar notas, foi o suficiente para Mabel sentir um aperto na garganta.
Pela expresso dela, Mabel soube que no se registara qualquer
melhoria.
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e peso, cor dos
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Jennifer estava a terminar a conversa com o Departamento da Polcia de Ohio quando Morrison saiu do seu gabinete.
-J consegui a intimao - informou. - 0 juiz Riley assinou-a h momentos e esto agora mesmo a envi-la por fax para a JD Blanchard. As informaes que queremos 
no devem tardar, a menos que eles resolvam meter o departamento jurdico no caso e tentem atrasar as coisas.
Jennifer assentiu mas no conseguiu disfarar a satisfao que sentia.
- Ainda no tivemos sorte? - perguntou o chefe.
Ela abanou a cabea. - Nada. Nem um nico. Em dois estados, Colorado e Ohio, nem uma simples multa por excesso de velocidade. Nenhuma priso, nem registos de ter 
sido considerado suspeito de qualquer crime.
- 0 fax de Denver no veio ajudar nada?
- No se trata do nosso homem. Nem de perto nem de longe.
Mesmo assim, procurou a fotografia. - No consigo perce
ber. Um tipo destes no aparece assim, cado do cu. Sei que j fez
coisas deste gnero. H-de haver algum registo disso - continuou.
- Alguma novidade sobre a casa?
- Parece que andou envolvido em limpezas recentes. Conseguiram recolher umas coisas, mas s podemos avaliar a sua utilidade depois de terminados os exames. De momento, 
ainda esto a fazer-se anlises de sangue em Wilmington. A polcia de l dispe de um dos melhores laboratrios deste estado e, logo que recebam as duas amostras, 
estabelecero a comparao com o sangue de Andrea obtido atravs do hospital.  a mais importante das nossas prioridades e, se correr como esperamos, a comparao 
ser positiva. Para j, o tipo de sangue confirma-se. 0 sangue de Andrea  tipo A positivo, tal como a amostra que colhemos. No  to comum como o tipo 0; parece 
que ele  o nosso homem.
- Alguma coisa de Morehead? Ou dos trabalhadores das obras da ponte?
- Nada, at agora. Franklin parecia ser um homem metido consigo. Haroldson e Teeter no conseguiram encontrar uma s pessoa que gostasse do tipo, ningum conseguia 
dar-se com ele. Nem sabiam onde morava. Ainda tm de falar com mais algumas pessoas, mas no alimentam grandes esperanas. Quanto a Burris e Puck, dizem que ningum 
se recorda de ter visto o Franklin por perto do apartamento onde Andrea vive. Mas, s para que conste,
esto a recolher informaes acerca cie outros pussivcis ,U3Y,-.L-. Ela mostrava tendncia para andar com uns tipos pouco recomendveis e Puck anda a tentar recolher 
os nomes deles.
- Richard Franklin  o nosso homem - reiterou Jennifer.
Morrison ergueu a mo, como a querer dizer que concordava com ela. - Teremos a certeza dentro de poucas horas - afianou. - Quanto a Morehead City, Johnson anda 
a mostrar a fotografia da Andrea por l. A propsito, foi uma rica ideia, essa de trazeres a fotografia. Contudo, at agora, no conseguiu nada. H muitos bares 
e restaurantes a visitar e ele chegou l h pouco tempo. Os turnos da noite dos bares e restaurantes comeam por volta das cinco da tarde; por isso, a investigao 
ainda vai levar algum tempo.
Jennifer concordou.
Morrison apontou para o telefone. -j conseguiste alguma informao a respeito de Jessica?
- No. Ainda no.  o meu prximo passo.


Julie estava sentada no sof; com uma orelha inclinada para diante, o Singer sentava-se a seu lado. Mike ligou o televisor e passeou por vrios canais e depois desligou-o. 
Vagueou pela casa, foi certificar-se de que a porta da frente estava fechada e espreitou pela janela, para a esquerda e para a direita da rua.
Silncio. Silncio absoluto.
- Acho que vou ligar para o Henry - acabou por decidir. - S para ele saber que conseguimos.


A afastar o cabelo para trs com ambas as mos, Jennifer comeou a analisar as fotografias encontradas na pasta de Richard. Ao contrrio de Julie, Jessica parecia 
ter posado alegremente na maioria delas. 0 que, certamente por serem casados, no tinha nada de estranho; notou que em algumas fotografias ela aparecia com um anel 
de noivado, a que depois juntara uma aliana de casamento.
Infelizmente, as fotografias no lhe diziam nada acerca da prpria Jessica, se esse era o seu nome. Nenhuma tinha qualquer anotao no verso que pudesse revelar 
um apelido de solteira ou at o lugar onde fora tirada. Em si, as fotografias no serviam de pontos de referncia, pelo que, depois de as ter observado, Jennifer 
continuava com a mesma necessidade de saber coisas sobre a mulher; s gostaria de
saber como as obter.
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uc~caaicar ranKlin, partin
do dos elementos mais evidentes - qualquer pessoa dos estados do Colorado ou de Ohio, por exemplo - e verificou todas as pginas que incluam fotografias. No chegavam 
a ser uma mo-cheia, o que no a surpreendeu. Depois do divrcio, a maioria das mulheres volta a usar o apelido de solteira.
Mas, teria havido divrcio?
Ele j tinha demonstrado at que ponto podia ser violento. Jennifer olhou para o telefone. Aps um momento de hesitao, marcou o nmero do inspector Cohen, em Denver.
- No, no h problema - disse este, em resposta ao pedido. - Depois da sua chamada, fiquei a pensar nesse tipo. Por qualquer razo, o nome no me  estranho. Esse 
pormenor no deve ser difcil de averiguar. Deixe-me ver.
Ficou  espera enquanto ele consultava os registos.
- No - concluiu Cohen. - No h vtimas de assassnio registadas em nome de Jessica Franklin, nem existe nenhuma na lista de pessoas desaparecidas.
- Existe alguma maneira de sabermos qualquer coisa acerca do casamento? Quando se realizou ou quanto tempo estiveram casados?
- No dispomos aqui de informaes desse tipo; talvez tentando nos registos da conservatria. A sua melhor hiptese  analisar os registos de impostos sobre a propriedade, 
pois muitas casas esto registadas em nome dos dois cnjuges. Para comear, pode ser uma ajuda. Mas precisa de falar com algum que tenha acesso a esses arquivos. 
0 que s  vlido, como se calcula, se eles se casaram na zona.
- Pode dar-me o nmero?
- No o tenho  mo, mas d-me um minuto para o procurar.
Ouviu-o abrir uma gaveta e depois pedir a lista a um dos colegas.
Momentos depois estava a recitar o nmero, que Jennifer escrevia no bloco de apontamentos, ao mesmo tempo que viu Pete a correr para ela.
- Daytona! - exclamou. - 0 sacana foi a Daytona quando disse que foi assistir ao funeral da me... - Daytona? A Julie no  de l?
- No me lembro - respondeu Pete rapidamente -, mas, ouve... se a me morreu, talvez consigamos obter informaes nos registos necrolgicos recentes. J acedi  
pgina do jornal e estou a imprimir as informaes. Bastante inteligente, no?
A reflectir no assunto ennirer nau
~cayv u~~ u
No achas estranho? - perguntou. - Estou a falar no facto de a
me dele ter morrido na mesma cidade em que Julie cresceu.
- Se calhar foram criados juntos.
Possvel, mas pouco provvel, pensou Jennifer, a abanar a cabea.
No parecia possvel. Em especial, se fosse tido em conta o facto de
Richard estar a viver em Denver h quatro anos, alm de que, se
tivessem uma histria comum, Julie no deixaria de a ter menciona
do. Mas... qual a razo daquela viagem a Daytona?
De repente, empalideceu.
- Tens o nmero de telefone da me de Julie? - perguntou. Pete negou com um movimento de cabea. - No. - V se o arranjas. Julgo que devamos falar com ela. - Mas, 
e os registos necrolgicos?
- Esquece. Nem sabemos se a histria da morte da me  ver
dadeira. Vamos, antes, verificar os registos de chamadas telefnicas
de Richard. Talvez consigamos descobrir a quem ele telefonou.
De sbito, apercebeu-se de que deveria ter comeado por ali. - Registos de chamadas?
- Feitas de casa dele, Pete. Pede os registos de chamadas de
Richard Franklin.
Pete pestanejou, a fazer um esforo para perceber. - E quanto aos
registos de bitos, no servem para nada?
- No. Ele no foi a Daytona para ver a me. Foi l para colher
informaes sobre a Julie. Apostava a minha vida.


Henry e Emma estavam sentados  mesa da cozinha e ele seguia
atentamente os movimentos de uma mosca a bater contra o vidro da
janela.
- Tm, portanto, a certeza de que ningum os seguiu? Henry assentiu. - Foi o que Mike disse quando telefonou. - E continuas a pensar que eles esto em segurana?
- Espero que sim, mas at que apanhem aquele filho da me no
acabam os receios.
- E se no o apanharem? - Acabar por ser caado.
- Mas, se no for? - voltou Emma a perguntar. - At quando
 que eles tero de viver ali escondidos?
0 marido abanou a cabea. - 0 tempo que for necessrio.
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1 iwu a reiiecrrr sopre o que devia Lazer. - Talvez seja melhor ligar para a esquadra, para informar os polcias do local onde eles se
encontram.
Ao terminar a conversa com Henry, Jennifer ficou absorta, a enrolar uma madeixa de cabelo entre os dedos.
- Obrigada pela informao. Fico-lhe muito agradecida. Adeus.
Tinham, portanto, deixado a cidade, pensou, ao desligar. Por um lado, se estivesse na situao deles, era provvel que tivesse feito o mesmo. Por outro, se fosse 
necessrio contact-los, havia a dificuldade acrescida de estarem mais longe. Embora Topsail ainda pertencesse  comarca, situava-se no sua parte mais meridional, 
a pelo menos quarenta minutos de Swansboro.
Sem mais nada que investigar de momento, Jennifer voltou a concentrar a ateno nas fotografias. Sabia que as fotografias podem revelar muita coisa, tanto sobre 
o fotografado como sobre o fotgrafo. E Richard era muito bom, muitas das imagens eram fantsticas, despertavam a ateno. Richard Franklin, decidiu, no era um 
desses fotgrafos de fim-de-semana. Era algum que considerava a fotografia uma arte. Fazia sentido, tendo em conta o equipamento que havia sido encontrado em casa 
dele.
Fora um pormenor que, desde o incio, no lhe passara despercebido; mas seria til? E em que sentido? Ainda no sabia.
No entanto, quanto mais olhava mais se convencia de que aquele era o rumo certo para a investigao. Embora ainda no soubesse as respostas ou, para ser mais precisa, 
ainda tivesse de encontrar as perguntas certas, ao olhar as fotografias no conseguia deixar de pensar que estava prestes a descobrir algo de muito importante.
TRINTA E SEIS
Em Denver, o inspector Cohen continuava a pensar nos telefonemas.
A agente Romanello tinha pedido informaes sobre um Richard Franklin e, embora tivesse pesquisado a base de dados sem xito, sabia que j tinha ouvido aquele nome. 
Como dissera a Jennifer Romanello, aquele nome no lhe era estranho.
As razes podiam ser muitas, sem dvida. Uma testemunha nas centenas de casos em que estivera envolvido, por exemplo; poderia at ser um nome lido no jornal. Poderia 
at tratar-se de um estranho que tivesse encontrado numa festa qualquer ou uma pessoa que tivesse conhecido de passagem.
No entanto, tinha a sensao de que o nome estava relacionado com o seu trabalho de polcia.
Porm, se no fora preso, qual seria a ligao?
Levantou-se da cadeira e resolveu perguntar aos outros. Talvez no departamento houvesse algum capaz de lhe esclarecer a dvida.

Uma hora mais tarde, Morrison saiu do seu gabinete a agitar nas mos os registos das chamadas telefnicas e as informaes que Richard Franklin tinha fornecido  
firma JD Blanchard quando foi admitido. 0 fax inclua o currculo e o resumo dos projectos anteriores em que ele fora consultor.
Pete ficou com os registos de chamadas; Jennifer ps as fotografias de lado e comeou a analisar as informaes fornecidas pela firma JD Blanchard.
No incio do currculo, Richard tinha indicado um apartamento em Columbus, como endereo; mais abaixo, porm, havia uma mina de ouro: as firmas onde tinha trabalhado 
e as respectivas datas, filiao em associaes, experincia anterior, formao acadmica.
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u uL~U. -cpo's cie conseguir o numero, ligou para a empresa Lentry Construction de Cheyenne, Wyoming, a ltima companhia onde trabalhara antes de se estabelecer 
por conta prpria.
Depois de se identificar  recepcionista, a chamada foi passada para Clancy Edwards, vice-presidente, que estava na empresa h quase vinte anos.
- Richard Franklin? Lembro-me perfeitamente - informou Edwards quase de imediato. - Foi um excelente quadro. Um homem muito sabedor do ofcio. No fiquei nada surpreendido, 
quando decidiu formar a sua prpria empresa.
- Quando  que falou com ele pela ltima vez?
- Ora... deixe-me pensar um pouco. Mudou-se para Denver, sabe. Estimo que deve ter sido h oito ou nove anos. Estvamos a trabalhar em... ora deixe ver... teria 
sido em 1995, no ? Penso que se tratava de um projecto em ...
- Desculpe, Mr. Edwards, sabe se era casado?
Edwards no percebeu logo que lhe tinham feito outra pergunta. - Casado?
- Sim, se era casado?
Edwards riu-se em surdina. - De maneira nenhuma. Ns estvamos praticamente todos convencidos de que era homossexual...
Jennifer apertou mais o auscultador contra a orelha, a duvidar de que tivesse ouvido bem. - Espere. Tem a certeza?
- Bom, no a cem por cento. Nem ele alguma vez falou no assunto. A vida pessoal de cada um no me interessa, desde que cumpra as suas obrigaes para com a firma. 
Sempre foi a nossa norma. Na nossa empresa fazemos um bom trabalho de aco afirmativa. Sempre fizemos.
Jennifer j mal o ouvia.
- Wyoming tem progredido muito, mas no  So Francisco, se percebe o que quero dizer, e nem sempre foi fcil. Mas os tempos esto a mudar, at aqui.
De repente, ao recordar-se do que Jake Blansen lhe dissera pelo telefone, Jennifer lanou uma nova pergunta: - Ele dava-se bem com toda a gente?
- Oh, sim, absolutamente. Como disse, era um homem muito sabedor e isso tornava-o respeitado. E era tambm um tipo muito simptico. At ofereceu um chapu  minha 
mulher, uma prenda de aniversrio. No que ela continue a us-lo. Sabe como as mulheres
so, nestas...
- E os operrios da construo civil? lambem se entenda oem com eles?
Apanhado no meio da frase, Clancy Edwards precisou de um instante para se recompor.
- Sim,  claro, com eles tambm. Como j disse, toda a gente gostava dele. Talvez um ou dois tivessem tido problemas com... bem, com a sua vida pessoal, mas toda 
a gente tinha um excelente relacionamento com ele. Todos tivemos pena de o ver ir-se embora.
Como Jennifer ficou calada, Edwards sentiu-se na obrigao de no deixar cair a conversa.
- Posso perguntar a razo de ser de tudo isto? Richard no se meteu em sarilhos, pois no? No lhe aconteceu nada, pois no?
Jennifer continuava a tentar dar sentido quelas informaes.
-  por causa de uma investigao. Tenho muita pena, mas no posso adiantar pormenores - respondeu. - Lembra-se de ter recebido algum pedido de referncias, feito 
pela firma JD Blanchard?
- Eu no, mas penso que foi recebido pelo presidente. Demos as melhores informaes. Como disse, ele  muito bom na sua profisso...
Jennifer voltou a passear os olhos sobre as fotografias de Jessica. - Recorda-se de ele ter a fotografia como hbi?
- Richard? E possvel que tivesse, mas nunca me falou do assunto. Porqu?
- Por nada - defendeu-se, verificando, de repente, que se lhe tinham esgotado as perguntas. - Quero agradecer-lhe o tempo que perdeu comigo, Mr. Edwards. Se precisar 
de mais algum esclarecimento, importa-se que volte a telefonar-lhe?
- No, de forma alguma. Na maioria dos dias, pode ligar-me at s seis da tarde. Por aqui, temos o maior respeito pelas autoridades. 0 meu av chegou a ser xerife 
de... oh, meu Deus... penso que durante uns vinte anos, mais ou menos...
Jennifer desligou o telefone mesmo antes de ele acabar; ficou a abanar a cabea, a perguntar a si mesma qual seria a razo de aquelas novas informaes no fazerem 
qualquer sentido.


- Tinhas razo - disse Pete, uns minutos mais tarde, parecendo confuso por ela ter razo nas suas previses, enquanto as dele no tinham ponta por onde se pegasse. 
- Ele ligou para o nmero de um investigador privado de Daytona - continuou, a ler as notas
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- '        u        1CJ -uaniaaas para uma arma chamada Croom's Investigations. No obtive resposta quando liguei,
mas deixei uma mensagem. Parece ser negcio de uma pessoa s. No existe secretria e no gravador de chamadas ouve-se uma voz
masculina.
- E quanto  me de Julie?
0 colega abanou a cabea. - J obtive o nmero atravs do servio de informaes, mas ningum atendeu. Vou tentar mais tarde. E da tua parte, como  que isso vai?
A colega descreveu-lhe a conversa com Clancy Edwards. Quando ela acabou, Pete ficou a coar o cachao.
- Homo, hein? - aquiesceu, como se fizesse sentido. - Estou a ver.
Tentando ignorar o comentrio, Jennifer voltou  anlise do currculo.
- Vou tentar a empresa que se segue na lista - referiu. - H muito tempo que deixou de trabalhar l, mas espero encontrar algum que ainda se lembre dele. Depois 
disso, julgo que vou tentar os bancos de Denver onde ele tinha contas abertas, ou talvez tente obter informaes junto de antigos vizinhos. Se conseguir localizar 
algum,
bem entendido.
- Parece que vais precisar de algum tempo.
Jennifer assentiu, distrada, ainda a pensar na conversa com
Edwards. Enquanto tomava algumas notas, resumindo as informaes constantes do currculo, sugeriu-lhe: - Olha l, enquanto fao
isto, v se consegues alguns dados acerca da infncia dele. Como aqui diz que nasceu em Seattle, contacta os hospitais mais importantes e v se consegues encontrar 
o registo de nascimento. Talvez consiga
mos mais resultados se pudermos contactar a famlia. Vou continuar este trabalho.
- Est bem.
- Oh, e continua a tentar o detective particular e a me de Julie. Adorava falar com eles.
-  para j.
Precisou de mais tempo do que imaginara para encontrar um carro, mas conseguiu sair do parque de estacionamento ao volante de um Pontiac Trans Am verde, de 1994. 
Meteu-se no meio do trfego
citadino e dirigiu-se para a estrada. No lhe parecia que estivesse a ser vigiado.
Ia a pensar como so ridculas as pessoas que, nos tempos que correm, continuam a deixar as chaves na ignio. No se apercebem de que pode haver algum que tire 
partido da sua estupidez? No,  claro que no. Essas coisas s acontecem aos outros. 0 mundo estava cheio de indivduos da laia de Pete Gandy, de parvos, cegos 
e preguiosos que nos deixam vulnerveis perante os terroristas, no s por causa da sua estupidez como tambm pela falta de vigilncia e da sua ignorncia balofa 
e contente com a vida. Ele nunca seria to descuidado, mas no tinha de que se queixar. Precisava de um carro e aquele servia perfeitamente.


A tarde ia decorrendo.
No decurso das chamadas telefnicas, Jennifer foi chegando a sucessivos becos sem sada. Achar vizinhos fora quase impossvel - tivera de convencer um funcionrio 
da conservatria a verificar os registos do imposto sobre imveis para encontrar os proprietrios, depois usar a informao para descobrir os nomes dos vizinhos, 
sempre com a esperana de que no se tivessem mudado - e levara mais tempo do que previra. Em quatro horas de trabalho, conseguira falar com quatro pessoas, cada 
uma das quais havia conhecido Richard Franklin numa poca distinta. Dois eram antigos vizinhos, e dois eram directores que se recordavam vagamente de um Richard 
Franklin que trabalhara durante um ano para uma empresa de Santa F, Novo Mxico. Todos disseram praticamente as mesmas coisas que j tinha conseguido saber atravs 
de Edwards.
Era um tipo simptico que se dava bem com toda a gente.
Provavelmente homossexual.
Se tinha a fotografia como hbi, nunca falara disso.
Jennifer levantou-se da secretria e foi at ao outro lado da esquadra para encher outra caneca de caf.
Bem gostaria de saber quem era aquele homem. E como  que tinha aquela sensao de que todos os testemunhos descreviam um indivduo em tudo diferente do Richard 
Franklin que lhe interessava?


Como sucedia com ele, os colegas reconheciam o nome mas no conseguiam lembrar-se das circunstncias. Um deles, convencido de que o homem tinha cadastro, at se 
deu ao cuidado de verificar os dados j analisados por Cohen, mas chegou s mesmas concluses.
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rLcsicssar a secretaria, mas quedou-se em profunda reflexo. Por que motivo o nome lhe parecia conhecido? E no s a ele, mas tambm a todas as outras pessoas do 
departamento? Como era possvel, se o indivduo nunca fora preso e se ningum se lembrava de o utilizar como testemunha?
Deu um salto na cadeira quando, de repente, viu a soluo. Depois de teclar umas palavras no computador, analisou a informao que apareceu no ecr. Confirmado o 
palpite, levantou-se da cadeira para procurar o detective com quem tinha de falar.


Pete, sem sair da secretria, estava a ter mais sucesso. Tinha acabado de coligir informaes acerca do perodo inicial da vida de Richard, nenhuma delas difcil 
de descobrir. Sentindo-se bastante orgulhoso, ia a caminho da secretria da colega para a pr ao corrente quando o telefone dela tocou. Jennifer fez-lhe sinal com 
um dedo, para que ele esperasse at que o telefonema acabasse.
- Departamento de Polcia de Swansboro - informou. - Fala a agente Romanello.
Ouviu um pigarrear do outro lado da linha.
- Daqui fala o inspector Cohen, de Denver.
Jennifer endireitou-se na cadeira. - Ah... ol. Descobriu alguma
coisa?
- Talvez. Depois da sua chamada, fiquei a magicar sobre o motivo de o nome Richard Franklin no me parecer desconhecido; por isso, fui perguntar s pessoas daqui, 
antes de conseguir recordar-me de onde j ouvira o nome.
Fez uma pausa. - Depois disso, um dos outros inspectores daqui falou-me de um pormenor muito interessante, a respeito de um caso que ele investigou h alguns anos, 
um caso de desaparecimento de uma pessoa.
Jennifer pegou na esferogrfica. - Jessica Franklin?
Pete olhou para a colega quando ouviu o nome de Jessica. - No. No foi Jessica quem desapareceu. - Nesse caso, estamos a falar de quem? - De Richard Franklin. 0 
tipo de que me falou.
Jennifer ficou embatucada. - 0 que  que pretende dizer com
isso?
- Richard Franklin - reiterou o inspector Cohen lentamente -,  a pessoa desaparecida.
- Mas ele est aqui.
- J percebi. Mas esteve vrios anos desaparecido. um aia uau apareceu no trabalho e, depois de deixar passar cerca de uma semana a secretria dele entrou em contacto 
connosco. Falei com o detective que investigou o caso. Tudo parecia mostrar que o homem decidira desaparecer, sem deixar rasto. Deixou as roupas de cama, mas as 
gavetas pareceram saqueadas. Faltavam duas malas de viagem - as duas que costumava usar nas viagens de servio, segundo nos informou a secretria - e o carro tambm 
tinha desaparecido. No ltimo dia em que foi visto levantou dinheiro de uma caixa automtica.
- Fugiu?
- Foi o que pareceu.
- Porqu?
- Sobre isso o detective no conseguiu chegar a nenhuma concluso. Das entrevistas com os conhecidos de Franklin no se obteve nenhuma informao importante. Todos 
afirmaram que Franklin no era pessoa para se pr a andar, sem se preocupar com o trabalho que deixava para trs. Ningum conseguiu perceber o que acontecera.
- E no houve nenhum problema de ordem legal?
- Nada que o detective conseguisse descobrir. No havia qualquer processo pendente e, como j lhe disse, no tinha qualquer tipo de problemas connosco. Pareceu que 
ele sentira apenas desejo de comear de novo.
Jennifer lembrou-se de que tambm pensara o mesmo, quando viu o relatrio acerca do crdito de que Richard gozava.
- E a famlia no contactou as autoridades? Porqu?
- Bem, esse  o problema. No apareceu nenhum familiar com quem pudssemos falar. 0 pai j tinha falecido, no tinha irmos e a me encontrava-se internada num lar 
e sofria de demncia.
Jennifer ficou a pensar nas implicaes. - Dispe de alguns dados sobre o caso que me possa enviar?
- Com certeza. J tenho o dossi. Posso envi-lo Federal Express, depois de o fotocopiar.
- No tem maneira de o enviar por fax?
- E um processo volumoso - respondeu Cohen. - Levaria pelo menos uma hora a chegar at si.
- Por favor - implorou Jennifer. - De qualquer maneira,  provvel que tenha de passar a noite aqui.
- Muito bem. Posso fazer isso. D-me outra vez o nmero do
seu fax.
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amanh pelo
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* * *
Para l da janela alta da cozinha da casa de praia do Henry, o oceano apresentava um brilho cor-de-laranja, como se algum tivesse ateado um fogo por baixo da superfcie 
da gua. Os ltimos vestgios do dia comeavam a desvanecer-se, a cozinha ia pouco a pouco ficando mais escura. 0 candeeiro do tecto zumbia com o som tpico da lmpada 
fluorescente.
Sem deixar de observar o Singer que estava na praia, Mike
aproximou-se de Julie. 0 co estava deitado na areia, de orelhas arrebi
tadas, por vezes a inclinar a cabea, ora para um lado ora para o outro. - J queres comer? - perguntou. - No tenho fome.
Mike fez um aceno de compreenso. - 0 que achas do Singer? - Est ptimo.
- L fora no anda ningum - constatou Mike. - Se andasse, o Singer avisava-nos.
Julie assentiu e encostou-se a Mike, quando ele lhe ps um brao  volta dos ombros.


Morrison saiu do seu gabinete e deu umas passadas enrgicas em direco a Jennifer e Pete.
- Era realmente o sangue de Andrea Radley. Acabo de falar com o laboratrio e eles confirmaram. No restam quaisquer dvidas.
Jennifer mal deu pela presena dele; em vez disso, tinha os olhos fixos na primeira pgina do fax enviado de Denver, que estava a receber.
- E Jonhson descobriu uma testemunha - continuou Morrison. - Acontece que um dos empregados de balco de Mosquito Grove se recorda de ter visto Andrea. Fez uma descrio 
perfeita de Richard Franklin. Disse que o tipo lhe pareceu um verdadeiro pateta.
Ignorando as pginas que continuavam a chegar, Jennifer no conseguia tirar os olhos da primeira pgina do fax.
- Ele no se chama Richard Franklin - afirmou, com toda a calma.
Morrison e Pete encararam-na.
- De quem  que ests a falar? - perguntou o chefe.
Ela continuou calma. - Do suspeito. No se chama Richard
Franklin. 0 verdadeiro Richard Franklin desapareceu h trs anos.
 este - concluiu, mostrando a primeira pgina do fax. Era uma
totograna ao aesapareciuo e, a ucspciLu ua iaIL U~ uiuu~~ uu "'= b`
enviada por fax, a calvcie e as feies pesadas mostravam claramente que no se tratava do homem que procuravam. - Isto acaba de chegar de Denver. Este  o verdadeiro 
Richard Franklin.
Morrison e Pete analisaram a fotografia.
Pete ficou confuso. - Este  o verdadeiro Richard Franklin? - repetiu.
- E.
Estupefacto, Pete continuou a olhar para a fotografia. - Mas no so nada parecidos.
Os olhares de Morrison e Jennifer encontraram-se. - Ests a dizer que o suspeito assumiu a identidade deste homem.
Jennifer concordou.
- Ento, de quem  que andamos  procura? - indagou o chefe.
A olhar pela janela da outra extremidade da sala, Jennifer limitou-se a responder: - No fao ideia.
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TRINTA E SETE
- Ideias? - exigiu Morrison.
Uma hora depois, com a maioria dos agentes presente, o chefe no conseguia disfarar a fria e a frustrao que o consumiam. Juntamente com Jennifer e Pete, tinha 
analisado, sem qualquer resultado, tudo o que fora trazido de casa do suspeito, na esperana de conseguirem algum elemento que lhes indicasse a verdadeira identidade 
dele. Uma nova anlise do registo das chamadas telefnicas tambm no resultou.
- E quanto a impresses digitais? Poderiam dar uma ajuda - alvitrou Burris.
- Estamos a investigar. Porm, a menos que j tenha sido preso no estado da Carolina do Norte, isso no d nada. Falei com o chefe da polcia do Colorado e ele concordou 
em nos fornecer esses dados; contudo, nem sequer temos a certeza de que o suspeito esteve em Denver.
- Mas ele apoderou-se da identidade de Richard Franklin - protestou Jennifer.
- No existem provas de que ele seja o responsvel pelo desaparecimento. Pode ter tropeado na informao e resolvido servir
-se dela.
- Mas...
Morrison ergueu as mos. - Estou a contemplar todas as hipteses. No estou a dizer que ele no esteve envolvido, mas temos de considerar todos os aspectos. Alm 
disso, o nosso caso no  esse. 0 nosso caso chama-se Andrea Radley, aquilo que ele fez e aquilo que  capaz de fazer. Que certezas  que temos? Romanello? Pareces 
ser a pessoa que o conhece melhor.
Jennifer descreveu o que sabia.
- t culto. n provavei que reI111a ullla 111C111.10.1uit 0111 L11 L ~i.Qi a,
o que significa que frequentou a universidade. Gosta de fotografia e parece ser bom nisso, o que demonstra que no  um gosto recente. Foi casado uma vez, com uma 
mulher chamada Jessica, mas no sabemos nada acerca dela. 0 mais provvel  ser um tarado; tem assediado Julie desde que se conheceram e parece confundi-la com a 
ex-mulher. So muito parecidas e ele chegou a trat-la pelo primeiro nome da esposa. E, devido  complexidade da vida que tem levado nestes ltimos anos, tenho quase 
a certeza de que teve problemas com a justia. Julgo provvel que ande fugido, o que significa que tem experincia de viver sem dar nas, vistas das autoridades.
Morrison assentiu. - Pete? E a tua vez.
Pete ficou um instante a pensar. -  mais forte do que parece. Levanta quase tantos quilos como eu.
Os colegas ficaram a olhar para ele. - Observei-o no ginsio -justificou.
0 chefe abanou a cabea e suspirou, como se quisesse saber o motivo que o levara a perguntar. - Muito bem, vamos fazer o seguinte: Burris volta  Blanchard e v 
se tm alguma fotografia deste homem. No dispomos de muito tempo, mas pretendo que seja mostrada no noticirio da noite, se possvel. Ligo para o director da emissora 
e explico a situao. Tambm quero a fotografia no jornal; por isso, tragam para c um reprter, de modo a que possamos controlar a informao. Quero que os restantes 
tentem descobrir onde  que o homem est. Contactem todos os hotis e motis de Swansboro e Jacksonville, verifiquem se hoje deram entrada a algum com as caractersticas 
fsicas dele. Sei que  uma possibilidade remota, mas no podemos ignorar a possibilidade de o termos mesmo diante do nariz. Nestas diligncias quero que vo aos 
pares. E, depois disso, quero-os aqui todos esta noite, depois do noticirio da televiso. Vamos ser inundados por telefonemas e necessitamos de todos para os atender. 
0 mais importante  descobrir algum que o tenha visto hoje. Nem ontem, nem na semana passada. Tentem no ligar s chamadas dos malucos; depois faremos a anlise 
do que conseguirmos.
Morrison olhou  volta. - Estamos todos esclarecidos?
Ouviram-se resmungos de concordncia a toda a volta.
- Vamos a isto!
Sabendo que andariam  procura dele na rea de Swansboro, Richard conduziu durante duas horas na direco nordeste e hospedou-se num motel decrpito, mesmo  beira 
da estrada, o gnero de
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wLavcICU111e11LV uuue os ciientes pagam a dinheiro e nao se exige
identificao.
Agora, estava deitado, a olhar o tecto, a pensar que os polcias no
iam conseguir encontr-lo, por mais que procurassem.
Gostaria de saber se os polcias j teriam descoberto que ele no
era o verdadeiro Richard Franklin. Se j soubessem, no tinha im
portncia; no conseguiriam relacion-lo com o desaparecimento de
Franklin nem saber da sua identidade anterior. A parte difcil fora
descobrir o tipo de homem adequado, um homem sem famlia, mesmo depois de consultar os diversos bancos de dados que tinha visitado enquanto andava fugido  justia. 
Seleccionar uma pessoa atravs dos registos das associaes profissionais, usando a Internet, fora um trabalho enfadonho e demorado, mas conseguiu lev-lo a cabo; 
diligente na sua busca do homem certo enquanto andava de cidade em cidade. Dadas as circunstncias, no tivera outra opo e nunca poderia esquecer a sensao de 
alvio e satisfao quando finalmente encontrou o homem de que precisava.
No caminho para Denver tinha atravessado trs estados, cruzara o Mississpi e as terras ridas de Dakota do Norte e Dakota do Sul, antes de consumir trs semanas 
s a familiarizar-se com os hbitos do homem. Tinha observado o verdadeiro Richard Franklin com o mesmo cuidado que agora empregava na observao de Julie. Descobriu 
que Franklin era baixo e estava a ficar calvo, que era obviamente homossexual e que passava a maior parte do tempo sozinho. Uma vez por outra, ficava a trabalhar 
at tarde e uma noite observou-o a dirigir-se para o carro que tinha deixado num parque mal iluminado, de cabea baixa,  procura da chave.
Franklin no deu pela aproximao dele, apenas notou que tinha uma arma apontada  cabea.
- Faz exactamente o que te digo - sussurrou-lhe -, e deixo-te viver.
Uma mentira,  claro, mas o embuste servira os seus propsitos. Franklin fez tudo o que lhe mandaram fazer e respondeu a todas as perguntas que lhe foram feitas. 
Foi levantar dinheiro a uma caixa automtica e encheu uma mala de roupa. At deixou que lhe amarrasse as mos e lhe colocasse uma venda nos olhos, sempre na esperana 
de que a sua cooperao fosse recompensada.
Conduziu Franklin para as montanhas e mandou-o deitar-se na berma da estrada. Lembrava-se das splicas, de Franklin ter aliviado a bexiga quando ouviu o clique caracterstico 
de uma arma a ser destra
vada.
Quase soltou uma gargalhada ao ver a fraqueza do sujeito, a sua pequenez, ao pensar como eram diferentes. 0 homem no era nada; uma coisa minscula e sem substncia. 
Estivesse ele naquela situao, teria lutado e tentado fugir. Mas Franklin comeou a chorar e, trs horas mais tarde, jazia numa sepultura que nunca seria descoberta.
Sem ningum a fazer presso para que fosse encontrado, sabia que o dossi seria sepultado na pilha dos das outras pessoas desaparecidas e rapidamente esquecido. 
Desde que Richard Franklin continuasse desaparecido, no morto, no teria problemas em assumir a sua identidade. Depois disso, treinou-se para no responder quando 
chamado pelo seu verdadeiro nome, mesmo que o chamassem de longe; agora, se o ouvisse nem o reconheceria.
Livrou-se do verdadeiro Richard Franklin como se livrara do pai e
da me. E dos rapazes do lar de infncia. E do colega de quarto na
universidade. E de Jessica.
Semicerrou os olhos.
E agora era chegado o momento de se livrar de Mike.


Mabel estava junto de Andrea quando os pais chegaram. Tinham conduzido durante seis horas, ao mesmo tempo que combatiam os receios e as lgrimas. Saiu do quarto 
para os deixar sozinhos com a filha.
Ao dirigir-se para a sala de espera, pensou em Mike e Julie, esperando que ambos se encontrassem em segurana. Depois de ver os ferimentos de Andrea quando os mdicos 
lhe substituram as ligaduras, deixou de ter dvidas de que Richard Franklin era um monstro e convenceu-se de que Mike e Julie corriam um perigo ainda maior do que 
ela tinha pensado.
Topsail no ficava suficientemente longe. No, eles tinham de afastar-se o mais possvel de Swansboro e de se manterem afastados durante o tempo que fosse necessrio. 
Fosse como fosse, tinha de os convencer.


Durante toda a tarde e parte da noite, as instalaes policiais de Swansboro registaram uma actividade fora do comum.
Depois de terem processado a avalanche de telefonemas, comeou a investigao de doze suspeitos que se tinham hospedado em diversos hotis. Com a ajuda do xerife 
do distrito de Onslow, investigaram casa uma das pistas, mas sem resultados.
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1lfilla ju niancnarci dispunha de uma boa fotografia do suspeito e Burris fez diversas cpias, que distribuiu pelas emissoras de televiso. A informao que acompanhava 
a difuso das fotografias informava o pblico de que aquele homem era suspeito de agresso na pessoa de Andrea Radley e que era considerado perigoso. Tambm foi 
includa a descrio do carro e a respectiva matrcula.
Como Morrison tinha previsto, os telefonemas comearam a chegar minutos depois das transmisses.
Todo o pessoal estava presente para lhes responder; tomavam-se notas e registavam-se nomes, com as maluquices a serem ignoradas.
s duas horas da madrugada, a esquadra j tinha atendido mais de duzentas pessoas.
Mas nenhuma tinha visto o suspeito naquele dia. E ningum notara a presena do carro.


Exausto, quando se sentiu prestes a ceder ao sono, Richard pensou em Jessica.
Fora empregada de mesa num restaurante frequentado por ele e, mesmo sem ser a empregada que o servia, enquanto comia tinha reparado na rapariga.
Ela tinha-o visto olhar e respondera com um breve sorriso, sem desviar os olhos; Richard voltou ao restaurante  hora do fecho e esperou por ela.
Parecia que a rapariga j o esperava; a forma como a luz dos candeeiros lhe iluminava as feies enquanto caminhavam pelas ruas de Boston... a forma como ela olhava 
para ele durante o jantar... o fim-de-semana seguinte em Cape Cod, quando passearam pela praia e fizeram um piquenique no areal... ou um piquenique e um passeio 
de balo... Jessica e Julie... to parecidas... as recordaes de ambas a misturarem-se numa s... imagens sobrepostas... Julie... as suas lgrimas ao assistir  
representao de 0 Fantasma da pera... o toque sensual dos seus dedos quando prendia o cabelo na orelha... a simpatia demonstrada quando lhe mentira acerca da morte 
inesperada da me... o orgulho com que o tinha apresentado aos amigos, no bar...
Por Deus, amava-a. Nunca deixaria de a amar.
Momentos depois, a respirao dele era profunda e regular.
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TRINTA E OITO
Na manh seguinte, o canal interior estava envolto por uma ligeira neblina, que comeou a desaparecer logo que o Sol se levantou acima da ramagem do arvoredo. Um 
prisma de luz coava-se atravs da janela da esquadra, a iluminar a terceira caneca de caf que Jennifer tomava naquela manh.
Tinha a impresso de que andavam  procura de um fantasma.
No dispunham de nada, absolutamente nada, que lhes permitisse prosseguir, e a espera era a parte mais difcil de suportar. Jennifer regressara depois de umas escassas 
horas de sono, mas lamentava a deciso. No conseguia pensar em nada que pudesse fazer.
As impresses digitais no tinham ajudado, embora Morrison ti
vesse decidido recorrer tambm  base de dados do FBI, que logo informara estar soterrado numa infinidade de casos provenientes de todo o pas e que o processamento 
da informao podia levar cerca de uma semana.
No entanto, os telefonemas continuavam e atendia o telefone com regularidade. As notcias tinham ido para o ar no incio da manh, e deveriam ser repetidas ao meio-dia, 
mas, tal como acontecera na noite anterior, no estava a conseguir as informaes de que precisava. Havia demasiados telefonemas de cidados assustados, que s queriam 
ser confortados, ou de outros que erradamente afianavam que o suspeito estava no seu prprio quintal. Na sua maioria, os colegas tinham chegado  mesma hora e estavam 
no exterior, a investigar as denncias. Sendo o nico agente ainda presente na esquadra, duvidava da veracidade de quase todas as informaes, mas no havia remdio: 
todas as pistas tinham de ser investigadas.
Era a contrapartida da utilizao dos meios de comunicao como auxiliares, pensava Jennifer. Embora fosse possvel o aparecimento de
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unia. iiiiuiiua~au vauua, a ma rnrormaao estava garantida e era esta que absorvia os recursos necessrios  investigao.
Mas, qual investigao? 0 nico elemento de que dispunha eram as fotografias que enchiam a pasta; e ainda no conseguira perceber a razo por que se deixara fascinar 
por elas. J as tinha visto uma dzia de vezes mas, logo que as punha de lado, sentia necessidade de as analisar de novo.
Uma por uma, via as mesmas imagens. Jessica no jardim. Jessica numa varanda. Jessica sentada. Jessica de p. Jessica a sorrir. Jessica com ar serio.
Contrariada, ps as fotografias de lado. Nada.
Momentos depois, o telefone voltou a tocar. Depois de ouvir, comeou a responder:
- Sim, minha senhora. Tenho a certeza de que  seguro ir  loja de ferragens...
Na altura em que saiu de Wilmington, depois de passar quase toda a noite acordada, Mabel sentia-se um pouco menos preocupada com a Andrea. Embora a rapariga no 
tivesse ainda aberto os olhos, antes de amanhecer houvera uns movimentos dos dedos e os mdicos informaram os pais de que aquele era um bom sinal.
Sabendo que no tinha mais nada a fazer ali, meteu-se no carro e regressou a Swansboro. A luz da manh fazia-lhe doer os olhos e sentia dificuldades em concentrar-se 
na estrada.
As suas preocupaes em relao a Mike e Julie tinham-se intensificado durante a noite. Disse a si prpria que, depois de dormir uma soneca, ia dirigir-se  casa 
da praia para terem uma conversa.


Richard acordou, levantou-se, tomou duche e saltou para o Trans Am roubado. Duas horas mais tarde, depois de comprar uma caneca de caf e algumas revistas numa loja 
de convenincia, entrou em Swansboro, sentindo-se de regresso a casa.
Vestia dockers e um plo; com aquele cabelo claro e os culos, ele prprio tinha dificuldade em se reconhecer sempre que olhava pelo espelho retrovisor. Parecia 
um vulgar chefe de famlia a dirigir-se para a praia, onde ia passar o fim-de-semana.
Bem gostaria de saber o que Julie estaria a fazer naquele preciso momento. Estaria no duche? A comer? E estaria a pensar nele, com a mesma intensidade com que ele 
pensava nela? Sorriu e meteu uma
srie de moedas num posto de venda de jornais. Em Jacksonville publicava-se um dirio, mas o jornal de Swansboro s saa duas vezes por semana.
Depois de passar pela loja de convenincia, dirigiu-se para um parque, assentou arraiais num banco prximo dos escorregas e abriu o jornal. No pretendia alarmar 
os pais da crianas presentes no parque; estava-se numa altura em que a presena de adultos num parque punha as pessoas paranicas, mas achava que era uma atitude 
compreensvel, mesmo numa cidade pequena.
A sua fotografia estava na primeira pgina do jornal; levou o seu tempo a ler o artigo que a acompanhava. Fornecia informaes genricas, mas pouco mais, no lhe 
deixando dvidas de que o jornalista reunira as informaes directamente na esquadra de polcia; tambm fornecia uma lista de nmeros de telefone para quem quisesse 
comunicar qualquer informao. Quando acabou a leitura do artigo, deu uma vista de olhos pelo resto do jornal,  procura de qualquer notcia sobre o roubo do carro. 
Nada. Decidiu ler o artigo uma vez mais, olhando com frequncia  sua volta.
Se necessrio, podia esperar durante todo o dia; sabia de quem estava  espera, da pessoa que havia de o conduzir at junto de Julie e Mike.


Quando Pete se aproximou da secretria de Jennifer, esta pensou
que ele parecia to cansado quanto ela.
- Alguma coisa? - perguntou.
Ele abanou a cabea e tentou disfarar um bocejo. - Outro alarme
falso. E tu?
- Nada de importante. Apareceu outra empregada de mesa do
Mosquito Grove a lembrar-se de ter visto a Andrea e o Richard jun
tos. Tambm tivemos notcias do hospital de Wilmington. A Andrea
ainda no est safa, mas os mdicos alimentam algumas esperanas. Fez uma pausa. - Esta manh, esqueci-me de perguntar se conse
guiste falar com o detective particular ou com a me da Julie.
- Ainda no.
- Por que no me ds os nmeros enquanto vais arranjar caf
para ns ambos? Vou tentar.
- Porqu? J sabemos o que  que ele l foi fazer. - No tenho mais nada que fazer.
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Jennifer acabou por conseguir falar com a me de Julie, mas, por uma vez, Pete tivera razo. A chamada no lhe revelou nada que ela no tivesse j adivinhado. Sim, 
dissera a me, tinha falado com um homem que se apresentou como um velho amigo da filha. Uma semana depois, ele trouxe um amigo com ele. Esse amigo correspondia 
 descrio do suspeito.
Continuava a no haver resposta por parte do investigador particular.
Ainda no havia notcias sobre as impresses digitais.
Sem novas informaes, estava de regresso ao ponto de partida, mas mais frustrada. Ser que ainda se encontra na cidade? No sabia. 0 que vai ele fazer em seguida? 
No fazia ideia. Continuaria no encalo de Julie? Pensava que sim, mas no tinha a certeza absoluta. Existia sempre a possibilidade de que, ao ver-se acossado pelos 
polcias, ele decidisse sair da cidade e recomear noutro ponto qualquer, como fizera no passado.
S havia um problema: o homem tinha-se transformado em Richard Franklin para todos os fins. Em casa, no tinham descoberto nada de pessoal, com excepo das roupas, 
das mquinas fotogrficas e das fotografias. E as fotografias no lhe diziam nada a no ser que ele era um bom fotgrafo. Podiam ter sido tiradas em qualquer stio, 
numa altura qualquer e, como era Richard quem as revelava, no havia nenhum laboratrio onde fosse possvel saber alguma coisa...
Jennifer interrompeu aquela linha de pensamento quando a resposta comeou a ajustar-se ao respectivo lugar.
Em qualquer stio, numa altura qualquer?
Bom a fotografar?
Laboratrio prprio para as revelar?
No se tratava apenas de um passatempo, pensou. Pois bem. J sabia disso. E que mais? Olhou para a pilha de fotografias que tinha em cima da secretria. Trata-se 
de algo que ele faz h muito tempo. H anos. 0 que significa...
Que poder ter usado mquinas fotogrficas ainda antes de se tornar conhecido como Richard Franklin.
De repente, chamou em voz alta: - Pete, as mquinas fotogrficas dele ainda esto em poder dos especialistas forenses?
- As do Franklin? Trouxe-as para c ontem...
Jennifer saltou da cadeira e comeou a caminhar em direco  seco de provas.
- 0 que  que ests a fazer?
- Julgo que descobri uma maneira de saber quem  este tipo. Momentos depois, Pete esforava-se por acompanh-la, enquanto
percorriam os corredores da esquadra.


- 0 que  que se passa? - indagou Pete.
Jennifer estava ao balco da seco de provas, a preencher a
requisio do equipamento de fotografia, sob o olhar do agente
responsvel.
- As cmaras, as objectivas.  um equipamento dispendioso, no
concordas? E, como disseste, as fotografias podem ter sido tiradas em
qualquer altura. S com estas mquinas, no ?
0 colega encolheu os ombros. - Julgo que sim.
- No ests a ver o que isso significa? - perguntou ela. - Se ele
sempre foi o dono destas mquinas?
- No. No chego l. 0 que ?
Por esta altura, o agente tinha colocado uma caixa Tupperware em
cima do balco e Jennifer estava preparada para sair dali. Demasiado
ocupada para poder responder-lhe, pegou na caixa e regressou com ela
 sua secretria.
Um minuto depois, com um misto de confuso e fascnio, Pete
Gandy estava a ver a colega a analisar a parte posterior da cmara. - Tens por a uma chave de fendas pequena? - perguntou
Jennifer.
- Para qu?
- Tenho de remover esta pea. - Porqu?
- Estou  procura do nmero de srie. - Para qu? - repetiu Pete.
Jennifer estava demasiado ocupada a procurar nas gavetas para se
preocupar a dar-lhe resposta. - Que raio!
- Deve haver uma na manuteno - sugeriu o colega, conti
nuando a no perceber aquela mania de saber os nmeros de srie. Muito excitada, levantou os olhos para ele. - s um gnio! - De verdade?


Um quarto de hora depois, tinha os nmeros de srie de que precisava. Deu metade dos nmeros a Pete e ficou com a outra metade; foi sentar-se  secretria, tentando 
manter o moral elevado.
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Ligou para as informaes, obteve os nmeros de telefone dos fabricantes das mquinas fotogrficas e ligou para o primeiro. Depois de explicar que precisava de se 
certificar do nome e endereo do proprietrio, ouviu a pessoa que estava a atend-la a teclar o nmero.
- Pertence a um Richard P. Franklin...
Desligou e tentou o nmero seguinte. Depois outro. Contudo, na quarta chamada, obteve outro nome.
- Essa cmara foi registada em nome de Robert Bonham, de Boston, estado do Massachusetts. Deseja o endereo?
As mos de Jennifer tremiam e mal lhe permitiam tomar nota da informao.


Morrison analisou a questo. - Como podes ter a certeza de ser esse o nome dele?
- 0 nome est ligado a quatro peas diferentes de equipamento e, de acordo com os registos dos fabricantes, nunca foi comunicado qualquer roubo. Creio poder arriscar 
que este  o nosso homem.
- 0 que  que precisas que eu faa?
- Gostaria que, no caso de haver problemas com o Departamento de Polcia de Boston, desse uma palavrinha.
Morrison aquiesceu. - Avana.
Jennifer no teve de enfrentar quaisquer problemas. 0 primeiro detective contactado conseguiu fornecer-lhe todas as informaes de que ela carecia e declarou:
- Robert Bonham  procurado para interrogatrio no caso do desaparecimento da mulher, Jessica Bonham, h quatro anos.


Sabendo que a permanncia prolongada no mesmo stio podia levantar suspeitas, Richard pegou nas suas coisas e procurou outro banco.
Gostaria de saber o que ela estaria a fazer dentro de casa, mas, pensando bem, no lhe interessava. H muito que aprendera a ser paciente e, depois de olhar mais 
uma vez para a janela, voltou a mergulhar a cabea no jornal aberto. J tinha lido cada um dos artigos trs ou quatro vezes, alguns mais. Sabia os filmes em exibio 
e onde ficavam os cinemas, sabia que o centro comunitrio estava a oferecer cursos de informtica para a terceira idade, mas o jornal aberto escondia-o dos olhares 
curiosos das pessoas que passavam.
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LNau u p1eulupava a puJJ1U11111aUc Uc ~cl LtL L        11V, l.iiiv~~i+ I
besse que estava a ser procurado, ningum se lembraria de que ele pudesse estar num stio daqueles. Mesmo que a ideia ocorresse a algum, graas ao jornal e s alteraes 
que fizera no seu aspecto, tinha a certeza de que no seria reconhecido.
Tinha o carro arrumado logo a seguir  esquina, no parque de estacionamento de um supermercado, stio onde chegaria rapidamente, em caso de necessidade. A partir 
de agora, sabia que tudo se resumia a uma questo de tempo.


Uma hora depois, com o fax ainda a despejar pginas do processo
de desaparecimento de Jessica enviadas de Boston, Jennifer sentou-se
 secretria, a preparar-se para a chamada telefnica que tinha de
fazer em seguida. Feita a ligao, ouviu uma voz feminina do outro
lado do fio.
- Estou!
- Estou a falar com Elaine Marshall? - Sim. Quem fala?
- Sou a agente Jennifer Romanello. Estou a falar do Departa
mento de Polcia de Swansboro.
- Swansboro?
- E uma pequena cidade da Carolina do Norte - informou
Jennifer. - Gostaria de saber se dispe de uns minutos para falar
comigo.
- No conheo ningum na Carolina do Norte. - Estou a falar por causa da sua irm, Jessica. Seguiu-se um longo silncio. - Encontraram-na?
- Lamento, mas no a encontrmos. Mas estava a pensar se me
poderia dizer alguma coisa acerca de Robert Bonham.
Jennifer verificou que, ao ouvir aquele nome, Elaine Marshall
soltou um profundo suspiro.
- Porqu?
- Porque, neste momento, andamos  procura dele. - Por causa de Jessica?
A agente estava a pensar at aonde deveria ir. - No - acabou
por dizer. -  procurado por causa de uma outra pessoa. Verificou-se outra pausa prolongada.
- Ele matou algum, no foi? - inquiriu Elaine Marshall auto
maticamente. - Em Swansboro?
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~u. - ..a -is- wisa quc inc possa ui/-et acerca
dele?
-  um louco - respondeu Elaine. As palavras saam-lhe com rapidez, como se ela estivesse a fazer um esforo para se dominar. - Toda a gente tinha medo dele, incluindo 
Jessica.  violento e perigoso... e inteligente. Jessica empreendeu uma tentativa de fuga. Ele costumava bater-lhe. Uma noite, foi ao supermercado comprar comida 
e nunca mais voltmos a v-la. Toda a gente soube que foi ele o culpado, mas Jessica nunca foi encontrada.
Elaine Marshall comeou a chorar. - Oh, meu Deus... tem sido to difcil... No sabe quanto  difcil saber... isto , no ter a certeza... Sei que ela est morta, 
mas h sempre uma ligeira centelha de esperana... Tenta-se passar adiante, mas logo acontece qualquer coisa que nos faz recordar tudo...
Jennifer ouviu soluos do outro lado da linha. - Como  que ele era, no incio da relao com a sua irm? - perguntou em tom amvel, passado um ligeiro momento de 
silncio.
- 0 que interessa isso? Ele fez tudo o que pensam que fez... Ele  diablico...
- Por favor - implorou Jennifer. - 0 nosso maior desejo  apanh-lo.
- E pensa que isso vai ajudar? Pois, no vai. H anos que o procuramos. Contratmos investigadores particulares, pressionmos as autoridades para no deixarem morrer 
o caso... - mas no conseguiu concluir.
- Ele encontra-se aqui - informou Jennifer. - E queremos ter a certeza de que no vai escapar. Agora, por favor, pode dizer-me como  que ele era?
Elaine Marshall soltou um profundo suspiro, a tentar encontrar as palavras exactas.
- Oh, como seria de esperar;  uma velha histria, no ? - comeou, sem esconder a tristeza. - Era encantador, bonito, e assediou a Jessica at conseguir dar-lhe 
volta  cabea. De incio, pareceu simptico, todos gostmos dele. Deram o n seis meses depois de se terem conhecido e, depois do casamento, as coisas mudaram. 
Tornou-se demasiado ciumento e nem sequer gostava que Jessica contactasse a famlia. Passado pouco tempo, ela deixou praticamente de sair de casa mas, nas raras 
ocasies em que conseguamos estar com ela, tinha sempre hematomas. Como era de esperar, tentmos cham-la  razo, mas s passado muito tempo  que comeou a dar-nos 
ouvidos.
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to! na altura em que me msse que eia fugiu...
- Finalmente, admitiu que tinha de fazer isso. Durante dois dias, ele agiu como se no tivesse acontecido nada. Tentou que lhe dissssemos onde ela estava mas, como 
era de esperar, nenhum de ns estava disposto a isso. Sabamos o que aconteceria de seguida. A minha irm foi para Kansas City, um lugar onde podia refazer a vida, 
mas ele caou-a. No fao ideia de como o conseguiu, mas encontrou-a e trouxe-a de volta. E ela ficou junto dele mais duas semanas. No sei como explicar isto, diria 
que, quando estavam juntos, Robert exercia uma espcie de poder sobre ela. Isto , Jessica ficava de olhos em alvo quando ele lhe dirigia a palavra, como se soubesse 
que nunca poderia livrar-se dele, mas eu e a minha me acabmos por ir l a casa e arrastmo-la dali para fora. Foi morar com os nossos pais e estava a tentar refazer 
a vida. Parecia estar a recuperar bastante bem. E, ento, numa noite, foi ao supermercado e nunca mais voltou a ser vista.
Depois de desligar, Jennifer continuou sentada  secretria, a reflectir sobre o que acabara de ouvir, com as palavras ainda a retinirem-lhe nos ouvidos.
Mas ele caou-a l.


Mabel levantou-se e tomou duche. Apesar de exausta, no dormiu bem por estar to preocupada com Mike e Julie. Tinha de falar com eles pessoalmente, para os fazer 
compreender toda a gravidade da situao. Pegou nas chaves do carro e dirigiu-se para a porta, a recordar-se do que Julie lhe dissera, no salo, no momento em que, 
juntamente com Mike, estava a entrar no carro da Emma.
E se ele for atrs de ns?
J a caminho da garagem, Mabel estacou. E se Richard a seguisse at  casa da praia? Como poderia saber se ele estava a observ-la naquele preciso momento?
A rua estava deserta em ambas as direces, mas Mabel continuou na dvida.
No quis arriscar.
Rodou sobre os calcanhares e regressou a casa.


Depois de rever as informaes acerca de Robert Bonham e de ter feito mais uns telefonemas, incluindo uma segunda chamada para Elaine Marshall, Jennifer resumiu 
tudo em duas pginas. Disse a Pete
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o que gostaria que eie rizesse; depois, juntos, Coram talar com o chefe Morrison.
Este levantou os olhos quando Jennifer lhe entregou os papis e leu-os rapidamente. Depois de terminar, encarou-a.
- Tens a certeza quanto a tudo isto?
- Julgo que sim. Ainda tenho de fazer mais uns telefonemas, mas confirmei tudo isso que est a ver.
Morrison recostou-se na cadeira. Ficou quieto por momentos, a tentar absorver a gravidade da situao.
- 0 que  que pretendes fazer?
Jennifer pigarreou. - At que consigamos prend-lo, acho lhor que Pete permanea junto de Mike e Julie, na casa da praia.
me parece que haja alternativa. Se o que ouvimos  verdade, sabemos o que este homem  capaz de fazer e aquilo que vai tentar fazer de seguida.
Morrison cravou nela um olhar penetrante. - Pensas que eles vo
concordar com esse plano?
- Sim, tenho a certeza. Isto , uma vez conhecido o perigo que
correm, tero de concordar.
- Vais telefonar-lhes?
- No. Julgo que ser melhor falarmos pessoalmente com Julie. Morrison aquiesceu. - S autorizo se ela concordar. Minutos depois, ia a caminho, acompanhada de Pete.
Nenhum deles se apercebeu de que o Trans Am roubado arrancou
e colocou-se atrs deles.
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TRINTA E NOVE
- 0 nome dele  Robert Bonham - comeou Jennifer. - 0 verdadeiro Richard Franklin foi dado como desaparecido h trs anos.
- No percebo - disse Julie.
Estavam na cozinha da casa da praia de Henry. Mike e Julie estavam sentados  mesa; firme, e adoptando a posio de polcia silencioso, Pete estava encostado a um 
canto.
Mike pegou na mo de Julie e fez presso com os dedos.
Jennifer percebeu que tinha de comear pelo princpio, pois nem Mike nem Julie sabiam fosse o que fosse acerca das investigaes. Seguir passo a passo, poderia reduzir 
as perguntas ao mnimo; tambm lhe daria oportunidade de lhes expor a gravidade da situao.
- Como foi isso possvel? - indagou Mike.
- 0 verdadeiro Richard Franklin no era casado e, para alm da me, que morreu num lar de idosos no ano passado, no havia ningum que pudesse aperceber-se de que 
o seu nmero da Segurana Social tinha voltado a ser usado. E por ser considerado desaparecido, no morto, no houve motivos para lanar um alarme geral.
Mike olhou-a de frente. - Pensa que Robert Bonham o matou?
Foi mais uma afirmao do que uma pergunta.
A agente fez uma pausa. - Tendo em considerao tudo o que descobrimos acerca dele? Sim,  o que me parece.
- Meu Deus...
Julie olhou pela janela, subitamente desnorteada. Na praia andava um casal de idosos, que pararam em frente da casa. 0 homem abaixou-se e apanhou uma concha, que 
guardou num saco de plstico, antes de prosseguir.
- Ento, quem  esse Robert Bonham? E como sabe que esse  o seu verdadeiro nome?
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meNo
Soubemos o nome graas aos nmeros de srie das mquinas fotogrficas. Registou-as h muitos anos. So o nico elo que o liga ao passado, mas, desde que soubemos 
o nome dele e o lugar de nascimento, o resto foi bastante fcil de descobrir - continuou Jennifer, consultando as suas notas. - Foi criado nos arredores de Boston 
e era filho nico. 0 pai era um alcolico que trabalhava numa fbrica de produtos qumicos, a me era apenas dona de casa. Houve diversas participaes de agresso 
em casa... ao longo dos anos, a polcia investigou uma dzia de incidentes do gnero, at que o pai morreu.
Depois de explicar as circunstncias que rodearam a morte do pai dele, Jennifer apontou o dossi. - Falei com um dos agentes que investigaram o caso. Est agora 
reformado, mas recorda-se de tudo. Afirma que ningum acreditou que Vernon Bonham tivesse cometido suicdio mas, por no terem provas (e sabendo que Vernon no era 
exactamente um modelo como marido e como pai), deixaram correr. Mas este agente continua a crer que o mido fechou a porta da garagem e reps o motor a trabalhar, 
depois de o pai ter adormecido.
Ao ouvir isto, Julie sentiu o estmago s cambalhotas. - E a me? - sussurrou.
- Morreu com uma dose excessiva de drogas, menos de um ano depois. Segundo as autoridades, foi mais um suicdio.
Jennifer deixou a acusao velada pairar durante uns segundos, e continuou.
- Passou os anos seguintes em instituies para menores abandonados, passando de uma casa para outra, nunca ficando muito tempo no mesmo stio. 0 cadastro juvenil 
est selado, pelo que no sabemos o que fez durante os primeiros anos da adolescncia, mas, na universidade, foi suspeito de agresso e danos corporais a um antigo 
colega de quarto. 0 companheiro acusou-o de roubar dinheiro, o que Robert negou. Meses depois, ao sair de casa da namorada, o colega foi atingido por um taco de 
golfe e passou trs semanas no hospital. Embora tivesse acusado Robert Bonham, no houve provas suficientes para o prenderem. Uma ano mais tarde, Robert concluiu 
a licenciatura em Engenharia.
- Deixaram-no continuar na universidade? - perguntou Mike.
- No sei se podiam ter agido de outra forma, pois o caso nunca chegou a ser julgado em tribunal. Depois disso, e durante uns anos, no existe nada nos registos. 
Se foi para outro estado ou ape
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nas no se tornou a envolver em sarilhos, isso ainda no sabemos. 0 dado seguinte de que dispomos refere-se a 1994, quando se casou com Jessica.
- 0 que  que lhe aconteceu? - quis saber Mike, embora no soubesse muito bem se desejava saber a resposta.
- Jessica est dada como desaparecida desde 1998 - respondeu Jennifer. - Estava a viver com os pais e foi vista pela ltima vez no supermercado da zona. Uma testemunha 
recordou-se de nessa noite ter visto Robert Bonham dentro do carro, parado no parque de estacionamento, mas ningum viu o que aconteceu a Jessica. Robert e Jessica 
desapareceram nessa mesma noite.
- Quer dizer que ele a matou? - inquiriu Mike.
- Tanto a famlia como a Polcia de Boston acreditam que sim - respondeu Jennifer.
Mike e Julie retesaram-se nas cadeiras, ambos plidos com a revelao. 0 ar parecia-lhes espesso e asfixiante.
- Falei com a irm de Jessica - continuou a polcia, lentamente -, e essa  uma das razes da minha vinda aqui. Contou-me que Jessica fez uma tentativa de fuga. 
Percorreu metade do pas, mas, no se sabe como, Robert seguiu-lhe o rasto. Na realidade, ela usou a palavra caada.
Fez uma pausa, deixando que as palavras assentassem. - No sei se tm conscincia disso, mas Robert Banham, ou Richard, deixou o emprego h um ms. Em sua casa, 
encontrmos fotografias suas. Centenas de fotografias. Tanto quanto podemos saber, desde a sua primeira sada com ele, nunca mais deixou de a espiar, praticamente 
vinte e quatro horas por dia. E tambm andou a investigar o seu passado.
- 0 que  que pretende dizer? - perguntou uma Julie em desespero.
- Na semana em que disse que estivera com a me moribunda, foi a Daytona. Foi procurar informaes a seu respeito. Encarregara um detective particular de verificar 
a sua histria; falmos com a sua me sobre o assunto. Parece no restarem dvidas de que andou a persegui-la durante todo este tempo.
Como um caador, pensou Julie, a sentir um aperto na garganta.
- Mas porqu a mim? - conseguiu perguntar. - Por que motivo foi eu a escolhida?
Proferiu as palavras em tom lamentoso, como uma criana prestes a chorar.
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- No posso saber ao certo - respondeu Jennifer. - Mas deixe-me mostrar-lhes o que achmos.
Mais. 0 que seria agora?
Tirando-a da pilha, fez deslizar uma fotografia sobre o tampo da mesa, aquela que encontrara na mesa de cabeceira. Mike e Julie olharam e, lentamente, voltaram a 
olhar para a agente.
- Esquisito, no acham? Esta  a Jessica. Quero tambm que vejam isto.
Embora o gesto lhe provocasse a sensao de que tinha vermes a passear por baixo da pele, Julie olhou de novo a fotografia e, desta vez, percebeu aquilo que Jennifer 
queria que ela visse.
Suspenso do pescoo da jovem estava o medalho que Richard... Robert, fosse l quem fosse... tinha oferecido a Julie. Deu consigo a murmurar o nome da mulher.
- Jessica Bonham - murmurou -, J. B.
Atrs de si, Julie sentiu a respirao pesada de Mike.
- Sei que  duro para si - continuou Jennifer -, mas houve outra razo que me levou a querer falar consigo. Por causa da Andrea e do que pensamos que aconteceu a 
Jessica, sem esquecer o destino do verdadeiro Richard Franklin, gostaramos que o agente Pete Gandy ficasse convosco durante alguns dias.
- Aqui, dentro de casa? - perguntou Mike.
- Se estiverem de acordo.
Os olhos de Julie pareciam de vidro e Mike olhou de esguelha para Pete. - Muito bem - concordou. - Parece-me uma boa ideia.


Pete saiu para ir ao carro buscar a mala que tinha preparado e viu Jennifer a observar de longe as casas que se alinhavam ao longo da praia.
- Isto aqui  sempre to sossegado?
- Parece que sim - respondeu Pete.
A agente voltou a observar as casas. Havia poucas com automveis estacionados nos caminhos de acesso s garagens, os habituais jipes, os Camry e tambm um Trans 
Am, tudo mquinas que um adolescente no se importaria de conduzir, o tipo de carro com que ela sonhara quando andava na escola secundria. Seis carros, no conjunto, 
mas o nmero no deixava de implicar que apenas um quarto das casas se encontravam ocupadas. A ideia no lhe agradava muito, mas tambm no duvidava de que estavam 
ali melhor do que na cidade.
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- E consegues ficar acordado durante toda a noite? - perguntou a Pete.
- Consigo - respondeu o colega, ao fechar a mala do carro. - Durmo umas horas durante a manh. Vais dar-me notcias de vez em quando, para me manteres acordado, 
de acordo?
- Logo que descubra alguma coisa de jeito, telefono-te.
Ele assentiu. Aps uma ligeira pausa, perguntou: - Ouve, sei que isto  uma medida que temos de tomar, mas, na realidade, pensas que ele ainda anda por a? Ou achas 
que voltou a ser um fugitivo?
- Para te ser franca, acho que sim, que ele ainda est por perto.
Os olhos de Pete seguiram os dela, que percorriam a rua em ambas as direces. - Tambm eu.


Julie passou a noite sem conseguir adormecer.
L fora, ouvia o marulhar das ondas que se espraiavam pelo areal num ritmo constante. Mike estava deitado a seu lado e, antes de se deitar, abrira um fresta da janela; 
adormecera logo de seguida. Julie tinha-se levantado para fechar a janela e para se assegurar de que o fecho estava bem corrido.
Por debaixo da porta do quarto, via a luz que vinha da cozinha. Tinha ouvido os passos de Pete atravs da casa mas, nas duas ltimas horas, o polcia parecia ter-se 
sentado.
Apesar da sua actuao anterior, Julie estava contente por o ter ali. No s era um homem possante, como, ainda mais importante, dispunha de uma arma.


Das dunas, Richard observava a luz amarelada que iluminava a janela da casa da praia.
Estava aborrecido por saber que o agente Gandy tinha decidido ficar por l, mas sabia que o polcia no conseguiria faz-lo parar. Nem Mike, nem o co. Ele e Julie 
tinham sido feitos um para o outro, pelo que estava pronto a ultrapassar qualquer obstculo que obstasse  felicidade futura do casal. Tudo o resto eram inconvenientes, 
mas no eram mais graves do que mudar de aspecto ou roubar um automvel. Ou de ter necessidade de recomear tudo outra vez.
Ficou a reflectir para onde iriam depois de deixarem o estado da Carolina do Norte. Achava que Julie devia apreciar So Francisco,
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-111 as suas esplanadas nos passeios e a viso do pacfico, Ou a cidade de Nova Iorque, onde podiam escolher novas peas teatrais
quase todos os meses. Ou at Chicago, com toda aquela vibrao e vitalidade.
Seria maravilhoso, pensava. Pura magia.
Dorme bem, pensou, a sorrir. Dorme e sonha com um novo futuro, que comea amanh  noite.
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QUARENTA
Na noite seguinte, instalara-se uma grande tranquilidade. A brisa era constante e o negrume do cu era atenuado pela existncia de nuvens. 0 mar estava calmo, com 
as ondas a rolarem mansamente. A maresia pairava no ar como se fosse uma neblina.
Tinham acabado de jantar, uma hora antes, e o Singer estava junto da porta das traseiras, a agitar ligeiramente a cauda. Julie atravessou a cozinha para lhe abrir 
a porta, ficando a v-lo descer a escada e, logo a seguir, desaparecer no escuro.
No gostava de o deixar andar l por fora, pois, apesar da presena de Mike e de Pete, sentia-se mais segura com o co junto de si; mas o animal precisava de correr 
e era melhor que o fizesse  noite. No se importava de que sasse logo pela manh, quando no se via ningum mas, durante o dia, havia demasiada gente por ali, 
para o animal vadiar sem trela.
Tambm pensara em sair - com Pete e Mike, certamente -, por achar que um pouco de ar fresco lhe faria bem, mas desistira da ideia. Tinha a certeza de que Mike e 
Pete diriam que no, mesmo se ela insistisse. Contudo, teria sido agradvel. Em teoria, pelo menos.
Tinha atendido chamadas de Mabel e de Emma; Henry ligou mais tarde, para falar com Mike. Nenhuma das chamadas durara mais do que uns minutos. Nenhum deles, segundo 
parecia, tinha muito de que conversar, excepto Mabel, que ligou depois de falar com os pais de Andrea, que tinha sado do coma e, embora continuasse desorientada, 
parecia estar a recuperar. Jennifer previa ir falar com ela dentro de dois dias.
Jennifer Romanello tambm ligara duas vezes para os pr ao corrente das ltimas novidades; finalmente, conseguira encontrar o investigador particular que tinha andado 
a meter o nariz no passado de
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Julie e, depois das lamentaes habituais sobre o impedimento tico de revelar o nome do cliente, tinha colaborado. Tambm apresentou uma factura da companhia dos 
telefones, que confirmou a existncia de chamadas para a residncia de Richard.
Infelizmente, ainda no haviam encontrado sinais de Richard, Robert, ou l como se chamava.
Julie voltou as costas  porta e atravessou a sala, em direco  cozinha, onde Mike estava a mergulhar os pratos no lava-loua. Pete estava ainda  mesa, a fazer 
uma pacincia. Desde a hora do almoo, j jogara mais de uma centena de jogos, deixando as horas passar e, na maior parte do tempo, sem dar sinais de vida, excepto 
quando dava uma volta pelo exterior para ver como estavam as coisas.
- 0 permetro est seguro - tinha-se tornado a sua nova frase preferida.
Julie passou os braos  volta de Mike, que voltou a cabea para corresponder  carcia.
- Est quase - informou. - S faltam uns pratos. Onde  que est o Singer?
Julie pegou num pano e comeou a limpar os pratos. - Abri-lhe a porta.
Outra vez?
No est habituado a viver numa gaiola tanto tempo.
Continuas a pensar naquilo que Jennifer nos disse?
- Penso nisso e penso em tudo. No que ele fez antes. No que fez  Andrea. Onde estar neste momento. Porqu eu. Quando ouvia falar de assdio, sempre me pareceu 
que havia uma lgica retorcida por detrs disso. Como a mania de assediar estrelas de cinema. Ou ex-maridos, ou ex-namorados. Mas s samos duas ou trs vezes e 
mal nos conhecamos. Por isso, continuo a pensar, a tentar saber se fiz qualquer coisa capaz de ter desencadeado este processo.
- No passa de um maluco - rematou Mike. - No sei se alguma vez chegaremos a compreender.


Do seu ponto de observao, junto da duna, Richard viu Julie abrir a porta para dar passagem ao co. Com a luz por detrs, pareceu-lhe um anjo a descer do cu. Richard 
sentiu a ereco, excitado pelo pensamento do que ia acontecer de seguida.
No dia anterior, depois de os ter localizado, tinha arrumado o carro junto da garagem de uma casa que estava  venda. Embora
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a maioria das casas existentes ao longo da praia ainda estivessem vagas naquela altura do ano, esta parecia estar desocupada h um certo tempo. Uma inspeco rpida 
revelara a existncia de um alarme para a casa mas no para a garagem. A fechadura era simples e no lhe deu problemas; uma chave de fendas que encontrou no porta-luvas 
do Trans Am foi suficiente para a abrir. Retirou a chave de rodas que encontrou na mala do carro.
Dormiu em cima de um colcho poeirento que encontrou numa prateleira da garagem e tambm achou uma pequena geladeira. Embora bolorenta, servia. De tarde, tinha passado 
uma hora a comprar tudo aquilo de que precisava.
Agora, s lhe restava aguardar que o co andasse a vadiar pela praia. Sabia que Julie o ia deixar sair, como fizera na ltima noite e muito provavelmente na noite 
anterior. Quando pressionadas, as pessoas caem sempre nos velhos hbitos e rotinas, esperando, ao agirem assim, manter um simulacro de ordem nas suas vidas.
Olhando para longe, j no conseguia ver sinais do co.
Tinha a seu lado os quatro hambrgueres que tinha trazido do Island Deli, um restaurante que encontrou perto da loja de ferragens onde fora durante a tarde.
Ainda estavam embrulhados em papel de alumnio, mas j tinham sido desembrulhados uma vez, para serem cortados em pedaos.
Levando-os consigo, comeou a rastejar por entre as ervas, em direco aos degraus da casa.


- Odeio este maldito jogo - dizia Pete. -  impossvel ga
nhar.
Enquanto arrumava a loua no armrio, Julie olhou de relance para
a mesa. - Pe o sete vermelho em cima do oito preto.
Pete Gandy pestanejou, ainda sem perceber. - Onde? - Na ltima sequncia.
- Pois . J est.
Novamente absorto no jogo, Pete manteve os olhos baixos.
Mike lavou o ltimo prato, tirou a vlvula do lava-loua e olhou
para a janela alta.
Com a luz da cozinha a incidir sobre o vidro, apenas conseguiu ver
a sua prpria imagem.
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* * *
L fora, Richard desembrulhou a carne e espalhou os bocados pelos degraus que iam das dunas  porta da casa. Sabia que o co iria chegar ali antes de Julie ou Mike, 
pelo que no estava preocupado com a possibilidade de ser visto por qualquer deles.
No fazia ideia de quanto pesava o co e, por isso, misturara a maior quantidade daquele p amargo que julgara possvel sem destruir o aroma da carne. No queria 
que o Singer a cheirasse repetidamente, sentindo que aquilo no era o que parecia e passasse adiante.
No, isso no seria nada bom. 0 co j o tinha mordido uma vez e no sentia nenhum desejo de enfrentar outra vez aquela dentadura. Da primeira vez, Julie tinha obrigado 
o Singer a parar, mas no tinha iluses de que o viesse a fazer uma segunda vez. Alm do mais, aquele co tinha uma caracterstica qualquer que o preocupava, algo 
que no conseguia definir. Algo... imprprio de um co, na falta de melhor definio. Uma coisa sabia: enquanto o co andasse por perto, Julie continuaria confusa 
e com vontade de resistir.
Voltou a rastejar para o esconderijo e preparou-se para esperar.


Mike e Julie estavam sentados no sof, com os olhos postos em Pete Gandy, que perdia jogo aps jogo.
- Alguma vez te falei da carta que recebi de Jim? - perguntou Julie. - A que recebi na noite de Natal, depois de ele ter morrido?
Falava com se estivesse a fazer uma confisso. Tinha metade da cara na sombra e Mike percebeu que ela no tinha a certeza do que desejava dizer.
- J falaste nisso, mas no sei o que a carta dizia.
Julie assentiu e encostou-se mais, sentindo o brao dele a rodear-lhe os ombros.
- No tens de me contar, se preferes guard-la para ti - sugeriu Mike.
- Julgo que deves saber. De certa forma, penso que a carta se refere tanto a mim como a ti.
Mike permaneceu calado, esperando que ela prosseguisse. Por momentos, Julie ficou a olhar para a cozinha, at o seu olhar encontrar o dele. Falou com voz suave.
- A carta tinha mais a ver com o Singer. Explicava o motivo por que me comprara um co de raa dinamarquesa, que no queria que me visse sozinha e como, sabendo 
que eu no tinha mais famlia,
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pensou que um co me poderia ajudar. "leve razao quanto a isso mas, no final da carta, dizia que desejava que eu voltasse a ser feliz. Dizia que eu devia procurar 
algum que me fizesse feliz.
Fez uma pausa e exibiu um sorriso feliz, o primeiro desde que tinham comeado aquela fuga que parecia no ter fim.
-  por isso que penso que se referia a ti e a mim. Sei que me amas e eu tambm te amo. Mike, tu fazes-me feliz. Mesmo no meio desta situao horrvel, continuas 
a fazer-me feliz. S quis ter a certeza de que sabias isso.
As palavras pareceram-lhe estranhamente deslocadas; no percebia o motivo que a levara a falar daquilo, naquele momento. Parecia que estava  procura de uma maneira 
agradvel de dizer adeus. Mike apertou-a mais contra si.
- Julie, tu tambm me fazes feliz. E tens toda a razo, eu amo-te.
Ela ps-lhe uma mo na perna. - No estou a dizer isto por querer pr termo  nossa relao. De maneira nenhuma. S falo por no saber como poderia ter passado as 
ltimas semanas sem a tua ajuda. E que tenho muita pena de te ter arrastado para esta situao.
- No h nada de que ter pena...
-  claro que h. Sempre foste a pessoa ideal para mim e, de certa maneira, penso que Jim tentou dizer-me isso mesmo na sua carta. Se eu lhe tivesse feito a vontade, 
nunca teria existido um Richard. E quero que saibas quanto te agradeo, no s por teres suportado tudo aquilo mas tambm por te encontrares aqui a meu lado.
- No tive alternativa - murmurou Mike.


Richard continuava deitado entre as ervas, sem tirar os olhos dos degraus. Passaram vrios minutos at que se apercebeu de sombras por entre as dunas.
0 Singer entrou numa zona iluminada pelo luar e rodou a cabea para ambos os lados. As manchas de cor do plo e a estatura davam-lhe uma aparncia quase fantasmagrica.
Richard viu-o virar de novo a cabea e trotar em direco aos degraus.
Estava quase l.
0 Singer abrandou o trote e acabou por parar. Ergueu ligeiramente o nariz, como se estudasse os degraus, mas no fez nenhum movimento na direco deles.
Richard deu consigo a estimular o co em pensamento, mas ele parecia no ter vontade de se mover. Comeou a sentir-se cada vez mais tenso. Como se falasse consigo, 
mandou: - Come!
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Nem se apercebeu de que estava a conter a respirao. Ouvia as ondas a revolverem-se e a rebentarem ao longo da praia. A erva alta ondulava com a brisa. L em cima, 
uma estrela cadente deixou um trao momentneo de luz brilhante.
Finalmente, o co avanou.
Foi um passo hesitante, mas um passo, e comeou a esticar a cabea para diante, como se acabasse de farejar qualquer coisa. Deu outro passo, depois um terceiro, 
at ficar com a cabea por cima do hambrguer.
Baixou a cabea e farejou para, em seguida, voltar a ergu-la, como que a perguntar se devia comer.
L longe, trazido pelo vento, ouviu-se o som abafado do motor de uma traineira.
Decidindo-se, o co baixou a cabea e comeou a comer.


Em Swansboro, a agente Jennifer Romanello passou a tarde a obter o mximo de informao possvel acerca de Robert Bonham.
Antes, o capito tinha-a chamado ao seu gabinete. No sabia o que a esperava mas, para sua grande surpresa, depois de entrar e fechar a porta, o chefe tinha-a elogiado 
pelo trabalho que estava a fazer.
- No temos maneira de formar a sagacidade, mas essa  uma das qualidades que no existe em quantidade por aqui. Pete Gandy pode estar enganado acerca da chegada 
da Mafia  cidade, mas tem razo quando pensa que Swansboro est a mudar, juntamente com o resto do mundo - explicou o capito. - Sei que todos gostamos de pensar 
que vivemos numa pequena cidade sonolenta, o que em grande parte  verdade, mas aqui tambm se cometem crimes.
Jennifer j sabia o suficiente para no abrir a boca enquanto o capito a avaliava de alto a baixo. - Desde o incio, percebeste que este tipo era um criminoso e 
tens feito um trabalho excelente de busca de informaes, especialmente na descoberta da sua verdadeira identidade. Tudo isso  trabalho teu.
- Obrigada.
Depois, no fosse algum pensar que o capito se tinha tornado sentimental, mandou a subordinada embora. Mostrou um ar de impacincia, como que escandalizado por 
ela ainda estar no gabinete, e apontou-lhe a porta.
- Pois bem, volta ao teu trabalho - vociferou. - Continuo a no conseguir saber o que motiva este homem. Talvez isso nos ajudasse a deitar-lhe a mo.
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- Sim, meu capito - repetiu jenniter e, ao deixar o gabinete, a sentir os olhares de todos os colegas cravados em si, teve de usar de todo o seu autodomnio para 
no desatar a rir.
Agora, enquanto se empenhava em cumprir as ordens do chefe - continuava a analisar os documentos vindos de Boston e a contactar pessoas que tinham conhecido Robert 
Bonham -, percebeu que Burris estava muito contente enquanto falava ao telefone e olhou para ele. Estava a acenar vigorosamente com a cabea e a tomar nota da informao, 
at que terminou a chamada. Viu-o levantar-se, pegar no papel com as notas e dirigir-se para ela.
- Acabo de receber uma chamada - comeou Burris. - 0 carro dele foi encontrado no parque de estacionamento do hospital de Onslow, em Jacksonville.
- Ainda andar por l?
- No  provvel. 0 guarda tem quase a certeza de que o carro esteve l pelo menos dois dias. Percorre o parque todas as noites, tomando nota das matrculas, e esta 
faz parte da sua lista desde o dia em que tu e o Gandy foram falar com ele. Mas, como estava a trabalhar, s ontem  que ouviu a informao no noticirio e no relacionou 
as duas coisas, at h pouco.
Estava explicado o motivo de o carro no ter sido descoberto mais cedo.
- Mas ningum viu o condutor do carro?
- Tanto quanto sabemos, no. Os colegas de Jacksonville mostraram-lhe a fotografia de Robert Bonham, mas o guarda no o reconheceu. No entanto, vou para l agora 
e farei umas perguntas. Queres vir comigo?
Jennifer ponderou a questo. No estava a conseguir nada do trabalho que tinha entre mos, mas tambm no sabia o que resultaria daquela nova diligncia. Podiam, 
decerto, encontrar algum que tivesse visto o condutor do carro, e depois? 0 que precisavam de saber era onde  que ele estava agora.
- No - respondeu -, acho que vou continuar a analisar o dossi. Talvez me tenha escapado alguma coisa.

Embora as cortinas tapassem as janelas quase todas, as da sala estavam abertas e Richard observava as sombras. No ouvia nada, para alm do marulhar das ondas. 0 
ar estava parado, como a acompanh-lo naquela expectativa de cortar a respirao.
Julie no tardaria a dirigir-se para a porta das traseiras; no era normal que deixasse o Singer c fora por mais de uns vinte minutos e
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queria ver a cara dela quando viesse chamar pelo co. Ao olhar para a casa, permitiu-se alimentar a esperana de que ela acabasse por lhe perdoar tudo o que ele 
tinha de fazer.
Havia de confort-la mas, para isso, teria tempo de sobra, mais tarde. Depois de ultrapassada toda aquela desgraa. Quando estivessem ss, como devia ser.


0 Singer comeou a subir os degraus, mas voltou a descer para a areia e ficou a andar em crculos, de lngua de fora. Recomeou a trotar, como se o movimento lhe 
aliviasse as dores de barriga.
Entretanto, tinha comeado a ofegar.


Jennifer debruou-se sobre as informaes que tinha sobre Jessica Bonham, tentando saber como  que Richard tinha conseguido seguir-lhe o rasto.
T-la-ia seguido por causa da utilizao do carto de crdito? Duvidoso, pensou. A menos que conhecesse algum membro das foras de segurana, no lhe seria fcil. 
Ento, teria sido como? Gostaria de saber se algum familiar tinha telefonado a Jessica, dando a Richard alguma possibilidade de descobrir o nmero para onde tinha 
ligado. Era possvel: na sua maioria, as pessoas deitam fora as facturas logo que esto pagas. Nesse caso, tudo o que teria a fazer era ligar para todos os nmeros 
de rede interurbana que aparecessem na factura. No entanto, Richard teria sido obrigado a remexer no contentor do lixo... ou a entrar em casa dessa pessoa, quando 
ela se ausentasse.
Tinha feito isso com Julie, por isso, talvez...
Gostaria de saber se as chamadas entre Swansboro e Topsail eram feitas atravs da rede interurbana. Se assim fosse, tinha de avisar Henry, Emma e Mabel, dizer-lhes 
que no ligassem para o Mike ou para a Julie e, se j o tivessem feito, que queimassem as facturas mal as pagassem.
Voltou a pensar no carro.
Que o abandonasse no tinha nada de surpreendente, mas tivera necessidade de arranjar um meio qualquer de deslocao. Qual? Txi? Pensou nisso, mas ps a ideia de 
parte. 0 homem era suficientemente esperto para saber que as constantes entradas e sadas de txis podiam ser registadas; e, pensando na facilidade com que conseguira 
desaparecer no passado, no julgava possvel que ele cometesse um erro desses.
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Portanto, se ainda andava por ali, e se estava a tentar descobrir o
esconderijo de Julie, como  que se deslocava?
A martelar a lista telefnica com um dedo, viu o capito Morrison
sair do seu gabinete.
- Meu capito?
Ele olhou-a, surpreendido. - Pensei que tinhas ido ao hospital,
por causa do carro.
- Pensei nisso, mas... - Mas o qu?
- 0 hospital fica exactamente onde? - perguntou. - No centro
da cidade? Nos subrbios?
- Mesmo no centro da cidade. Porqu?
- 0 que  que existe  volta? Quero dizer, j esteve nessa zona? - Com certeza, muitas vezes. H uma srie de consultrios de
mdicos, a bomba de gasolina, a rea comercial. Como disse, fica
mesmo no centro da cidade.
- A que distncia da rea comercial?
- Do outro lado da rua - esclareceu, e fez uma pausa. - Ests
a pensar em qu?
- S estou a tentar perceber como  que ele se desloca por a.
Acha possvel que tenha roubado um carro?
0 capito franziu o sobrolho. - Vou verificar. Deixa-me fazer um
telefonema.
Jennifer assentiu; mentalmente, j estava a imaginar os vrios
cenrios. Pegou nas chaves do carro-patrulha.
- Onde  que vais? - perguntou Morrison.
- Acho que vou at ao hospital para ver se os outros descobriram
alguma coisa til. Se tiver alguma informao sobre um carro rouba
do, faa favor de me informar imediatamente, de acordo? - De acordo.


Julie foi at  janela e encostou a cara  vidraa, observando a praia. - Ainda no ouviste o Singer ladrar? - perguntou.
Mike veio colocar-se ao lado dela. - No. No penso que j tenha
voltado.
- H quanto tempo  que saiu?
- No h muito. Tenho a certeza de que estar de volta no tarda. Julie concordou. L longe, distinguiu as luzes fracas de uma trai
neira que andava na faina. Embora a praia estivesse escura, julgava
que conseguiria ver o co.
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- Talvez seja melhor ir cham-lo.
- Queres que eu v?
- No, no  preciso. At me faz bem um pouco de ar fresco. Pete ficou a v-la sair.


Richard inclinou-se para diante quando a viu assomar  janela, com o rosto iluminado. Apercebeu-se, naquele preciso momento, que nunca amara ningum com a intensidade 
com que amava Julie.
Foi ento que Mike se enquadrou na imagem e destruiu o efeito. Estragou tudo, at que ambos se afastaram da janela. Richard abanou a cabea. No lamentava nada do 
que estava para acontecer quele Mike.
Continuou  espera, sabendo de antemo o que ela ia fazer. Dentro de momentos, ouviria a voz dela a vibrar no ar salgado. Se tivesse sorte, ela talvez se atrevesse 
a descer  praia, mas no contava com isso. No, chamaria pelo Singer mas no viria.
E o Singer ficaria exactamente onde estava.


Julie chamou durante uns trs minutos, sempre a andar entre a
porta e as duas extremidades do alpendre, at que Mike se juntou a ela. - Ainda no voltou? - perguntou Mike.
Julie disse que no com a cabea. - No. Nem consigo avist-lo. Mike olhou em todas as direces. - Queres que v  procura
dele? Talvez no consiga ouvir-te por causa do barulho das ondas. Julie sorriu. - Obrigada.
Ele desceu para o areal. - Estou de volta dentro de minutos. Instantes depois, ela ouviu a voz de Mike, quando, tambm ele,
comeou a chamar pelo Singer.
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QUARENTA E UM
Jennifer Romanello seguia a piscar os olhos devido aos faris que vinham no outro sentido. A falta de sono dos ltimos dois dias estava a fazer estragos e provocava-lhe 
dores nos olhos. Ia a ponderar se devia fazer uma paragem para beber um caf que a ajudasse a manter-se acordada, quando o rdio do carro deu sinal. Reconhecendo 
a voz do capito, pegou no microfone.
- Parece que temos qualquer coisa - dizia Morrison. - Acabo de falar com o colega de Jacksonville e eles registaram o roubo de um carro que estava no mesmo parque 
de estacionamento, no dia em que Richard desapareceu. Est registado em nome de Shane Clinton, que vive em Jacksonville.
- Tem o endereo?
- Tenho: 412 Melody Lane.
- Que tipo de carro?
- Um Pontiac Trans Am de 1994. Verde.
Depois recitou o nmero de matrcula e informou: -j emitimos uma ordem de deteno do veculo.
Jennifer arquivou a informao na cabea. - J falaram com o dono do carro?
- No, mas ele vive mesmo ao lado do hospital. Queres o nmero do telefone?
- Com certeza.
Morrison disse o nmero e Jennifer inseriu-o na memria, decidindo seguir de imediato para l.
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Os ps de Mike enterravam-se na areia da praia a cada passada. Olhando por cima do ombro, via Julie no prtico, de p, uma imagem gradualmente mais pequena  medida 
que se ia afastando dela.
- Singer! - voltou a gritar.
Com os olhos cada vez mais habituados  escurido, ia percorrendo as dunas com o olhar,  procura de qualquer sinal do co. Sabia que por vezes o Singer passava 
para l das dunas, em profundas exploraes dos espaos entre as casas, mas era estranho que ainda no tivesse regressado.
Estava ocupado a fazer concha com as mos para gritar outra vez, quando notou uma sombra  sua esquerda, perto de uma pequena escada. Olhou melhor, aproximando-se 
mais e reconheceu a forma que jazia na areia. Voltando-se na direco de Julie, gritou:
- Achei-o!
Deu mais dois passos em frente. - 0 que  que ests aqui a fazer?
Vamos embora. Vamos para casa.
A cauda do co agitou-se ligeiramente e Mike ouviu o que lhe pareceu ser um ganido fraco. 0 co estava ofegante, de lngua de fora. 0 peito do animal subia e descia 
com enorme rapidez.
- Parece que te cansaste demasiado... - comeou, mas, ao ouvir o Singer ganir de novo, parou.
- Ests bem? - inquiriu.
0 co continuou imvel.
- Singer! - voltou a chamar.
Mike agachou-se e ps a mo no peito do animal; sentiu que o corao estava a bater de forma acelerada. Tinha os olhos vidrados, a fixar o vazio. No respondeu ao 
toque e s ento Mike se apercebeu de que as patas traseiras do animal estavam a tremer.


Pete juntou-se a Julie no alpendre das traseiras.
- 0 que  que se passa? - perguntou.
Julie olhou-o de lado. - S estou  espera de que o Mike e o Singer
voltem para casa.
Pete assentiu e quedaram-se em silncio, ambos a olharem a praia. Julie estava a tentar saber onde  que eles poderiam estar, quando ouviu Mike cham-la pelo nome. 
Mesmo  distncia, era perceptvel o pnico que a voz dele revelava. Momentos depois, apareceu em pleno areal, longe de casa.
- E o Singer! - gritou. - Passa-se qualquer coisa! Vem c!
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uiic ICVUU U111 ._        Y        Y
e gritou:
- 0 que  que queres dizer? 0 que  que se passa? - No sei! Vem c depressa!
Sentindo uma sbita opresso no peito, Julie caminhou para a
escada.
- Espera - mandou Pete. Tentou agarrar-lhe um brao para a
fazer parar, mas Julie j estava fora do alcance. Vendo-a correr pelos
degraus, ficou a debater se devia ficar onde estava ou ir atrs dela. - Merda! - resmungou. E encaminhou-se para a praia.


Richard viu os trs a correrem pela praia. Ao v-los afastarem-se, comeou a sentir a adrenalina percorrer-lhe as veias. Tinha comeado.
Quando os perdeu de vista, comeou a descer a duna. Sempre a correr agachado, dirigiu-se para a casa, sem largar a chave de rodas.


De respirao pesada por tentar acompanhar Mike na corrida, Julie
comeou a sentir-se presa das garras do pnico. Mais atrs, ouvia Pete
a cham-la pelo nome, a suplicar-lhe que voltasse para casa. Momentos depois, viu para onde Mike estava a dirigir-se e viu o
co deitado na areia.
Julie comeou a tremer quando se aproximou do Singer. Quando
Pete os alcanou, estavam os dois ajoelhados junto do co.
- 0 que  que se passa? - indagou Pete, a ofegar.
- Singer? 0 que  que sentes, meu querido? - murmurava Julie
enquanto lhe alisava o pelo do lombo.
No obtendo resposta, Julie encarou Mike com ar infantil, como a
suplicar-lhe que a descansasse, que lhe dissesse no haver motivo de
preocupao, que estava enganada, que no tinha razes para estar
assustada.
- Por que  que o co no se mexe? - perguntou Pete. - Mike? - inquiriu Julie.
- No sei. J estava assim quando o encontrei...
- Talvez esteja cansado - sugeriu Pete, mas o olhar que Mike
lhe lanou f-lo calar-se.
- 0 que  que ele tem? - gritou Julie. - Ajudem-no!
Com todo o cuidado, Mike levantou a cabea do co. - Anda l,
meu rapaz, vamos a levantar...
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sificaram-se, como se o movimento o fizesse sofrer. Quando o animal ganiu, Mike voltou a pr-lhe a cabea na areia. Pete olhava de Mike para Julie e desta para o 
co, sem decidir o que devia fazer, sentindo-se to confuso como os outros.
- Temos de fazer qualquer coisa! - gritou Julie.
Foi aquele grito de angstia que acabou por chamar Mike  realidade. - Pete, vai l a casa e v se consegues encontrar um veterinrio que cuide de situaes de emergncia.
- No devo deix-los ss...
- Mexe-te! - gritou Mike. - E vai depressa!
- Mas...
- Pe-te a mexer!
- Est bem, eu vou.
Instantes depois corria pela escurido, deixando Mike e Julie na companhia do co.


Jennifer estava a entrar na cidade de Jacksonville quando se apercebeu de um certo desassossego interior. Tinha comeado uns minutos depois de Morrison lhe ter dado 
as informaes via rdio, mas ainda no conseguira descobrir o motivo de se sentir to inquieta.
Estava a escapar-lhe um pormenor qualquer. Qual?
Mais  frente, s enxergava luzes de farolins traseiros e a estrada parecia dividir o mundo em duas partes. 0 motor roncou quando ela pressionou o pedal do acelerador. 
Os reflectores colocados no piso passaram por debaixo do carro em cadncia rpida.
No tinha a ver com o carro roubado... ou tinha? E se tivesse...
No conseguia descobrir o que era, mas sabia que havia qualquer coisa. Algo que estava no subconsciente, qualquer coisa bvia, qualquer coisa a que no conseguia 
chegar de momento.
Ora bem, pensou, devia recapitular tudo, desde o incio. 0 carro de Richard fora abandonado. Certo. 0 outro carro fora roubado mais ou menos  hora a que Richard 
chegara a Jacksonville. Certo. Se juntasse as duas informaes nascia a suspeita, ou melhor, a certeza de que Richard tinha roubado o carro desaparecido. Certo.
0 que  o capito disse? Deu-lhe a marca e o modelo do veculo, o nome do proprietrio, o endereo do jovem. Pensou em tudo isso. Decidiu que os dois ltimos elementos 
no tinham a ver com o que a preocupava de momento. Mas, e a marca e o modelo do carro?
Pontiac Trans Am. Verde.
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0 tipo de carro com que tinha sonhado quando andava na escola secundria...
Franziu a testa, a tentar descobrir o motivo de aqueles elementos lhe quererem dizer alguma coisa.


Do alpendre, Richard ouviu Julie gritar por causa do co, Por instantes, parou para ouvir os lamentos, sentindo uma espcie de remorso. Decerto sabia que isto ia 
ser difcil para ela, mas ouvi-la - o medo e a dor - afectou-o mais do que esperava.
No queria que Julie sofresse e bem gostaria que houvesse outra soluo. Mas no havia. Tinha de terminar a tarefa. Se o Singer fosse um co mansinho, um co amoroso, 
nunca lhe teria feito mal. Mas aquele co era to complicado e to temperamental quanto a dona.
Os gritos de Julie tornavam-se mais altos, mais pungentes, o som era terrvel de se ouvir. Sentiu pena dela e desejou pedir-lhe perdo, mas isso podia ficar para 
mais tarde, quando ela estivesse em condies de ultrapassar a dor e reconhecesse que ele fizera tudo para bem de ambos.
Depois de ela deitar tudo aquilo para trs das costas, talvez viesse a comprar-lhe outro co. Embora nunca tivesse desejado ter um co, por ela seria capaz de fazer 
o sacrifcio. Iriam juntos escolher um co e ela acabaria por esquecer o Singer por completo. Talvez fizessem uma visita especial a um canil para encontrarem um 
co que gostasse de saltar como o Singer fazia. Ou podiam procurar ambos no jornal, tentando encontrar algum que vendesse cachorros para escolherem o que mais agradasse 
a ambos.
Sim, estava decidido. Teriam outro co. Um co melhor. Faria isso por ela, quando toda aquela desgraa estivesse terminada. Ela apreciaria esse gesto. Havia de sentir-se 
feliz e isso era o que sempre desejara para ela. Felicidade.
Agora que se sentia mais capaz de controlar a situao, os gritos dela passaram a soar-lhe mais distantes.
Detectou um movimento sbito na praia. Sabendo o que isso significava, Richard dobrou a esquina e escondeu-se na sombra da casa.


Pete Gandy correu para a escada, passou pelo alpendre e entrou pela porta das traseiras, em direco  cozinha. Com um puxo que quase a partiu, abriu a porta do 
armrio que havia por baixo da mesa do telefone e pegou na lista telefnica.
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i 0
- Mexe-te, mexe-te - ia dizendo ao tentar encontrar a pgina que pretendia, uma pgina onde constasse o veterinrio mais prximo.
Encontrou a seco prpria e correu o dedo pela pgina,  procura de algum capaz de acorrer a uma emergncia.
0 hospital de animais mais prximo ficava a trinta minutos de caminho, em Jacksonville, e quase podia garantir que o co no viveria tanto tempo.
Pete tentava descobrir o que havia de fazer. Qual devia ser o seu prximo passo.
Forou-se a acalmar e a pr ordem no caos de ideias que lhe fervilhavam na cabea.
Os nomes dos veterinrios constavam da lista e decidiu ligar para casa deles, pois era tarde para haver consultrios ainda abertos. Era a nica oportunidade que 
o co teria. Mas isso obrigava a procurar nos nmeros de telefone, um de cada vez.
E o tempo estava a esgotar-se.


Jennifer foi obrigada a parar num semforo, em plena baixa de Jacksonville. Embora, tecnicamente, estivesse a caminho de Melody Lane, a fim de falar com Shane Clinton, 
o problema do Pontiac Trans Am de cor verde no deixava de a preocupar.
0 tipo de carro com que tinha sonhado quando andava na escola secundria.
Pensara o mesmo, numa data recente, mas onde? Na esquadra? No, nos ltimos dois dias mal se tinha levantado da secretria. Em casa? No, tambm no fora em casa. 
Ento, onde foi?
0 semforo mudou para verde e Jennifer abanou a cabea e voltou a pr o carro em andamento.
Em que stios  que tinha estado? S fora falar com Julie e Mike, quando l deixara o Pete...
Apertou o volante com fora.
No, pensou, no podia ser...
Pegando no telemvel, carregou no acelerador a fundo, sabendo que precisava de pelo menos vinte minutos para chegar a Topsail Beach... e junto do Trans Am que vira 
estacionado na estrada.
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Pete Gandy folheava a lista telefnica para trs e para diante, corria o dedo pelas pginas, sentindo-se cada vez mais frustrado. Havia mais de uma dzia de veterinrios 
na lista, mas a maioria deles vivia em Jacksonville, demasiado longe para o poderem ajudar.
Ainda faltavam trs nomes e ele virou as pginas  procura da prxima possibilidade, o fino papel a rasgar-se nas suas mos.
Linda Patinson era o prximo nome e ele procurou na seco da lista onde constavam as localidades. No vivia em Jacksonville, nem em Orton, nem em Maysville. Indo 
para a ltima seco, percorreu a pgina com os olhos at encontrar uma Linda Patinson.
Morava em Sneads Ferry, a dez minutos dali, na mesma estrada.
Pegou no auscultador e comeou a marcar o nmero; enganou-se e desligou, forando-se a respirar profundamente, at se acalmar. Dizia a si mesmo que tinha de ter 
calma. Se pensar que sou maluco, ela no vai certamente ajudar-me.
Iniciou uma nova ligao e ouviu a campainha do receptor a tocar.
Uma vez.
Duas vezes.
- Atende l...
Trs vezes.
E quatro.
- Deus queira que estejas em casa...
Ouviu um clique no momento em que do outro lado algum atendeu.
- Estou!
A voz parecia jovem, como a de uma estudante universitria.
- Boa-noite, sou o agente Pete Gandy, da Polcia de Swansboro. Desculpe a pergunta, mas estou a falar com a doutora Linda Patinson, veterinaria.
Notou um momento de hesitao. - Sim, sou eu - respondeu uma voz pouco segura.
- No sabia que mais fazer. 0 nosso co parece estar com uma espcie de convulses.
- Bom, em Jacksonville existe uma clnica com servio de emergncia.
- Eu sei. Mas no penso que o co viva o suficiente para chegar l... No pra de tremer e tem a respirao muito acelerada. 0 corao no vai aguentar, j nem consegue 
levantar a cabea.
Pete continuou a descrever o estado do Singer o melhor que podia e, quando acabou, foi evidente a hesitao de Linda Patinson.
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poucos anos - sabia que o caso era grave, no s pelo pnico que detectava na voz de Pete como tambm pelos sintomas que ele ia descrevendo.
- Teria comido alguma coisa que houvesse na garagem? Insecti
cida? Outro veneno qualquer?
- Que eu saiba, no. Ainda h pouco estava ptimo. - De que raa  o co?
- E um grand danais.
Linda Patinson hesitou. - No tem maneira de meter o co no carro e traz-lo c? Posso estar no consultrio dentro de dez minutos.  mesmo ao fundo da rua...
- Eu consigo a chegar.
Segundos depois, Pete j tinha desligado e caminhava pelo alpendre, depois de ter o cuidado de fechar a porta. Mal notou a sombra que se moveu na sua direco.


De mos a tremer, Julie estava a dar palmadinhas no co.
- Por que ser que se demora tanto? - suplicou. - 0 que  que ele estar a fazer?
Mike no respondeu, pois reconhecia que ela falava mais para si mesma do que para ele. Em vez disso, tentou sosseg-la.
- Ele vai pr-se bom - sussurrou.
A respirao do animal era cada vez mais difcil e tinha os olhos dilatados. A lngua estava estendida na areia e apresentava-se manchada de grnulos. Cada inspirao 
provocava um ganido.
- Aguenta-te, meu querido - suplicava Julie. - Por favor... oh, meu Deus... por favor...


No alpendre, Pete Gandy no sabia bem o que o obrigara a virar-se.
Talvez o raspar suave de uns sapatos contra o soalho de madeira, ou a alterao quase imperceptvel das sombras projectadas pela lmpada amarelada do alpendre. No 
fora apenas intuio. Pete tinha a certeza. Naquele momento estava a pensar em venenos e no que podiam significar; no seu subconsciente no havia lugar para processar 
qualquer ideia que no lhe permitisse saber o que devia fazer de seguida.
Mas soube, mesmo antes de ver Richard, que algum estava a
mover-se na sua direco e j iniciara o movimento instintivo de
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mergulhar para diante quando sentiu qualquer coisa bater-lhe violentamente na cabea.
Sentiu uma exploso imediata de dor, depois luzes vermelhas nos cantos dos olhos, que subitamente se transformaram em escurido.


- Talvez seja melhor ir  procura do Pete - sugeriu Mike. - Ver
por que motivo se demora tanto.
De lbios cerrados, Julie mal o ouviu, mas acenou que sim. Mike virou-se e comeou a andar em direco a casa.


Richard ficou a olhar o vulto cado de Pete Gandy. Um trabalho repugnante, claro, mas necessrio e, dadas as circunstncias, inevitvel.
Depois, havia o facto de Pete ter uma arma, o que, pensou, lhe facilitaria muito as tarefas seguintes. Durante uma fraco de segundo, depois de se ter apoderado 
da arma, pensou em meter uma bala na cabea do polcia; mas decidiu que no valia a pena. No tinha nada contra Pete Gandy. Era apenas um homem que estava a cumprir 
a sua obrigao.
Richard virou-se e ia comear a andar para a escada quando viu Mike, vindo da praia, a dirigir-se para a casa.
Olhando para o corpo do polcia, apercebeu-se de que seria a primeira coisa que Mike veria ao chegar. Pensou rapidamente no que havia de fazer e agachou-se, ficando 
 espera de ouvir os passos pesados de Mike nos degraus.


Enquanto acelerava em direco  casa da praia, Jennifer Romanello no deixava de marcar o nmero do telefone. Primeiro, ouvira o sinal de impedido; agora ningum 
atendia. Ouvindo o telefone tocar sem descanso, no pde evitar a sensao de que algo de terrvel estaria a acontecer. Ligou o rdio e pediu reforos mas, embora 
isso lhe aliviasse as preocupaes, sabia muito bem que eles no chegariam  casa de praia antes dela.
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QUARENTA E DOIS
Mike olhou para cima no preciso momento em que um vulto escuro se lanou do cimo da escada.
A rapidez do ataque f-lo cair de costas pela escada abaixo; algo que lhe caiu em cima f-lo bater com a cabea nos degraus, deformando-lhe as costelas e espetando-lhe 
as arestas dos degraus nas ndegas.
A dor foi excruciante. Mike no conseguia ver nada, mas sentia-se escorregar de costas pelos degraus, de cabea para baixo, parecendo que cada degrau era mais um 
martelo com que lhe estavam a bater nas costelas, at que a cabea aterrou na areia e parou repentinamente, ficando com o pescoo dobrado num ngulo esquisito. Sentiu 
que estava algum por cima dele, a segurar-lhe o pescoo e a apertar. Havia uns ps cravados na areia, um de cada lado do seu corpo e, assente em cima do peito, 
tinha uma espcie de saco, pesado como se estivesse cheio de chumbo.
As mos comearam a apertar e Mike lutou contra a agonia quando a dor lhe percorreu o corpo todo. At abrir os olhos era difcil mas, quando distinguiu o rosto de 
Richard Franklin, conseguiu pensar de novo.
Quis gritar o nome de Julie, dizer-lhe que fugisse.
Mas no emitiu qualquer som. Tapada a entrada de oxignio, comeou a sentir-se tonto e a ficar confuso. Enquanto lutava por um pouco de ar, agarrou instintivamente 
as mos de Richard, tentando aliviar o aperto da garganta e sentindo a adrenalina a soltar-se. Mas Richard no aliviou a presso.
Mike debatia-se com movimentos de animal ferido, levou as mos ao rosto de Richard mas sem resultado. Cada clula do seu organismo suplicava um pouco de oxignio. 
Aproveitou ter as pernas livres para
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tentar libertar-se, mas Richard no cedeu. Tentou agitar a cabea de um lado para o outro, o que apenas serviu para Richard apertar com mais fora.
E a dor...
Precisava de ar. No conseguia pensar em mais nada quando deitou as mos  cara do outro, procurando atingir-lhe os olhos. Dobrando as mos como se fossem garras, 
a lutar furiosamente, atingiu o alvo momentaneamente, mas Richard conseguiu erguer a cabea e pr o rosto fora do alcance das suas mos.
Foi ento que Mike se convenceu de que ia morrer.
Em pnico, procurou outra vez as mos de Richard e contorceu-se para tentar alcan-las e dessa vez conseguiu agarrar um polegar, tentando dobr-lo com toda a fora 
que lhe restava.
Ouviu o som de qualquer coisa a partir-se, mas Richard no o largou. Dobrou ainda com mais fora e a curva do polegar formou um ngulo que no era natural. Com a 
boca contorcida por um ricto de dor, Richard afrouxou a presso e inclinou-se para diante.
Era daquilo que Mike precisava. A estrebuchar e a dar pontaps, sentiu, finalmente, que a garganta se abria para deixar passar um sopro de ar. Com a mo livre, agarrou 
Richard pelos cabelos e, golpeando-lhe as costas com os joelhos, aproveitou o impulso e a fora da gravidade para obter vantagem. Richard passou-lhe por cima, indo 
aterrar na areia, para l da cabea de Mike.
Lutando para respirar, Mike tentou afastar-se dos degraus e atacar Richard; mas ter de gatinhar deixou-o exausto. Embora conseguisse uma inspirao rpida, continuava 
com a garganta apertada, cortando a entrada de ar para os pulmes. Richard foi o primeiro a levantar-se e, rodando subitamente, aplicou-lhe um tremendo pontap das 
costelas, e depois outro. Mike caiu para trs e recebeu um novo pontap, desta vez na cabea. A dor foi to intensa que pareceu ficar cego e voltou a sentir dificuldade 
em respirar.
Pensou em Julie.
Julie...
De gatas, a tremer, atirou-se a Richard, mas ele aplicou-lhe um novo pontap; Mike sentiu o golpe mas continuou a avanar. Passados instantes, quando acabava de 
conseguir lanar as mos  garganta de Richard, sentiu um objecto duro a pressionar-lhe o estmago e ouviu um estoiro.
A princpio no pareceu importante, mas logo depois sentiu a barriga em fogo, gua a ferver a percorrer-lhe os nervos, a dor que se espalhava em todas as direces 
e lhe subia pela espinha. 0 choque
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i f
pareceu paralis-lo, sentiu que perdia o controlo da lngua. As pernas recusaram mover-se, sentiu uma grande fraqueza e foi empurrado por Richard.
Quando levou as mos ao estmago sentiu qualquer coisa escorregadia, viscosa. Na semiobscuridade, o sangue mais parecia leo de motor a fazer poa por baixo de um 
carro, mas viu a arma, mal Richard se levantou.
Richard olhou para ele, de cima para baixo, e Mike rolou para longe.
Tenho de me levantar... tenho de ficar de p... preciso de avisar a Julie...
Sabia que Richard no deixaria de ir  procura dela e era preciso evitar que tal acontecesse. Tinha de salvar Julie. Tentou vencer a dor, pensar no que deveria fazer 
de seguida... Recebeu outro pontap na cabea.
Estava novamente de bruos, com o sangue a jorrar da barriga. De mos no estmago, sentia a vida fugir-lhe. - Julie! - gritou, mas o som mal se ouviu.
Mais tonto... mais fraco... tenho de a salvar... tenho de a proteger... 
Outro pontap na cabea e tudo ficou escuro.


Richard ficou de p, a observar Mike que jazia no cho, a ofegar mas sentindo uma nova energia. As mos tremiam-lhe, sentia as pernas inseguras, mas os sentidos! 
Oh, como estavam vivos! Era como se estivessem a viver num mundo totalmente desconhecido. Um mundo de sons e luzes amplificados, em que a sua pele registava a mais 
ligeira deslocao de ar. 0 efeito era estonteante, parecia que o inebriava.
Este no se parecia nada com o Pete. Ou com o verdadeiro Richard Franklin. Ou at com Jessica. Jessica mostrara ser lutadora, mas nada que se parecesse com este. 
Jessica morrera-lhe nas mos, mas no houve sentimento de jbilo, nem qualquer emoo por ter sado vencedor. Houvera apenas uma sensao de tristeza por ela ter 
provocado aquela desgraa a si mesma.
No, esta noite sentia-se triunfante, infatigvel, invicto. Tinha uma misso e os deuses estavam com ele.
Ignorando a dor no polegar, virou-se e comeou a andar na direco da praia.  sua esquerda, havia dunas cobertas de erva e tufos de hera; as ondas continuavam o 
seu movimento perptuo. Pensou que
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estava unta UCla 11u1.1C. ia iiiaa auiau~~, uv w--, wo..b        -
a sombra de Julie debruada sobre o co. Mas o co estava morto ou no tardaria a estar. Ficariam ss, pensou. Sem mais complicaes. Ningum seria capaz de os deter.
Comeou a andar mais depressa, excitado pela ideia de que ia v-la. E certo que Julie ficaria aterrorizada quando o visse. Era provvel que reagisse da mesma forma 
que Jessica reagira naquela noite, no parque de estacionamento do supermercado, quando o encontrou a aguard-la, sentado dentro do seu prprio carro. Tinha tentado 
explicar-se, faz-la compreender, mas Jessica lutou e arranhou-o com as unhas afiadas, at ele lhe pr as mos  volta do pescoo, at ela revirar os olhos, a observ-lo 
e a saber que o forara a fazer aquilo e que, por fora das suas razes egostas, no voltariam a ser um casal.
Porm, quanto a Julie, ia trat-la com a pacincia que ela merecia. Falaria com ela em voz calma e, uma vez que ela percebesse a verdadeira natureza do amor que 
lhe dedicava, aceitaria a situao, logo que se apercebesse que ele fizera tudo aquilo por ela - por eles -, aceitaria a situao. Era provvel que ainda estivesse 
perturbada pela morte do Singer, mas acabaria por conseguir confort-la e Julie compreenderia que ele no tivera alternativa.
Bem gostaria de a levar para a cama depois disso, mas sabia que no dispunha de tempo suficiente. Mais para o meio da noite, quando j estivessem suficientemente 
longe dali, parariam em qualquer motel para se amarem; e teriam uma vida inteira, juntos,  sua frente, para os compensar do tempo perdido.


- Ele j vem, meu querido - sussurrou Julie. - Vai chegar aqui num instante e vamos levar-te ao doutor, est bem?
Os olhos marejados de lgrimas mal lhe permitiam ver o co, que piorava a cada minuto; tinha fechado os olhos e, embora continuasse com a respirao muito acelerada, 
gania e notava-se uma espcie de assobio agudo, como faz o ar a escapar-se por um pequeno furo num colcho de ar, que no parecia nada natural. No eram apenas as 
pernas que tremiam; todo o corpo do animal estremecia. Por baixo da mo, Julie sentia os msculos do co a endurecerem, como que a porem-se em posio de combater 
a morte.
0 Singer ganiu e Julie sentiu-se entrar em pnico. Estava a afag-lo com as duas mos, sofrendo com ele, sentindo-se mal, como se as dores do co tambm fossem suas.
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I
U uau puuca ucIAat-111u. 1u1 iavui...
Por dentro, sentia-se gritar com Pete e com Mike para que se despachassem, que o tempo estava a esgotar-se. Embora tivessem passado apenas uns minutos, parecia que 
tinham sado dali havia uma eternidade; e sabia que o Singer no tinha foras para continuar aquela luta durante muito mais tempo.
- Singer... tu consegues... No desistas. Por favor...
Estava prestes a gritar por Mike e por Pete, mas as palavras morreram-lhe na garganta.
A princpio, recusou-se a acreditar no que os seus olhos estavam a ver, pestanejou a tentar afastar aquela imagem. Porm, ao olhar uma vez mais, percebeu que no 
estava enganada.
Apesar de ter pintado o cabelo de cor diferente, embora usasse culos e se tivesse livrado do bigode, reconheceu-o imediatamente.
- Boa noite, Julie - saudou Richard.
Jennifer tentava andar depressa, serpenteava por entre os outros
carros, as luzes todas a faiscar.
Sem tirar os olhos da estrada, apertava o volante at as mos lhe
doerem.
Pensava nos dez minutos que faltavam. Que s necessitava de mais dez minutos.
Julie ficou a olhar para Richard, mal ousando respirar, a perceber
que ele era a explicao de tudo o que estava a passar-se.
Andara por ali. Dera qualquer coisa a comer ao co. Tinha feito
qualquer coisa ao Pete. Tinha feito qualquer coisa ao Mike. Maldito!
Mike...
E agora viera busc-la.
Caminhava lentamente na direco dela.
- Tu... - foi s o que conseguiu dizer.
Um breve sorriso perpassou pelo rosto de Richard.  claro, parecia dizer, quem esperavas que fosse? Parou perto dela e, depois de a olhar nos olhos durante um 
bocado, desviou o olhar para o co.
- Desculpa o que aconteceu ao Singer - desculpou-se, com voz suave. - Sei quanto o estimavas.
Falou como se no tivesse nada a ver com o assunto. Fez uma expresso de desconsolo, como se estivesse a assistir ao funeral de um amigo ntimo.
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1/c Icpclllc, f u -        1-,        " '        -        "" ---s- -- -
blis a voltar para trs, tentando no perder por completo o domnio da situao. A tentar descobrir o que fazer. A tentar perceber o que tinha acontecido ao Mike.
Oh! Meu Deus, Mike.
- Onde est o Mike? - exigiu, desejando saber mas subitamente receosa de descobrir. Tinha de manter o tom normal de voz.
Richard levantou os olhos, com a mesma expresso de h pouco.
- J acabou - disse, como se estivesse a falar do tempo.
Aquelas palavras tiveram um impacte quase fsico sobre Julie que, logo de seguida, sentiu as mos comearem a tremer.
- 0 que  que lhe fizeste?
- Isso no interessa.
- 0 que  que fizeste? - gritou, incapaz de se dominar. - Onde  que ele est?
Richard deu mais um passo na direco dela, continuou a falar-lhe com voz suave. - No tive alternativa, Julie. Sabes isso muito bem. Ele estava a dominar-te e eu 
no podia permitir que isso continuasse. Mas agora ests em segurana. Prometo que tomarei conta de ti.
Deu mais um passo e, de sbito, Julie sentiu necessidade de recuar, afastando-se do Singer.
- Julie, ele no te amava. No te amava da maneira que eu te amo.
Julie pensou que ele ia mat-la. Tinha liquidado Mike, Singer e Pete, s faltava ela. Comeou a levantar-se quando Richard j estava muito prximo, mais aterrorizada 
a cada passo que ele dava na sua direco. Via-o nos olhos dele, via precisamente o que ele ia fazer.
Vai matar-me, mas s depois de me violar...
Uma ideia capaz de a deixar petrificada, mas dentro de si houve uma voz que a mandou correr e Julie reagiu instintivamente.
Disparou a correr, sem se preocupar a olhar para trs, com os ps a deslizarem na areia enquanto corria pela praia fora.
Richard no tentou det-la. Apenas sorriu, com a certeza de que ela no tinha para onde fugir. Sabia que em breve estaria cansada; o pnico ia obrig-la a desistir. 
Por isso, prendeu a arma no cinto e comeou a correr, mas devagar, atrs dela, mantendo uma passada que lhe permitia no a perder de vista, para se aproximar dela 
quando achasse conveniente.
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4
* * *
Mike jazia no cho, umas vezes consciente e outras sem dar conta de nada. Com a mente aprisionada algures, entre a vida real e o mundo dos sonhos, acabou por conseguir 
perceber que estava a perder muito sangue.
E que Julie precisava dele.
A tremer, comeou a levantar-se lentamente.


Julie tentava manter uma passada rpida e corria em direco s luzes da nica casa que parecia ocupada em toda a praia. As pernas comeavam a pesar-lhe e comeou 
a ter a sensao de que corria mas quase no avanava. As luzes pareciam prximas, mas no lhe parecia que conseguisse l chegar.
Dizia para si prpria que no, ele no ia conseguir agarr-la. Que
ia conseguir chegar quela casa e que havia l pessoas prontas a
ajud-la. Vou gritar por socorro e eles chamam a Polcia e...
No entanto, as pernas... os pulmes que pareciam em fogo...
o bater apressado do corao...
S o terror continuava a obrig-la a correr.
Sem deixar de correr, deu uma olhadela por cima do ombro. Apesar da escurido, viu que Richard se estava a aproximar. De sbito, apercebeu-se de que no ia conseguir.
Corria aos tropees. Sentia cibras na barriga das pernas. Precisa
va de todas as suas foras s para se manter de p.
E ele continuava a aproximar-se...
Sentia ganas de gritar: Onde  que se meteram todos? Socorro! Sabia, de certeza absoluta, que o marulhar das ondas lhe abafaria
os gritos. Deu mais umas passadas e voltou a olhar para trs. Mais
perto.
J conseguia ouvir os passos dele.
Sentiu que no podia continuar...
Virou para o lado das dunas, na esperana de encontrar, do outro
lado, um buraco onde pudesse esconder-se.


Richard j via o cabelo dela a ondular com a corrida. Agora j estava perto, to perto que podia tentar agarr-la.
Est quase, pensou, quando ela fez uma curva sbita e comeou a subir em direco s dunas. Apanhado desprevenido, Richard escor
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regou ligeiramente, mas no tardou a recomear a perseguio. Soltou uma sonora gargalhada.
Que bravura! Que belo esforo! Ela era, em tudo, a sua alma gmea. Deliciado, quase se sentiu tentado a aplaudir com ambas as mos.


Julie viu uma casa que se destacava bem acima das dunas, mas a corrida a subir a duna estava a revelar-se quase impossvel; com os ps a escorregarem constantemente, 
era obrigada a usar as mos para se equilibrar e, na altura em que atingiu o cimo da duna, as pernas s queriam descansar.
Analisou a casa por breves momentos; construda sobre pilares, tinha espao para arrumar carros por baixo, mas valia pouco como esconderijo. Porm, a casa a seguir 
oferecia mais possibilidades e dirigiu-se para l.
Foi ento que sentiu Richard pregar-lhe uma rasteira, como se fosse um jogador de futebol a querer desarmar um adversrio. Perdeu o equilbrio e escorregou pela 
duna, para o lado de terra.
Quando a alcanou, Richard dobrou-se e agarrou-a por um brao, ajudando-a a pr-se de p.
- s uma verdadeira maravilha - elogiou, a sorrir e a tentar recuperar o flego. - Percebi tudo quando te vi pela primeira vez.
Julie tentou libertar o brao e sentiu as pontas dos dedos dele a enterrarem-se-lhe na carne. Debateu-se com mais fora.
Richard admoestou-a. - Julie, no sejas assim. No consegues perceber que tudo, desde o incio, foi uma preparao para este momento?
Ela no desistia de tentar libertar o brao. - Larga-me! - gritou.
Richard apertou com mais fora, fazendo-a retrair-se. Sorriu, divertido, como que a perguntar: Vs como no vale a pena lutar?
- Ser melhor pormo-nos a caminho - sugeriu, com toda a calma.
- No vou a lado nenhum contigo!
Julie contorceu-se de novo, conseguindo finalmente libertar-se, mas, ao tentar afastar-se dele, sentiu um empurro nas costas e voltou a cair.
Ao v-la cada, Richard repreendeu-a com acenos suaves de cabea e perguntou:
- Ests bem? Lamento ter tido de fazer isto, mas temos necessidade de conversar.
387
Conversar? Agora pretendia conversar.
Vai-te lixar, pensou Julie. Que se lixe isto tudo.
Logo que ele comeou a andar, Julie ps-se de p e tentou correr, mas
Richard fez um movimento rpido e agarrou-a com fora pelo cabelo. Ouviu-o soltar uma gargalhada de espanto.
- Por que  que tens de tornar tudo to difcil? - perguntou.


Cado na praia, Mike estava a tentar levantar-se, queria agarrar os degraus, lutava com a nusea provocada pela dor que lhe percorria o corpo todo, sentia uma grande 
confuso na cabea.
Levantar... tenho de chamar a Polcia... ajudar Julie... mas esta dor... baleado... dor... onde  que estou... aquele barulho contnuo... uma e outra vez... a dor... 
vem em ondas... o oceano... Julie... tenho de a ajudar...
Conseguiu dar um passo. Depois outro.


Julie atirou-se com violncia contra Richard, arranhando-o na cara e no peito. Ele voltou a puxar-lhe os cabelos, fazendo-a gritar.
- Por que  que continuas a lutar comigo? - inquiriu Richard,
com toda a calma e sem levantar a voz, como se tentasse chamar  razo
uma criana desobediente. - Ainda no percebeste que acabou? Agora
s existimos ns. No h motivo para agires desta maneira.
- Deixa-me! - gritou Julie. - Afasta-te de mim!
- Pensa em tudo o que poderemos fazer juntos - sugeriu. - Sa
bes bem que somos dois seres iguais. Ambos somos sobreviventes. - No vamos fazer nada juntos! - gritou ela. - Odeio-te!
Ele voltou a agarr-la com violncia pelo cabelo, obrigando-a a
ajoelhar-se. - No digas isso. - Odeio-te!
- Estou a falar a srio - disse Richard, agora em voz mais baixa, de mau agouro. - Seis que ests perturbada, mas longe de mim a ideia de te magoar, Jessica.
- Eu no me chamo Jessica! - bradou Julie.


A meio caminho, Mike caiu de joelhos mas conseguiu arrastar-se para diante. Com uma das mos a segurar o estmago, agarrou o corrimo com a outra e conseguiu erguer-se.
388
J estava perto do cimo da escada e viu o polcia, de cara voltada para o cho, com o sangue a formar uma poa em redor da cabea. Mais uns passos e conseguiu atingir 
o alpendre, dirigindo-se para a porta. Sem a ajuda do corrimo teve dificuldade em equilibrar-se, mas manteve os olhos focados na porta, inteiramente concentrado 
no que tinha de fazer.


Richard ficou a olhar para ela com uma expresso curiosa, como se no conseguisse perceber o que ela queria dizer. Pestanejou, comeou a inclinar a cabea para um 
lado, como uma criana que analisa a sua imagem num espelho.
- 0 que  disseste?
- Que no me chamo Jessica! - repetiu.
Ele levou a mo livre atrs das costas; quase no mesmo instante, Julie viu a arma.


Mike conseguiu agarrar o puxador e rodou-o, sentindo que ia estatelar-se quando a porta se escancarou.
S pensava no telefone. Tinha de chegar ao telefone, antes que fosse demasiado tarde.
Foi nessa altura que sentiu qualquer coisa a entrar de roldo pela porta da frente. Levantando os olhos, teve uma sbita sensao de alvio.
- Julie precisa de ajuda - disse com voz rouca. - Na praia...


Aflita com o estado de Mike, Jennifer chegou junto dele de um salto e ajudou-o a instalar-se na cadeira. Pegou no telefone e marcou o nmero de emergncia. Quando 
ouviu o telefone tocar, passou-lhe o auscultador.
- Chame uma ambulncia! - bradou. - Consegue fazer isso?
Mike aquiesceu, a respirar com dificuldade ao levantar o telefone para junto da orelha. - Pete... l fora...
Jennifer correu para a porta quando Mike j estava a pedir a ambulncia. Na varanda, a primeira coisa que lhe ocorreu  que Pete estava morto. Saa-lhe sangue da 
cabea mas, quando se debruou para confirmar, o colega mexeu um brao e gemeu.
- No te mexas. A ambulncia j vem a caminho.
Levantou os olhos para as escadas. Uma fraco de segundo depois, ia a correr pelos degraus abaixo.
389
Richard encostou a arma  tmpora de Julie que, instintivamente, ficou quieta. A expresso calma da rosto dele tinha desaparecido; parecia estar a viver fora da 
realidade. Percebia isso pela maneira como ele a olhava, no som spero que ouviu quando ele respirou fundo.
- Eu amo-te - repetiu. - Sempre te amei.
Pensou que o melhor era ficar quieta. Calculava que ele a mataria
ao mais ligeiro movimento que tentasse.
- Mas no me ds uma oportunidade de demonstrar o meu
amor.
Puxou-a pelo cabelo, para que o ouvido de Julie ficasse junto da boca dele.
- Diz. Diz que me amas. Julie no disse nada.
- Diz! - gritou; e Julie estremeceu dada a fria com que ele
falou. Foi um som bruto, quase feroz. 0 calor da respirao dele
atingiu-a em cheio no rosto.
- Dei-te uma oportunidade e at perdoei tudo o que me fizeste!
Tudo que me foraste a fazer. Agora, diz!
0 medo invadira-lhe o peito, a garganta, as pernas. - Amo-te - sussurrou, quase a chorar.
- Diz de forma a que eu consiga ouvir. Com sentimento. Julie comeou a chorar. - Amo-te. - Outra vez!
Choro mais forte. - Amo-te. - Diz que desejas ir comigo. - Desejo ir contigo.
- Porque me amas.
- Porque te amo.
E, como se estivesse a sonhar, pelo canto de um olho viu um vulto dobrar o topo da duna, o do seu guardio, lanado  desfilada no meio da escurido.
Quando a viso tomou forma, Julie viu o Singer pular sobre Richard, a rosnar, com as mandbulas abertas para abocanhar o brao com que ele empunhava a arma.
0 Singer abocanhou e no largou a presa; Julie e Richard caram para o lado, com ele a fazer gestos desesperados com o brao para tentar
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toda a fora que lhe restava, e Richard gritou e largou a arma.
Ficou de costas, a debater-se para evitar que o co lhe abocanhasse a garganta.
Com o rosto contorcido de dor, Richard aguentou o co com a mo esquerda e procurou agarrar a arma com a mo livre. 0 co no deixava de atacar, mas Julie gritou 
e foi o som do prprio grito que pareceu dar-lhe foras para se levantar e fugir dali.
Correu duna acima, sabendo que no dispunha de muito tempo.
L atrs, Richard conseguiu agarrar o punho da arma com as pontas dos dedos.
Foi o som do tiro que obrigou Julie a ficar de novo paralisada. 0 Singer ganiu, um protesto longo e cansado.
- Singer! - gritou Julie. - Oh, meu Deus, nooo!
Outro tiro e novo ganido, agora mais fraco. Olhando por cima do ombro, viu Richard a tirar o co de cima de si e a levantar-se.
Julie comeou a tremer, completamente descontrolada.
0 Singer estava deitado de lado, a lutar para se levantar, rosnando e ganindo ao mesmo tempo, a contorcer-se de dores e com o sangue a empapar a areia.
De longe, chegou-lhes o som das sirenes.
- Agora temos de ir - comandou Richard. - Estamos no limite do tempo.
Porm, tudo o que Julie conseguia fazer era olhar para o co.
- J! - ordenou Richard. Tornou a agarr-la pelo cabelo e levou-a a reboque. Julie no cedeu, deu pontaps e gritou, at que se ouviu uma voz vinda do alto da duna.
- Quieto!
Richard e Julie viram a agente Jennifer Romanello ao mesmo tempo. Ele apontou a arma na direco da polcia e disparou  toa; um instante depois soltou um grito 
abafado. Sentiu uma dor aguda no peito, como se fosse uma queimadura, ouviu o som de um comboio a correr dentro dos ouvidos. De repente, a arma que segurava na mo 
pareceu-lhe ridiculamente pesada. Atirou de novo e falhou, sentindo uma nova sensao de queimadura na garganta, que o obrigou a recuar. Sentiu o sangue inundar-lhe 
os pulmes, ouvindo gorgolejar sempre que tentava inspirar. No conseguia engolir, pois aquele fluido pegajoso no lho permitia. Quis tossir, cuspi-lo na direco 
da agente, mas estava a perder as foras rapidamente. A arma escorregou-lhe da mo, caiu de joelhos, a sentir a cabea vazia. S desejara a felicidade de Julie, 
nada mais do que a felicidade dela. As sombras
391
Voltou-se para Julie e tentou falar, mas a boca no conseguiu articular as palavras.
Porm, tentava agarrar-se ao seu sonho, ao sonho de uma vida na
companhia de Julie, da mulher que amava. Julie, pensava, a sua doce Jessica...
Deixou-se cair para a frente.
Julie olhou o corpo e depois voltou-se para o Singer.
Estava de lado, a respirar com dificuldade, de boca aberta. Julie foi at junto dele, debruou-se, a lutar para o ver por entre as lgrimas.
Ganiu quando sentiu a mo dela na cabea e tentou chegar-lhe com a lngua.
- Oh... meu querido.
0 animal apresentava duas feridas profundas e o sangue estava a empapar a areia por debaixo dele. A tremer, Julie ps-lhe a cabea em
cima do lombo e o Singer tornou a ganir. Tinha os olhos abertos e assustados e, quando tentou levantar a cabea, ganiu, com um som que destroou o corao de Julie.
- No te mexas... Vou buscar o veterinrio para te tratar, est bem?
Sentia a respirao dele, rpida e curta. Voltou a lamber-lhe a mo e ela beijou-o.
- Foste to bom para mim, doura. Foste to valente... to valente...
0 co tinha os olhos postos nela. Ganiu de novo e Julie teve de abafar o choro.
- Adoro-te, Singer - murmurou quando sentiu os msculos dele comearem a amolecer. - Est tudo bem, meu amor. No haver mais lutas. Estou salva e tu podes dormir...
392
EPLOGO
Julie dirigiu-se ao quarto, deixando Mike a cozinhar. 0 cheiro do molho do spaghetti enchia a casa. Acendeu a luz.
Tinham passado quase dois meses desde aquela noite tormentosa na praia. Apesar de se recordar de tudo o que acontecera na altura, o que sucedeu depois tornou-se 
menos claro, uma confuso de eventos a desenrolarem-se em simultneo. Recordava-se de ser ajudada a regressar a casa pela agente Jennifer Romanello, lembrava-se 
do pessoal das ambulncias a tratar de Mike e de Pete, recordava que a casa se fora enchendo de gente; depois disso, tudo se confundiu, foi como se apagasse a luz.
Acordou no hospital. Pete tambm l estava e Mike estava noutro quarto, mesmo ao fundo do corredor. Dentro de poucos dias, Pete pde levantar-se e ir-se embora, 
mas Mike esteve em estado crtico durante uma semana inteira. Uma vez estabilizada a situao e iniciado o processo de cura, ficou no hospital durante mais trs 
semanas. Durante todo o tempo, Julie acampou numa cadeira colocada ao lado da cama dele, sempre a pegar-lhe na mo e a falar-lhe baixinho, mesmo quando ele estava 
a dormir.
A Polcia tinha mais perguntas e tambm mais informaes acerca do passado de Richard, mas descobriu que o assunto no lhe interessava nada. Richard Franklin estava 
morto - nunca o recordaria como Robert Bonham - e nada mais lhe interessava.
E, sem dvida, havia o Singer.
Mais tarde, a veterinria tinha-lhe dito que lhe tinham dado raticida em quantidade suficiente para matar seis ces em poucos minutos. - No consigo perceber - confessou 
Linda Patinson. - Mexer-se foi, s por si, um milagre, quanto mais lutar com um homem daquela estatura.
393
1
Mas lutou, pensava Julie. E salvou-me a vida.
No dia em que enterraram o Singer no quintal das traseiras, caiu uma chuva mida e quente sobre o pequeno grupo de pessoas reunidas para dizerem adeus ao grand danois, 
que em vida fora o companheiro constante de Julie e, no final, o seu guardio.


Depois que Mike saiu do hospital, as semanas foram vividas numa espcie de confuso. Passava a maior parte do tempo em casa dela. Embora conservasse o apartamento, 
no voltara a dormir l desde que tinham ido para a casa da praia, e Julie estava-lhe grata por isso. No sabia como, mas ele tinha meios de saber quando ela queria 
ser abraada ou quando preferia estar s.
Contudo, nada parecia o mesmo; a casa estava demasiado vazia, o que lhe sobejava no tacho ia para o contentor do lixo, no havia um animal a roar-lhe pelas pernas. 
No entanto, havia alturas em que lhe parecia que o Singer continuava por ali. Por vezes, parecia ver um movimento pelo canto do olho, mas, quando se voltava para 
ver o que o tinha provocado, no via absolutamente nada. Uma vez, chegou-lhe um odor ao nariz que era, sem dvida, o dele. Era o cheiro que ele emanava quando se 
sentava ao lado dela, depois de ter andado a brincar nas ondas; mas quando se levantou do sof para ver de onde vinha o cheiro, este tinha desaparecido. E, outra 
vez, a altas horas da noite, sentiu necessidade de se levantar e ir para a sala. Embora a casa estivesse s escuras, ouviu-o a beber gua da malga que estava na 
cozinha. 0 som deixou-a petrificada, a pulsao acelerou-se, mas, uma vez mais, o som acabou por desaparecer.
Uma noite sonhou com Jim e com o Singer. Iam a caminhar num campo aberto, de costas para ela, e ela corria, a tentar aproximar-se deles. No sonho chamava por ambos 
e eles paravam e viravam-se para ela. Jim sorria, o Singer ladrava. Queria ir ter com eles, mas no conseguia mexer-se. Ficaram a olhar para ela com a mesma inclinao 
das cabeas, a mesma expresso nos olhos, a mesma aurola por detrs de ambos. Jim punha-lhe a mo no lombo e o Singer soltava latidos de satisfao, como se quisesse 
demonstrar-lhe como as coisas deviam passar-se. Em vez de caminharem para ela, voltaram-lhe outra vez as costas e ela ficou a v-los ir, com as silhuetas de ambos 
a fundirem-se progressivamente numa s.
Quando acordou, pegou na fotografia que tinha em cima da mesa de cabeceira e ficou a olhar para o Singer, a lembrar-se da falta que o co lhe fazia. Ainda lhe doa 
o corao quando olhava para aquela
394
estava detrs da fotografia. Resolveu tir-la do esconderijo.
E, enquanto o sol da manh ia aquecendo o vidro da janela, leu-a uma vez mais, abrandando ao aproximar-se do ltimo pargrafo.

E no te preocupes. Esteja onde estiver, nunca te perderei de vista. Meu amor, serei o teu anjo da guarda. Podes contar comigo para te proteger.

Julie pousou a carta, tinha os olhos hmidos. Sim, pensou, protegeste-me.
395
1
NOTA DO AUTOR
A gnese de um romance  sempre um processo complicado. Muitas vezes comea por uma ideia vaga, ou, no meu caso, por um tema; e, para este romance, escolhi os temas 
do amor e do perigo. Por outras palavras, quis escrever uma histria em que dois personagens credveis se apaixonam um pelo outro, mas quis acrescentar um certo 
ambiente de expectativa e de perigo que, afinal, iria colocar esses dois personagens numa situao difcil. No sei onde estava quando tomei a deciso de escrever 
uma histria assim, mas recordo-me de pensar que iria apreciar o processo de tentar um tipo de romance a que nunca me abalanara.
Mas estava enganado.
Bom, deixem que me explique. Embora tivesse apreciado o processo enquanto se tratou de escrever o romance, quando houve necessidade de rever e fazer cortes esperavam-me 
as maiores dificuldades que experimentei at hoje. Entre a primeira e a ltima verso, o romance passou por oito revises profundas, at que o editor, e eu prprio, 
nos considermos satisfeitos, porque o romance conseguia ser aquilo que ns pretendamos que fosse; isto , em primeiro lugar, e antes de tudo, seria uma histria 
de amor e, em segundo, de uma forma que conseguisse prender o leitor, um romance policial interessante.
No decurso da minha vida,  provvel que tenha lido uns dois
milhares de romances policiais e, embora muitos deles tenham perso
nagens que se apaixonam no decurso da aco, no me recordo de nenhum em que o elemento de mistrio fosse secundrio para a relao amorosa. 0 motivo  muito simples: 
quanto mais medonha  uma coisa, mais a histria  dominada por ela. Portanto, no caso deste livro, o desafio era encontrar o equilbrio entre os dois elementos 
e de
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que o leitor nunca perdesse de vista a verdadeira razo de ser do romance: uma histria de amor entre duas pessoas normais, cujo caminho  perturbado por terem encontrado 
o tipo de pessoa que no interessa. Apesar de parecer simples, antes de conseguir o objectivo passei muitas noites sem dormir.
Alm disso, sempre desejei escrever uma histria que inclusse um co. Quer fosse Old Yeller de Frank Gipson, Where the Red Fern Grows de Wilson Rawls, To Dance 
with the White Dog de Terry Kay, quer My Dog Skip de Willie Morris, sempre adorei histrias com ces; por isso, achei que seria interessante incluir um co neste 
mesmo romance. Estou grato a estes escritores pelos seus trabalhos e pelas horas de prazer que a leitura dos seus livros me proporcionou. Houve ainda uma histria 
comovente, ,Delayed Delivery, de Cathy Miller, includa em Chicken Soup for the Pet Lovers Soul (colectnea editada por Jack Canfield, Mark Victor Hansen, Marty 
Becker e Carol Kline, HCI Publishers), que inspirou o prlogo deste meu livro. Gostaria de lhe agradecer, bem como aos editores, pelas lgrimas que me fizeram verter.
397
1.0 Mundo de Sofia, JOSTEIN GAARDER
2. Os Filhos do Graal, PETER BERLING
3. Outrora Agora, AUGUSTO ABELAIRA
4. 0 Riso de Deus,
ANTNIO ALADA BAPTISTA
5. 0 Xang de Baker Street, J SOARES
6. Crnica Esquecida d'EI Rei D. Joo II, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA
7. Priso Maior, GUILHERME PEREIRA
8. Vai Aonde Te Leva o Corao, SUSANNA TAMARO
9. 0 Mistrio do jogo das Pacincias, JOSTEIN GAARDER
10. Os Ns e os Laos,
ANTNIO ALADA BAPTISTA
11. No  o Fim do Mundo, ANA NOBRE DE GUSMO
12. 0 Perfume, PATRICK SUSKIND
13. Um Amor Feliz,
DAVID MOURAO-FERREIRA
14. A Desordem do Teu Nome, JUAN JOS MILLAS
1S. Coma Cabea nas Nuvens,

SUSANNA TAMARO
16. Os Cem Sentidos Secretos, AMY TAN
17. A Histria Interminvel,

MICHAEL ENDE
18. A Pele do Tambor,
ARTURO PREZ-REVERTE
19. Concerto no Fim da Viagem, ERIK FOSNES HANSEN
20. Persuaso, JANE AUSTEN
21. Neandertal,
JOHN DARNTON
22. Cidadela,
ANTOINE DE SAINT-EXUPRY
23. Gaivotas em Terra,
DAVID MOURO-FERREIRA
24. A Voz de Lila, CHIMO
25. A Alma do Mundo, SUSANNA TAMARO
26. Higiene do Assassino, AMLIE NOTHOMB
27. Enseada Amena, AUGUSTO ABELAIRA
28. Mr. Vertigo, PAUL AUSTER
29. A Repblica dos Sonhos, NLIDA PINON
30. Os Pioneiros, LUSA BELTRO
31. 0 Enigma e o Espelho, JOSTEIN GAARDER
32. Benjamim,
CHICO BUARQUE
33. Os Impetuosos, LUISA BELTRO
34. Os Bem-Aventurados, LUISA BELTRO
35. Os Mal-Amados, LUISA BELTRO
36. Territrio Comanche, ARTURO PREZ- REVERTE
37. 0 Grande Gatsby,
F. SCOTT FITZGERALD
38. A Msica do Acaso,
PAUL AUSTER 39. Para Uma Voz S,
SUSANNA TAMARO 40. A Homenagem a Vnus,
AMADEU LOPES SABINO 41. Malena  Um Nome de Tango,
ALMUDENA GRANDES 42. As Cinzas de Angela,
FRANK McCOURT 43. 0 Sangue dos Reis,
PETER BERLING 44. Peas em Fuga,
ANNE MICHAELS
45. Crnicas de Um Portuense Arrependido,
ALBANO ESTRELA 46. Leviathan,
PAUL AUSTER 47. A Filha do Canibal,
ROSA MONTERO
48. A Pesca  Linha - Algumas Memrias,
ANTNIO ALADA BAPTISTA 49. 0 Fogo Interior,
CARLOS CASTANEDA 50. Pedro e Paula,
HELDER MACEDO 51. Dia da Independncia,
RICHARD FORD

52. A Memria das Pedras,
CAROL SHIELDS 53. Querida Mathilda,
SUSANNA TAMARO 54. Palcio da Lua,
PAUL AUSTER
55. A Tragdia do Titanic,
WALTER LORD 56. A Carta de Amor,
CATHLEEN SCHINE 57. Profundo como o Mar,
JACQUELYN MITCHARD 58. 0 Dirio de Bridget Jones,
HELEN FIELDING 59. As Filhas de Hanna,
MARIANNE FREDRIKSSON
60. Leonor Teles ou o Canto da Salamandra,
SEOMARA DA VEIGA FERREIRA 61. Uma Longa Histria,
GUNTER GRASS
62. Educao para a Tristeza,
LUSA COSTA GOMES
63. Histrias do Paranormal-1 Volume,
Direco de RIC ALEXANDER 64. Sete Mulheres,
ALMUDENA GRANDES 65. 0 Anatomista,
FEDERICO ANDAHAZI 66. A Vida  Breve,
JOSTEIN GAARDER

67. Memrias de Uma Gueixa,
ARTHUR GOLDEN
68. As Contadoras de Histrias,
FERNANDA BOTELHO 69. 0 Dirio da Nossa Paixo,
NICHOLAS SPARKS
70. Histrias do Paranormal-II Volume,
Direco de RIC ALEXANDER 71. Peregrinao Interior- I Volume,
ANTNIO ALADA BAPTISTA 72. 0 Jogo de Morte,
PAOLO MAURENSIG 73. Amantes e Inimigos,
ROSA MONTERO
74. As Palavras Que Nunca Te Direi,
NICHOLAS SPARKS
75. Alexandre, 0 Grande-0 Filho do Sonho, VALERIO MASSIMO MANFREDI
76. Peregrinao Interior - II Volume ANTNIO ALADA BAPTISTA
77. Este  o Teu Reino, ABILIO ESTVEZ
78. 0 Homem Que Matou Getlio Vargas, J SOARES
79. As Piedosas,
FEDERICO ANDAHAZI
80. A Evoluo de Jane, CATHLEEN SCHINE
81. Alexandre, 0 Grande-0 Segredo do Orculo, VALERIO MASSIMO MANFREDI
82. Um Ms com Montalbano, ANDREA CAMILLERI
83. 0 Tecido do Outono,
ANTNIO ALADA BAPTISTA
84. 0 Violinista,
PAOLO MAURENSIG
85. As Vises de Simo, MARIANNE FREDRIKSSON
86. As Desventuras de Margaret, CATHLEENSCHINE
87. Tema de Lobos, NICHOLAS EVANS
88. Manual de Caa e Pesca para Raparigas, MELISSA BANK
89. Alexandre, o Grande-No Fim do Mundo, VALERIO MASSIMO MANFREDI
90. Arfas de Geografia Humana, AUMUDENA GRANDES
91. Um Momento Inesquecvel,

NICHOLAS SPARKS
92. 0 Ultimo Dia, GLENN KLEIER
93. 0 Crculo Mgico, KATHERINE NEVILLE
94. Receitas de Amor para Mulheres Tristes, HCTOR ABAI) FACIOLINCE
95. Todos Vulnerveis, LUISA BELTRO
96. A Concesso do Telefone, ANDREA CAMILLERI
97. Doce Companhia, LAURA RESTREPO
98. A Namorada dos Meus Sonhos, MIKE GAYLE
99. A Mais Amada, JACQUELYN MITCHARD
100. Ricos, Famosos e Benemritos, HELEN FIELDING
101. As Bailarinas Mortas, ANTONIO SOLER
102. Paixes,
ROSA MONTERO
103. As Casas da Celeste, THERESA SCHEDEL
104. A Cidadela Branca, ORHANPAMUK
105. Esta  a Minha Terra, FRANK McCOURT
106. Simplesmente Divina, WENDY HOLDEN
107. Uma Proposta de Casamento, MIKE GAYLE
108.0 Novo Dirio de Bridget Jones, HELEN FIELDING
109. Crazy - A Histria de Um Jovem, BENJAMIN LEBERT
110. Finalmente juntos,
JOSIE LLOYD E EMLYN REES
111. Os Pssaros da Morte, MO HAYDER
112. A Papisa Joana,
DONNA WOOLFOLK CROSS
113.0 Aloendro Branco,

JANET FITCH
114.0 Terceiro Servo,

JOEL NETO
11 S. 0 Tempo nas Palavras,
ANTONIO ALADA BAPTISTA
116. Vcios e Virtudes, HELDER MACEDO
117. Uma Histria de Famlia,
SOFIA MARRECAS FERREIRA
118. Almas  Deriva, RICHARD MASON
119. Coraes em Silncio, NICHOLAS SPARKS
120. 0 Casamento de Amanda, JENNY COLGAN
121. Enquanto Estiveres A, MARC LEVY
122. Um Olhar Mil Abismos, MARIA TERESA LOUREIRO
123. A Marca do Anjo, NANCY HUSTON
124.0 Quarto do Plen, ZOE JENNY
125. Responde-me, SUSANNA TAMARO
126. 0 Convidado de Alberta, BIRGIT VANDERBEKE
127. A Outra Metade da Laranja, JOANA MIRANDA
128. Uma Viagem Espiritual,
BILLY MILLS e NICHOLAS SPARKS
129. Fragmentos de Amor Furtivo, HECTOR ABAD FACIOLINCE
130. Os Homens So como Chocolate, TINA GRUBE
131. Para Ti, Uma Vida Nova, TIAGO REBELO
132. Manuela, PHILIPPE LABRO
133. A Ilha Dcima,
MARIA LUSA SOARES
134. Maya,
JOSTEIN GAARDER
135. Amor  Uma Palavra de Quatro Letras, CLAIRE CALMAN
136. Em Memria de Mary,

JULIE PARSONS
137. Lua-de-Mel, AMY JENKINS
138. Novamente juntos,
JOSIE LLOYD E EMLYN REES
139. Ao Virar dos Trinta, MIKE GAYLE
140. 0 Marido Infiel, BRIAN GALLAGHER
141. 0 Que Significa Amar,

DAVID BADDIEL
142. A Casa da Loucura, PATRICK McGRATH
143. Quatro Amigos, DAVID TRUEBA
144. Estou-me nas Tintas para os Homens Bonitos,
TINA GRUBE 145. Eu at Sei Voar,
PAOLA MASTROCOLA

146. 0 Homem Que Sabia Contar,
MALBATAHAN 147. A poca da Caa,
ANDREA CAMILLERI

148. No Vou Chorar o Passado,
TIAGO REBELO
149. Vida Amorosa de Uma Mulher,
ZERUYA SHALEV 150. Danny Boy,
JO-ANN GOODWIN
151. Uma Promessa para Toda a Vida,
NICHOLAS SPARKS
152. 0 Romance de Nostradamus-0 Pressgio,
VALERIO EVANGELISTI
153. Cenas da Vida de Um Pai Solteiro,
TONY PARSONS 154. Aquele Momento,
ANDREA DE CARLO 155. Renascimento Privado,
MARIA BELLONCI

156. A Morte de Uma Senhora,
THERESA SCHEDEL 157.0 Leopardo ao Sol,
LAURA RESTREPO
158. Os Rapazes da Minha Vida,
BEVERLY DONOFRIO
159. 0 Romance de Nostradamus-0 Engano,
VALERIO EVANGELISTI 160. Uma Mulher Desobediente,
JANE HAMILTON
161. Duas Mulheres, Um Destino,
MARIANNE FREDRIKSSON 162. Sem Lgrimas Nem Risos,
JOANA MIRANDA

163. Uma Promessa de Amor,
TIAGO REBELO
164.0 Jovem da Porta ao Lado,
JOSIE LLOYD & EMLYN REES 165.  14,99 - A Outra Face da Moeda,
FRDRICBEIGBEDER 166. Precisa-se de Homem Nu,
TINA GRUBE
167.0 Prncipe Siddharta-Fuga do Palcio,
PATRICIA CHENDI
168. 0 Romance de Nostradamus-0 Abismo,
VALERIO EVANGELISTI
169.0 Citroen Que Escrevia Novelas Mexicanas,
JOEL NETO
170. Antnio Vieira-0 Fogo e a Rosa,
SEOMARA DA VEIGA FERREIRA 171. Jantar a Dois,
MIKE GAYLE
172. Um Bom Partido - I Volume,
VIKRAM SETH
173. Um Encontro Inesperado,
RAMIRO MARQUES

174. No Me Esquecerei de Ti,
TONY PARSONS
175. 0 Prncipe Siddharta-As Quatro Verdades,
PATRICIA CHENDI
176.0 Claustro do Silncio,
LUIS ROSA
177. Um Bom Partido-II Volume,
VIKRAM SETH
178. As Confisses de Uma Adolescente,
CAMILLA GIBB
179. Bons na Cama,
JENNIFER WEINER 180. Spider,
PATRICK McGRATH
181.0 Prncipe Siddharta - 0 Sorriso do
PATRICIA CHENDI 182.0 Palcio das Lgrimas,
ALEV LYTLE CROUTIER 183. Apenas Amigos,
ROBYN SISMAN 184.0 Fogo e o Vento,
SUSANNA TAMARO 185. Henry & June,
ANAIS NIN
186. Um Bom Partido - III Volume,
VIKRAMSETH
187. Um Olhar  Nossa Volta,
ANTONIO ALADA BAPTISTA 188.0 Sorriso das Estrelas,
NICHOLAS SPARKS 189.0 Espelho da Lua,
JOANA MIRANDA
190. Quatro Amigas e Um Par de Calas,
ANN BRASHARES 191. 0 Pianista,
WLADYSLAW SZPILMAN 192. A Rosa de Alexandria,
MARIA LUCLIA MELEIRO 193. Um Pai muito Especial,
JACQUELYN MITCHARD 194. A Filha do Curandeiro,
AMY TAN
195, Comear de Novo,
ANDREW MARK 196. A Casa das Velas,
K. C. McKINNON
197. ltimas Notcias do Paraso,
CLARA SNCHEZ

198. 0 Corao do Trtaro,
ROSA MONTERO
199. Um Pas para L do Azul do Cu,
SUSANNA TAMARO 200. As Ligaes Culinrias,
ANDREAS STAKOS
201. De Mos Dadas com a Perfeio,
SOFIA BRAGANA BUCHHOLZ 202. 0 Vendedor de Histrias,
JOSTEIN GAARDER 203. Dirio de Uma Me,
JAMES PAI IERSON 204. Nao Prozac,
ELIZABETH WURTZEL

205. Uma Questo de Confiana,
TIAGO REBELO 206. Sem Destino,
IMRE KERTSZ

207. Laos Que Perduram,
NICHOLAS SPARKS
